Por Fernando Bueno

Quando saiu do Helloween em 1993, Michael Kiske se encontrou naquele limbo que todo músico de expressão fica em situações parecidas. Muitas especulações sobre novas bandas, inclusive até a possibilidade de substituir Bruce Dickinson no Iron Maiden – algo que, confesso, eu torci muito na época. Quando participou de uma faixa, “Time to Break Free”, do então recente álbum do Gamma Ray, Land of the Free (1995), muito se falou de uma possível volta aos tempos do Helloween com a parceria com Kai Hansen, já que Ralph Scheepers tinha saído da banda jurando que seria o novo vocalista do Judas Priest. Entretanto foi nessa época que começaram a surgir aquelas entrevistas em que o músico não deixava de alfinetar o mundo do metal, além de demonstrar que convicções religiosas também afetavam bastante essa ligação que ele tinha com o estilo.

Sua carreira artística foi retomada só alguns anos depois de sua saída do Helloween, em 1996, quando saiu seu primeiro disco solo. Instant Clarity é um álbum bastante variado em termos musicais. Tem grunge, orquestrações e faixas mais metal como “The Calling” composta por ele, Kai Hansen e Adrian Smith, que participaram também da gravação do disco e serve como um grande argumento para qualquer fã ouvir o trabalho, especialmente os de Iron Maiden. Mas, mesmo sendo bastante variado, é o metal que serve como base para todas as músicas do disco e isso causa estranheza à quem analisa a cena como um todo. Como ele continuou fazendo metal mesmo com as críticas que fazia constantemente? Alguns podem até dizer que a presença de Hansen e Smith sejam os motivos disso. Não posso deixar de citar a faixa “Always” que saiu em single e é uma homenagem ao baterista do Helloween Ingo Schwichtenberg, que havia se suicidado pouco tempo antes.

E é por isso que eu acho o tão esquecido Readiness to Sacrifice um álbum tão interessante. Lançado três anos após Instant Clarity apenas no Japão e Coréia – foi lançado no resto do mundo alguns meses depois – é um disco mais condizente com todo esse discurso que Kiske tinha ao longo daquele período. Nele conseguimos identificar o novo direcionamento que ele queria tomar na carreira que, ao meu ver, acabou vindo tardiamente. O álbum também coincidiu com a época em que o metal melódico estava vivendo seus anos dourados, basta ver que no ano anterior saíram Nightfall in the Middle Earth do Blind Guardian, Vain Glory Opera do Edguy, Legacy of Kings do Hammerfall e Symphony of Enchanted Land do Rhapsody, isso só para ficar em alguns. Lembrando que o metal melódico, ou o power metal, possuía muitos cantores que tinham em Kiske seu maior inspirador. Imaginem o que não seria para a carreira dele se estivesse em uma banda com esse direcionamento. Muito provavelmente seria um dos líderes do estilo. Mas ao tentar emplacar um álbum de melodic rock, ou até mesmo soft rock, acabou ficando deslocado e não recebeu a atenção que talvez merecesse.

O disco inicia com “Could Cry”. Kiske utiliza um tom bem abaixo do que os fãs estão acostumados e tudo se encaixa direitinho com as melodias instrumental, um soft rock bem acessível. Aliás, isso é recorrente no álbum como um todo. “Ban’em” é praticamente toda acústica e apresenta talvez a melhor faixa do disco, com um refrão que gruda na cabeça. Sua voz retoma em algumas passagens alguns registros que agrada os fãs mais antigos.

“Watch Your Blue” e “It” são mais roqueiras, mas sem muita agressividade em timbres e no instrumental. Já “Where Wishes Fly” é uma baladinha bem suave que poderia estar em algum disco solo do Bon Jovi e para manter o clima “Out of Homes” em que Kiske sobe um pouco o tom, mas mantém a suavidade. Se Kiske não abusou de seus dotes musicais durante todo o álbum parece que deixou tudo para “Easy”, uma música basicamente de piano e voz com um pouco de orquestração leve, que serve apenas para preencher alguns espaços, e que deixa a impressão de ter sido composto para demonstração vocal. “Shadowfights” também é inteiramente orquestrada. Dessas duas, essa última me agrada mais. Acho que as melodias são melhores e a voz não peca pelo exagero.

Uma curiosidade sobre o track list desse álbum é que as duas últimas faixas lançadas na versão oriental, a original conforme já explicado, “Easy” e “Shadowfights” são tratadas como faixas bônus. Porém quando relançaram o disco em sua versão europeia mais duas músicas foram acrescentadas “Catch the Rainbow” e “Rainbow Eyes”, ambas covers do Rainbow. Ou seja, não existe nenhuma versão do álbum apenas com as oito músicas do track list entendido como original.

Um fator que atrapalhou que Kiske tivesse uma carreira solo sólida foram as constantes mudanças, a perda de foco. Ele tentou montar uma banda de rock, o SupaRed, que foi um fracasso comercial e artístico. As participações que fez nos discos do Avantasia acabaram o trazendo de volta para o metal e o seu público. Mas também atrapalharam um pouco, pois não houve uma dedicação exclusiva em algo próprio. Além disso, projetos diferentes sendo tocados em concomitância também não ajudam a fixar a atenção dos fãs como foram o caso do Place Vendome, Unisonic e a parceria com a Amanda Somerville. Só para a informação não ficar incompleta mais dois discos solos foram lançados: Kiske em 2006, muito na linha de Readiness to Sacrifice, e Past in Differente Ways, de 2008, só com faixas da época do Helloween em versões acústicas.

Não sei o que vai acontecer com o cantor após o término dessa reunião como Helloween. Sobre esses shows e minha percepção do que está acontecendo eu já apresentei há algumas semanas atrás aqui mesmo no site. Se ele for voltar a fazer discos solos seria interessante que ele tentar se estabelecer mais solidamente, pois é uma pena que um cara tão talentoso e tão querido não consiga ter uma carreira por ele mesmo.

Track list:

01 – Could Cry
02 – Ban’em
03 – Philistine City
04 – Crosstown
05 – Where Wishes Fly
06 – Watch Your Blue
07 – Out of Homes
08 – It
09 – Easy
10 – Shadowfights
11 – Catch the Rainbow
12 – Rainbow Eyes

4 comentários

  1. José Carlos Araujo de Paula Souza

    Nunca ouvi esse álbum… Gosto bastante do primeiro, adoro o Place Vendome e o Unisonic, e gostaria demais que ele continuasse no Helloween pelo menos em um álbum e uma tour mais!

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    • Fernando Bueno

      Acho que a permanência dele no Helloween significaria uma quebra muito grande. Hoje o Deris é tão dono da banda quanto os dois fundadores. E não daria para permanecer os dois ao mesmo tempo. A não ser que haja algo muito fora do normal e Kai Hansen volte também. Aí poderia ser…Mas isso é uma possibilidade bastante remota.

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  2. André Kaminski

    Eu gosto muito do Place Vendome e do Unisonic, mas seus discos solo sempre foram meio xaropentos. Se ele quisesse se afastar do heavy metal, ele podia muito bem ter investido no AOR, fazer algo animado como um Journey ou um Asia, mas ficando nesses soft rock, ou pop “pseudo” rock me parece um desperdício para quem tem uma voz como a dele.

    No mais, você aliviou pegando uma foto antiga do Kiske. Na atualidade, ele praticamente se transformou no Tio Chico da Família Addams.

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    • Fernando Bueno

      Peguei uma foto da época André. Não é por que sou fã do cara que eu vou me preocupar com seu visual….hahahahaha
      Entendi o que vc falou. Pelo alcance vocal dele a gente sempre espera algo mais e ficar cantando na boa em “roquinhos” mais suaves talvez seja um desperdício mesmo.

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