Por Diogo Bizotto

“I’m not saying that I’m something special
But you might know my name to some degree
Sometimes I can’t believe that I’m still standing
And it feels pretty good to be me”

A primeira estrofe de “Lucky that Way”, extraída do álbum mais recente de Joe Walsh, Analog Man (2012), resume bem e com simplicidade a atitude do músico hoje em dia. Com quase 50 anos de carreira nas costas, sucesso aos montes e milhões de fãs, mas também décadas de convivência com o alcoolismo – do qual está livre há um bom tempo –, Joseph Fidler Walsh sabe que teve muita sorte na vida e sente-se feliz com o que alcançou. Sua trajetória, iniciada em 1947 na cidade de Wichita, no Estado norte-americano do Kansas, teve de tudo, e não falo apenas de êxitos musicais. Além de ter feito história em carreira solo e ao lado das bandas James Gang e Eagles, sendo reconhecido especialmente como um grande guitarrista tanto pelo público quanto pelos músicos com quem trabalhou, o homem da voz fanhosa e do humor afiado acumulou grandes amizades que lhe renderam muita história para contar. Uma delas foi com o pessoal do The Who, especialmente o baterista Keith Moon, que formou com Joe uma dupla que era o terror do ramo hoteleiro ao redor do mundo. Apenas para que se tenha uma ideia, em sua época no Eagles, o guitarrista chegou a portar uma motosserra, utilizada para intimidar e provocar danos no patrimônio. Outra amizade que rendeu foi a com Ringo “ele mesmo” Starr. Como se não bastasse ter feito parte de encarnações da All Starr Band, inclusive da primeira, Joe casou-se, em 2008, com Marjorie Bach, irmã da esposa de Ringo, Barbara, tornando-se cunhado do chapa.

Outra empreitada que Joe aprontou foi sua concorrência ao cargo de presidente dos Estados Unidos, em 1980. Mesmo sem levar a campanha verdadeiramente a sério, afinal, ele não tinha a idade mínima para assumir a vaga, Joe apresentou como principal proposta “gasolina grátis para todos” e prometeu tornar sua música “Life’s Been Good” o hino nacional. Bom, chega de enrolação, pois o que nos interessa por aqui, acima de tudo, é música. Confira abaixo, então, cinco discos para começar a explorar a trajetória musical de Joe Walsh.


01 James Gang Rides AgainJames Gang – James Gang Rides Again [1970]

Escolher qual disco seria o mais adequado para representar a banda que revelou Joe foi tarefa dificílima. Afinal de contas, Yer’ Album (1969), Rides Again e Thirds (1971) são belas obras, que representam muito bem o desenvolvimento do hard rock norte-americano na virada da década de 1960 para a seguinte. Escolhi Rides Again por retratar o momento em que o grupo e o próprio Walsh encontraram estilo próprio, transitando com segurança através de boogies pesados e cheios de groove, como “Funk #49”, talvez a canção mais conhecida do grupo, e de baladas com uma dose de bem vinda delicadeza através de arranjos mais ricos, incluindo teclados, como “Ashes, the Rain and I” e “Tend My Garden”. Ao lado do baterista Jim Fox e do baixista Dale Peters, Joe pode até não ter conseguido dar o pulo do gato em termos comerciais, mas cravou para sempre seu nome nas rádios e outros meios que abordam aquilo que se convencionou chamar “classic rock”. Sua competência como solista pode ser aferida através de “Woman”, enquanto o poder de fogo de todo o trio fica evidente na pesada “The Bomber”, certamente um dos temas mais marcantes da James Gang e de toda carreira de Joe. O grupo ainda lançaria mais seis álbuns depois de sua saída, inclusive dois ao lado do guitarrista Tommy Bolin (Deep Purple, Zephyr), mas jamais reproduziria a mesma intensidade dos registros com Joe, que se uniu ao baixista Kenny Passarelli e ao baterista Joe Vitale, formando o grupo Barnstorm e passando a lançar discos sob seu próprio nome.

Formação: Joe Walsh (vocais, guitarra, piano, teclados), Dale Peters (baixo, guitarra, teclado) e Jim Fox (bateria, piano, órgão, teclado)

1. Funk #49
2. Asshton Park
3. Woman
4. The Bomber: Closet Queen/Boléro/Cast Your Fate to the Wind
5. Tend My Garden
6. Garden Gate
7. There I Go Again
8. Thanks
9. Ashes, the Rain and I


02 The Smoker You DrinkJoe Walsh – The Smoker You Drink, the Player You Get [1973]

O primeiro disco lançado junto ao Barnstorm, autointitulado (1972), mostrou um Joe pesando menos a mão em riffs e explorando mais seu lado folk, talvez refletindo a atmosfera rural vivenciada pelo trio, que havia se estabelecido no Estado norte-americano do Colorado e registrado o disco em um rancho transformado em estúdio. O segundo, The Smoker You Drink, the Player You Get, retomou um pouco sua faceta mais hard, como pode ser percebido em “Rocky Mountain Way”, a música que finalmente colocou o nome de Joe nas paradas musicais e com a qual ele ficou mais associado. Não à toa, até hoje o Eagles a toca em seus shows, apesar do extenso catálogo da banda e de seus integrantes. Mesmo tendo sido lançado sob o nome de Joe Walsh, o disco apresenta verdadeiramente uma banda (acrescida desta feita do tecladista Rocke Grace), e não músicos de apoio. Composição de Kenny Passarelli, “Happy Ways” conta com seus vocais, assim como “Days Gone By”, obra solo de Joe Vitale, é por ele cantada e conta com uma flauta também sob sua execução, configurando-se um dos destaques do álbum. Mesmo Grace teve seu momento, através da bela instrumental “Midnight Moodies”. É claro que Joe não fica para trás, entregando canções excelentes, como a lamentosa “Wolf”, “Meadows”, que inicia com uma gritaria sua e traz um riff stoniano, além da ótima balada “Dreams”. Destaque ainda para “Book Ends”, composição de Vitale cantada por Walsh. Em 1974, o Barnstorm se dissolveu. No ano seguinte, Joe lançou So What, último disco antes de ingressar naquela que estava prestes a se tornar a grande banda da década, ao menos nos Estados Unidos, o Eagles.

Formação: Joe Walsh (vocais, guitarra, baixo, teclados, sintetizador), Kenny Passarelli (vocais, baixo, guitarra), Joe Vitale (vocais, bateria, piano, teclado, flauta) e Rocke Grace (teclados)

1. Rocky Mountain Way
2. Book Ends
3. Wolf
4. Midnight Moodies
5. Happy Ways
6. Meadows
7. Dreams
8. Days Gone By
9. (Day Dream) Prayer


03 Hotel CaliforniaEagles – Hotel California [1976]

Após dois discos mais voltados ao country rock, o Eagles queria deixar o country um pouco de lado e focar no rock. O primeiro passo foi dado com o terceiro álbum, On the Border (1974), quando dispensaram o produtor Glyn Johns e convocaram Bill Szymczyck, que vinha trabalhando (adivinhe!) com Joe Walsh desde os tempos de James Gang. A tendência reforçou-se no eclético One of These Nights (1975), sucesso estrondoso que acabou potencializando a saída do guitarrista Bernie Leadon, músico com forte influência bluegrass. Para seu lugar, a banda não pensou duas vezes: Joe já era um conhecido, tendo inclusive contado com participações de três integrantes do grupo em seu álbum So What. Ele era o cara perfeito para colocar o Eagles em um rumo ainda mais roqueiro. Apesar de seu gênio forte, a dupla de solistas formada com o guitarrista Don Felder funcionou melhor que a encomenda. Havia competição, mas ninguém perdia: quem ganhava era a banda e os fãs. Isso fica evidente naquela que é tida, não só por mim, mas por diversas publicações musicais mundo afora, como uma das melhores sequências de solos de guitarra já executadas, presente na faixa-título do disco. Entre as contribuições mais diretas de Joe está “Life in the Fast Lane”, cujo riff principal surgiu despretensiosamente, em meio a um aquecimento. Mais hardeira e com uma carga de distorção acima do normal para o grupo, é um dos destaques do álbum. Joe Vitale não deixou de ser parceiro de composição de Walsh, e juntos criaram “Pretty Maids All in a Row”, belíssima balada que faz frente às ótimas canções no estilo de autoria dos “patrões” Glenn Frey e Don Henley. Caso queira mais informações a respeito de Hotel California, que julgo ser um dos melhores discos já lançados, você pode conferir uma resenha especial que escrevi sobre o álbum. Por ora, afirmo com certeza que a escolha de Joe para ingressar no Eagles foi um grande acerto. Quando a banda retomou atividades, em 1994, o guitarrista felizmente manteve seu posto, posição que ocupa até hoje.

Formação: Glenn Frey (vocais, guitarra, piano), Don Felder (guitarra), Joe Walsh (vocais, guitarra, teclados, órgão), Randy Meisner (vocais, baixo, guitarron mexicano) e Don Henley (vocais, bateria, teclados)

1. Hotel California
2. New Kid in Town
3. Life in the Fast Lane
4. Wasted Time
5. Wasted Time (Reprise)
6. Victim of Love
7. Pretty Maids All in a Row
8. Try and Love Again
9. The Last Resort


05 But Seriously FolksJoe Walsh – But Seriously, Folks…[1978]

Mesmo fazendo parte de uma banda gigante como o Eagles, Joe arrumou tempo para lançar mais um disco solo. O resultado, para muitos, superou o sucessor de Hotel California, The Long Run (1979). Concorde ou não com isso, But Seriously, Folks… certamente é um dos melhores lançamentos de sua extensa carreira. O equilíbrio de qualidade entre as faixas é admirável, e não há sequer um momento dispensável. A maior força do álbum reside nas melodias, enquanto lampejos mais pesados são deixados de lado, focando mais nos vocais de Joe, que entrega aquela que possivelmente é sua melhor performance ao microfone. Isso não significa que sua guitarra não brilhe: basta ouvir o solo de “Over and Over” e as sutis intervenções em “Indian Summer” para perceber quão afiado o músico estava. O lado “baladeiro” de Joe aparece em alta, cravando “Second Hand Store” e “Tomorrow” como  destaques em um álbum que ainda tem “At the Station”, uma das mais memoráveis canções de sua trajetória, composta ao lado do amigo Joe Vitale. Mais roqueira que a maior parte do track list, “At the Station” só perde nesse quesito para aquela que é o sucesso maior de sua carreira solo. Sim, pois se “Rocky Mountain Way” é até hoje a música mais associada ao nome de Joe, “Life’s Been Good” é seu maior êxito comercial, chegando ao oitavo posto da Billboard. Unindo segmentos distintos entre si e transitando entre o reggae e o hard rock, a longa faixa é um bem humorado relato sobre a consciência de Joe a respeito de seu sucesso e sua fama. Admitindo que, entre mansões, Maseratis e quartos de hotel, a vida vinha sendo muito boa para ele, o músico entrega uma das mais honestas reflexões a respeito da trajetória de um artista de sucesso, sem frescuras.

Formação: Joe Walsh (vocais, guitarra, baixo, teclados, sintetizador), Joey Murcia (guitarra), Willie Weeks (baixo), Joe Vitale (bateria) e Jay Ferguson (teclado). Além disso, todos os integrantes do Eagles, à época, fazem participações especiais

1. Over and Over
2. Second Hand Store
3. Indian Summer
4. At the Station
5. Tomorrow
6. Inner Tube
7. Theme from Boat Weirdos
8. Life’s Been Good

Após o fim das atividades dos Eagles em 1980, Joe deu sequência a sua carreira solo e embarcou em outras empreitadas, como a All Starr Band de Ringo Starr. Apesar de não serem tão memoráveis quanto os lançamentos da década de 1970, seus discos continuaram trazendo destaques, como “A Life of Illusion”, de There Goes the Neighborhood (1981), e a faixa-título de The Confessor (1985). O Eagles retomou atividades em 1994 com sua presença, que segue até hoje no grupo.


05 Analog ManJoe Walsh – Analog Man [2012]

Após um hiato de 20 anos sem lançar um disco solo, Analog Man foi uma surpresa das melhores. Com guitarras e mais guitarras por todos os lados, Joe mostrou que ainda tem muito a oferecer e a educar as gerações atuais. Ao lado de um caminhão de convidados, incluindo Ringo Starr, Graham Nash e David Crosby, além do produtor Jeff Lynne, o músico retrata um momento positivo de sua vida, valorizando sua sobriedade (“One Day at a Time”, musicão), sua família (“Family”) e criando uma belíssima sequência para a temática explorada em “Life’s Been Good”, aquela que julgo o grande destaque do álbum, “Lucky That Way”, uma das que contam com a bateria de Ringo. Quem gosta de hard rock tem pratos cheios na faixa-título, em “Band Played On” e, principalmente, em “Funk #50”, ótima reinvenção de “Funk #49″, da James Gang. O lado descontraído de Joe dá as caras em “Hi-Roller Baby”, enquanto “India” representa uma pequena ousadia, através da qual o guitarrista sola sobre uma base programada que não faria feio nas pistas de dança. Em tempos de faixas bônus que transitam entre o dispensável e o caça-níquel (será que não é assim desde sempre?), recomendo a procura pela edição deluxe do disco, que conta com duas canções extras. A primeira delas, “Fishbone”, é boa, mas o grande negócio reside na seguinte, “But I Try”. Extraída de uma fita que data do início dos anos 1970, trata-se de uma jam ao lado dos companheiros de James Gang, Jim Fox e Dale Peters, como músicos de apoio do grande Little Richard, tornando essa peça ainda mais única. O resultado é magnífico, e poderia estar em qualquer disco do grupo do início dos anos 1970. Não sei quando e se Joe pretende lançar mais algum álbum, mas se Analog Man tiver sido seu último registro de estúdio, podem ter certeza que sua carreira encerra-se em alta.

Formação: Muito extensa para citar nesta publicação. Confira a lista aqui.

1. Analog Man
2. Wrecking Ball
3. Lucky that Way
4. Spanish Dancer
5. Band Played On
6. Family
7. One Day at a Time
8. Hi-Roller Baby
9. Funk #50
10. India
11. Fishbone [*]
12. But I Try [*]

7 comentários

  1. Ronaldo

    Ótimo texto! os discos solos de Walsh ainda merecem uma atenção maior da minha parte, só conheço por coletâneas e músicas isoladas!
    Abraço,

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    • Diogo Bizotto

      Ronaldo, creio que os discos lançados após o fim de sua época com a James Gang e antes de se juntar aos Eagles serão do seu agrado: “Barnstorm”, “The Smoker You Drink, the Player You Get” e “So What”. Valeu!

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  2. Rafael Bonatto

    Joe Walsh consegue mesclar músicas pouco convencionais, com verdadeiros hinos em cada álbum, fazendo dele um artista único. O Eagles teve uma melhora bacana em termos de guitarra técnica após a entrada dele na banda.
    Curto bastante o que ele fez nos anos 80. Suas músicas mais recentes com certeza caberiam em algum álbum do Eagles. Vida longa a Joe Walsh!

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    • Diogo Bizotto

      Beleza, Rafael? Concordo com você quanto à melhora técnica. A entrada de Walsh fomentou uma saudável competição interna com Don Felder que teve apenas vencedores. Por mais que a banda fosse formada por integrantes com muita imposição, “alfas”, como os próprios já afirmaram, a competição por poder raramente atingiu o campo musical. Não à toa, Glenn Frey, que sempre teve posição de liderança administrativa, foi cada vez mais cedendo espaço aos talentosos companheiros. Exceção pode ser feita à insistência de Felder em querer cantar “Victim of Love” ao invés de Don Henley, sendo que o vocal nunca foi seu forte.

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      • Rafael Bonatto

        Exatamente Diogo. Glenn era o dominante do grupo e com forte influencia de Don Henley. Mas acima de tudo, sabiam do que funcionava ou não em estúdio. Joe e Don Felder arrebentavam na guitarra, mas Joe tinha um diferencial harmonico e vocal que chamavam a atenção dos demais. Infelizmente Felder não. Tanto foi que “Victim of Love”, acabou ficando com o Don Henley no vocal. Mas não sei até que ponto valeria a pena ter dado uma chance ao Felder. Quem sabe ele não estaria no grupo até hoje.

      • Diogo Bizotto

        Ainda acho que a decisão foi correta, pois, ao colocar a pessoa (muito) mais apta para cantar, primou-se pelo bom resultado e pela satisfação dos próprios ouvintes. E, sinceramente, não creio que apenas uma atitude como essa seria tão decisiva assim quanto a Felder permanecer no grupo. O buraco ali é bem mais embaixo e envolve outras disputas de poder, além de muita grana.

  3. Rafael Bonatto

    Exatamente Diogo. Ali a questão financeira e os egos falaram mais alto.
    Pelo menos temos boas músicas para celebrar! hahaha!

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