Por Adrian Dragassakis

Após lançar dois bons álbuns, o debut Boy (1980) e October (1981), com letras baseadas na vida adolescente dos quatro garotos de Dublin e temas sobre religião e espiritualidade, o U2 lançaria em 1983 o seu trabalho mais sólido, até então. Com letras mais agressivas e maturidade sonora, War tiraria o U2 dos pequenos clubes aos quais faziam shows para tocar em grandes arenas e estádios em todo o mundo, se tornando o primeiro álbum da banda a alcançar o primeiro lugar das paradas do Reino Unido.

Apesar de lançar ótimas canções em seus álbuns anteriores (com direito à videoclipes, com “I Will Follow” – até hoje muito querida pelos fãs, e “Gloria”, a qual possui uma ótima performance por parte dos músicos), o primeiro grande sucesso do U2 é a faixa de abertura, “Sunday Bloody Sunday”. Influenciado pelo ritmo da bateria militar, Larry Mullen Jr, fundador da banda, inicia o álbum com uma das introduções mais famosas do grupo irlandês, seguido pelo riff de guitarra minimalista e bem pensado por The Egde, acompanhado pela brilhante linha de baixo de Adam Clayton. Percebe-se também a evolução de Bono como vocalista e compositor. A canção foi baseada no “Bloody Sunday”, ocorrido em Derry, na Irlanda do Norte no ano de 1978, quando tropas britânicas atacaram manifestantes e pessoas que nada tinham a ver com as manifestações nas ruas, deixando 13 mortos e 17 feridos. A canção tem o apelo: “até quando cantaremos essa canção”, o que a torna ainda atual, em todo o mundo.

“Seconds” segue com a bateria de Larry Mullen inspirada nos anos em que foi músico da banda militar. The Edge compôs os primeiros versos da canção e resolveu também, gravar os vocais. Os menos atentos podem até confundir com a voz de Bono, pelos timbres serem semelhantes e também pela qualidade vocal do guitarrista, que mostraria ainda mais esse dom nos álbuns seguintes. A letra também trata sobre guerra e ataques nucleares. “Levamos apenas alguns segundos para dizer adeus”, como o refrão da música diz. Apesar do tema pesado, a música é menos densa e até animada, ritmicamente falando.

“New Year’s Day” talvez seja a música que junto com “Sunday Bloody Sunday” naquela época, tenha levado o U2 ao patamar de banda gigante que é até hoje. Com uma linha de baixo que surgiu por um feliz engano, enquanto Adam Clayton tentava tocar uma música do grupo Visage, chamada “Fade to Grey”, a faixa tem uma das melhores performances da banda, além do riff inconfundível de teclado e um dos melhores solos de guitarra de The Edge. A versão de estúdio da música possui alguns versos a mais do que a versão single e a versão que o U2 geralmente toca ao vivo. Apelidada por alguns fãs de “The Golden Age verse” (Oh, maybe the time is right. /Oh, maybe tonight[…] And so we are told this is the golden age/And gold is the reason for the wars we wage). Recentemente, na “The Joshua Tree Tour”, a banda executou ao vivo a música conforme ela foi gravada, com esses versos.

A faixa ganhou um videoclipe gravado no norte da Suécia, em meio a neve. Conforme uma citação de Bono, no livro U2 by U2, “a letra da música circula em torno de imagens. Eu estou pensando em Lech Walesa, o líder da Solidariedade Polonesa. A imagem dele, em pé sobre a neve, um sentimento de que tendo abandonado a banda por Deus, nós queríamos começar de novo. E nós começaríamos mais uma vez, de um modo diferente, repetindo um lema que nós continuaríamos pelo resto das nossas vidas. ‘I will begin again. I will begin again’. A neve como uma imagem de rendição e cobertura e esses pequenos vislumbres de narrativa, na verdade, eram apenas desculpas para o tema que era Lech Walesa sendo preso e sua mulher sendo impedida de vê-lo. Depois, quando nós tínhamos gravado a música, eles anunciaram que a lei marcial seria suspensa na Polônia no Dia de Ano Novo – incrível.”

Larry Mullen Jr (bateria), Adam Clayton (baixo), The Edge (guitarra, teclado e vocais) e Bono (vocais).

O álbum segue com “Like a Song…” talvez a música com a levada mais post-punk da banda. Fala basicamente sobre ditadores de regras sobre o direcionamento musical da banda até então. Coisa que o U2 sofreria, com razão ou sem, anos depois, até os dias atuais. É uma bela canção que raramente foi tocada ao vivo. “Drowning Man” é a quinta faixa do álbum e traz uma das mais belas melodias criadas de forma simples, com os harmônicos e batidas fortes do violão de The Edge, com uma letra profunda composta pelo guitarrista. Bono, mais uma vez, mostra que é dono de uma grande voz e um excelente intérprete. Segundo o vocalista, no livro U2 By U2, “ela (“Drowning Man”) tem um ritmo meio obscuro, como um 5/8, e eu improvisando à la Van Morrison, gemendo conforme as Escrituras.” Infelizmente, nunca foi tocada ao vivo, exceto por alguns trechos, inseridos em outras músicas.

“The Refugee” é mais uma canção que pode trazer certa polêmica, desde a época, sobre refugiados. Até hoje a banda trata esses temas (como na faixa “American Soul” do álbum Songs of Experience, de 2017). É uma canção alegre e até dançante, servindo de passagem para a excelente “Two Hearts Beat as One”. Confesso que essa foi uma das músicas as quais demorei anos para conseguir gostar, não sei como. Possui um instrumental fantástico, destacando o excelente trabalho de Adam Clayton. No meio de músicas densas, sobre guerras, houve espaço também para falar sobre amor. Muitos dizem que ao lado de um grande homem, existe uma grande mulher. E neste caso, é Ali Hewson, esposa de Bono, que o ajudou a manter de pé a sua carreira ao decorrer dos anos. É uma das muitas músicas da banda dedicadas à ela.

“Red Light” segue mais experimental e diferente, incluindo saxofones, vocais femininos (gravados em alguns desses lugares onde haviam as luzes vermelhas? Vai saber…) e à sua maneira, também é uma canção de amor, menos densa que as demais. “Surrender” volta com tudo, mas com uma mensagem mais positiva, sobre superação. Até remete ao que o U2 fez em October, compondo músicas voltadas mais aos temas do Cristianismo.

The Edge e Bono, durante a “War Tour”, de 1983.

Enfim, o álbum tem seu encerramento com a faixa “40”. Sobre ela, The Edge conta: “Havia outra música que nós tínhamos trabalhado e eventualmente abandonado. Ela tinha um baixo muito forte, tinha uns arranjos um pouco pesados com muitas sessões estranhas e trocas de tempo, mas nós falhamos em colocar isso tudo junto em uma música coerente. Alguém disse, “Vamos trabalhar naquela melodia, e ver o que nós podemos fazer com ela.” Decidimos retirar as batidas que não estavam funcionando – literalmente, então o Steve (Lillywhite, produtor do álbum) fez rapidamente algumas edições múltiplas e tirou qualquer sessão que parecia não fazer parte da idéia principal. Então no final nós tínhamos um pequeno pedaço de música pouco comum e dissemos, “Ok, o que nós iremos fazer com isso?”, o Bono disse, “Vamos fazer uma passagem do salmo”. Abriu a Bíblia e achou o salmo 40. “É isso. Vamos fazer isso.” E em quatorze minutos nós trabalhamos os últimos elementos da melodia, o Bono cantou e mixamos.”

“40” apesar de parecer uma simples música baseada na Bíblia e no gospel, levanta a bandeira branca, depois de tantas guerras e tentativas de viver momentos de paz e amor, retratados no álbum. O mesmo verso “Até quando cantaremos essa canção” é repetido na faixa, como uma esperança de que um dia, tudo ficaria melhor. É também uma das canções que fechou alguns shows da banda, como os concertos da própria tour do álbum War, “PopMart” e “Vertigo Tour”.

O grande alcance dos singles “Sunday Bloody Sunday”, “New Year’s Day”, “Two Hearts Beat as One” e “40”, a banda ainda gravaria um disco e um VHS ao vivo, intitulado Under a Bood Red Sky – Live from the Red Rocks, sendo este, o primeiro registro ao vivo oficial da banda.

Capa do disco ao vivo Under a Blood Red Sky, registro da “War Tour”, de 1983

Um fato curioso (e até inusitado) sobre a influência de War, é que Max Cavalera, então líder do Sepultura, disse ter escutado muito esse álbum durante as gravações de Beneath the Remains (1989) e que muitas letras foram inspiradas nas músicas dos irlandeses. O mesmo conta em uma entrevista para a revista Metal Hammer, que o verso “Under a Pale-Grey Sky” da música “Arise”, do álbum homônimo de 1991, foi inspirado diretamente na letra de “New Year’s Day”.

Lançado em 28 de fevereiro de 1983, War completa 35 anos em 2018. E não custa perguntar, mas, até quando cantaremos essa canção?

Tracklist:

1. Sunday Bloody Sunday
2. Seconds
3. New Year’s Day
4. Like A Song…
5. Drowning Man
6. The Refugee
7. Two Hearts Beat As One
8. Red Light
9. Surrender
10. ’40’

4 comentários

  1. André Kaminski

    Eita Adrian, já encarnou o espírito Consultoria com um texto recheado de curiosidades, análises e fatos que jamais imaginaria (a exemplo de Max ter sido influenciado por este disco). Excelente matéria e que venham muitas outras!

    Eu não sou chegado ao U2 mas tem um pessoal que comenta direto aqui que é fã da banda. Tenho certeza que concordarão comigo.

    Responder
    • Adrian Dragassakis

      Opa! A intenção é essa, haha
      Muitas informações eu retirei do livro da banda. Sobre o Max, é bem inusitado mesmo, mas o próprio Andreas Kisser já disse que um grande sonho seria fazer algo com o U2. Lembrando que eles já gravaram um cover de Bullet the Blue Sky (já na época do Derrick Green). Isso sem contar outras bandas de metal que gravaram covers do U2, como o Anthrax (sim!!), Disturbed, Dream Theater, Queensrÿche, entre outras.

      Responder
  2. Mairon

    Como a Uol Host comeu nossos comentários dos Melhores de 1983, do qual War fez parte, coloco ele aqui novamente. Valeu Adrian

    “O U2 vinha havia três anos crescendo com sua música, e conseguiu alçar voos maiores com War. Apesar de muitos considerarem seu sucessor, The Unforgettable Fire, como o verdadeiro disco da virada, creio que foi em War que o U2 descobriu como mostrar suas canções-manifesto de forma a conquistar o mercado. Afinal, quem nunca vibrou com “Sunday Bloody Sunday” (que ganhou uma ridícula versão toda alegre pelo grupo brasileiro Sambô) que atire a primeira pedra. Mas War possui muito mais do que esse grande clássico dos irlandeses. O U2 ajudou a formatar o som dos anos 1980 com joias escondidas sob a sombra de “Sunday Bloody Sunday”, seja na simpática “Two Heart Beat As One”, na agitada “Like a Song…”, na dançante “The Refugee” ou na viajante “Surrender”. O que diferencia o U2 das outras bandas da época é a capacidade exploratória de faixas como “Seconds”, “Drowning Man” e “Red Light”, com a introdução de instrumentos diferentes ou passagens instrumentais/vocais que você não irá encontrar em nenhuma outra banda. Além disso, em War está contida a melhor música lançada nos anos 1980 pelo U2, “New Year’s Day”, com The Edge criando um riff hipnotizante nos teclados, e a obrigatória “”40″”, que a partir de então virou marcante nos encerramentos das apresentações da banda. Que bom que este disco está aqui, para amenizar a METALERA que virou esta lista de melhores de 1983.”

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.