Dee Dee Ramone – I Hate Freaks Like You [1993]

5 de outubro, 2017 | por micaelmachado
Resenha de Álbum
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Por Micael Machado

No final da década de 1980, o baixista e compositor Douglas Colvin (mais conhecido como Dee Dee Ramone) estava fascinado pela cultura do rap e do hip hop. Adotando o pseudônimo Dee Dee King, gravou e lançou um álbum com este estilo musical (Standing in the Spotlight, 1989), quase ao mesmo tempo em que anunciava sua saída dos Ramones, grupo primordial do punk rock, e do qual ele foi um dos fundadores. A saída de Dee Dee e o seu novo rumo musical chocaram os fãs da banda, que, por outro lado, não conseguiram ouvir virtudes no novo projeto de um dos maiores ícones que o punk já produziu.

Com o fracasso de seu novo projeto, e sem possibilidades de retorno ao seu grupo original (embora os Ramones ainda gravassem composições suas, como “Poison Heart”, “Strength to Endure” e “Main Man”, presentes em Mondo Bizarro, primeiro disco dos “brothers” nova-iorquinos sem Dee Dee), o músico acabou se envolvendo em alguns projetos de curta duração, chegando inclusive a integrar a banda do lendário GG Allin por pouquíssimo tempo! Em uma reunião dos Alcoólicos Anônimos, Dee Dee conheceu o também baixista Johnny Carco (ex-integrante do grupo de hardcore Misguided), e a dupla passou a compor junta, com Ramone assumindo agora a guitarra e os vocais, aliás, seus papéis originais no antigo grupo do músico. Após alguns shows com bateristas provisórios, Dee Dee e Johnny se mandaram para Amsterdam, onde registraram (junto ao baterista holandês Danny Arnold Lommen) um EP (intitulado Chinese Bitch) e um álbum completo, I Hate Freaks Like You, lançado em 1993 pela gravadora Rough Trade Records, com o trio se chamando Dee Dee Ramone I.C.L.C. (sigla para “Inter-Celestial Light Commune”, ou “Comuna da Luz Inter-Celestial”, seja lá o que isto signifique), e que marcou o retorno do (agora ex-)baixista à sonoridade do punk rock que o consagrou como ídolo!

Johnny Carco e Dee Dee Ramone, em foto presente no encarte de I Hate Freaks Like You

Das quatorze faixas do álbum, “All’s Quiet on the Eastern Front” é uma regravação de uma composição de Dee Dee utilizada anteriormente pelos Ramones no álbum Pleasant Dreams (de 1981), e que aqui aparece bem mais rápida que sua versão original. Já “I’m Making Monsters for My Friends” (que neste registro aparece em duas versões, uma abrindo o álbum, e outra o encerrando, tendo nesta a participação especial da cantora Nina Hagen, e algumas frases cantadas em alemão) e “It’s Not for Me to Know” apareceriam depois no último álbum dos “brothers”, ¡Adios Amigos! (de 1995), sendo que a segunda perde bastante força sem os característicos vocais de Joey Ramone, mas a primeira, especialmente na versão em dueto, acaba superando a versão posterior, a qual conta com o substituto de Dee Dee, CJ Ramone, nos vocais. Já em outras composições, o baixista “revisita” seu passado para criar novas faixas, como “I Hate Creeps Like You” (cujo riff principal lembra muito o de “Psycho Therapy”) ou “Chinese Bitch”, que possui aquela pegada de surf music que os Ramones por vezes usavam, além do riff inicial lembrar em muito o de “Sheena Is A Punk Rocker” (sendo que o “break” de “Beat On The Brat” também aparece claramente ali pelo meio).

A pesada “Curse on Me”, a acelerada “I Hate It” e a quase hardcore “Don’t Look in My Window” poderiam facilmente integrar qualquer disco dos Ramones dos anos 80, mas conseguem soar diferentes das composições que os “brothers” registraram neste período, assim como as mais calmas “Trust Me” (que não chega a ser uma balada, mas fica muito perto disso) e “Runaway” (com partes mais “intensas” e um excelente refrão), que lembram aquelas baladas clássicas que Joey compunha, mas, por terem a assinatura de Dee Dee, acabam soando distintas daquelas cantadas pelo eterno vocalista dos Ramones.

Se “Lass Mich in Ruhe” (que também conta com a participação especial de Nina Hagen nos vocais) é um poppy punk divertido e animado, “Life Is Like a Little Smart Alleck”, é bem mais rápida e suja, lembrando as bandas de garage rock dos anos 60. E a maior “surpresa” do álbum acaba ficando com “I’m Seeing Strawberry’s Again“, uma composição pesada e mais arrastada, que lembra algo da geração grunge (especialmente Stone Temple Pilots, que ficou na minha mente durante toda a audição da faixa), em um estilo bastante diferente do que que Dee Dee costumava compor, e pelo qual ele não viria a se arriscar dali em diante no restante de sua carreira.

Contracapa de I Hate Freaks Like You

I Hate Freaks Like You pode até não ser o melhor registro solo de Dee Dee (posto que talvez fique com seu registro posterior, Zonked!, gravado ao lado do guitarrista e produtor Daniel Rey e do baterista Marky Ramone, além de contar com as participações especiais de Joey Ramone e Lux Interior, o lendário vocalista dos Cramps – embora eu goste muito do único registro dos Ramainz, o ao vivo Live in N.Y.C., onde o músico revisita seu passado com os Ramones ao lado de Marky e de sua esposa Barbara Zampini, que também participa como baixista em Zonked!), mas foi bastante importante por ter trazido o compositor de volta ao punk rock, estilo do qual ele foi um dos principais ícones por muito tempo, e que ajudou a consolidar ao lado dos seus “irmãos” de banda. O álbum hoje em dia é bastante difícil de encontrar (eu tive a incrível sorte de achar uma cópia por um preço bem acessível em uma loja aqui de Porto Alegre algum tempo atrás), especialmente no nosso Brasil Varonil, onde nunca foi lançado por nenhuma gravadora. Se você ficou curioso e quiser conferir a bolachinha, lhe sugiro a versão lançada na vizinha Argentina, a qual vem com as quatro faixas do EP Chinese Bitch como bônus! Boa diversão!

Track List:

01. I’m Making Monsters for My Friends
02. Don’t Look in My Window
03. Chinese Bitch
04. It’s Not for Me to Know
05. Runaway
06. All’s Quiet on the Eastern Front
07. I Hate It
08. Life Is Like a Little Smart Alleck
09. I Hate Creeps Like You
10. Trust Me
11. Curse on Me
12. I’m Seeing Strawberry’s Again
13. Lass Mich in Ruhe
14. I’m Making Monsters for My Friends



2 Comentarios

  1. Anônimo de volta disse:

    Dee Dee Ramone era um músico genial. Ele era o melhor compositor dos Ramones. E digo mais, se não tivesse sido sua presença na banda, os Ramones não teriam passado de uma bandinha bubblegum punk. As músicas mais porradas e pesadas dos Ramones eram dele. E acho que Dee Dee sempre se sentiu frustrado porque nunca recebeu o devido reconhecimento da imprensa que sempre focou as atenções para o Joey ou para o guitarrista Johnny. Esse segundo disco solo dele é o melhor dele. O que veio depois, o Zonked é fraco e inconsistente. Foi o último resquício de genialidade do mestre Dee Dee.

  2. Anônimo de volta disse:

    Dee Dee era tão essencial e fundamental para os Ramones, que a maioria das músicas do Adios Amigos são dele. Depois que Dee Dee saiu da banda, os Ramones só continuaram por pura teimosia do Johnny. E C.J. deu novo gás ao grupo. Mas não chegava nem aos pés do Dee Dee. Apesar de ter composto duas canções boas no Adios Amigos que são I Got Alot To Say e Scattergun. Com todo o respeito ao Joey, mas ele não era bom compositor como era o Dee Dee. E a banda se tivesse continuado iria sempre precisar de uma mãozinha do Dee Dee para as composições.

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