Por Mairon Machado

Duas coisas bem distintas, uma é o preço, outra é o valor“. Nunca antes na história de Santa Maria a famosa frase do grupo El Efecto fez tanto sentido quanto no show realizado pelo grupo carioca na noite do último dia 11 de maio, na cidade de Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul. Divulgando seu mais recente álbum, Memórias Do Fogo, a turma do Rio de Janeiro desembarcou em terras gaúchas para três apresentações (Novo Hamburgo, Santa Maria e Porto Alegre).

No coração do Rio Grande, o Rockers Soul Food foi o responsável por receber Tomás Rosati (voz, cavaquinho e percussão), Bruno Danton (voz, violão, trompete), Eduardo Baker (baixo), Cristine Ariel (guitarra, voz, cavaquinho), Tomás Tróia (guitarra, voz) e Gustavo Loureiro (bateria), acompanhados ainda de Aline Gonçalves (flauta, trompete). Um local acanhado, com capacidade para no máximo 400 pessoas, e que realmente, foi pequeno para abrigar a energia e a sede de tocar do hepteto, e também para comportar a legião de fãs que vem sido conquistados ao longo dos 16 anos de carreira da banda, e que em Santa Maria, lotaram o Rockers em uma noite inesquecível na cidade.

Antes, teve a abertura local do grupo Guantánamo Groove. Formado por Gustavo Garoto (guitarra/voz), Yuri ML (baixo/voz) e Vagner Uberti (bateria). Eles estavam acompanhados de um percussionista e um trombonista, que infelizmente não descobri o nome, mas que deram um baita gás para encorpar o som da banda. Fizeram uma bela sonzeira, honrando o groove que tem em seu nome, e levantando a galera. Confesso que senti-me transportado para o início dos anos 70, em algum pequeno bar de Nova Iorque, onde rolavam sons fantásticos de grupo como Chicago Transity Authority ou United States of America.

Em uma hora de apresentação, somente com canções autorais, chamou-me a atenção a harmonia musical do conjunto, que já tem feito seu nome na região de Santa Maria e acabou de lançar seu primeiro álbum, Okupa (2016), e também para o grande guitarrista que é Gustavo, com solos ácidos e recheados de muito feeling. Dentre as 11 canções apresentadas pelo grupo, destaques especiais para “Contracorrente”, “Saiba Ver O Sol”, “A Do Leonel” e principalmente “Itaimbé” e “Satisfação Total”, mas no geral, todas as faixas foram muito animadas. A ginga do trombone faz uma baita diferença, e somada com uma guitarra afiada e grandes arranjos vocais, casou perfeitamente para esquentar a plateia ao grande show da noite.

 

Eram duas da manhã quando o hepteto subiu no pequeno palco. A banda ficou um tanto quanto apertada, já que levaram todos os seus instrumentos para tocar. A presença da nova guitarrista da banda, Cris Ariel, levou Bruno (o guitarrista original) para ficar concentrado no violão, mas no fundo, podemos afirmar que a El Efecto agora está com três grandes guitarristas, pois o violão de Bruno possui distorções colocadas com precisão em várias faixas.

O show foi baseado no último álbum, e de cara, o show começou com a sensacional “O Drama da Humana Manada”. O cavaquinho de Tomás ferveu e incendiou a galera, e a partir dali, todos os presentes sabiam que iam ser tomados por um show energético e muito virtuoso. Samba, rock pesado, chorinho, reggae, tango, enfim, o grupo sabe misturar os ritmos como ninguém, são todos exímios instrumentistas, Bruno e Tomás possuem interpretações vocais impressionantes, e as letras são para ficar na memória, tanto que tem sido usadas para estudo em diversas faculdades do Brasil à fora.

“O Drama da Humana Manada” foi cantada a plenos pulmões pelo presente, o que me assustou positivamente, já que o álbum foi lançado a menos de dois meses, mas isso demonstra que a El Efecto está conquistando seu espaço cada vez mais. Na sequência, veio “Pedras e Sonhos”, do grande disco homônimo de 2012, e que foi o responsável por finalmente fazer com que a El Efecto chegasse aos meus ouvidos. Um dos grandes sucessos da carreira do grupo, fez tremer o piso do Rockers, e foi facilmente cantada e ovacionada pelos fãs.

Nesse momento da apresentação, foi legal ver a dinâmica do palco da El Efecto. A alteração dos instrumentos, e do posicionamento entre Bruno e Tomás, bem como a energia exalada pelos dois, é contagiante. Mesmo tendo feito uma longa viagem entre Novo Hamburgo e Santa Maria, e com o show entrando madrugada adentro, os dois estavam inteiraços. Veio mais uma do disco novo, a ótima “Café”, na qual o violão e as vozes bem arranjadas foram as principais atrações, assim como a participação da plateia auxiliando nas vozes.

Com a plateia dominada, a El Efecto pôde variar seu repertório, voltando a Pedras e Sonhos para apresentar “N’aghadê”, outra bela letra, criticando a televisão, e com um ritmo dançante que colocou os presentes a bailar. “O Monge e o Executivo”, de Memórias do Fogo, foi um espetáculo a parte. Recheada de variações, essa foi um atestado da complexidade musical da obra da El Efecto, e de como fica difícil classificar o som que eles fazem. Só vendo para acreditar no som que os caras conseguem fazer, e tentar entender como os arranjos musicais são construídos e interpretados com tamanha precisão, é obra para doutores de música. Que música linda, e que obra sensacional.

Veio mais três do disco novo, a intrincada “Trovoada”, com sua letra forte, um maravilhoso trecho onde os metais se sobressaem, bem como as inspirações africanas na harmonia musical, a paulada “Incêndios”, metaleira das boas para quebrar pescoços e fechar roda punk (algo que aconteceu fácil no Rockers), e “Carlos e Tereza”, essa última com uma homenagem para a vereadora Marielle Franco, que emocionou a banda e os presentes, para então, entrarmos na reta final da alucinante apresentação do grupo.

Eram pouco mais de três da manhã quando Tomás perguntou se a plateia tinha fôlego para mais. Com uma gana imensa de assistir a El Efecto, e uma banda afiada e também sedenta para mostrar seu trabalho, a banda arrasou com uma versão pesada e distorcida de “Ciranda”. A linda faixa de abertura do disco acústico A Cantiga É Uma Arma (2014) recebeu guitarras pesadas e muito peso, ficando ainda melhor que sua original. Que música absurdamente fantástica, que letra sensacional, sem explicação.

Uma longa e inspirada versão de outro clássico de Pedras e Sonhos, a estupenda “O Encontro de Lampião com Eike Batista”, veio a seguir, e foi mais uma que fez tremer o Rockers, e cantada em uníssono até pelo guardador de carros (principalmente nos versos “Eike Eike resistir“). Mais uma aula de habilidade instrumental, criatividade, competência e muita, mas muita energia. Para fechar, outro clássico, “A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador”, do primeiro disco da banda, Como Qualquer Outra Coisa (2004), mas na versão de Pedras E Sonhos, e os gaúchos, bem como a banda, deixaram a casa por volta das 4 da manhã, com a sensação de que se houvesse a oportunidade para mais tempo de show, estariam todos ali presentes, para pular e cantar junto desta que considero a melhor banda brasileira da atualidade.

Ainda houve antes (e também depois) da apresentação um tempo para trocar uma ideia com os caras da banda. Tomás e Bruno foram extremamente gentis e simpáticos, assim como o produtor Iuri Gouvêa, responsável pela banquinha de produtos e por ser um dos braços direitos do grupo. Por isso, a frase que abre esse texto, afinal, o preço do ingresso (R$ 15,00 reais antecipado, R$ 25,00 na hora) foi pouco pelo valor da conversa com esses gênios da música brasileira, e também o valor de ver e ouvir ao vivo e a cores um espetáculo de altíssima qualidade.

Valeu ao El Efecto por ter propiciado uma noite inesquecível, e que em breve, retornem para o Rio Grande do Sul, para trazer ainda mais energia, garra, mas principalmente, talento, competência e qualidade musical. Em um país assolado por atrocidades como Pablo Vittar e cia., ouvir a El Efecto ao vivo é ter certeza que ainda há espaço para surgir boa música em terras brasilis. Há Braços gurizada, e voltem sempre por aqui.

Set list

1. O Drama da Humana Manada

2. Pedras E Sonhos

3. Café

4. N’aghadê

5. Trovoada

6. O Monge E O Executivo

7. Incêndios

8. Carlos E Tereza

9. Ciranda

10. O Encontro de Lampião Com Eike Batista

11. A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador

3 comentários

  1. Ronaldo

    Beleza de resenha meu caro…é uma banda pela qual ainda não adotei simpatia. Vc me indica uma música? a que vc considera a melhor pra um cara com o meu gosto? outra pergunta…vc faz algum paralelo entre eles e os Los Hermanos?
    Abraço!

    Responder
    • Mairon

      Cara, a banda vem mudando de sonoridade bastante. Eu curto várias canções, que são minhas preferidas, seja pela letra seja pelo instrumental. Os caras me conquistaram em ambos os quesitos. Destaco algumas aqui

      “O Encontro de Lampião com Eike Batista”
      “Pedras e Sonhos”
      “Adeus Adeus”
      “Ciranda”
      “Santos Dumont”
      “Café”
      “O Drama da Humana Manada”
      “Trovoada”

      Essas são as que mais aprecio

      Abraços e obrigado pelo comentário e elogio

      Responder
    • Mairon

      Cara, quanto ao paralelo com o Los Hermanos, não consigo fazer ou achar nada similar. O Los Hermanos estourou com um sucesso (“Anna Julia”) logo no primeiro disco, e mudou totalmente seu estilo a partir de então, tornando-se um ícone indie brasileiro que lançou 3 discos posteriores e encerrou a carreira no auge da fama com seus fãs, os quais seguiram fieis a banda até o dia de hoje.

      Já o El Efecto veio a conhecer o ambiente do Sol a partir de 2012, mesmo estando na estrada desde 2004. Ainda não chegou a um status de grandes públicos, mas tem um público bastante fiel, que cresce ao longo dos anos.

      É difícil comparar alguma banda com o LH, mas se fosse para dizer uma atual, que se aproxime, seria O Terno.

      Abraços

      Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.