Por Ronaldo Rodrigues

Já destacamos em diversos rankings e listas os melhores álbuns, músicos e intérpretes. Poucas matérias aqui no nosso site (e em outros sites de música no geral) dedicam espaço aos nomes dos bastidores – produtores, engenheiros de som, artistas gráficos, compositores/letristas, etc. Uma iniciativa da Consultoria do Rock neste sentido foi a série “Selos Lendários”, que durante alguns meses explorou a trajetória de gravadoras e selos que ajudaram a cunhar a história do rock e da música pop. Infelizmente, a maior parte desse material se perdeu pela incompetência do UOL Host.

Eddy Offord (ao fundo), com os músicos do Yes

Continuando nesse direção, hoje a seção Cinco Discos para Conhecer destaca o trabalho valoroso do engenheiro de som e e produtor inglês Eddy Offord, que ajudou a delinear a linguagem do rock progressivo no começo dos anos 1970. Estando a frente de lançamentos icônicos e tendo trabalhado com dois medalhões do estilo (Yes e Emerson, Lake and Palmer) em seu período áureo, a contribuição de Eddy Offord foi primordial para consolidar o rock progressivo como estética sonora. Mas não apenas nessa área – Eddy tinha enorme competência para o rock em geral.

Eddy Offord trabalhava frequentemente no London’s Adivision Studio, um estúdio bem equipado, que havia sido projetado para gravação de jingles e vozes. Dentro de suas salas, Eddy Offord pilotou um acontecimento histórico para o rock em 1970 – a primeira gravação de um solo do sintetizador Moog Modular, em “Lucky Man”, do ELP –  escancarando as portas para a febre dos sintetizadores no rock setentista. Eddy tinha grande envolvimento com as bandas, contribuindo com seu processo criativo; era considerado como o sexto membro do Yes, por exemplo. Eddy Offord também produziu algumas das faixas de Imagine, de John Lennon (1971) e do disco solo de Yoko Ono do mesmo ano. Apesar de ter trabalhado com uma variedade não muito grande de artistas (mas cultivando relações de longo prazo com as bandas), sua assinatura é bastante presente nos trabalhos, conforme detalhado nos discos abaixo. Nos anos 80, Eddy reduziu o ritmo de trabalho até se aposentar na década seguinte, passando a curtir a vida velejando. Em entrevista recente, Eddy destaca que apesar de uma ou outra interferência das gravadoras, prevalecia a liberdade artística nos anos 70, o que segundo ele fez florescer sua grande riqueza musical.


Emerson, Lake & Palmer – Emerson, Lake & Palmer [1970]

O Nice, banda pregressa de Keith Emerson, já era uma formação que teve guitarrista fixo apenas durante curto período. Mas coube a Eddy Offord cristalizar a concepção praticamente inédita de banda de rock sem guitarra, especialmente em um período o rock se tornava mais e mais pesado e distorcido. Só os segundos iniciais da abertura “The Barbarian” já são a prova da densidade que Offord conseguiu alcançar no baixo distorcido e no órgão Hammond escorrendo sangue de Keith Emerson. E isso seria uma constante nos 4 discos seguintes do trio que contariam com sua produção. Como seria uma marca na carreira de Offord, bateristas teriam tratamento diferenciado em suas produções (e ele lidou com três dos maiores bateristas ingleses dos anos 60-70); aqui, parece que Carl Palmer dá baquetadas no cerébro do ouvinte. Os teclados de Keith Emerson voam pelos ouvidos e a voz de Greg Lake desce macia e conforta. A produção consegue ser tão bombástica quanto a música do ELP.

1. The Barbarian
2. Take a Pebble
3. Knife-Edge
4. The Three Fates
5. Tank
6. Lucky Man

Rory Gallagher – Rory Gallagher [1971]

Eddy Offord já acompanhava Rory Gallagher desde os tempos do Taste. A estreia da carreira solo do guitarrista é mais dinâmica e focada que seu trabalho anterior; seus solos de guitarra tem mais apuro e foram lapidados com mais tranquilidade. O blues-rock aqui presente é pura eficiência, e toda a categoria de Gallagher como guitarrista e vocalista já é mais do que nítida. A produção de Offord só vem coroar um trabalho muito equilibrado e cheio de predicados. Os violões e a percussão de “Just the Smile” tem um brilho intenso; em “I Fall Apart” somos transportados para dentro de um incrível solo de guitarra em “Hands Up”, a bateria tem grande destaque e ajuda a chacoalhar o esqueleto.

1.  Laundromat
2. Just the Smile
3. I Fall Apart
4. Wave Myself Goodbye
5. Hands Up
6.  Sinner Boy
7. For the Last Time
8. It’s You
9. I’m Not Surprised
10. Can’t Believe It’s True

 


Yes – Close to the Edge [1972]

Muito já foi falado sobre este disco e sua importância para o rock progressivo. Não é preciso repetir e nem tentar convencer quem não quer ser convencido do que este disco é em termos de história e influência. O disco anterior poderia também ser trazido para esta lista como um dos principais trabalhos de Eddy Offord. A interação entre bateria e baixo de dois dos maiores músicos da história do rock inglês (Bill Bruford e Chris Squire) é algo que foi captado cirurgicamente e devidamente encaixado com o único objetivo de deixar o ouvinte estatelado! Em poucos discos o baixo foi tão privilegiado quanto em Close to the Edge. A míriade de teclados de Rick Wakeman é meio que “domada” na produção e funde-se magistralmente com a riqueza de frases de guitarra de Steve Howe, como que fazendo um pólo distinto ao da seção Squire-Bruford e em cujo miolo flutua magneticamente a voz cativante de Jon Anderson. Eddy Offord recorda que o Yes concretizava suas músicas no próprio estúdio, gastando muitas horas experimentando e editando trechos das músicas. O resultado de um processo árduo é nada menos que soberbo. Um trabalho de produção memorável para uma música tão rica de elementos e tão cheia de detalhes.

1. Close to the Edge
2. And You and I
3. Siberian Kahtru

Baker Gurvitz Army – Hearts on Fire [1976]

Além de toda a qualidade musical do poderoso combo de Ginger Baker e irmãos Gurvitz, a produção de Eddy Offord neste disco te transporta para a sala de gravação! o som é potente na medida e você pode assentar seus ouvidos confortavelmente diante da bateria de Ginger Baker. Os solos faiscantes da guitarra de Adrian Gurvitz tem sempre o devido destaque na hora em que surgem na música (e são frequentemente o ponto alto delas). Apesar dos outros dois discos anteriores da banda terem sido produzidos também por Eddy Offord, Hearts on Fire é o que tem a produção mais caprichada (talvez pelo tempo de maturação e os recursos disponibilizados pela gravadora). A faixa título, que abre o disco, soa próxima da pegada de Presence, do Led Zeppelin, lançado no mesmo ano; a balada “Tracks of my Life” desmancha os corações brutos com um piano soberbo e maravilhosamente registrado; “Flying In and Out of Stardom” tem algo de Hendrix e Cream na mesma canção, com o típico trabalho de Baker nos tons.

1. Hearts on Fire
2. Neon Lights
3. Smiling
4. Tracks of My Life
5. Flying in and Out of Stardom
6. Dancing the Night Away
7. My Mind Is Healing
8. Thirsty for the Blues
9. Night People
10. Mystery

 


Dixie Dregs – Industry Standard [1982]

Mesmo em uma época na qual a bateria aparecia tão desfigurada ou excessivamente maquiada, Eddy Offord soube resistir aos modismos e dar ao som virtuoso e elegante do Dixie Dregs um timbre adequado para sua seção rítmica. Industry Standard é o último trabalho da primeira fase destes norte-americanos pródigos na linguagem jazz fusion. Vocais e guitarras são cristalinos e muito vivos; a colocação da instrumentação e as composições lembram o Steely Dan do fim dos 70’s – tudo muito nítido e polido, o que vem a calhar com todas as nuances impressas pela banda de Steve Morse. “Bloodsucking Leeches” é sofisticada e empolgante; “Up in the Air” uma linda peça instrumental de curta duração e “Conversations Piece” é introspectiva e riquíssima em harmonia.

1. Assembly Line
2. Crank It Up
3. Chips Ahoy
4. Bloodsucking Leeches
5. Up in the Air
6. Ridin’ High
7. Where’s Dixie?
8. Conversation Piece
9. Vitamin Q

 

6 comentários

  1. Igor Maxwel

    “Close to the Edge” pela enésima vez? Puxa, vocês gostam mesmo de me fazer provocações com esse assunto…

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  2. Mairon Melo Machado

    Ótimas escolhas do Ronaldo. Discos realmente representativos de um monstro. Várias seriam outras boas opções para estarem aqui, mas prefiro não citar mais, pois essas cinco são realmente muito bem indicadas.

    Agora quanto ao Dixie Dregs, só eu lamento que o Steve Morse saiu do grupo e foi pro Deep Purple? Honestamente, não consigo achar nenhum disco da Mark VII em diante que se compare a obra do DD. Só eu que to louco?

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    • Ronaldo Rodrigues

      Valeu Mairon…pois é…tb gostaria que o Morse prosseguisse com o DD!
      Abraço,

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      • Igor Maxwel

        Pô Ronaldo, acho que você deveria mesmo era ter citado o Fragile em seu texto. Não vejo hoje mais graça alguma no CTTE…

  3. Diogo Bizotto

    Como apreciador de produções com qualidade e/ou personalidade, gosto muito quando esse trabalho é lembrado, e uma seção como essa presta-se muito bem a esse serviço. A lembrança a Eddy Offord é muito bem vinda. Os trabalhos que ouvi com sua assinatura são peculiares sem, contudo, soarem excessivamente homogêneos. Você disse bem: em poucos discos o baixo foi tão privilegiado quanto em “Close to the Edge”. Mesmo em grupos cuja liderança bem evidente era a do baixista, como Motörhead, Iron Maiden, Thin Lizzy e The Police, creio que o instrumento não tenha estado tão à frente.

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    • Ronaldo

      Valeu Diogo! eu tb aprecio e prezo muito esse tipo de trabalho. Vou dar sequência a este tipo de conteúdo e trazer a tona outros trabalhos dessa galera dos bastidores. Abraço!

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