Por Davi Pascale

Decadence Avec Elegance… Quando João Luiz Woerdenbag Filho se sentou para escrever seu novo livro, sua intenção era dilacerar a cena dos anos 80, era esculhambar com tudo e com todos. Entretanto, antes que escrevesse uma única frase sequer, resolveu fazer sua lição de casa. Parou para ouvir com atenção todos os discos daqueles artistas que tiveram relevância. Algo que jamais tinha feito até então.

Para sua surpresa, muitos álbuns o surpreenderam positivamente. Tanto que o próximo álbum do músico será um disco duplo somente com canções desse período. Com músicas que chamaram sua atenção enquanto realizava esse trabalho. Ainda que ataque a produção de Liminha (um dos principais produtores da época), reconhece que as composições eram boas e que os artistas tinham algo a dizer. Realmente, essa geração produziu muitos discos excelentes. Ainda que muitos artistas fossem músicos bem limitados tecnicamente, havia muitos compositores talentosos naquela geração.

Aqui, Lobão defende uma tese. Que a cena roqueira dos anos 80 foi tratada pelos executivos como uma moda passageira e que os medalhões da MPB continuavam liderando o meio. Defende ainda a ideia de que para que se possa ser levado à sério enquanto artista, seria necessário uma espécie de aprovação pela turma de Caetano e Gil, a quem se refere como a ‘máfia do dendê’. Não esconde, inclusive, sobre os diferentes tratamentos, sobre a enorme diferença entre a verba destinada para as gravações dos ídolos da MPB e a verba destinada para os grupos de rock.

Isso é uma verdade! Não tem muito tempo, troquei algumas rápidas palavras com o Frejat, no final de uma apresentação. Havia levado meus discos para ele assinar e ao pegar a capa de Rock n Geral, brincou: “Esse é digno de concorrer às piores capas de todos os tempos” arrancando gargalhadas dos presentes. “Olha a qualidade do papel”. Quando questionamos o porquê havia sido lançado daquele jeito, o músico foi claro: “A gravadora liberou uma verba tão baixa que eu tinha 3 opções. Ou eu fazia uma puta capa com uma gravação capenga. Ou eu fazia uma gravação boa e uma capa ruim. Ou eu engavetava o disco. Não tinha como casar as duas coisas. Tentei de tudo na época”.

Músico ataca a MPB

Assim que anunciou que encabeçaria esse projeto, fiquei meio receoso do que iria encontrar. Sou um garoto que cresceu ouvindo os artistas dessa época – Paralamas do Sucesso, Titãs, Engenheiros do Hawaii, Ira!, Barão Vermelho, Capital Inicial, Lulu Santos, RPM, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, o próprio Lobão – e tinha um certo receio de que sua ira acabasse indo além da conta. Entretanto, para minha surpresa, as críticas mais ácidas ficaram restritas realmente ao pessoal da MPB.

Sim, há algumas críticas ao pessoal da sua geração. O músico volta a comentar sobre o episódio Herbert Vianna. Em sua autobiografia, 50 Anos a Mil, o cantor comentava de que várias vezes suspeitava que o líder do Paralamas estivesse roubando suas ideias. E narra um episódio quando um riff seu foi roubado pelo mesmo. Aqui, volta a citar esses fatos e cita alguns exemplos. Outro caso que pode dar o que falar. Lobão cita, mais uma vez, a saída de Cazuza do Barão como se tivesse ocorrido uma expulsão e não como uma saída por vontade própria. Ou seja, o contrário do que a família do cantor e a própria banda defende há décadas. Também faz ataques à revista Bizz e ao festival Rock in Rio.

Na MPB, seu principal avo de ataque é o cantor Chico Buarque. O cantor ironiza várias de suas obras, principalmente a “Ópera do Malandro”. Embora eu considere Chico um bom letrista, não tenho como negar que ri muito com as provocações de Lobão. Já em relação a Caetano Veloso, o músico demonstra ter uma certa admiração. Quando escreveu a canção “Para o Mano Caetano”, ainda na época em que vendia seus discos nas bancas, o velho lobo havia dito à Folha que a música ‘não é uma homenagem, e sim uma declaração de amor’. A admiração parece se manter. Ainda que o coloque como um dos coronéis, em vários momentos elogiou a obra do músico ao analisar seus discos desse período.

A história é narrada cronologicamente, partindo de 1976 e se encerrando em 1991. Um capítulo por ano, basicamente. O cantor mescla sua história na cena com a da música produzida naquele ano. (A mesma crítica que faz em relação à sonoridade dos discos da época, também faz em relação aos seus discos lançados nesse período, inclusive). E também aproveita para fazer um panorama de tudo que rolava na ocasião. Aqui, onde mais ataca é o cinema nacional. Principalmente, as famosas pornochanchadas.

Lobão nos tempos de Vímana

Como esperado, também é comentado a questão dos jabás. Uma revelação aqui, ao menos para mim, foi de que o RPM foi o primeiro a se voltar contra o sistema, se negando a continuar o esquema. Já tinha noção de como funcionava o jabá nessa época por conta de uma entrevista que assisti do cantor/compositor Kiko Zambianchi onde ele comentava que preferia o jabá dos anos 80 ao atual. A diferença? Nos anos 80, os artistas faziam algumas apresentações para as emissoras de rádio e chefões da televisão abrindo mão do cachê. Atualmente, é necessário pagar cifras milionárias para que sua música entre na programação das rádios e TV. Ou seja, sem uma grande gravadora é impossível.

O cenário se mantém. O popular continua sendo a bola da vez. Especialmente, o sertanejo. Nos anos 80, tínhamos a já tradicional e talentosa dupla Chitãozinho & Xororó, fazendo um sertanejo mais pop e tomando as rádios de assalto. Já tem vários anos que o gênero se mantém na grande mídia. Sertanejo romântico, sertanejo universitário ou sofrência. Tanto faz. A lógica é a mesma. Aproximar o gênero do pop e se apropriar de uma linguagem jovem. O jabá se mantém. E as alianças também. Vide Anitta, Gilberto Gil e Caetano Veloso na apresentação das Olimpíadas. Não tenho nada contra a garota, mas é uma parceria meio estranha e forçadinha, né? Estilos diferentes, linguagem diferentes, públicos diferentes…

Para quem conhece a cena um pouco mais à fundo, não há nada bombástico, nada que te faça perder a magia dos artistas. Portanto, mesmo quem for fã da cena, a leitura é extremamente válida. Quem conhece minimamente a carreira do Lobão sabe quem são os seus alvos (Lei Rouanet, Herbert Vianna, Maria Bethânia…), portanto, nada espantoso. O livro é extremamente bem escrito. É rico de informação e traz questionamentos relevantes. A perspicácia e a ironia de Lobão continuam afiadas. É impossível não rir com os termos que inventa como ‘múmia deprimida’ ou a já citada ‘máfia do dendê’. As pessoas que são fãs do politicamente correto ficarão de cabelo em pé diversos momentos. Quem cresceu acostumado com deboche, sátira, ironia, e não tem nenhum problema com esses recursos, irá se divertir horrores. Na narrativa, derrama várias críticas ásperas, mas sem perder seu bom humor característico. Afinal, hay que endurecer sin perder la ternura, não é mesmo?

16 comentários

  1. Fernando Bueno

    Eu achei ótimo esse livro. Mesmo sendo um fã apenas parcial de tudo o que foi produzido na época, quando estava lendo o livro acabei parando para ouvir vários dos discos que nunca tinham me interessado, inclusive alguns do próprio Lobão. Estou curioso para ouvir esse disco que ele está lançando. Não participei do crowdfunding pq acho 400 reais uma absurdo para um LP, mas tenho fé que isso sairá com um preço mais acessível num futuro próximo.

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    • Davi Pascale

      Bacana, Fernando. Os livros do Lobão são ótimos. Ele sempre foi um cara inteligente e tem uma ótima escrita.

      O alto valor do crowdfunding acredito que esteja relacionado aos direitos autorais. Ele regravou 25 músicas e a tiragem não deve ser muuuito alta. Mesmo a versão em CD era um valor alto (R$150,00). Como gosto muito dele, fechei os olhos e comprei o LP. Eu já recebi as músicas no meu e-mail. Ele sempre manda algumas semanas antes para a galera ir curtindo até o material ficar pronto. Já ouvi o disco inteiro e gostei bastante.

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  2. Anônimo

    Lobão calado é um poeta. Quando abre a boca só profere asneiras e frases bestas tentando parecer intelectual. Se fôssemos selecionar quantas músicas realmente boas esse mala compôs, iriam sair pelo menos umas sete ou oito músicas.

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  3. Anônimo

    As bandas e músicos dos anos 80 hoje em dia são medíocres e vergonhosos. Vide os Titãs que se tornaram a banda mais idiota e chata do país. O Lobão assim como os Titãs, os Paralamas(que sempre foram um lixo na minha opinião), passando pelo Ira!, Ultraje a Rigor já deveriam ter se aposentado faz tempo e nos poupado de tanta cafonice e pieguice. Músico de rock deveria ter vergonha na cara e saber a hora certa de se aposentar e parar de tocar de vez ao invés de ficar pagando mico. Lobão é um charlatão tal qual o seu guru e astrólogo da direita(não vou dizer o nome dele).

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    • Davi Pascale

      Discordo, mais uma vez. Em todas as épocas existem artistas bons e ruins. E ainda temos bastante gente dos anos 80 entregando trabalhos muito bacanas. Tanto em termos de discos, quanto de shows. Abraço.

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  4. Anônimo

    Em uma coisa eu me identifico com o Lobão em relação ao chatérrimo e insuportável Herbert Vianna apesar dele ter feito as pazes com ele e o perdoado por causa dos plágios. Eu nunca gostei dele e sempre o considerei arrogante, metido e nariz empinado. O Herbert nas entrevistas sempre falava com ar esnobe como se fosse uma sumidade que soubesse de tudo e só ele prestasse. E sempre achei que a MTV deu atenção demais à uma banda que nunca foi grande coisa. Paralamas e Legião Urbana sempre foram bandas superestimadas demais tanto pela imprensa como pelas rádios rock da vida e por aquele lixo da MTV.

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    • Davi Pascale

      Não, não. São bandas bem interessantes. Já a MTV começou bem e depois perdeu a mão. Se tornaram teen demais… Mas o começo da emissora foi muito bom.

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      • Anônimo

        A MTV do começo do ano 2000 até seu final era patética apesar de alguns programas interessantes. Os vjs e as vjs não conheciam nada sobre metal extremo, debochavam do hard rock dos anos 80 e tinham como banda favorita o Nirvana que na minha opinião estragou o rock e seu líder era um babaca depressivo. Naquela emissora de merda a única banda que existia para eles era o Ramones. Aquela m…. quando acabou já estava fedendo faz tempo.

      • Anônimo

        Não se pode levar à sério um VJ otário que tem como banda favorita o Nirvana ou o Pearl Jam. A MTV fazia o jogo do sistema.

  5. Anônimo

    Esse livro é uma piada de mal gosto assim como todos os outros dessa linha “Politicamente Incorreto”. E Lobão também se tornou um coxinha insuportável que não aceita opinião diferente.

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    • Davi Pascale

      Cara… Já tive a oportunidade de conversar com o Lobão 2 vezes. Ele é bem de boa…

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  6. Ronaldo

    Esse livro já tinha me despertado o interesse, mas achei que seria rancoroso demais. Mas ao que parece pelo seu texto, Davi, não é bem isso né? gosto quando alguém questiona e desafina o coro dos contentes…no caso essa geração 80 é superestimada, é bom ver alguém dar uma cutucada na coisa.
    Abraço,

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    • Davi Pascale

      Fala, Ronaldo. Eu, particularmente, gosto bastante da cena dos anos 80, mas o livro é bem bacana, sim. Não é rancoroso, não. Dá para dar umas risadas, inclusive. Abraço

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  7. Tiago Bittencourt França

    Já estive com este livro nas mãos umas três vezes para comprar, mas sempre opto por outros. Tenho a biografia dele e gosto muito. Acho que vou dar uma chance. Valeu!!!

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    • Davi Pascale

      Os livros dele são ótimos. Você que já leu a biografia, irá notar que algumas histórias se repetem, mesmo assim vale a leitura. Abraço

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