Por Ronaldo Rodrigues

Participações de Mairon Machado e André Kaminski

Poucas informações existem sobre esta banda italiana que, mantendo uma espécie de tradição no estilo progressivo daquele país, lançou apenas um único álbum. Contudo, há nuances interessantes na história (ou no pouco que se apresenta dela) do Etna. Formada em 1970 com o nome de Flea On the Honey, foi uma das poucas formações a se manter intacta por alguns anos na cena italiana. Em 5 anos a banda migrou de estilo e mudou de nome duas vezes – Flea On the Honey, executando um rock básico cantado em inglês, com um disco em 1971; Flea, com um hard rock vigoroso cantando em italiano, com álbum lançado em 1972 e um breve ressurgimento como Etna, após dois anos de hiato, na linha do jazz rock. Todas elas contavam com os irmãos Antonio Marangolo (teclados, vocais, flauta) e Massimo Marangolo (bateria, vocais), além do baixista Elio Volpini e do guitarrista Carlos Penisi. Após o lançamento do disco e pouco meses de atividade, a banda se desmontou com o ingresso de Agostino Marangolo no Goblin, banda notória do rock progressivo italiano por seus trabalhos com trilhas sonoras.

Apresento então aos senhores o único disco da banda italiana Etna, lançado em 1975.


1 – Beneath the Geyser

Mairon: Conheço o Flea, mas não conheço o grupo Etna. Vamos ver o que nos aguarda aqui. Com certeza, se os membros fizeram parte do Flea, teremos bastante virtuosidade e influências de jazz.

André: Também disco e banda desconhecidos para mim. Vamos ver.

Ronaldo: Essa introdução com os rufos de bateria me soam como se uma erupção fosse começar. O trabalho do baixo nessa introdução é fantástico

André: O início me passou a impressão de ser algo espacial, mas agora começou uma pegada mais jazz rock

Mairon: Mazah, exatamente o que eu esperava. Baixão na cara, teclados e guitarras fazendo boas variações de acordes e uma bateria fulminante a la Billy Cobham.

André: A bateria é o destaque maior dessa intro

Mairon: Quais deles fizeram parte do Flea? Eu apostaria o guitarrista e o batera. Mesmo estilo de tocar (saliento que não conheço os músicos do Flea, só ouvi o disco)

Ronaldo: Todos os instrumentistas dessa banda são incríveis e me impressiona o quanto todos conseguem se destacar em diferentes momentos. É um jazz rock extremamente democrático e com composições maravilhosas, que fogem daquela estirpe da virtuose meramente demonstrativa

Mairon: Muito bom! Muito bom!


2 – South East Wind

Mairon: Essa já possui um clima mais viajandão.

André: Um tanto experimental mesmo, me lembra algo da turma do krautrock

Ronaldo: Mairon, ao que me lembro, todos que gravaram o segundo disco do Flea tocam no Etna. Essa faixa já tem uma pegada mais funky, apesar dos acordes tortos e um ar mais experimental

Mairon: Agora voltou ao jazz rock, mas daqueles mais ligados a turma do Brand-X. Se bem que é antes do Brand-X.

André: Tem vocais nesse disco, Ronaldo?

Ronaldo: O vocalista do Flea também era tecladista e no Etna, dedicou-se apenas em tocar, já que o Etna é todo instrumental.
Eu particularmente não sinto falta de vocais nesse disco. Acho as composições muito envolventes. Essa faixa também tem uns lances de percussão bem curiosos.

Mairon: Legal. Essa do teclado é uma surpresa. Curioso que o baixista não brilhava tanto no Flea mas aqui ele é um dos principais nomes. Boas intrincações nessa faixa.

André: Eu curto muito disco instrumental, não me faz falta. Já ouvi vários do The Enid, embora esta banda seja mais da turma do sinfônico

Ronaldo: Mairon, acho o trabalho de baixo do Topi Uomini (segundo disco do Flea) bem consistente, mas de fato não tem tanto destaque quanto no Etna. Acho esse riff de baixo e guitarra até assobiável, o que é uma raridade para qualquer coisa relacionada ao jazz. O final dessa faixa é da pesada!

André: Por enquanto, este baterista está se destacando aos meus ouvidos

Mairon: É que é um jazz meio samba com algo funk aqui né. É difícil definir. E bastante variações. Olha essa mudança de andamento para o solo de guitarra.

Ronaldo: Solo de guitarra absurdo!

Mairon: O baixista não pode ser o mesmo do Flea. Não consigo acreditar …

André: Incrível o seu domínio principalmente as batidas de caixa


3 – Across the Indian Ocean

Mairon: Cada faixa, uma surpresa! Como você descobriu esse diamante bruto, Ronaldo?

André: É, esse gongo e o título da música já dá a dica de algo mais asiático

Mairon: E o baixão novamente em ação.

Ronaldo: Foi uma indicação de um amigo, que tinha um blog. Conheci pelos idos de 2006-2007 e desde então é um dos meus discos favoritos da Itália. Essas percussões no início me remetem aquelas experiências que o James Muir fazia no King Crimson

Mairon: Muito bom cara. Impressionante que nessa época, a Itália não devia quase que nada para a Inglaterra e a Alemanha em termos de música, mas depois da década de 80, não conseguiu produzir quase nada de relevante. Pior que lembra o Muir sim. Mas cara, novamente, o baixo é muito bom. E o batera é uma mistura assombrosa do DeJohnette com o Cobham.

André: A Itália sempre surpreende

Ronaldo: Essa faixa pra mim tem um clima de trilha sonora a la Luis Bacalov ou Lalo Schfrinn com uns toques étnicos. O guitarrista quando aparece, detona!

Mairon: Loucura, loucura, loucura! (#HuckModeOn)

Ronaldo: Os italianos parece que se desencantaram com o rock dos anos 80 em diante! (risos). Esse piano elétrico Fender Rhodes é onipresente no disco todo…sensacional! O baterista é de uma criatividade absurda.

André: Ronaldo, se um dia eu ganhar na megasena, prometo que te dou um sintetizador Moog de presente

Ronaldo: Oba! que maravilha!


4 – French Picadores

Mairon: Ronaldo, se um dia eu ganhar na mega-sena, prometo que te pago uma passagem de avião e um churrasco, mais muita cerveja, para tocar um Moog aqui em casa.

Ronaldo: Meu Deus, que honra!

Mairon: Mas que barbaridade, os caras não param de me surpreender! Olha esse violão, que LINDO!

Ronaldo: Essa música é uma beleza. Clima mais acústico… arrisco dizer que é a minha favorita desse disco.

Mairon: Até achei que tinha entrado uma propaganda do Youtube. Totalmente diferente do que ouvimos até então.

Ronaldo: Te remete àquelas paisagens da Sardenha…

André: Que linda faixa, um violão dando uma atmosfera folk, legitimamente vinda dos bardos da Itália

Ronaldo: Os caras, além de ótimos instrumentistas, eram compositores de mão cheia.

André: Depois te perguntarei a quantas anda esta banda

Mairon: Ótimo crescendo. Lindo!

André: É um sax, não é?

Ronaldo: Já perdi as contas de quantas vezes ouvi essa música. Consta do meu top list tranquilamente. Sim, um sax nesse trecho final. É o baixista quem toca.

André: Incrementou bastante este solo de sax ao fim


5 – Golden Idol

Ronaldo: Essa também com uma pegada soul-funk na introdução e o baixo em destaque.

André: Gostando muito deste álbum, é variado e cada faixa muito diferente uma da outra.

Ronaldo: Uma batida que lembra até um pouco de “Watcher of the Skies” do Genesis.

André: Cada instrumentista com seu momento de destaque e todos tocando pelo bem da canção, uma pena não os ter conhecido antes.

Mairon: Exato André, bem variado. E um instrumental de alta qualidade. Esse som é mais um que traz um pouco daquela sensação da Mahavishnu (Orchestra). Só que o estilo do guitarrista é bem mais conservador em relação ao McLaughlin’.

Ronaldo: Agora é só curtir, André! O guitarrista é mais econômico que o McLaughin’…apesar do virtuosismo dos músicos, acho que o forte do Etna é o conjunto e as composições. Não me soa exagerado em nenhum momento.

Mairon: Tudo muito bem dosado, e muito bem feito. Belo disco.

Ronaldo: Pena que a banda parou por aí mesmo…ficou só neste disco.

Mairon: Assim como várias tantas outras boas bandas italianas dos anos 70. Fernando Bueno tinha que estar ouvindo isso. Para ver o que é rock italiano raiz, e não a “nutellice” de PFMs e Bancos que ele ouve.

Ronaldo: Pois é…isso deveria ser melhor investigado do porquê.

Mairon: Cara, olha esse piano! Sensacional!

Ronaldo: Incrível! o cara trabalha o tempo todo no elétrico e aí vai pro acústico … uma variação muito legal.

André: hahahahahaha! Fernando é da turma do prog Nutella.

Ronaldo: Obviamente que essas bandas tem seu mérito, mas o prog (rock) italiano vai muito além disso! o tecladista abusa das dissonâncias e dá um clima meio cinzento em todas as faixas.

Mairon: Sim. Aqui é um prenúncio do jazz rock. Parece que os caras acabaram de conhecer o Bitches Brew, e resolveram fazer algo nessa linhas, mas com um Mamma Mia italiano, adicionado de muito formaggio e pomarolla.

Ronaldo: e a faixa termina tal como começou!


6 – Sentimental Lewdness

Ronaldo: Hora do baterista mostrar seus dotes.

André: Devia ser ótimo ver uma faixa dessas ao vivo.

Mairon: Pronto, agora sim, o batera resolveu mostrar que sabe tocar e que é o dono da banda. Que baita intro hein? E que baita riff. Puta que pariu! Que baita música. Coisa boa quando ouvimos algo que em apenas 15 segundos já te faz gostar!

Ronaldo: Pois é…essa faixa é impressionante! acho que é a que mais remete ao Flea…tem um riff agressivo e me lembra também uma banda bastante subestimada nesse território do jazz-rock, o Isotope. Agora um clima mais melancólico e batidas mais lentas

Mairon: Ronaldo, um carinhoso e honesto “Vá Se Foder”. Caralho cara, que baita música. Muito obrigado por me apresentar isso e fazer meu domingo mais feliz!

André: Do jazz rock, sempre curti os alemães do Embryo.

Ronaldo: hahahahaha…agradeço pelo xingamento carinhoso! Embryo é ótimo também! Eu quis trazer esse disco pra vocês porque acho que essa banda deveria ser mais reverenciada e conhecida. Acho esse disco dentre as melhores coisas produzidas no rico cenário italiano dos anos 70.

André: Não esperava menos do nosso mestre, nos “Recomendas” sempre conseguia achar uma banda setentista que encaixava no tema e ainda por cima era muito boa.

Ronaldo: Agora uma quebra incrível, com a bateria e a guitarra dialogando. Valeu André!

Mairon: E fica a pergunta, por que será que desmancharam o Flea para criar o Etna, e depois não vingou? Guerra de egos?

Ronaldo: Informação sobre esses caras na internet ou revistas é muito escassa. Nunca consegui entender o motivo e o porquê da banda não ter dado certo. Esse final é épico!

Mairon: Sonzeira do cão! Melhor faixa em disparado!

Ronaldo: a faixa passou do jazz-rock mais furioso para um final mais sinfônico e dramático!

André: Adorei também.

Mairon: Só eu percebi algo de Focus por aqui?

Ronaldo: Percebo também e algo do Genesis!

André: O guitarrista achei que passou meio despercebido no começo, mas nesse final aí ele também demonstrou a que veio
Ronaldo. Um final apoteótico!


7 – Barbarian Serenade

Ronaldo: Essa também mais tranquila, com a presença de mandolim e piano acústico. E baixo acústico!

Mairon: Meu Deus. Mais uma mudança. Os caras são os reis das variações musicais. Outra faixa suave, com o piano fazendo as honras. E esse arco no baixo é de chorar! Arrepiante!

Ronaldo: Variações extremamente bem pensadas. Esse disco é arrebatador e o potencial dessa banda era praticamente infinito.

André: É, realmente tinha que estar no mesmo patamar das grandes da Itália, é lamentável que não tenha vingado

Mairon: Por outro lado, admiro que os caras gravem um disco de tão alta qualidade e parem por aí. Tipo “Cara, ja fizemos uma obra prima, vamos curtir nossos filhos agora” …

Ronaldo: Ouço esse disco e tenho dois sentimentos distintos – ou desisto de ser músico ou me dedico absurdamente para tentar amarrar o sapato de caras assim. Pois é Mairon…será que os caras realmente pensaram que já queimaram toda a lenha disponível? esse tema é lindíssimo…uma carga dramática muito boa. Talvez a faixa mais sinfônica do álbum

Mairon: Cara, eles já tinham gravado dois bons discos com o Flea, mas aqui a coisa é absurdamente melhor. Só pode ser …

Ronaldo: as viradas do baterista são avassaladoras! e esse mandolim, que lindeza

Mairon: Outra faixa sensacional. Assim como a antecessora. Encerramento do disco é muito melhor que o seu início, e olha que o início já é de cair o queixo.

Ronaldo: Chegamos ao fim!


Comentários finais:

Mairon: Cara, sem palavras. Ótimo disco. Instrumental muito bem trabalhado, músicos gabaritados, construções harmônicas fantásticas. Tudo perfeito.

André: Disco excelente, todos grandes instrumentistas que exibem suas qualidades sem qualquer detrimento a música, cada um protagonizando e se afastando dos holofotes no momento certo para que assim tenhamos um disco de enorme qualidade.

Ronaldo: Disco e banda muito subestimados. Composições incríveis, de alto nível, junto com um instrumental que é ao mesmo tempo virtuoso e extremamente funcional. Lamentável terem lançado apenas essa obra. Creio ter dado uma contribuição para que este petardo seja descoberto por quem se interessa pelo jazz-rock/progressivo.

Ronaldo: Obrigado meus caros, fico feliz que tenham apreciado!

Mairon: Com certeza Ronaldo. Bem distante dos também ótimos discos do Flea, em um nível muito superior. Dá vontade de ouvir novamente.

Ronaldo: Os músicos saíram de um hard rock/psicodélico para adentrar com muita propriedade no terreno do jazz rock.

André: Depois desse disco, se eu ganhar na megasena te dou um Moog e mais um Hammond, Ronaldo.

Ronaldo: Será recebido de bom grado! já estou na torcida por você! se eu ganhar, ao menos um LP original do Etna eu arremato no Ebay pra vocês!

Mairon: E fica a dica para procurar outros nomes do jazz rock italiano. Certamente iremos encontrar algo desse nível. Mas nos anos 70, hehehe.

5 comentários

  1. Diego S. A.

    Que legal, encontrar o Etna por aqui. Um grande clássico do Jazz-Rock/
    Fusion Italiano, minhas faixas favoritas são: Golden Idol e Barbarian Serenade. Parabéns pela matéria.

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    • Ronaldo

      Valeu Diego! foi um prazer ouvir e conversar com os colegas sobre esse disco!

      Responder
  2. Marcello

    Não conheço a banda, vou procurar. O fato de ser instrumental chamou a minha atenção e os comentários despertaram a curiosidade em ouvir!

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  3. Manoel

    Li toda a matéria. Como eu tenho muito interesse pela música progressiva, vou procurar conhecer. Não tinha ouvido falar, mas essa coisa do virtuosismo instrumental temos poucos exemplos de relevância. Maravilha, valeu pela publicação.

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