Por Fernando Bueno

O ano era 1892, era vitoriana nos Estados Unidos. Um assassinato a machadadas de um senhor e sua mulher. Um julgamento com cobertura de destaque pelos jornais. Uma absolvição que ainda deixa muita gente curiosa. Muita repercussão entre a população. Os mortos foram Andrew Borden e Abby Borden e a principal suspeita: Lizzie Borden. A hipótese mais plausível é de que Lizzie tinha um caso amoroso com a empregada da família e foi descoberta pela madrasta Abby. Porém existiam alguns argumentos a favor de Lizzie: era conhecido que seu pai não tinha quase nenhuma simpatia da sociedade de Fall River, Massachussets e o fato de uma moça conseguir empunhar um pesado machado era pouco provável. Tudo isso ajudou na absolvição da moça. Esse nome perpetuou durante décadas no imaginário popular americano por conta desse incidente até hoje não solucionado de forma definitiva. E foi esse nome que inspirou Gregory Charles Harges, seu irmão Joey Scott Harges e outros amigos a batizar sua banda.

Lizzy Borden. Na primeira vez que li esse nome em alguma revista há décadas atrás imaginei que seria algum grupo que parodiava, homenageava ou até mesmo só fazia alusão à Ozzy Osbourne. Como o acesso era muito diferente de como é hoje essa impressão ficou na minha cabeça e nunca consegui comprovar. Como o grupo não é tão comentado em rodas de heavy metal demorou bastante para que esse nome voltasse a ser alvo de meu interesse. E foi uma surpresa enorme quando realmente conheci a banda. Claro que a primeira ideia sobre uma eventual ligação com a banda de Ozzy caiu logo de cara. Aí o estranhamento foi relacionar o visual super carregado e sinistro com o hard rock que a banda praticava. Afinal, quando você vê as fotos da banda facilmente os identifica com as vertentes mais extremas do metal. E, por último, a surpresa positiva foi o nível musical do grupo, principalmente da voz de Lizzy. Entendendo melhor a proposta do Lizzy Borden aprendemos que sua principal influência é Alice Cooper, pelo visual baseado no terror, modernizando o som que a banda de Vincent Furnier fazia nos anos 70 e até mesmo fazendo com que o nome da banda fosse o mesmo que o usado pelo seu cantor. O Kiss também foi uma grande influência, principalmente por conta das performances e estrutura ao vivo.

Mesmo sabendo que o álbum mais aclamado dos americanos é seu debut Love You to Pieces de 1985, resolvi detalhar outro que pode até ser o preferido de uma parcela de seus fãs, o terceiro full lenght, Visual Lies de 1987. No disco de estreia a formação da banda foi Lizzy nos vocais, Gene Allen e Tony Matuzak nas guitarras, Michael Davis no baixo e o Joey Scott na bateria. Após uma troca de guitarrista no segundo álbum, um novo integrante assumiu uma das guitarras em Visual Lies, Joe Holmes. Quem não está ligando o nome à pessoa, foi Joe Holmes que substituiu Zakk Wylde na banda de Ozzy Osbourne nos anos 90, sendo ele, inclusive, quem tocou no Monsters of Rock de 1995 no estádio do Pacaembú, com a recomendação de que ele tinha sido um dos melhores alunos de Randy Rhoads.

Apesar da banda sempre tentar se descolar da cena hard rock americana tentando justificar que seu som era mais baseado em Judas Priest, Iron Maiden e afins, é impossível não identificar sem som com grupos como Ratt, Warrant e Kix. Suas músicas têm bastante apelo pop, refrãos cativantes, melodias e tudo aquilo que essas bandas tinham com, talvez, uma pitada maior de peso. Sua dupla de guitarristas, por exemplo, poderia facilmente ser incluída numa eventual lista de melhores parcerias do estilo. Já na faixa de abertura “Me Against the World” os backing vocals no refrão me faz lembrar “Balls to the Wall” do Accept. Em “Shock” o principal são as melodias vocais cheia de ganchos com alguma coisa de Queen. O riff de abertura de “Outcast” é bastante metálico e engana um pouco, já que a música tem um andamento bem mais lento que as primeiras faixas. Se você chegou nesse ponto do disco já percebeu a qualidade da banda e, possivelmente, já percebeu que talvez eles não tiveram um reconhecimento à altura desse potencial. Apesar de “Me Against the World” ter tido uma veiculação radiofônica bastante grande na época.

A faixa título tem uma frase de guitarra que lembra alguma coisa de Thin Lizzy e é outra mais cadenciada. “The Lord of the Flies” acelera tudo de novo e dá oportunidade para que os guitarristas apareçam melhor em uma das melhores faixas de um disco difícil de se escolher uma para abaixo de boa. Para fechar “Voyeur (I´m Watching You)” e “Visions”, a primeira com uma pegada mais festeira bem diferente da segunda que tem um clima mais sério com um excelente solo de guitarra. Estou certo que se você não se levar pelo visual, pela implicância com o glam metal vai querer ouvir tudo de novo e quem sabe ir atrás de outros discos. Menace to Society, por exemplo, tem mais elementos de speed metal (1986).

Depois do sucesso de Visual Lies a banda acaba se dissolvendo e Master of Disguise pode até ser considerado como um álbum solo do vocalista, mas como a banda tinha o nome dele acabou não fazendo muita diferença para os fãs. Mais ou menos o que acontecia com a banda Dio, que Ronnie James Dio considerava tecnicamente uma banda, mas na verdade era mais como uma carreira solo. Como para toda a cena de hard rock americana, os anos 90 foram bastante cruéis com o Lizzy Borden. Nenhum disco de estúdio foi lançado durante toda a década e apenas uma coletânea, muito boa por sinal, saiu em 1994 com o super criativo nome de Best of Lizzy Borden. De 2000 para cá são apenas dois álbuns de estúdio sem muito reconhecimento dos fãs ou cobertura da imprensa. My Midnight Things, a ser lançado ainda no primeiro semestre de 2018, por exemplo, é o primeiro disco depois de onze anos sem um disco de estúdio. Conhece a banda? Tem algum álbum diferente dos citados como preferido? Deixe seu comentário aí embaixo e comente também a escolha do nome do grupo.

Tracklist:

01 – Me Against the World
02 – Shock
03 –
Outcast
04 –
Den of Thieves
05 –
Visual Lies
06 –
Eyes of a Stranger
07 –
Lord of the Flies
08 –
Voyeur (I’m Watching You)
09 –
Visions

6 comentários

  1. paulo

    Muito legal a matéria, parabéns ! Tive esse álbum em vinil e até hoje ainda não comprei o cd. Sem querer ser chato, Joe Holmes tocou com o Ozzy no Monsters de 1995 e não no de 1996.

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  2. Othon Pantoja

    Eu ouvi essa banda em meados dos anos 2000, achei os riffs e arranjos meras cópias de outras bandas e deixei de lado. Vou retomar para ver se mudo a impressão.

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  3. Anônimo

    Lizzy Borden foi o W.A.S.P. que não vingou. Tem vídeos de shows dele nos anos 80, e a performance lembrava muito a da Tia Alice. Legal vocês falarem dessas bandas glam dos anos 80. Eu gostaria de fazer uma sugestão. Falam sobre a band HAWK cujo o primeiro baterista era o Matt Sorum ex-batera do Guns N’Roses e que depois foi substituído por ninguém mais ninguém menos que pelo Scott Travis que depois tocou no Racer X e até hoje no Judas Priest. Fora o guitarrista excepcional da banda o Doug Marks.

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  4. Tiago Bittencourt França

    Eu tive a coletânea Best of Lizzy Borden mas acabei trocando em um sebo e me arrependi. Os álbuns de estúdio dos anos 80 têm aparecido com uma certa facilidade no ML e com preços justos. Se não me engano são quatro né? Qual vc recomenda pegar de início? Abraço.

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    • Fernando Bueno

      Tiago…
      Eu começaria pelo visual Lies mesmo, mas a grande maioria diz que o melhor disco deles é o Love You to Pieces. Então é escolher um dos dois. Como disse no texto o Segundo Menace to Society tem umas coisas de speed metal, mas no geral é inferior ao dois e o Master of Disguice é o mais fraco de todos os quatro. Mas veja, estou comparando um ao outro e não quer dizer que o que menos gosto é uma merda….

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