Por Ronaldo Rodrigues

Inspirado por dois artigos do crítico André Barcinski e baseado em recentes experiências particulares como músico e produtor de meus próprios trabalhos, decidi partilhar algumas confabulações a respeito do mercado de música.

O assunto sempre desperta reações intensas, muita futurologia e desabafos. Os referidos artigos citam a constatada derrocada da indústria fonográfica, e de forma surpreendente e fundamentada, jogam pá de cal na falsa ideia de que a internet traria grandes benefícios para músicos e bandas (independentes e do mainstream). O alicerce da argumentação reside em dados sobre o mercado fonográfico nos EUA: a fatia de 1% dos músicos mais ricos em 1982 concentrava menos renda do que os 1% mais ricos em 2015, apenas 6,26% de todos os discos lançados em 2010 venderam mais do que 1.000 (mil!) cópias, 29 artistas diferentes chegaram ao topo das paradas em 1986 e apenas 6 artistas diferentes chegaram ao mesmo topo entre 2008 e 2012. Ou seja, a música diminuiu de tamanho e se concentrou.

E isso é mais alarmante ao constatarmos a quantidade enorme e quase incontável de discos lançados por ano no mundo. Uma prova simples disso é a própria seção de lista de melhores discos do ano realizados aqui pela Consultoria do Rock – os colegas do site não fizeram suas escolhas a partir de terem ouvido mais ou menos o mesmo conjunto de discos, pelo simples fato de que cada um foi atrás de um estrato definido de estilos e estéticas que mais lhe interessam. Outros dois fatos alarmantes – a população da Terra cresce (hoje somos mais de 7 bilhões de pessoas) e grande parte dessa população tem acessos a eletroeletrônicos portáteis aptos a ouvirem música e conectados à Internet.

Ou seja, estamos diante de uma concentração sem precedentes da pirâmide musical, quando deveríamos estar contemplando uma época absolutamente plural, diversificada e sofisticada em termos de música. Há música em abundância sendo feita em todas as partes do mundo e há um mercado potencialmente consumidor gigantesco que poderia ter acesso a ela. Mas o que vemos é um mercado musical concentrado em pouquíssimos nomes de abrangência global e todo o restante absolutamente fragmentado.

Se raciocinarmos de forma estritamente mercadológica podemos imaginar o panorama. A indústria fonográfica moldou a produção de música e junto dela se montou uma estrutura similar a que é estabelecida para a venda e distribuição de qualquer produto – o produto (a música) é fabricado e busca-se o mercado para que este produto possa ser distribuído e atinja o público. Na parte da distribuição a teia é complexa – é preciso um local para a música ser apresentada (shows, rádios), uma cadeia de propaganda para fazer com que o produto seja conhecido e desperte o interesse dos consumidores (mídia, revistas especializadas, etc.) e um local para que possa ser vendido (lojas de disco). Para tudo isso funcionar é preciso também equilibrar oferta e demanda – não adianta oferecer mais produto (ou mais variedade de produtos) do que aquilo que as pessoas são capazes de consumir. Mas especialmente é preciso fazer o produto chegar até as pessoas. Podemos aplicar esse raciocínio à grande maioria de produtos do nosso cotidiano.

A indústria fonográfica, ao longo de várias décadas, fez essa roda toda girar. E ainda que demonizada pelos abusos e os interesses desenfreados, atuou como um grande filtro – investiu em talentos, fez apostas muitas vezes arriscadas e criou estrutura para que grandes obras musicais fossem bem gravadas e atingissem o público. Críticas (merecidas) podem ser feitas à vontade, mas não fosse pela atuação da indústria fonográfica, nomes como Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, The Who, Jimi Hendrix, The Doors, Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, Yes, ELP, Genesis, Pink Floyd, Queen, Kiss, David Bowie, Iron Maiden, Judas Priest, Whitesnake, Van Halen, U2, Guns Roses, Pearl Jam, Nirvana, etc., etc., etc., não chegariam onde chegaram. E dificilmente escreveriam a história que escreveram sem a indústria fonográfica. Por um grande motivo – a indústria fonográfica fez a música chegar até as pessoas.

A internet foi capaz de desarticular toda a cadeia da indústria fonográfica em poucos anos – o mp3 deu corpo àquilo que se fazia com fitas k7, já que era possível obter música de qualidade sem pagar e com uma disponibilidade grotesca de itens; a onda de miniaturização dos dispositivos varreu os formatos físicos dos álbuns e o colecionismo; a crítica musical foi vilipendiada e colocada no mesmo nível da opinião dos fãs com as redes sociais; programações de rádios foram colocadas de lado em favor de playlists personalizadas e publicações impressas perderam valor em um universo onde cada um pode fazer o seu próprio “jornalismo”.

Além das questões postas acima a respeito da internet, a desarticulação da indústria fonográfica também tem uma vertente oriunda de “dentro para fora”. Artistas inconformados com falta de liberdade artística e presos a contratos leoninos, começaram a buscar se lançar de forma independente. O que surgiu a partir de um comportamento legítimo, obriga hoje o artista à, desamparado da estrutura de promoção e distribuição das gravadoras, a ser músico e também o próprio (e em muitos casos o único) divulgador de seu trabalho. Na teoria isto pode até funcionar e era o que se pensava nos primórdios da popularização da internet, com a chamada “teoria da cauda longa”. Mas na prática vê-se que é praticamente impossível atingir alguma escala de produção musical desta forma.

A concorrência entre os músicos aumentou dramaticamente, com a facilidade de se gravar um disco com boa qualidade. Um músico, hoje, está sempre rodeado de centenas (para não dizer milhares) de outros músicos também tentando divulgar por si só o próprio trabalho, fazendo isto praticamente da mesma forma através das redes sociais. E fazendo isto em um contexto no qual as pessoas, pelo efeito da internet e do mp3, se desacostumaram a “pagar” pela música. Em suma – há muita oferta de “produto”, nenhuma estrutura para difusão em larga escala, e poucas pessoas interessadas em comprar este produto.

Para tentar tornar mais claro o raciocínio, faço uma analogia: se a Coca Cola falisse e houvesse uma explosão de pequenos fabricantes regionais de bons refrigerantes, que dispusessem apenas da internet e do boca-a-boca para divulgar seu produto, duas coisas provavelmente ocorreriam: 1) o mercado ficaria extremamente fragmentado a ponto de que quase nenhum fabricante conseguisse auferir lucros suficientes para continuar na atividade, e 2) o melhor panorama possível para os que conseguissem sobreviver seria ter um mercado consumidor local consolidado, o que seria conseguido apenas por um grande diferencial de qualidade, um bocado de sorte ou algum fator inusitado. Não estou fazendo nenhum juízo de mérito quanto ao tamanho que a Coca Cola tem no mercado de refrigerantes, mas apenas dando grande enfoque ao quanto a estrutura de distribuição é importante para que um negócio atinja uma escala minimamente razoável.

Nos parágrafos anteriores, tratamos dos aspectos relacionados à indústria fonográfica, que detendo uma estrutura de distribuição conseguia equilibrar oferta e demanda de música, e dos relacionados aos músicos, que ao passo que eram tolhidos pela indústria para sempre produzir conteúdo vendável, dispunham da estrutura oferecida para fazer sua música chegar até os ouvintes. Cabe agora tratar da terceira parte interessada nesta trama – o consumidor de música.

Poucos textos que analisam o mercado fonográfico discorrem com profundidade sobre o comportamento do público consumidor e muitas vezes embalam suas análises em clichês. Mas, em essência, o comportamento do público pouco mudou em todas essas décadas e se fizermos novas analogias veremos que o consumidor raciocina da mesma maneira como que para outros produtos. Coloco em pauta novamente a questão da distribuição – em décadas passadas, as pessoas ligavam o rádio e eram expostas à música. Aquilo que elas ouviam e as agradavam poderiam faze-las comprar um disco. Além do mais, a variedade de música produzida não era tão grande quanto a de hoje e a programação das rádios, por mais ecléticas que fossem, investia na repetição de um conjunto limitado (seja por jabá ou pelo gosto particular do programador) de canções, o que garantia que elas fossem assimiladas pelo máximo de pessoas durante um certo período. Esse modelo permitia que uma banda ou uma canção ficasse conhecida pelas pessoas, que seus discos fossem vendidos ou seus shows vistos.

É importante salientar que neste modelo o consumidor de música tinha um papel “semi-passivo”. Ele tinha o interesse em música e tomava a decisão de ligar o rádio; o restante da roda girava por força da indústria e pela qualidade do que era oferecido. Como a estrutura de distribuição de música não existe mais, espera-se hoje que o consumidor de música assuma um comportamento bastante anti-natural, quase uma excepcionalidade. Vou dar um exemplo deste raciocínio:

Pensemos nos supermercados – o consumidor quer/precisa de certos produtos para abastecer sua casa e toma a decisão de ir até um local onde esses produtos são oferecidos. Ele prefere ir à um local onde possa fazer tudo de forma concentrada, tendo um bom conjunto, porém racionalmente limitado, de opções de compras de cada item que deseja. Eventualmente ele é exposto à itens que não quer (ou não precisa) mas se interessa por eles, pelo preço ou por outros aspectos menos tangíveis. Eventualmente, algum produto lhe é oferecido de graça, para que ele conheça uma nova marca, e alguns produtos são postos em posição de destaque, com o objetivo de atrai-lo. Ele separa o que quer/precisa, passa no caixa e paga por aquilo que levou. Qualquer um de nós sabe o quanto é difícil alguém ter disponibilidade de tempo e interesse em procurar produtos alternativos, de outras marcas além das mais populares, de pequenos produtores, de feiras ou juntas locais, visitar propriedades rurais atrás de especiarias ou produtos frescos, dentre outros. A maioria das pessoas vão até um centro de consumo (em geral o mais perto disponível) e consomem o que é ofertado. A lógica do supermercado é de que o produto é que vai até as pessoas e esta lógica é a que permite ter escala suficiente para oferecer itens razoavelmente variados, com preço razoável e garantindo lucratividade.

Com o rádio acontecia algo parecido. O sujeito queria ouvir música e era como se passeasse por um supermercado. Alguns amostras grátis lhe eram oferecidas, mas se ele quisesse desfrutar mesmo daquela música, comprava e levava para casa. É besteira pensar que a indústria fonográfica lucrou e sobreviveu décadas a fio a partir da busca ativa dos ouvintes; que os ouvintes iam até as lojas de discos e ficavam ouvindo centenas de discos até selecionarem os itens que iriam comprar. O grosso do consumo sempre esteve fundamentado na distribuição; o ouvinte adquiria aquilo à que era exposto ou ao que era comentado na mídia, que lhe agradasse ou despertasse grande interesse. O que era oferecido pelo rádio, tendo qualidade e/ou tendo muito apelo em determinado contexto, vendia.

 

E parece ser assim nessa excepcionalidade que os músicos que se auto-produzem pensam ser possível progredir – aguardando a busca ativa dos ouvintes. Considero isto bastante improvável por alguns motivos: 1) a oferta de opções de entretenimento barato (ou até gratuito) é muito grande nos tempos atuais; 2) a quantidade de música produzida atualmente é enorme e dificilmente será assimilada integralmente desta forma; 3) há um paradigma de imediatismo e descartabilidade; 4) há uma competição enorme entre o “velho” e o “novo” na música. Para este último ponto, fica claro entender o quanto a competição é desfavorável, já que o “velho” teve um suporte de investimento em distribuição de larga escala e o “novo” não. O “velho” ronda o ouvido das pessoas há muito mais tempo e já ultrapassou a curva de assimilação (além das qualidades musicais que carrega para tal) o que gera as trágicas comparações do tipo “antigamente o som era melhor”. Há vários outros aspectos que podem abordados na questão do consumo de música, mas que podem ser tratados mais profundamente em outra ocasião.

E por fim – quais as perspectivas para o futuro? de forma serena, aponto dois conjuntos de possibilidades: uma construção/reconstrução de estruturas de distribuição de música até um certo porte mínimo (seja porque as pessoas percebam que isso tem importância ou por movimentos do próprio mercado) ou o fim da profissão de músico. Essa segunda possibilidade não é fatalista – a música pode continuar existindo sem que haja músicos profissionais. A música simplesmente deixaria de ser integralmente uma profissão e passaria a ser um ofício, uma atividade a ser desempenhada apenas eventualmente (e que não exclui a possibilidade e a necessidade de ser executada com profissionalismo). Essa realidade já existe para muita gente no Brasil (eu incluído) e em outros países mais desenvolvidos.

11 comentários

  1. Diogo Bizotto

    Extremamente lúcidas e necessárias suas reflexões, Ronaldo. Melhor ainda pelo fato delas não terem caído na estupidez de segregar a música por gêneros e usar esse fato para apontar culpados, como se a problemática da produção, da distribuição e do consumo de música não fosse muito mais estrutural do que ligada ao sucesso ou ao fracasso desse ou daquele estilo.

    Ainda bem (mesmo!) que você citou essa questão da cauda longa. Ao longo da década passada e do início desta, vi muitas e muitas vezes pessoas usando essa teoria como sugestão de que viveríamos tempos melhores em relação ao consumo de arte, de literatura, de tudo o mais que pudesse se encaixar nessa teoria. O que me parece é que os responsáveis por levar esse pensamento adiante não consideraram aspectos econômicos que garantam uma mínima lucratividade e motivem os produtores de conteúdo (odeio esse termo, mas vamos lá, não me refiro apenas a arte) a prosseguir com sua atividade. Uma coisa é comprar vegetais orgânicos do agricultor que reside a 30 quilômetros de onde a gente mora e toda quarta-feira e todo sábado traz seus produtos com seu caminhãozinho e vende em uma feira no nosso bairro, outra coisa é a mediação com produtos que exigem processos mais complexos de produção, como aqueles ligados ao mercado fonográfico e ao editorial, consequentemente com custos muito mais altos e um nível bem maior de complexidade.

    Nunca tive a infantilidade de demonizar a indústria musical. Por mais que ela mereça muitas críticas, tanto por sua relação com uma enorme parcela dos artistas quanto por seus métodos de divulgação, que incluem (ou pelo menos costumavam incluir) táticas dignas de gângsters, como a distribuição de cocaína para DJs cuja influência pode determinar se uma canção fará sucesso ou não, sei que ela foi extremamente vital no surgimento e na consolidação dos maiores nomes cujo surgimento testemunhamos nas últimas seis décadas. Caras como Ahmet Ertegun, Don Kirshner, Berry Gordy e Derek Shulman, por exemplo, foram importantíssimos.

    O aspecto mais importante do seu texto é justamente apontar o desmantelamento desse sistema de distribuição como ponto nevrálgico da problemática vivenciada hoje em dia. Isso pode não afetar tanto quem está no topo (em partes afeta, basta ver quanto vende um artista GRANDE hoje em dia e quanto vendiam vários artistas mais ou menos nas décadas de 1970 e 1980), mas aqueles que estão do meio pra baixo sofrem demais com o pouco alcance que suas obras têm, tanto em termos de divulgação eficiente (página no Facebook pode atingir gente lá da Cochinchina, mas sérá que isso é eficiente mesmo?) quanto de colocar um produto minimamente rentável ao acesso dos consumidores (streaming é rentável para os pequenos? duvido muito).

    Teria mais coisas a dizer, mas vou esperar o pessoal se manifestar. Por ora, meus mais efusivos cumprimentos por esse texto totalmente necessário e bem argumentado. Valeu, Ronaldo!

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    • Ronaldo

      Obrigado pelos comentários, elogios e por fomentar a discussão, Diogo! eu particularmente me considero um “decepcionado” com a internet atualmente, ainda que dela eu tenha usado para obter grande parte do meu conhecimento musical. Mas a informação só se traduziu solidamente em conhecimento a medida em que migrei do virtual para os itens físicos (revistas, livros, discos). A internet foi só um meio para acelerar o processo. E vi que mesmo tendo prestado muita atenção naquilo que baixava, o volume de conteúdo me leva inevitavalmente a tratar aquilo superficialmente e não absorver seu conteúdo integralmente.
      Os textos do André Barcinski são ótimos e com uma crítica contudente sobre isso. Veja os links quando puder:
      https://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2017/04/12/cade-a-tal-da-democracia-digital/

      https://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2017/06/21/e-ai-ja-esta-com-saudades-das-grandes-gravadoras/

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      • Diogo Bizotto

        Ronaldo, eu seria muito, mas muito cínico se tirasse qualquer pouquinho do valor que a internet teve para mim como explorador e conhecedor de música. Ao mesmo tempo em que o ônus é sim pesadíssimo, o bônus também é gigante. Comparando com alguns caras aqui do site e os muitos colecionadores com os quais conversamos, tenho uma quantidade de discos bem modesta, mas comparando com o que é o normal para um ouvinte médio, até que tenho um volume considerável de CDs, vinis, DVDs, livros e revistas, coisa que dá pra medir em centenas de itens; não em dezenas, mas também não em milhares. Hoje em dia não compro quase nada. Exceções ocorrem quando algum artista do qual gosto muito mesmo lança disco novo, algum relançamento interessante… Esse tipo de coisa. Posso dizer que já azeitei muito as engrenagens desse sistema e botei uma quantidade considerável de dinheiro nesse pequeno vício. Já comprei em hipermercado, loja tipo franquia, livraria, loja pequena, loja das antigas, sebo, feira de vinil, da mão do músico… Isso me exime de alguma espécie de “culpa” por obter conteúdo via internet, sem pagar? De maneira alguma, mas definitivamente não é por causa de pessoas como eu que a indústria vem se desmantelando (ao menos para os médios e pequenos). Abrir mão disso significaria abrir mão da maior parte do que ouço e conheço. E sim, você está certíssimo quando afirma que o volume excessivo gera um efeito reverso, que é absorver apenas superficialmente aquilo com que travamos contato. Ótimos os artigos do Barcinski. O segundo vem muito naquilo que eu disse sobre ser errado demonizar as gravadoras, quando foram elas que permitiram que muito daquilo que há de mais referencial fosse registrado e lançado. A verdade é que fazer música custa caro, e não me refiro apenas a gravar e lançar. Com um violão barato até se faz um sonzinho, mas criar música com esmero e qualidade é privilégio para quem tem alguns (bons) milhares para gastar em instrumentos, amplificadores, pedais, cordas e todo o pacote. Não à toa a qualidade das gravações tem muito mais decrescido do que crescido, pois haja dinheiro para se fazer como se fazia antigamente, com equipamento analógico, profissionais gabaritados e tempo de estúdio suficiente para deixar tudo nos trinques. Eu ouço certas coisas recentes e dá um desânimo danado, pois as gravações soam amadoras demais. Bom, já viajei demais. Desculpe a demora para responder.

  2. Ronaldo Serpa

    Fala Xará!

    Brilhante a sua lucidez no artigo. Eu citaria aí também no processo de mudança de distribuição da música o fato que hoje em dia, salvo engano, não há tanto interesse como havia no início dos anos 90 (tempos áureos da MTV). Isso acaba dificultando um pouco mais a divulgação do trabalho dos artistas, pois é um meio de comunicação a menos para os músicos divulgarem seus trabalhos.

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  3. Ronaldo

    Créditos das fotos (a primeira e a última deste post) – o fantástico site Dust and Grooves.

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  4. Rodrigo Fernandez Monteiro

    Que bela e profunda reflexão!! Como inicialmente um consumidor contumaz da indústria fonográfica, passando á seguir para o mercado em si, pois vendi discos quase a minha vida inteira ( sim, eu tive uma vida, quando estava nas lojas em que trabalhei ou fui proprietário) me pego a pensar: Desde Sam Philips, Coronel Parker, Brian Epstein, Allan Freddy, Carlos Imperial, o mundo da música sempre foi um reflexo da sociedade. Ás vezes o oposto!! Esse paradoxo aconteceu cada vez que um visionário da indústria ou mercado fonográfico vislumbrou uma nova onda, capaz de gerar grandes lucros, tomando a frente de um movimento, conectando-se, plantando links que pudessem levar esse propósito até um bom lugar para alguns envolvidos. Lembro com perfeição, da estratégia de vendas de uma “major”. O vendedor chegava na loja, com um pré disco, ás vezes um ep, alguns documentos impressos, mostrando as posições em que essas canções apareceriam nos programas de maior audiência da época, três meses antes da exibição do programa….Algo muito bem estruturado, construído de uma maneira que inevitavelmente o sucesso seria atingido.
    Sempre fui um contemplador de canções. Sempre busquei o equilíbrio de usar esse sistema, contudo, minha verdadeira arte residia em descobrir pérolas, verdadeiros tesouros, escondidos em pequenos selos, minúsculas gravadoras. Fiz acontecer na região sul do RS, várias obras, de artistas desconhecidos, do país e exterior. Lembro com muito carinho, de um caso peculiar: Garimpei, descobri atirado no fundo amarelado de um catálogo de uma pequena gravadora de SP, um disco que tinha um potencial infinito. Comprei 25 unidades. Quando chegaram na minha loja, abri calmamente a embalagem de um. Caminhei até a frente da loja para olhar a cor do céu, a direção do vento, os olhares dos que passavam. Era o meu método de saber qual música botar para tocar( Os antigos vendedores de discos, tinham esse dom) Lembro de colocar a faixa de número 3 para tocar primeiro… Parecia o Flautista de Hammelin atraindo os ratinhos. Vendi as 25 unidades em menos de 40 minutos. Encomendei mais 4 caixas( 100 unidades). O vendedor achou que eu havia enlouquecido. O tempo foi passando, eu comprando cada vez mais e vendendo mais esse título. Os consumidores obviamente começaram a pedir esse título, nas outras lojas da cidade, buscando preço mais baixo. Nenhum outro lojista conhecia, contudo a procura era tanta, que descobriram e começaram a comprar. Algumas dessas lojas, eram filiais de grandes lojas da capital. Sendo assim, esse título estourou em todo RS. O mais interessante de tudo isso, foi a promessa do vendedor dessa gravadora, que eu iria receber um disco de ouro, pelo “trabalho prestado”. O que recebi, de fato, foi um título protestado em cartório, por ter atrasado um pagamento por dez dias……
    Os novos formatos de mídia, acabaram também com o ritual de adentrar uma loja de discos, e relaxar, esquecer os problemas em meio á cores, acordes, e bons papos. A viagem de explorar o projeto gráfico de um vinil, até mesmo de um cd, digerindo a ficha técnica, vendo as participações especiais, até os agradecimentos e patrocinadores enrustidos de cada músico integrante. Tudo isso e muito mais perdeu-se.
    As lendas perderam-se…

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    • Mairon

      Mas bah, fiquei curioso agora para saber a cidade, e qual disco era …

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      • wagner

        tambem fiquei pensando q disco era esse

  5. Marco

    Até entendo que por ser um site dirigido à música a preocupação com o tema seja prioridade, mas a realidade é que o mundo está mudando rapidamente e estamos vivendo em uma sociedade em transição, e não só na música e nas artes em geral. Existem exercícios de futurologia muito interessantes pipocando dia sim, dia não. E eles apontam para mudanças drásticas e imediatas. O avanço da tecnologia está pondo um fim em várias profissões tradicionais. E novas profissões estão surgindo a cada dia. Já existe até quem aponte para um mundo politicamente globalizado, com um presidente mundial gerindo toda a bagunça. A falta do mercado de trabalho como o conhecemos vai obrigar a uma distribuição de renda diferente, com o indivíduo sendo pago para ficar em casa e sustentar o consumo. Quem quiser trabalhar e estiver mais apto disputa as poucas vagas. O restante, a maioria, usa seu ócio para a criatividade (inclusive na música). E isso aqui não é roteiro para Jornada nas Estrelas data estelar 4195. Essas previsões são para a segunda metade deste século. No mais, ótimo texto Ronaldo.

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  6. André Kaminski

    Ronaldo, talvez você tenha escrito o melhor texto que eu já vi na internet sobre esse tema, sem paixões ou demonizando uma engrenagem que vê como defeituosa nessa máquina que é a música por si.

    Eu mesmo já comentei em várias outras matérias sobre o que você colocou, embora você tenha expandido muito mais do que eu conseguiria ter feito. Falar sobre a música no mundo hoje em dia é como falar dos problemas da educação do Brasil: são centenas de fatores, sejam grandes ou pequenos, que contribuem para a decadência de ambas.

    Comentando rapidamente sobre cada aspecto tratado, eu concordo que não devemos demonizar as gravadoras. Como qualquer empresa, essas fizeram a sua parte de tentar lucrar e oferecer o seu serviço de divulgação e produção de discos que hoje apreciamos em nossas coleções. Não sei se você concorda comigo, mas um dos defeitos delas eu percebi faz uns 8 anos mais ou menos, quando eu ouvia muitas bandas novas na época em que o MySpace bombava. Olhava as composições demo e me admirava com muitas dessas bandas compunham canções interessantes e que com uma produção melhor, poderiam se tornar excelentes, talvez até novos clássicos. Mas não raro, quando a banda lançava o seu primeiro full lenght, as novidades daquelas canções eram limadas para um modelo quase pasteurizado de composições que soariam hoje como “mais do mesmo”. Dá para considerarmos que em muitos casos, parece que caiu a qualidade dos nossos produtores em querer se manter “seguro naquilo que conhece e que possa garantir suas 1000 cópias vendidas” do que incentivar a banda a compor melodias melhores ou acreditar e trabalhar naquelas ideias que a banda já criou. Daí para a banda bater de frente com o produtor da gravadora que investiu em ti parece ser coisa para poucos.

    Sobre o lado dos músicos, você tem toda razão: em qualquer estilo, há simplesmente uma tonelada de gente fazendo música. Não tem como, mesmo aquela tua banda parceira que você quer que cresça contigo, acaba se tornando uma concorrente quando se trata dos poucos que ainda gastam em música a escolher comprar um cd ou ir a um show.

    Quanto as rádios, perceba que elas ainda são as que mais determinam que aquilo que elas tocam será um sucesso. Independente da qualidade ou não. A TV só busca dar audiência para artistas que estão ainda “bombando” nas rádios. Pabblo Vittar, Maiara e Maraisa tocaram muito nas rádios antes de surgirem na tv. Mesmo a internet foi pouco necessária para o sucesso de todo o atual sertanejo universitário. Vamos admitir uma coisa: muita gente adora o que é sucesso nas rádios e ouve muito sertanejo universitário, mas não pega bem ficar divulgando isso no facebook. Não é “cool”. Logo, para curtir o estilo, nada melhor do que ir a um show ou ligar o rádio na sua estação favorita.

    Sobre o consumidor, é fato que esse problema de não ver música como algo “que deva ser comprado” feito graças a internet. Porém, aí temos mais uma infinidade de problemas. Música é uma forma de entretenimento. E atualmente temos ainda mais formas de entretenimento do que antes: filmes, videogames, redes sociais, eventos de todos os tipos. Mais concorrência para o seu dinheiro em relação a música.

    Agora há um ponto interessante com relação a tudo isso para pensarmos: os filmes. Mesmo com a pirataria filmográfica rolando solta internet afora, por que os filmes continuam gerando um dinheiro absurdo e as pessoas continuam pagando para ir ao cinema? Isso que filme é algo diferente, dificilmente veríamos o mesmo filme mais do que uma vez, enquanto que um show do seu artista favorito ou um disco dele pode ser apreciado infinitas vezes sem perder o valor. Será que é pelas produções se concentrarem em Hollywood? O que a indústria cinematográfica fez que a musical não fez?

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