Por Ronaldo Rodrigues

 

No mês de abril de 2018, um dos nossos textos da seção “Cinco Discos para Conhecer” destacou o trabalho do produtor e engenheiro de som inglês Eddy Offord, famoso especialmente por seus trabalhos junto ao Yes e ao Emerson, Lake and Palmer. Desta vez, os holofotes se voltam para uns dos caras mais conhecidos nesta seara – o sulafricano Eddie Kramer. Ativo até hoje no ramo da produção musical, Kramer é uma das principais referências em termos de engenharia de som no rock e esteve envolvido em uma ampla variedade de discos clássicos do rock. Inclusive, equipamentos remotos para tratamento de áudio levam seu nome e sua assinatura.

Quando era adolescente, no início dos anos 60, seus pais se mudaram da África do Sul para Inglaterra. Ambos eram militantes pelo fim do apartheid e apaixonados por música, transmitindo esta paixão para Kramer desde sua infância. Ele estudou piano e era fascinado por jazz e rock n’ roll. Aos 19 anos, em 1962, Kramer descolou um trabalho no Advisions Studios em Londres, e no ano seguinte estava na Pye Records como assistente de gravação de peças clássicas. Na Pye Records, travou seu primeiro contato com bandas emergentes de rock, como os Kinks, e logo no ano seguinte já estava empreendendo no ramo, com uma pequena instalação de gravação que adquiriu do Regent Studios. A partir daí, Kramer já desfrutava de uma reputação considerável e uma boa rede de contatos no meio, o que lhe permitiu ser convidado para diversos trabalhos. Quase tudo que era gravado no Olympic Studios, um dos principais de Londres, Kramer estava envolvido – Small Faces, Traffic, Rolling Stones, Jimi Hendrix, etc. Com este último, Kramer desenvolveu grande amizade e especial parceria, tendo seu nome associado com o do gênio da guitarra até hoje. Hendrix lhe conferiu a tarefa de acompanhar a construção de seu próprio estúdio em Nova York (o Electric Lady Studios) e registrar centenas de horas de seus ensaios e experimentações (veja nesse link aqui Eddie Kramer detalhando o processo de gravação de “Dolly Dagger” em 1972). Kramer também trabalhou no compacto “All You Need is Love/Baby You’re Rich Man” dos Beatles e sua equipe de áudio registrou, milagrosamente, o áudio do Festival de Woodstock, em 1969. Ou seja, o cara tem MUITA história para contar!

Alguns dos principais momentos de sua prolífica carreira e de seu estilo encontram-se resumidos nesta lista de cinco discos.

Jimi Hendrix Experience – Axis: Bold as Love [1967]

Assim como em Are You Experience?, a bombástica estreia da Jimi Hendrix Experience, Eddie Kramer também pilotou a mesa de som no segundo lançamento do guitarrista, que ocorreu em ritmo frenético poucos meses após o primeiro. As gravações se deram em intervalos de turnê, mas é impressionante o ganho de qualidade entre um disco e outro. Axis: Bold as Love é cristalino e sua resolução sonora impressiona até hoje. Hendrix admitiu muitas das sugestões de Chas Chandler, seu empresário, e nesse disco a maioria das canções ficam dentro de padrões radiofônicos – em torno dos três minutos ou menos. Mas não alimentemos a ilusão de que houve algum recuo de musicalidade e inventividade, alguma concessão pop. Swing jazz aparece em “Up from the Skies”, Hendrix fazendo bases de piano (com dicas de acordes dadas pelo próprio Kramer) na tortuosa e pesada “Spanish Castle Magic”, ou então tocando flauta doce na parte final da psicodélica “If 6 was 9” e aproveitando para destilar baladas lindíssimas como a tocante “Little Wing”, “Castles Made of Sand” e seu entrelaçamento de guitarras invertidas e “Bold as Love”. Do ponto de vista da produção sonora, podemos ouvir claramente uma das identidades de Eddie Kramer – a música soa pesada no conjunto e o peso não está relacionado unicamente ao volume das guitarras distorcidas. Uma série de recursos inusitados em estúdio foram usados, mas o que se ressalta em maior grau é a quintessência de uma mixagem muito eficiente, que consegue encontrar um espaço único para cada instrumento dentro de cada música.

  1. EXP
  2. Up From the Skies
  3. Spanish Castle Magic
  4. Wait Until Tomorrow
  5. Ain’t No Telling
  6. Little Wing
  7. If 6 Was 9
  8. You Got Me Floatin’
  9. Castles Made of Sand
  10. She’s So Fine
  11. One Rainy Wish
  12. Little Miss Lover
  13. Bold as Love

Led Zeppelin – II [1969]

9 canções que mudaram a rota do rock, terminaram de desbancar os Beatles de seu trono e anteciparam a década de 70, tem a assinatura de Eddie Kramer junto com Jimmy Page. Em termos de produção, esse disco se assemelha a Axis: Bold as Love – foi gravado em meio a uma efervescência da banda, as pressas, em sessões esparsas e  em diferentes estúdios. Fazer tudo isso soar bem, com extrema homogeneidade e como uma obra única, definitivamente não é trabalho para amadores. Só a introdução de guitarra de “Whole Lotta Love” já pode ser cotada com uma das mais impactantes sonoridades de guitarra de todo o rock. A mixagem de Kramer conseguiu também catapultar a potente voz de Robert Plant para uma dimensão que talvez nem o próprio sabia ser capaz e a bateria de John Bohnam em nenhum outro disco da banda soa tão boxeante quanto em Led Zeppelin II. Este disco é um acontecimento na história do rock e um dos pontos altos da trajetória desse estilo musical. Composições perfeitas  e uma produção relativamente simples, porém magistral, que moldou toda uma estética sonora.

  1. Whole Lotta Love
  2. What is and What Should Never Be
  3. The Lemon Song
  4. Thank You
  5. Heartbreaker
  6. Living Love Maid
  7. Ramble On
  8. Moby Dick
  9. Bring on Home

Larry Coryell – Barefoot Boy [1971]

Um dos mais celebrados discos do guitarrista norte-americano Larry Coryell teve a engenharia sonora de Eddie Kramer. E nela reside um de seus trunfos. Apesar de discos de jazz terem um apuro sonoro bem particular (e frequentemente superior ao de discos de rock), esse disco traz a guitarra furiosa de Coryell com um luxuoso acompanhamento de bateria, percussão, baixo, piano e saxofone. Frequentemente, a própria guitarra de Coryell atua nas frequências destinadas ao baixo. Coryell teve breve relação de amizade com Hendrix, mas que foi suficiente para inspirar boa parte de sua obra, apesar dele não levar os devidos créditos por seu pioneirismos nas fusões do jazz com o rock em meados dos anos 1960. Neste disco ele explora muitas experimentações com wah-wah e outros efeitos, tudo regado a muita velocidade e com um bem dosado virtuosismo. No que cabe a parte de Eddie Kramer, a relação entre a bateria e a percussão é de uma nitidez impressionante e a guitarra de Coryell passeia com total liberdade pelas caixas de som. São apenas 3 longas faixas: “Gypsy Queen” é de estourar os miolos, “The Great Scape” é um delicioso groove e “Call to the Higher Consciousness” rememora lindamente o jazz transcendental de John Coltrane.

  1. Gypsy Queen
  2. The Great Scape
  3. Call to the Higher Consciousness

Kiss – Rock and Roll Over [1976]

O Kiss não é um grande exemplo de banda com discos bem gravados e os momentos que mais fogem a essa tendência foram justamente capitaneados por Eddie Kramer e sua mesa de som. Em 1976, os discos de rock começaram a ter o som mais comprimido e alto, com destaque maior para a bateria e para as guitarras. Kramer também segue a onda, mas sempre fazendo o melhor possível. O baixo de Gene Simmons é colocado de forma que soe quase como uma terceira guitarra e as guitarras surgem com um brilho ardido, quase que fazendo um complemento sonora para a indumentária visual do grupo. O som bem recheado da banda ajuda canções como “I Want You”, “Calling Dr. Love”, “Ladies Room” e “Hard Luck Woman” soarem ainda mais pegajosas do que normalmente já soariam. Eddie Kramer trabalhou com o Kiss também nos discos Alive, Love Gun, Alive II e no solo de Ace Frehley.

  1. I Want You
  2. Take Me
  3. Calling Dr. Love
  4. Ladies Room
  5. Baby Driver
  6. Love ‘Em and Leave ‘Em
  7. Mr. Speed
  8. See You in Your Dreams
  9. Hard Luck Woman
  10. Makin’ Love

Peter Frampton – Frampton Comes Alive [1976]

Eddie Kramer já tinha grande reputação com capturas de shows. Além do milagre operado em meio a lama de Woodstock, Kramer registrou vários shows de Jimi Hendrix, discos ao vivo do Nice, Humble Pie (Rockin’ the Filmore), John Mayall, Curtis Mayfield, Derek and Dominos, Kiss, entre outros. Além da captura incrível dos shows em San Francisco, em 1975, a produção de Eddie Kramer ajudou esse disco a ser celebrado como um dos grandes lançamentos de toda a década de 1970. Um sucesso comercial estrondoso foi possível para Frampton Comes Alive fazer com que toda a empolgação da plateia fosse capturada junto a uma performance irretocável de Frampton e a banda que o acompanhava, além da força musical de suas boas composições. Como não se empolgar com as palmas da plateia em “Doobie Wah”, por exemplo? ou curtir a clareza dos violões ou do solo de teclado em “Baby I Love Your Way”? Outro golaço de Eddie Kramer.

  1. Something’s Happening
  2. Doobie Wah
  3. Show Me the Way
  4. It’s a Plain Shame
  5. All I Wanna Be (Is by Your Side)
  6. Wind of Change
  7. Baby, I Love Your Way
  8. I Wanna Go to the Sun
  9. Penny for Your Thoughts
    10.(I’ll Give You) Money
    11.Shine On
  10. Jumpin’ Jack Flash
  11. Lines on My Face
  12. Do You Feel Like We Do

5 comentários

  1. André Kaminski

    Esse cara tem fama e essa nossa seção é limitada demais para ele. Teriam que ser no mínimo 10 discos. Uma pérola em que ele foi engenheiro de áudio foi o Performance: Rockin’ The Fillmore ao vivo do Humble Pie. Apresentação seminal de Marriott e de Frampton nesse registro.

    No mais, dando uma de Ogro aqui (se é que me entende…), quando vai sair os 5 Discos de Moog no rock que o senhor está nos devendo?

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    • Ronaldo

      Meu caro…vc tem razão! essa coluna é muito pequena pra grandeza do Kramer! aí só um rápido panorama. Valeu!!!
      será o próximo tema do ‘Cinco Discos’
      Abraço,
      Ronaldo

      Responder
  2. Filipe Mencari

    Caramba! Só discaço. No Kiss fez “só” alguns dos melhores. Pessoa vital na história da música.

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  3. Diogo Bizotto

    Sempre bom ver o trabalho dos grandes produtores sendo lembrado por aqui. Eddie Kramer é, sem dúvida, um dos maiores que já existiram, transitando do jazz ao thrash metal com muita competência. Obviamente não conheço tudo que Eddie fez, pois a lista é gigantesca, mas acredito que as cinco escolhas realmente tenham sido oportunas.

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