Consultoria Recomenda: one-man bands

17 de junho, 2017 | por Fernando Bueno
Consultoria Recomenda
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Tema Escolhido por Ulisses Macedo

Edição de Fernando Bueno

Com Alisson Caetano, Christiano Almeida, Davi Pascale, Diego Camargo, Diogo Bizotto, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo

John Fogerty – Centerfield (1985)
Recomendado por Ulisses Macedo

O período pós-Creedence de John Fogerty é um tanto quanto conturbado. Suas intermináveis batalhas judiciais com a Fantasy Records o colocavam sob grande estresse e tomavam muito de seu tempo, bloqueando seu impulso criativo na segunda metade da década de 70, que já o havia rendido dois álbuns em carreira solo. Ao rescindir seu contrato com a Fantasy, em 1980, Fogerty renunciou de seus royalties do CCR, entrando num período de inatividade que, por outro lado, lentamente restaurou sua saúde mental. Enquanto sua motivação para compôr retornava, foi num jogo de baseball em São Francisco que o guitarrista, sentado com a visão alinhada à do Campista Central (‘Centerfield’, em inglês), teve a inspiração para o álbum que marcaria seu retorno ao mundo da música após um hiato de quase 10 anos: a faixa-título é o ápice da música de arena para o esporte, sendo homenageada no National Baseball Hall of Fame vários anos depois, ao passo em que “The Old Man Down the Road”, típica composição de rock sulista dessas que Fogerty adora criar, garantiu uma entrada no Top 10 da Billboard, tomando a liderança do disco. “Rock and Roll Girls” e “I Saw It on T.V.” são as composições mais agradáveis do álbum e remetem ao cotidiano do cidadão americano. Entretanto, é com a acusadora “Vanz Kant Danz” e na guitarra faíscante de “Mr. Greed” que somos surpreendidos por um músico que não quer deixar as pelejas para trás, entrando em mais brigas com seu eterno arqui-inimigo, Saul Zaentz. De qualquer forma, Centerfield foi uma volta por cima – vendeu mais de 2 milhões de cópias e foi o último álbum em que Fogerty tocou todos os instrumentos.

Alisson: John Fogerty sempre foi a mente criativa principal do Creedence Clearwater Revival, tanto é que isso o fez ser processado pelo motivo mais bizarro que eu já ouvi falar: por suas músicas parecerem muito com suas próprias músicas. Portanto, não surpreende que Centerfield seja uma espécie de continuação de suas ideias dos tempos do Creedence. É aquele rock caipira (mais soft que antes), rústico e direto, bacana de ouvir em qualquer momento. Se esse é seu estilo, não existem motivos para você não conferir esse trabalho.

Christiano: Mesmo gostando muito do Creedence, não conhecia muito bem a carreira solo do John Fogerty. Por isso, comentar este disco foi uma ótima oportunidade, bastante prazerosa. A primeira impressão que tive, logo na primeira faixa (“The Old Man Down The Road), foi que todas aquelas conversas de que John era a “O cara” do Creedence são verdadeiras. Todas as marcas registradas da banda estão evidentes em Centerfield. É claro que o timbre de bateria característico de boa parte das produções da década de 80 tira um pouco o encanto do disco. Fora isso, só posso dizer que o álbum é muito interessante. No geral, gostei de todas as faixas, mas destacaria “I Saw it On TV” e a mais pesadinha “Mr. Greed”.

Davi: Embora conte com uma produção tipicamente oitentista, contando com teclados falando alto e uma bateria mais magrinha (o que pode ser facilmente notado em faixas como “Vanz Kant Danz” e “Searchlight”), a voz do Creedence mantinha seu estilo habitual cruzando rock ‘n’ roll básico com influencias de country. Embora não chegue aos pés dos discos de seu ex-grupo, o trabalho é bem consistente e honesto. O repertório é excelente e traz momentos brilhantes como “The Old Man Down The Road”, “Rock And Roll Girls”, “Mr. Greed” e “Centerfield”. Do lado instrumentista, seu trabalho inspirado de guitarra e sua voz forte e rouca continuam sendo o destaque.

Diego: Há cerca de um ano atrás eu li uma biografia do Creedence Clearwater Revival chamada Bad Moon Rising. Nessa biografia o autor, Hank Bordowitz, conta como o contrato que o CCR tinha assinado na época com a gravadora Fantasy era terrível e como John Fogerty e o restante da banda (incluindo seu irmão Tom Fogerty) brigaram no final da carreira do grupo, John tinha uma visão (e era o compositor) e queria que todos seguissem, os outros queriam mais autonomia e mais voz dentro da banda. Quando John concedeu e deu voz ao grupo o desastroso Mardi Gras foi lançado, encerrando a carreira da banda de maneira triste. John então seguiu em carreira solo, e lançou em 1973 The Blue Ridge Rangers, em que ele toca todos os instrumentos. Um novo disco solo saiu em 1975 (onde ele também toca tudo) e depois disso foi uma longa e estúpida batalha entre John, a Fantasy e o restante da banda. Isso fez com que John ficasse 10 anos sem lançar um disco, e após uma década Centerfield é o disco que recebemos. Centerfield não é ruim, mas também não é grande coisa. Como compositor John Fogerty ainda é o mesmo, estranho já que depois de 10 anos sem gravar nada eu esperava algo diferente, tudo bem que temos alguns cutucões nas letras (especialmente em “Mr Greedy” e “Zanz Kant Danz”, as duas em ‘homenagem’ à Saul Zaentz, dono da ex-gravadora de John, a Fantasy), mas nada demais, honestamente. A única diferença que o disco traz é o som, como não podia deixar de ser ele vem cheio de referências à sonoridade dos anos 80, apesar de não chegar a ser um fiasco sonoro a la New Wave (ainda bem!). Fogerty faz um bom trabalho com todos os instrumentos, mas a verdade é que a música dele é simples, e o instrumental apesar de competente não traz nada de novo. Um bom disco, mas sem nenhuma faixa realmente memorável. No final fica a vontade de voltar aos clássicos do CCR.

Diogo: Muito obrigado a quem indicou este disco, pois é um verdadeiro presente para quem não o conhecia, como eu. Sim, é muito positivo quando um artista sabe envelhecer sem olhar demais para o passado, mas John Fogerty faz tão bem aquilo que sempre fez, com tanta qualidade e serenidade, que fica difícil não se render aos encantos de um álbum como Centerfield. Não se trata de um novo Green River (1969) ou Cosmo’s Factory (1970), mas, rapaz, é gostoso demais de ouvir. As melodias, o “jangle” das guitarras, o jeitão sulista, a mixagem equilibrada… Do pop rock leve de “I Saw It on T.V.” ao hard de “Mr. Greed”, tudo funciona muito bem. Os três singles, “The Old Man Down the Road”, “Rock and Roll Girls” e a faixa-título, são ótimos e bem escolhidos. Não há faixa ruim. Minha indicação, Dirty Mind, é muito mais importante no desenvolvimento da música pop dos anos subsequentes, mas Centerfield é um disco melhor aos meus ouvidos.

Fernando: É impossível não ir para um disco desse sem esperar algo do Creedence. Porém a primeira faixa, “The Old Man Doen the Road” tem alguma coisa que nos faz esquecer um pouco sua antiga banda. Já “Rock and Roll Girls” nos lembra qual é sua origem. Belo trabalho de voz de Fogerty e um sax esperto dando um clima legal para música. Porém o que mais marca no disco é a influência clara do country que permeia o disco inteiro, não que isso seja algo que venha a causar alguma surpresa dado o artista que estamos falando. Em “Centerfield” quase temos o riff de “La Bamba”. Não gostei muito do timbre das baterias eletrônicas em algumas passagens o que acabou deixando tudo muito datado. Gosto de algumas coisas do Creedence, mas não o suficiente para cair de cabeça na obra solo de seu criador.

Mairon: Fogerty voltando à ativa com uma linha próxima ao que ele fazia no CCR. A primeira faixa, “The Old Man Down the Road”, é um rockzão com aquela pegada country que os admiradores do tradicional grupo americano irão amar, ainda mais com o vozeirão de Fogerty em destaque. Outras com boas pitadas de Creedence são “I Saw It On T.V.”, A levada country fica mais forte em “Big Train (From Memphis)”, mas Fogerty dá uma aula de modernidade – e solos rasgados – em “Searchlight”. Surpreende o ritmo bem feito no baixo e na bateria, mostrando que Fogerty é uma bela cozinha para si mesmo. A faixa-título lembrou-me a introdução de “La Bamba”, e nela Fogerty brinca com o órgão. Até um solo de saxofone Fogerty larga para os ouvintes, nos embalos de “Rock and Roll Girls”. Oitentista mesmo é “I Can’t Help Myself”, que tem um pianinho elétrico bem sem vergonha, e uma bateria eletrônica descartável. Curti bastante “Mr. Greed”, rock forte com o vozeirão de Fogerty novamente em destaque. Apesar da descartável e chatérrima “Zanz Kant Danzbem”, cheia de eletrônicos e invencionices, é um bom disco de se ouvir, principalmente para quem gosta do som do Creedence.

Ronaldo: Creio que John Fogerty nunca quis se afastar da aura do Creedence Clearwater Revival. Diferentemente de quase todos os outros ex-membros de bandas muito famosas, John Fogerty ressoa orgulho por seu legado, tratando, vez em quando, de oferecer ao ouvinte novamente um pouco mais daquela essência do CCR. A maioria das músicas de Centerfield poderia ser parte do (bom) repertório do CCR. É aquele country-rock com as frases de guitarra mais eficientes do Oeste. Só creio que seus antigos companheiros Stu Cook e Doug Clifford fariam melhor no baixo e na bateria.


Skip Spence – Oar (1969)
Recomendado por Mairon Machado

Skip Spence é um mito. Para muitos, o Syd Barrett americano (na verdade, Syd é o Skip inglês). Sua história é similar. Montou uma super banda em 1967, era líder da mesma, daí por problemas mentais foi afastado daquilo que criou, e nunca mais se recuperou. Só que isso não é nada. Fatos como ter sido declarado morto e ressuscitado em pleno IML, ter tentado o suicídio por diversas vezes, e o grandioso uso de drogas, prostituição infantil, tentativas de homicídios para os colegas de banda, são contos inacreditáveis para a música mundial, e ocorreram com esse gênio incompreendido. Para se ter uma breve ideia, em uma dada época o consumo de drogas por Spence era tanto que o rato que ele cuidava, chamado Oswald, também cheirava cocaína. Em certa vez, uma sessão de exorcismo foi realizada em Skip, mas os monges que o cuidavam não aguentaram a pressão do “demo” e fugiram apavorados. Fora disso, Skip era um baita músico em vários instrumentos. Ele comandou a bateria do álbum de estreia do Jefferson Airplane, pegou no baixo em várias canções do Grape, e sabia cantar como pouco. Em Oar, Skip estava no início de suas crises esquizofrênicas, e mesmo debilitado psiquicamente, ele faz um álbum que apreciadores do Moby Grape não terão do que reclamar, e pelo contrário, Oar é um álbum reverenciado pela força que exala de seus sulcos. As faixas mais Grapeanas são “Little Hands”, “All Come to Meet Her” e “Lawrence of Euphoria”, com aquele charme que só o grupo californiano tinha. Adoro a sutileza de “Diana”, a psicodelia de “War in Peace”, o peso de “Books of Moses”, Quando ele se aventura pelo country durante “Broken Heart”, “Dixie Peach Promenade (Yin for Yang)”, “Cripple Creek”, dedilhando seu violão com vigor, e com o vozeirão à la Johnny Cash, as paredes simplesmente tremem de alegria. E quando “Weighted Down (The Prison Song)” começa, ela e toda a comunidade de fãs do Grape choram de emoção. Que faixa linda! As duplas “Margaret/Tiger Rug” e os longos minutos de “Grey/Afro” são faixas talvez desnecessárias, mas não ruins, levadas pelo baixo e um vocal sussurrado. Quem não é fã pode se surpreender positivamente, e quem nunca ouviu falar, tenha certeza de que está diante de um clássico.

Alisson: Oar é o registro de Skip Spence logo após uma temporada de seis meses de recuperação em um instituto para doentes mentais (o mesmo sofria de esquizofrenia, fora a tonelada de ácidos que tomava em seus tempos de Quicksilver Message Service e Jefferson Airplane). O conteúdo do disco é algo próximo do que seria a organização e funcionamento da mente de uma pessoa que passa por esses problemas. Ríspido, truncado, oscilante e por vezes até mesmo sem nexo. O registro foi gravado quase que totalmente em um único take por faixa. As vezes funciona, dando ao disco um certo ar de improviso e espontaneidade, mas em outros o resultado é nada mais que um folk mal arranjado. O que deixa as coisas mais dificultosas é a falta de um foco. O disco oscila entre boa faixas introspectivas para algumas bobagens country psicodélicas ensolaradas. Difícil dizer que vale a pena para mais de uma audição, mesmo com bons momentos aqui e ali.

Christiano: Acho que este disco vale como registro histórico, uma vez que foi concebido em condições bastante intrigantes. Basicamente, o Sr. Skip Spence estava mentalmente transtornado quando fez o registro. Musicalmente, é uma incógnita: tem aquela aura de loucura que permeia todas as músicas, executadas de modo precário por Spencer, que parece ter dificuldades até mesmo para articular as palavras. Pode ser que muitos acreditem que isso seja arte em estado bruto, ou que a melancolia da maioria das músicas seja um elemento a ser apreciado. Pra mim, entra na categoria de curiosidades musicais, assim com alguns registros do Syd Barret. Gostei de poucas faixas, como “All Come to Meet Her” e “Cripple Creek”, que são mais convencionais.  Por fim, achei o disco excessivamente longo.

Davi: A história disso aqui é a seguinte. Skip Spence usou LSD feito um doido e resolveu brincar de Lizzy Borden pra cima de seus companheiros de banda (Moby Grape) e foi internado, logicamente, em uma clínica. Quando saiu de lá, inventou que iria lançar um disco solo. Esse negócio aqui. A maior parte do disco é ele ou com apenas um violão, ou apenas com uma guitarra, ambos incrivelmente mal tocados. Quase a ponto de fazer as Shaggs acusá-lo de plágio. Os melhores momentos ficam por conta de “Little Hands” (uma das poucas que ganharam o tratamento de canção mesmo) e o bluesinho “Book of Moses”. Para quem passou por bandas como Jefferson Airplane e Moby Grape, isso aqui chega a dar dó. Dizem que esse material, inicialmente, era uma demo de fato. Era melhor ter deixado assim…

Diego: Alexander Skip Spence teve uma história conturbada. Nascido no Canadá Spence fez parte da primeira formação do Quicksilver Messenger Service e logo em seguida passou pelas baquetas do Jefferson Airplane (com quem gravou um disco, Jefferson Airplane Takes Off), e foi co-fundador do Moby Grape. Skip Spence sofria de esquizofrenia e numa viagem de LSD em 1968 tentou destruir o quarto de hotel de um colega do Moby Grape com um machado. Depois desse incidente Spence foi condenado a passar 6 meses em uma instituição mental. Em 1969, quando saiu do hospital começou a gravar seu primeiro, e único, disco solo: Oar. Oar foi lançado em maio de 1969 pela Columbia e é uma bagunça, literalmente. As canções do disco são basicamente folk e passam pela psicodelia, country e blues. É evidente que Skip gravou o disco utilizando os primeiros takes de cada sessão, tudo soa improvisado, mal tocado e mal arranjado. Se eu já tinha uma dificuldade tremenda em engolir as bandas onde ele tocou, a coisa fica ainda pior em Oar. São 45 minutos de música folk improvisada com quase nada de acompanhamento e claramente sem direção nenhuma. Só é preciso ouvir Oar uma única vez para entender que o estado mental de Skip Spence em 1969 era no mínimo… dúbio.

Diogo: Ouvir este disco lembrou-me uma das indicações da última edição desta seção: Opel (1988), de Syd Barrett. Não pelo estilo, que é diferente, nem pela qualidade, já que Oar pode não ser exatamente do meu gosto, mas é bem superior a Opel. Refiro-me ao evidente trabalho de alguém cuja saúde mental passava por problemas. Certamente trata-se do disco mais difícil de entender e, consequentemente, comentar a respeito entre os aqui citados. A musicalidade reflete a esquizofrenia de Skip, assim como seus vocais soam entre o desleixo e um leve desespero. A base é um folk psicodélico que agrada em momentos como “War in Peace”, “Broken Heart” e “Books of Moses”. Como já disse, não faz meu estilo, mas é um documento muito particular de alguém que levou a música de sua época a extremos. Talvez haja gente me xingando, mas consigo ouvir ecos de Skip Spence nos trabalhos de Tom Waits que tive que ouvir para edições da série “Melhores de Todos os Tempos”.

Fernando: Não sabia o que esperar de Skip Spencer porque não liguei seu nome às bandas que ele participou. Não que eu seja um grande fã de Jefferson Airplane, Moby Grape ou Quicksilver Messenger Service. Imaginei algo com uma aura paz e amor viajandona e é basicamente isso que temos. Seu vozeirão em “Cripple Creek” pode ter sido uma inspiração para caras como Peter Steele ou Nick Cave. A interpretação desprentensiosa de “Diana” ou em “Weighted Down (The Prison Song)” deixaram as coisas um pouco chatas. O meu azar foi ter pego a versão cheia de bônus do disco e foi difícil terminar.

Ronaldo: Trabalho cult do ex-guitarrista do Moby Grape. Seu folk é deliciosamente despojado e só poderia ter sido executado dessa forma tocado integralmente por uma única mente. Há frequentes deslizes técnicos e desencontros nas notas, que se justificam pela franqueza com que deve ter sido gravado. Tudo parece extremamente espontâneo e relaxado, tocado vagarosa e despreocupadamente. Obviamente que essa postura se apoia em composições substanciadas e acusticamente líricas, à sua maneira. Nisso reside o encanto deste trabalho. A medida que o ouvido avança nas faixas, percebe-se o quão mais junkie Oar é capaz de soar.

Ulisses: Me remeteu ao disco do Syd Barrett que ouvimos no Recomenda anterior. Mas o que me deixou surpreso foi descobrir que o tal Spence tinha pouco mais de 20 anos à época da gravação, embora soe como um vovô. O álbum parece incoerente e aleatório, sendo uma espécie de folk psicodélico bem capenga, com toques de blues, mas dá para aproveitar com facilidade as boas “Cripple Creek” e “Weighted Down (The Prison Song)”, onde a voz de múmia de Spence se encaixa bem e ele até chega perto de enfeitiçar o ouvinte. O restante é presepada.


Foo Fighters – Foo Fighters (1995)
Recomendado por Diego Camargo

Todo o ouvinte de música com um mínimo interesse em Rock & Roll sabe quem é Dave Grohl – ex-baterista do Nirvana e vocalista/guitarrista do Foo Fighters. Quando Kurt Cobain se suicidou em 1994 ele acabou mudando, novamente, milhares de vidas, e a de Dave Grohl foi uma delas. Na época o vocalista ficou perdido e não sabia que rumo tomar, por um tempo ele tocou bateria com Tom Petty e quase entrou como membro fixo do Heartbreakers, banda de Tom. No entanto, ele decidiu que pegaria as músicas que vinha compondo durante anos e ir até um estúdio e simplesmente gravar tudo, com que intenção? Nem mesmo Dave sabia. Em outubro de 1994 ele gravou 15 músicas das 40 que tinha escrito em apenas 5 dias. Não apenas isso, Grohl gravou tudo no disco, guitarras, baixo, vocais e, é claro, baterias. Grohl não queria que seu nome fosse o atrativo primordial das gravações e acabou por dar um nome ao projeto: Foo Fighters. Gravou uma porção de fitas K7 e entregou essas fitas para vários amigos. Não se sabe bem quem foi, mas uma das fitas acabou na mão de pessoas ligadas à indústria fonográfica e então Grohl abriu seu próprio selo (Roswell Records, que continua lançando os discos da banda até hoje) e lançou o disco oficialmente pela Capitol em Julho de 1995. Foo Fighters (1995) virou um sucesso e vendeu mais de um milhão de cópias nos EUA e rendeu à banda uns quantos hits. A verdade é que Dave Grohl sabe como ninguém escrever músicas certeiras e de bons refrões cheias de guitarras. Power pop de primeira em músicas como “This Is A Call”, “I’ll Stick Around”, “Big Me” and “Wattershed”. Não é o melhor disco do Foo Fighters (pra mim essa é uma briga entre ‘There Is Nothing Left To Lose’ e ‘Echoes, Silence, Patience & Grace’), mas é o disco que deu ao rock uma das bandas mais legais desde os anos 90. Vale com vontade a audição e a aquisição!

Alisson: A espontaneidade do grunge/pop criado por Dave Grohl na estréia do Foo Fighters era uma pequena dose de alento para os fãs do Nirvana não se sentirem tão órfãos, mas também era uma oportunidade para fãs de música barulhenta terem uma banda para prestarem atenção dali em diante. Combinando guitarras distorcidas com momentos puramente grudentos, este debut permanece como a audição mais honesta e interessante que Dave Grohl compôs pós-Nirvana.

Christiano: Primeiro disco do Foo Fighters. Em alguns momentos, lembra o Nirvana, como em “I’ll Stick Around” e “X-Static”, por exemplo. Talvez essa seja a única característica interessante deste álbum, pois retoma a mística da antiga banda de Dave Grohl. No mais, já mostrava o que seria o Foo Fighters: uma das coisas mais irritantes de todos os tempos, que aposta em composições retas, massas de guitarras e rebeldia/energia aparentemente feitas por robôs.

Davi: Aqui, sim, uma demo que virou álbum merecidamente. Depois da morte de Kurt Cobain (Nirvana), Dave Grohl deve ter ficado sem chão. Primeiro, obviamente, pela trágica morte do amigo. Depois, pelo fato que até aquele dia era um rockstar, dali em diante, seu futuro era incerto. Resolveu recomeçar do zero. Montou uma demo com composições próprias, criou uma banda e caiu na estrada. Aos poucos, foi reconquistando a atenção que tinha. O álbum de estreia do Foo Fighters foi inteiramente gravado por Dave e traz uma material bem satisfatório. Trabalho vocal correto, bateria criativa e pulsante, bons riffs de guitarra (analisando pela ótica do alternativo, obviamente). Particularmente, não me atraem os vocais estourados de “Weenie Beenie” e nem a ideia de deixar as linhas vocais dos versos de “X-Static” meio apagados. Contudo, são realmente poucos os fillers. Além dos hits “I´ll Stick Around”, “This Is a Call” e “Big Me”, o álbum se destaca com lados B´s poderosos como “Alone + Easy Target”, “For All The Cows”, “Oh, George” e “Wattershed”. Não é o melhor do Foo Fighters, mas é um bom disco!

Diogo: O Foo Fighters sempre soou meio água morna pra mim. Com exceção de uma ou outra música, especialmente aquelas presentes no bom Wasting Light (2011) e mais algumas espalhadas pelo catálogo do grupo, seu trabalho nunca chamou muito minha atenção. O fato da banda ter atingido um status tão grande nos últimos anos diz muito mais sobre o estado moribundo do rock no mainstream do que sobre sua própria qualidade. Este álbum de estreia trilha mais ou menos esse caminho. Há algumas canções legaizinhas, como “This Is a Call”, “Big Me” e “Floaty”, junto a outras que não me fazem esboçar muita reação. Não é nada ruim, digno de raiva, mas também não serve pra bom. Sei que muitos discordam, mas, como atestado da libertação de Dave Grohl do fantasma do Nirvana, acho que funciona bem e cumpre seu papel. Para mim, fica aquele ranço noventista amargando a língua.

Fernando: Nunca me chamou a atenção o fato de Dave Grohl ter gravado esse disco sozinho. Acho que o rock cheio de guitarras que ele e depois a banda fez ao longo da carreira é muito honesto. A acentuada veia pop que apresenta o Foo Figthers é o maior foco das críticas dos roqueiros mais radicais e não faz diferença alguma para o grosso dos fãs da banda. Particularmente gosto de várias músicas, mas no geral acho que uma coletânea para mim é o suficiente. O disco em si é mais fraco que os dois seguintes, mas devido às circunstâncias de sua gravação está de bom tamanho.

Mairon: Dave Grohl é um músico bem acima da média, e isso não há o que negar. Não lembrava que ele havia gravado o álbum de estreia do Foo Fighters sozinho, e poxa, ele faz um grungezão na linha Nirvana que com certeza agrada aos fãs da incensada banda de Seattle. Também temos um pouco do punk hardcore que caracterizou o Foo Fighters como uma das maiores bandas do final dos anos 90, início dos anos 2000. Dave mostra-se um exímio baterista (que já era nos tempos do Nirvana) e um talentoso criador de riffs. Um disco bacanudo, onde destaco “This Is a Call”, “Good Grief”, “Floaty”, “Exhausted” e o sensacional embalo bluesy de “For All the Cows”. Não gosto de Nirvana, mas Foo Fighters sempre me foi uma audição legal, e agora entendo por que: Dave Grohl é um músico muito diferenciado. Boa escolha!

Ronaldo: Particularmente, defendo que o colunista Ricardo Alexandre fez a melhor definição possível sobre os Foo Fighters em matéria chamada “O Triunfo dos Medíocres”: “Os Foo Fighters são uma mistura de conhecimento de causa, ética roqueira e trabalho caprichoso de carpintaria, atrás de uma média perfeita entre inspiração e transpiração, clipes divertidos, projetos paralelos bacanas e canções com bons refrãos e bom ataque. Não tenho dúvida de que eles fazem o que podem para criar e para fugir do previsível. Não é culpa deles. Mas que os Foo Fighters sejam (provavelmente) a maior banda de rock do planeta diz muito a respeito de como o rock espera pouco de si mesmo hoje em dia.” Baseado em que sua discografia é bastante consistente desde o primeiro disco, o comentário veste apropriadamente toda a obra da banda, incluindo esse disco.

Ulisses: O Foo Fighters é uma das maiores bandas de rock da atualidade, mas não era isto que pretendia ser. O álbum de estreia é um apanhado de composições de Grohl, a maioria ainda da época do Nirvana, que foram gravadas após a morte de Cobain e distribuídas entre conhecidos, mas acabou chegando aos ouvidos das gravadoras. Os instrumentos marcam uma presença pesada e enérgica, fazendo um contraponto às letras pouco desenvolvidas. Embora, no geral, as composições não me façam morrer de amores, elas são bem sólidas e dão vida a um bom registro do rock noventista.


Jon Anderson – Olias of Sunhillow (1976)
Recomendado por Christiano Almeida

Olias of Sunhillow não é um disco de fácil assimilação. Para aqueles que não têm muita afinidade com o rock progressivo, por acharem o estilo enfadonho, exagerado, rococó e coisas do tipo, imagino que este primeiro registro do Jon Anderson seja uma tortura. Por outro lado, musicalmente, é um disco bonito. Uma viagem meio New Age, meio World Music, com cara de trilha sonora. Em alguns momentos, lembra Jon & Vangelis. “Meeting (Garden of Geda)/Sound Out the Galleon” e “To the Runner” são exemplos de belas faixas contemplativas, com a assinatura inconfundível de Jon Anderson, sendo que poderiam estar em algum disco do Yes. Um outro destaque é a extensa “Moon Ra/Chords/Song of Search”, com seus quase  13 minutos de duração, cheia de mudanças de climas e passagens muito bonitas. Um belo disco.

Alisson: Quase uma extensão do conceito musical desenvolvido pelo vocalista junto do Yes. Dificilmente alguém que seja fã de rock progressivo e do Yes não ache algo para aproveitar desse disco. Como nem do Yes eu sou fã, não passou de uma experiência vaga e entediante, beirando o incômodo.

Davi: Sou muito fã do Yes e adoro a voz do Jon Anderson, mas que disco malinha, hein? Meu Jesus amado… Jon sempre foi um ótimo cantor, portanto, seu trabalho vocal é fantástico. O álbum também é muito bem produzido. O problema são as músicas que são bem chatinhas. Os poucos momentos que achei bem interessantes foram “Sound Out The Galleon” e “Flight Of The Moorglade”. Contudo, gostei bastante do trabalho que realizou enquanto músico. Achei as construções de harpa, cítara e de flauta de extremo bom gosto.

Diego: Em 1975 o Yes entrou em um hiato. Após a saída de Rick Wakeman e o recrutamento de Patrick Moraz para seu lugar a banda lançou ‘Relayer’, tido por muitos como um dos melhores discos da banda. No entanto, em 1975 a banda decidiu se afastar por um ano dando liberdade para que os membros da banda gravassem discos solo. Chris Squire gravou o fabuloso ‘Fish Out of Water‘, Steve Howe lançou Beginnings. Em 1976 Patrick Moraz embarcou em uma carreira solo com The Story of I, Alan White lançou Ramshackled e Jon Anderson Olias of Sunhillow. Olias of Sunhillow é Jon Anderson do começo ao fim. O disco conta uma estranha história (comum para as letras que Jon sempre escreveu) de uma raça alienígena que busca um novo mundo após uma catástrofe destruir o seu planeta. Olias é o personagem principal, o arquiteto responsável por construir a nave que levará sua gente para uma nova terra. O disco é basicamente acústico e com exceção de Brian Gaylor, que se encarregou de uma série de sons eletrônicos, Jon toca uma série de instrumentos acústicos como violão, harpa, cítara, percussão, flauta, mandolim e bağlama (um instrumento Turco) além de baixo e teclados. Alguns anos mais tarde Jon se uniria ao Grego Vangelis e lançariam 4 discos juntos, mas ouvindo Olias of Sunhillow fica claro que Jon era fã da música de Vangelis desde muito antes. Fica evidente a influência. Se você é fã do Yes vai ficar um tanto perdido ouvindo o disco pela primeira vez, já que os estilos são muito diferentes. Mas se gostar do chamado progressive electronic, provavelmente vai amar esse disco, já que ele é muito bonito e cheio de momentos interessantes.

Diogo: Nunca havia escutado um disco solo de Jon Anderson, mas, se excluíssem seus vocais, não seria tão difícil descobrir que Olias of Sunhillow brotou de suas mãos. As melodias, a atmosfera mística, mesmo a instrumentação delicada, tudo remete à sua forte influência nos álbuns do Yes. Isso quer dizer que adorei o trabalho, certo? Não é bem assim. Apesar de ser importantíssimo na construção da sonoridade do grupo, Jon dividia suas tarefas com caras igualmente (ou mais) talentosos, em especial Chris Squire e Steve Howe. Essa coletividade monstruosa fazia do Yes uma das melhores bandas de sua era enquanto estava no auge (e mesmo fora dele). Olias of Sunhillow até é bonzinho, mas sinto falta de solidez, de uma instrumentação mais cheia, de algo que me faça bater o pé no chão, balançar a cabeça e fazer air bass, como acontece quando escuto os grandes discos do Yes. É tudo meio etéreo demais para mim. Escuto e pouca coisa fica na mente. Bom para audições eventuais, não mais que isso.

Fernando: Durante a longuíssima carreira de Jon Anderson nunca o vi como um instrumentista. Mesmo que sua participação tanto junto ao Yes, quanto com o Vangelis, como cantor nunca o tenha impedido de eventualmente tocar alguma coisa ao vivo. Claro que não podemos comparar suas habilidades nos instrumentos com seus colegas de banda, mas acredito que ele entregou o que prometeu. Particularmente eu nunca tinha me atentado no fato dele ter gravado esse disco sozinho pois não tenho cópia física do álbum. No fim, nas passagens instrumentais o disco se assemelha muito ao que o já citado Vangelis fazia, do que ao do Yes, mostrando que a parceria que fariam no futura era totalmente natural. Já conhecia o disco há pelo menos 15 anos, mas só agora essesoterismo que Jon Anderson sempre demonstrou me incomodou um pouco. Acho que estou ouvindo muito heavy metal nesse último ano.

Mairon: Da turma do Yes, Anderson sempre foi o mais zen, e nesse álbum de estreia, ele mostra todo o seu lado místico, em um disco para viajar e meditar. Olias é um álbum excelente, com explorações de diversos instrumentos por parte de Anderson (teclados, harpa, guitarras, violões, bateria …). Não à toa, quando ele se uniu ao Vangelis, saíram discos muito interessantes, pois ambos sabiam fazer música como poucos. Adoro a bela apresentação do álbum, com “Ocean Song”. Fãs do Yes não irão ter nenhuma semelhança com a banda inglesa aqui, mas poderão se deliciar com a voz de Anderson em faixas como “Meeting (Garden of Geda)”, “Sound Out the Galleon”, “Solid Space” e “To the Runner”. O ápice do disco fica para as trincas “”Moon Ra / Chords / Song of Search”, e “Qoquaq Ën Transic / Naon / Transic Tö”, nas quais Anderson só não faz chover. Detalhes sobre a criação – e a maluquete história – do disco podem ser encontrados na matéria que fiz para o Maravilhas do Mundo Prog. Anderson teve a companhia de Brian Gaylor nos sintetizadores e Ken Freeman, que fez o arranjo de cordas. No mais, tocou todos os instrumentos, os quais são violões, guitarras, harpa, sintetizador e percussão, além de fazer todos os vocais. É impressionante como o talento desse gênio ainda é discutido por alguns preciosistas, e inegável que mesmo fora do Yes, Anderson era capaz de fazer maravilhas como as feitas em Olias of Sunhillow, que ficou na oitava posição no Reino Unido e foi o mais aclamado dos álbuns solos dos membros do Yes entre 1975 e 1976. Um disco para relaxar, e para exaltar o talento de um dos maiores nomes da música. Baita recomendação!!

Ronaldo: Disco repleto de referências esotéricas e umas das primeiras experiências da chamada world music. Não há nenhuma reminiscência de rock no trabalho; Anderson tratou de colocar potentes lentes de contato naquilo que o Yes tratava como mais uma das engrenagens de sua música – passagens atmosféricas envasadas por cândidas melodias, que são a tônica de Olias of Sunhillow. A estas, foram colocadas todas as alegorias étnicas que estavam a mão (percussões, ukulele, harpas, cítaras e os mais siderais timbres de teclado possíveis). Jon Anderson mostra o quanto era protagonista em linhas vocais fortes e se sai bem em tudo que se aventurou a tocar no seu primeiro trabalho solo. Soa como algo bastante original para o panorama da época por não se apoiar em teclados sequenciadores, tal qual estavam fazendo os alemães, e por ter sempre a melodia vocal na linha de f rente.

Ulisses: Tenta forçadamente criar um som “mágico” e espacial, mas não dá muito certo. Inegavelmente há diversos momentos belos e sublimes no álbum, porém a audição é, no geral, redundante. Não há melodias redondinhas o suficiente e Jon se foca demais em viagens instrumentais e cânticos. Vale duas ou três audições sim, mas não mais que isso.


Steve Winwood – Arc of a Diver (1980)
Recomendado por Fernando Bueno

Quando recebi o tema pensei em três artistas, mas imaginei que os outros dois seriam citados pelos meus colegas e me decidi pelo Steve Winwood. Arc of a Diver é o segundo disco solo de Winwood e apresenta um som que, pode-se dizer, antecipa a sonoridade dos anos 80 de um monte de outras bandas comprovando a genialidade do artista. Inclui esse disco quando fiz o a seleção dos Cinco Discos para Conhecer sobre o ex-Traffic. Apesar de abusar dos sintetizadores e isso fazer alguns torcerem um pouco os narizes acho a utilização do instrumento bastante adequada ao que o músico quis fazer. Em “Slowdown Sundown” ele abre mão dos sintetizadores e ataca um pouco o funk americano. No geral o disco tem muita influência também de música pop. Espero que meus amigos recebam o disco com o mesmo entusiasmo que eu.

Alisson: Som para “adultos” dos anos 80. Em qualquer momento da vida que eu ouvisse isso, não existiram chances de eu conseguir tirar algo aproveitável.

Christiano: Disco muito bom. Já conhecia “While You See a Chance”, que é bastante popular. É interessante como Steve Winwood conseguiu se adaptar às sonoridades características da época de lançamento de Arc of a Diver, mantendo sua assinatura musical. No geral, o álbum é uma compilação de ótimas músicas, com destaque para a faixa título e “Slowdown-Sundown”. A melhor indicação desta lista.

Davi: Disco bacaninha, mas não consigo enxergá-lo como essa obra-prima que muitos se referem. Prefiro Steve nos tempos do Traffic, para ser mais honesto. Aqui, arriscou fazer um álbum mais contemporâneo (para os padrões da época) e mais pop. Como é um grande músico, a qualidade do trabalho é alta, mas não tem nenhuma musica aqui que tenha me marcado. A de maior impacto, para mim enquanto ouvinte, foi a faixa de abertura “While You See a Chance”. Algumas linhas vocais desse disco me remeteram, por alguma razão, as linhas vocais de Phil Collins (artista que gosto bastante). É aquele álbum que se tiver rolando, curto de boa, mas não é aquele disco que me faz querer ouví-lo direto. Melhores momentos: “Second-Hand Woman”, “Night Train” e a já citada “While You See a Chance”.

Diego: Steve Winwood tocou com Deus e o mundo. The Spencer Davis Group, Traffic, Blind Faith, Stomu Yamashta, Ginger Baker’s Air Force, Eric Clapton, Third World… sem contar participações que ele fez em trilhões de discos. No entanto, desde a sua estreia discográfica em 1965, Arc Of A Diver é apenas o segundo disco solo do músico britânico. 1980 não me parece ter sido um bom momento para músicos que gravaram discos completamente sozinhos (tocando todos os instrumentos), vide o disco II do Paul McCartney, que poderia estar aqui, também (e é fraquíssimo), e esse disco que aqui resenho. Apesar de Steve ser um bom cantor e de ser um compositor mediano, Arc Of A Diver é fraco em quase todos os sentidos. A faixa inicial, “While You See A Chance”, me fez querer gostar do disco, as melodias são pegajosas e são cantaroláveis, mas o som geral do disco é complicado de se gostar, não há profundidade, não há alma, e os sons escolhidos para os instrumentos são patéticos. Outro fator complicado de Arc Of A Diver é que o disco não tem direção clara, ele aponta para muitos lados e no final não acerta em praticamente nada. Ah, por acaso eu disse que as músicas são longas demais? São 7 faixas e 40 minutos de música, das 7 faixas apenas uma tem menos de 5 minutos. Isso faz com que as músicas sejam enfadonhas de se ouvir, fica aquela sensação de que elas ‘não acabam nunca’. A única faixa que salva o disco da mediocridade completa é a única música orgânicas de Arc Of A Diver, “Slowdown-Sundown”. De resto, fuja, o disco simplesmente não vale o seu tempo.

Diogo: Steve Winwood pertence à leva de artistas que souberam se adaptar às mudanças ocorridas ao longo dos anos e não se limitaram a tornar-se meras atrações do passado na ativa. Demonstração disso é o sucesso obtido com Arc of a Diver, que incluiu seu primeiro single bem sucedido, “While You See a Chance”, que é uma ótima música. Bem voltado para os teclados, o álbum se desenrola com classe e, apesar de bem encaixado no contexto oitentista, não exagera na plasticidade. Não se trata de uma obra imperdível, mas é um disco legal, que pavimentou o caminho para a sua liberdade como artista solo. Não há nenhuma “Higher Love” em Arc of a Diver, mas canções como a faixa-título, “Spanish Dancer” e “Night Train” são belas adições ao seu catálogo.

Mairon: Winwood sempre foi um gênio musical, mas depois que saiu do fim do Traffic, em meados dos anos 70, nunca fez nada que me agradasse. A carreira solo dele, para mim, é cheia de baixos e abismos, e esse álbum, sonoramente falando, é horroroso. Assim como Phil Collins, Elton John, Joe Cocker ou Eric Clapton, é um artista que tentou se modernizar, mas fez pouca coisa realmente marcante nessa “nova fase”. Arc of a Diver é datadíssimo, com excesso de teclados, um popzão nada agradável, e ritmos batidos que somente nos anos 80 funcionaram. “Second-Hand Woman” e “Dust” são no mínimo deprimentes para quem já se emocionou com “John Barleycorn Must Die”, “Presence of the Lord” ou “Glad”, e a tentativa de ser disco durante “Night Train” é constrangedora, mesmo com um fretless em evidência. Claro, Winwood toca bem todos os instrumentos, e o faz com propriedade principalmente na balada “Slowdown Sundown”, a melhor do disco em disparado. Mas, com exceção desta, não consigo citar nada de bom nesse disco. Fica a indicação apenas como mais uma obra multi-instrumental criada por uma única pessoa.

Ronaldo: Apesar de ser um disco cheio de arranjos cafonas (ao sabor das FM’s da época) e aquela sonoridade enfadonha dos teclados polifônicos do fim dos 70’s, Steve Winwood conservou firme sua verve de compositor/instrumentista/vocalista, inspirado fortemente no soul e no folk americano. Várias das composições deste disco cairiam como uma luva no Traffic. A balada “Slowdown-Sundown” é a faixa mais orgânica do álbum; já “Second-Hand Woman” é uma constrangedora aproximação à disco-music. O restante do disco tem grandes reminiscências de outro Steve (o Wonder). Boas canções que foram gravadas na época errada. Se gravadas atualmente, seriam um estouro de fazer o Maroon 5 repensar sua carreira.

Ulisses: Bom disco! Não esperava ouvir algo assim por aqui. Aquele baixão pipocante, camadas de teclados, instrumentos de sopro, influências bem costuradas de jazz, soul e funk. Além do mais, a duração do LP é certeira, tendo “Arc of a Diver”, “Second-Hand Woman” e “Night Train” como destaques, e apenas a longa e enfadonha “Spanish Dancer” como ponto baixo.


Prince – Dirty Mind (1980)
Recomendado por Diogo Bizotto

Os dois primeiros álbuns de Prince prepararam o terreno, mas o disco que moldaria a carreira que estava por vir é Dirty Mind. Enquanto For You (1978) e Prince (1979) soam um pouco mais convencionais, Dirty Mind é cria de um artista que mescla gêneros em ebulição com outros mais estabelecidos sem a mínima cerimônia e extrai disso uma obra sem paralelo, que adiantou muito daquilo que seria feito no cenário pop dos anos 1980 por ele mesmo e por artistas do calibre de Madonna e Michael Jackson. Ou vai dizer que, antes de Dirty Mind, havia uma combinação tão evidente (e natural) de funk, rhythm ‘n’ blues, pós-disco e synth pop? Sim, 1999 (1982), Purple Rain (1984) e Sign o’ the Times (1987) são discos melhores e mais ambiciosos, mas foi em Dirty Mind que tudo começou a tomar forma. Além disso, como sugere o tema desta edição, Prince não apenas comanda os instrumentos como sabe extrair o melhor deles, especialmente de baixo e guitarra. Em sua breve meia hora, Dirty Mind mantém o nível em alta, mas tenho uma queda por “When You Were Mine”.

Alisson: Desde o primeiro disco solo que gravou, o baixinho invocado sempre exigiu que mais ninguém além do próprio produzisse, mixasse e, muitas vezes, tocasse todos os instrumentos de seus discos, exceto quando o próprio delegasse a função. Isso fez com que cada trabalho seu se tornasse o retrato exato não apenas dos anos 80 e seu glamour sexy, mas também do próprio Prince em todas as suas fases. Dirty Mind não é exatamente meu favorito, acho que muitas ideias ali soam datadas (principalmente em termos de produção), mas o espírito de liberação sexual e ousadia em temas e visual ainda são algo refrescante de se apreciar.

Christiano: Sei que Prince é muito respeitado. Também sei que era um compositor bastante versátil. No entanto, não consegui encontrar nada de excepcional em Dirty Mind, um amontoado de músicas extremamente comuns, em sua maioria acompanhadas por um tecladinho “chinfrim” e arranjos que mais parecem vinhetas de rádios amadoras. Não gostei de nenhuma das faixas.

Davi: Um dos artistas que mais gosto do segmento pop. Excelente músico, excelente cantor, excelente showman. Era um artista altamente produtivo, altamente criativo e incrivelmente profissional. Dirty Mind é um disco bacana. Suas marcas registradas – ou seja, a fusão entre funk, new wave, pop, rock e R&B – já estavam aqui. A faixa-título é certamente um clássico do gênero, mas ainda valem destacar o funks “Do It All Night”, “Party Up “ e “Uptown”, além de “When You Were Mine” que trazia uma pegada new wave total. Aqui, Prince usava e abusava dos falsetes enquanto cantava letras repletas de conotações sexuais, muitas vezes mais fortes do que as escritas pelos artistas de rock n roll. Caso de “Sister”, que falava sobre incesto ou de “Head” que soa quase como um daqueles contos eróticos que vinham estampados na findada Ele&Ela.

Diego: Então, aqui temos outro disco de 1980 que foi completamente gravado pelo artista em questão. Parece que o ano foi perfeito para esse tipo de lançamento… e também perfeito para discos meia-boca! O disco foi gravado em questão de uma semana no estúdio caseiro de Prince, e de acordo com a lenda, muitas músicas foram gravadas em apenas uma noite. Na verdade eu realmente acredito nessa informação, porque fica claro ouvindo ‘Dirty Mind’ de que muitas músicas estão com qualidade demo. Faixas como “Do it All Night”, “Partyup” são (como o narrador da Rede Bobo diria) ‘de chacoalhar o esqueleto’ e valem a pena serem adicionadas para uma playlist de festa. Letras de conteúdo sexual e controverso, todos bem sabe, sempre foram algo que Prince fez durante toda a sua carreira. Mas para falar bem a verdade músicas como “Head” (que poderia ser um belo destaque do disco) e “Sister” soam como se um adolescente de 15 anos tivesse escrito as letras… No final das contas um disco esquecível com produção a desejar e que com certeza não vou ouvir novamente.

Fernando: Sei das qualidades do Prince tanto como artista, quanto como instrumentista. Seria natural pensar que ele gravaria um disco todo sozinho. Porém como não sou tão fã, para mim tudo ficou na mesma. Nem esse detalhe me ajudou a curtir ou a me interessar mais pelo disco.

Mairon: A fase inicial da carreira do Prince é interessante. Esse disco, em especial, foi um dos primeiros que eu baixei para ouvir há alguns anos atrás, e me mostrou um lado muito eletrônico que eu não imaginava para alguém que tinha composto “Purple Rain”. Basta ver os excessos de sintetizadores que a faixa-título, “Do It All Night”. “Uptown” têm, levadas por uma datadíssima bateria eletrônica. Só que estamos em 1980 … Poucos faziam algo assim nessa época (OMD e mais um que outro). Prince foi um revolucionário, e ver ele soltando os dedos no baixão de “Partyup”, “When You Were Mine”, “Head” – que música massa – e o embalo rocker de “Sister”, é atestar aos ouvidos que existiram ETs na música. Afinal, como um único ser consegue tocar tão bem tantos instrumentos?. Ouvir a gema pop “Gotta Broken Heart Again”, com aquele piano elétrico e um embalo sensacional, já vale a indicação. Só a voz, fina demais, as vezes enjoa, mas é um disco que mesmo para quem não gosta de pop, demonstra como é possível se sair bem em vários instrumentos.

Ronaldo: Algumas músicas são até boas e bem empolgantes. Mas não é de hoje que a opção pelo plástico descartável vem causando grandes danos ao Planeta.

Ulisses: Prince é figurinha carimbada em listas desse tipo. Porém eu já ouvi Dirty Mind há um tempo atrás e, mesmo ouvindo novamente agora, vejo pouco de interessante nesse funk sexualizado que pretende ser dançante mas acaba sendo robótico e anêmico. “Uptown” e boa parte da faixa-título são os melhores momentos, mas ainda não dizem muita coisa.


Vangelis – Albedo 0.39 (1976)
Recomendado por Ronaldo Rodrigues

O multi-instrumentista grego Vangelis é proeminente em como criar paisagens sonoras a partir de seus múltiplos teclados. Não à toa fez boa parte de sua fama no terreno das trilhas sonoras. Assim soa Albedo 0.39 – pura ficção científica em formas de som, com camadas sobrepostas de som e barulhos dos mais diversos rompendo os hemisférios do cérebro do ouvinte. Vangelis também se arrisca (e bem) com a bateria/percussão, dando uma forte dinâmica a seu som. A variedade de sons extraídas de seus teclados também é única e extremamente original face a outros keyboards-heroes. Albedo 0.39 é erudição, é devaneio, mas com a potência e a urgência do rock.

Alisson: Acho o trabalho do Vangelis para Blade Runner fantástico. Depois disso, nada que ele fez me interessa, dentre eles a conhecidíssima trilha para Chariots of Fire. Albedo 0.39 tem aquilo que se espera da música synth e new age oitentista com a particular pegada progressiva do músico (imagine um Yes só com as partes de teclados). Por conta disso, o som me parece ser muito mais uma exibição pura de habilidades do que algo com um propósito ou mensagem a ser passada.

Christiano: Disco muito interessante. Lembra muito as trilhas sonoras de programas futuristas de décadas atrás. Durante a audição, pensei em álbuns parecidos, como o italiano Automat, Terra Nova e mesmo Jean-Michel Jarre. Assim como o Jon Anderson, não é muito indicado para aqueles que não estão acostumados a viagens instrumentais e progressivo-eletrônicas.  No geral, gostei bastante. Principalmente da peça “Nucleogenesis”, dividida em duas partes.

Davi: Aposto que ele fez esse disco no formato ‘one man band’ porque ninguém quis trabalhar com ele nisso. Puta que pariu, que disco chato. O melhor momento do disco é quando entra a música do Domingo Legal (“Nucleogenesis, Pt. 1”). Mesmo assim não é algo que me traga boas recordações, já que ficou marcado na minha memória anunciando a morte do Mamonas Assassinas. “Pulstar” parece trilha sonora do Super Xuxa Contra o Baixo Astral. “Alpha” parece aquelas musicas que tocavam no final de filmes como Karate Kid ou Rambo. Manja aquelas musicas instrumentais que tocavam de fundo enquanto o letreiro subia? Pois bem, é isso. Esses são os melhores momentos…

Diego: A segunda metade dos anos 70 foi ao mesmo fantástica e medonha para a música eletrônica. Foi fantástica pois foi quando os primeiros sintetizadores modernos surgiram e abriram o mundo para artistas como Kraftwerk e o próprio Vangelis. Medonha porque junto dos artistas fantásticos, de repente todo mundo achava que podia fazer um disco sozinho, e isso resultou em muita coisa do que temos de terrível na música de hoje… O Vangelis todo fã de música conhece, integrante do Aphrodite’s Child que ainda no início dos anos 70 entrou de cabeça na ‘música de teclado’. Albedo 0.39 é o oitavo disco do grego e vê o músico em um momento de pico em sua longa carreira. Como muitos discos dessa época o tema do álbum gira em torno do espaço. Albedo, ou coeficiente de reflexão, é a refletividade difusa ou poder de reflexão de uma superfície, no caso do disco, o poder de reflexão de luz da Terra (que em 1976 era de 0.39, daí o nome do disco). Como o disco de Jon Anderson (também nessa lista), Albedo 0.39 precisa de um momento certo para ser ouvido, não é um disco que se pode colocar pra tocar e simplesmente deixar passar. Seus sons flutuantes e seus tons espaciais são quase feitos para o ouvinte deixar em uma confortável cama (ou sofá) e imaginar um filme dentro da cabeça. Deixar a imaginação funcionar. Nesses dias em que vivemos isso é mais do que um desafio! Vai encarar?

Diogo: Ouvir este disco é estimular aquela área do cérebro responsável pelas memórias de longo prazo. É ouvir músicas que às vezes não sabemos de quem são, mas que certamente conhecemos, muito provavelmente através de vinhetas de televisão ou anúncios publicitários. Tem dúvidas? Pois ouça “Pulstar”, “Alpha” e “Nucleogenesis, pt. 1”. É uma audição interessante, especialmente graças à construção de belas paisagens musicais pelas mãos desse talentoso músico grego, autor de tantas outras obras que habitam nosso subconsciente. Devo admitir, no entanto, que, ao menos para mim, não se trata de algo para ouvir apaixonadamente nem com muita frequência.

Fernando: Recentemente um amigo deixou uma caixa enorme de discos comigo de tudo o que vocês imaginam. No meio disso tudo tinham três discos do Vangelis e um desses é o Albedo 0,39. Essa primeira faixa, “Pulsar” é super conhecida e está em todas as coletâneas do grego. Talvez ela não seja a música mais conhecida por que um dia ele compôs o tema de Carruagens de Fogo e essa só quem ficou em coma nos últimos 40 anos que não conhece. Eu não conheço tudo o que o Ευάγγελος Οδυσσέας Παπαθανασίου (ou Evangelos Odyssey Papathanassiou) gravou, porque sua carreira é longuíssima e vai muito além do que ele fez no Aphrodite´s Child ou nessas músicas mais conhecidas de sua carreira solo. Entretanto acredito que se existe um tipo de música que ficou datado é esse seu progressivo eletrônico cheio de viagens sonoras.

Mairon: Vangelis flertando com sintetizadores como sempre gostou de fazer, mas aqui em seu início de carreira pós-Aphrodite’s Child. As multi-habilidades de Vangelis podem ser conferidas em faixas longas, como a sensacional “Main Sequence”, onde ele dá um show de talentos na bateria, além de solar pacas nos sintetizadores, “Alpha”, uma bela canção com um tema envolvente, onde até na guitarra Vangelis se atreve a brincar, e as duas partes da ótima “Nucleogenesis”. Ele ainda se dá o luxo de colocar sua voz explicando a história do álbum na faixa-título. Um bom disco de Vangelis, para viajar em suas ótimas harmonias e melodias, e experimentar uma era onde os sintetizadores começavam a tomar conta da música.

Ulisses: Conheço praticamente nada desse tipo de música eletrônica ambiente e espacial, mas Albedo 0.39 até que dá uma viajada bem legal. Desde a abertura com a propulsora “Pulstar” a faixas como a jazz “Main Sequence” (excelente bateria!) e a bela “Alpha” (que soa como algum tema de conquista), há uma sonoridade expansiva e instigante, que consegue evitar a contração a algo desinteressante. Me apaixonei? Não. Mas dou o meu joinha para quem indicou.


Lobão – O Rigor e a Misericórdia (2016)
Recomendado por Davi Pascale

Quando foi lançado a ideia de escrevermos sobre one man band, começaram a vir na minha mente nomes como Prince e Paul McCartney, que possuem uma trajetória brilhante e são ídolos meus de infância, e fizeram trabalhos nesse formato. Entretanto, resolvi fazer diferente. Tendo escutado meus primeiros rocks nos anos 80, logicamente me aproximei do BRock (gênero que curto até hoje, inclusive). Embora Lobão não seja um profundo admirador da cena, fez parte dela e, por consequência, das minhas influências. Até hoje sou um grande admirador do seu trabalho. Nos últimos anos, muitos torceram o nariz para o Lobão por conta de suas críticas políticas. Certeza que nossos colegas irão provocá-lo nesse sentido. E, infelizmente, tal atitude fez com que muitos deixassem de acompanhar sua obra. Letrista afiado, compositor talentoso e bom músico, João Luiz Woerdenbag Filho fez grandes álbuns. A Vida É Doce, por exemplo, é um dos melhores álbuns brasileiros da década de 90. Em O Rigor e a Misericórdia, Lobão resolveu explorar sua criatividade ao máximo. Fez todo o disco sozinho. Compôs todo o material, gravou todos os instrumentos e produziu o disco. De participação especial, apenas seu sobrinho João Puig no solo de “A Esperança é a Praia de Outro Mar”. Tudo o mais que você ouve aqui foi feito pelo Lobão. Explorou mais o grave na sua voz, buscou bastante referência de 70´s nos arranjos. O Rigor e a Misericórdia traz grandes canções embutidas que devem ganhar força com o passar do tempo. “Luar No Ar” é uma balada com violão, voz e um teclado de complemento. Estrutura parecida ao clássico “Chorando no Campo”. “Dilacerar” já vem com uma pegada mais cortante. O hino “Os Vulneráveis” relembra seus dias de “O Eleito” com o músico disparando para cima da política brasileira. “Os Últimos Farrapos da Liberdade”, “A Posse dos Impostores”, “A Esperança é a Praia de Um Outro Mar” e “Assim Sangra a Mata” também devem vencer a barreira do tempo. Um belo álbum de um ótimo artista. Independente das eventuais – e prováveis – críticas de nossos colegas, escutem.

Alisson: Eu relevo muita coisa que não concordo em letras de música (as vezes relevo até mesmo apologia nazista em bandas por aí). É mais ou menos o caso de Lobão e seu O Rigor e a Misericórdia, cujo título foi retirado de um artigo publicado pelo “””filósofo””” Olavo de Carvalho. O porém é que tudo no disco é feito da maneira mais errada para que se preste atenção em umas bobeiras conservadoras ditas pelo músico, já que a produção é canhestra, jogando os vocais na cara do ouvinte, com acompanhamento instrumental até bem conduzido, mas muito cru e sem profundidade. O que acaba sobrando são uns rocks mal tocados cantados em tom estourado e estridente por um “velha guarda” que tem se preocupado mais em se fazer notar mais fora do âmbito que o pôs na fama do que fazer justiça ao legado que construiu.

Christiano: Lobão é um cara talentoso. Louco, mas talentoso. Digo isso porque ele produziu músicas muito interessantes na década de 80. Em 1995 flertou com o samba e lançou aquele que considero seu melhor trabalho, Nostalgia da Modernidade. Depois de um bom tempo conduzindo sua carreira de celebridade polêmica, escritor e barraqueiro, lançou O Rigor e a Misericórdia. Musicalmente é um disco bastante interessante. Seu ponto fraco são os vocais de Lobão, mais exagerados e afetados que nunca, com um tom messiânico que beira o insuportável. Infelizmente, isso chega a irritar bastante. “Dilacerar” é um bom momento, assim como “Profunda e Deslumbrante Como o Sol” e “Uma Ilha Na Lua”.

Diego: Sempre gostei da música do Lobão e considero os discos A Vida É Doce e Canções Dentro Da Noite Escura simplesmente fantásticos (especialmente o segundo). O disco mais recente dele O Rigor E A Misericórdia vem depois de um hiato de 11 anos sem um disco de estúdio do músico e muita coisa mudou desde então. Se antes o Lobão era engajado politicamente (mas não com a política em si) e fazia mais em pró da arte e artistas (como a lei de numeração, e a revista OutraCoisa que lançava discos inéditos encartados em cada edição) agora ele não esconde o jogo e se tornou um politiqueiro. O Brasil vive uma época dos infernos e intolerante, não há mais meio termo e bom senso, existem os coxinhas e existem os petralhas, não há discussão inteligente, apenas pessoas vociferando a merda que querem, ponto. Desde que Lobão se engajou com a política a sua música não está mais na avaliação das pessoas, as pessoas criticam a Lobão, elas mal tentam ouvir a música, mais um sinal dos nossos tempos… O Rigor E A Misericórdia passa longe de ser o melhor disco do Lobão, e é bem verdade que quando ele decide escrever sobre política a coisa toda fica beirando o ridículo, mas a verdade é que nem metade do disco tem suas letras focadas unicamente na política, mas, como eu disse, os coxinhas e petralhas não querem saber disso, tem política no meio, então é, automaticamente, ridículo e o Lobão passa a ser um velho idiota. Não o defendo, mas passo longe de concordar com os sem-cérebro que atacam sem base. Eu não acompanho política, muito menos a política de um país do qual não faço mais parte. Então pra mim o que fica é a música, e como eu disse, quando Lobão decide falar de política o disco fica ridículo e maçante. Agora, quando o Lobão decide lembrar dos tempos do disco Canções Dentro Da Noite Escura a coisa engata e dá gosto de ouvir o disco, uma pena que só metade do disco segue essa linha. No final é um disco que não vai ficar na história do músico como o seu melhor momento, mas a má vontade do pessoal é uma coisa que não me desce…

Diogo: Lobão resolveu tomar doses nada homeopáticas de chá de Roger Waters antes de gravar este disco? Pois a presunção de Roger está toda em O Rigor e a Misericórdia, mas, é claro, sem o talento do mais importante integrante do Pink Floyd. Instrumentalmente, é um disco bem tocado, cheio de boas ideias, só que as melodias vocais impedem que a audição seja mais agradável. Eu curto o estilo vocal meio estridente e indisciplinado dos antigos hits de Lobão, mas em O Rigor e a Misericórdia há uma pomposidade que não caiu bem, denotando preocupação excessiva com as letras e menos com o conjunto. Fica claro que faltou um produtor para trazer uma segunda opinião e tentar consertar o rumo de grande parte do material. Claro, haverá pessoas que, mesmo sem ouvir, dirão que o álbum é ruim em função dos posicionamentos políticos do artista. Tire suas próprias conclusões. Para mim, havia muito potencial, mas faltou direcionamento e aparar várias arestas.

Fernando: Nunca gostei do que o Lobão fez em sua carreira, mesmo daquelas músicas de bastante sucesso dos anos 80. Acho que os discos dele talvez sofressem de um mal que quase todas as bandas nacionais sofriam: a produção fraquinha. Atualmente ele é mais conhecido por conta de sua atuação crítica da política atual e fiquei sabendo do lançamento do disco por acompanhar seus comentários nas redes sociais. Para quem tem na cabeça “Vida Bandida” por exemplo não vai nem acreditar que o artista é o mesmo. Pode pensar o que for sobre ele, mas é impossível não se surpreender com a qualidade e o cuidado com tudo o que tem no disco. Produção, instrumental, melodias e camadas musicais muito bem feitas. O único senão é a sua voz que não me agrada e atrapalhou um pouco a atenção na hora de entender suas boas letras. Sei que o teor dos comentários vai se basear muito mais em política e isso vai acabar ofuscando esse que é sim um disco bom.

Mairon: Um disco de um dos caras que tinha tudo para ser um dos mais respeitados na música nacional, que brilhou nos anos 80, mas que depois que começou a se posicionar politicamente, naufragou em um mar de [email protected] ditas em redes sociais. Mas vamos deixar isso de lado e analisar a música de O Rigor e a Misericórdia. Não imaginava o Lobão tocando teclados, e até que ficou legal ouvir “Overture” com a tecladeira em evidência, mas não são apenas os teclados que se destacam. Curti o peso de “Os Vulneráveis”, Lobão ainda canta em espanhol durante “O Que Es La Soledad En Sermos Nosotros”, uma faixa acústica onde ele ainda brinca com um slide guitar, e os momentos acústicos de “Uma Ilha na Lua” e da faixa-título. Destaque especial para os momentos trabalhados de “Dilacerar” e o samba-choro ” Açao Fantasmagorica a Distancia”, com um belo trabalho de Lobão ao violão. Um bom e surpreendente disco, mostrando que realmente, Lobão como músico ainda vale algo.

Ronaldo: Infelizmente, Lobão nos últimos anos apareceu mais para exercer sua polêmica (crítica aos seus pares na música e sobre a política nacional) do que para fazer música. Quando resolveu voltar ao que interessa, o fez bem em O Rigor e a Misericórdia, mas suas posições lhe geraram também preconceitos e um certo ostracismo (virar crítico declarado da esquerda no Brasil em geral significa ser boicotado pelo meio artístico). Lobão aqui finalmente mostra-se, sem amarras, como o bom instrumentista que é (em todos os instrumentos há boas passagens que valeriam ser destacadas), mas ainda continua pecando como compositor. As faixas soam bem, tem punch e boas ideias, mas não tem linhas vocais ou passagens instrumentais realmente marcantes. As letras são críticas fortes e suficientemente implícitas (diferentemente das críticas ginasiais cuspidas dos Titãs, por exemplo). Um bom disco, que poderia ser melhor.

Ulisses: Li/ouvi tantas críticas a esse disco que iniciei a audição já fazendo cara feia. Mas pô, não é pra tudo isso. O disco tem grande diversidade musical, lírica acima da média e busca a grandiosidade nos arranjos. Às vezes você vê que ele tá forçando a barra na interpretação e na dramaticidade da composição, como em “O Que Es La Soledad Em Sermos Nos”, mas também há momentos interessantes e com um bom instrumental – vide “A Posse dos Impostores”. O aspecto político de algumas composições não me incomodou, mas que bom que nem todas são assim; o que me incomoda mesmo é a voz, um ponto baixo no álbum. Seja como for, se não é uma maravilha, também não é essa tortura toda…


Panopticon – Kentucky (2012)
Recomendado por Alisson Caetano

Na superfície, pode parecer que alguem teve a não tão brilhante ideia de entrecortar o black metal atmosférico norte-americano com trechos de bluegrass. Se essa realmente fosse a ideia central da empreitada, pode ter certeza que a experiência seria algo ridículo. O que realmente ocorre em Kentucky é um disco de conceito tão bem amarrado e resolvido que todas as partes de sua constituição fazem total sentido de estarem ali. Kentucky é um disco que beira o conceitual ao retratar o povo, a cultura e a principal atividade que ali se desenvolve, a mineração, e seus envolvidos. De passagens enaltecedoras do local, para contos típicos e momentos de crítica aos “estrangeiros que usurpam a riqueza e exploram o povo nativo”, Austin Lunn pinta um panorama extremamente vívido e rico usando vários artifícios para isso. Existem as passagens de bluegrass usadas como interlúdio, mas que acabam encaixando muito bem com a pegada atmosférica de natureza das guitarras, que reverberam na produção, mostrando-se extremamente coloridas, por mais bizarro que isso possa parecer. Vale mencionar que parte da renda do disco foi revertida à “Kentuckians for the Commonwealth”, uma associação não-governamental destinada à preservação das montanhas de Kentucky. De todos os discos com algo a dizer, poucos soaram tão sinceramente anárquicos e ricos quanto este aqui.

Christiano: Achei muito divertido o início do disco com “Bernheim Forest in Spring”, uma música folk instrumental. Logo em seguida, somos surpreendidos um black metal tosco – “Bodies Under the Falls” – acompanhado por uma flautinha que parece ter sido tocada por alguma criança do jardim da infância. Aliás, a parte instrumental do disco é bastante precária, com problemas de andamento e execução. Tudo bem, isso pode fazer parte do conceito… A alternância entre uma faixa folk e outra black metal está presente em todo o disco, o que causa um efeito meio cômico ao álbum. Enfim, como piada, é ótimo.

Davi: Austin Lunn teve a corajosa, porém infeliz, ideia de unir black metal com folk metal. O aplaudo por tentar inovar, tentar sair do mesmo, porém não gostei do resultado final. Quem me acompanha aqui, sabe que embora seja um grande admirador do heavy metal, nunca foi um fã declarado da cena black, nem death. Não gosto daquelas baterias marteladas, aqueles vocais vomitados nunca estiveram entre meus favoritos. Contudo, não foi isso que me incomodou durante a audição. É que justamente quando ele cruza os elementos do folk com a sonoridade agressiva do metal, achei que o som soou embolado. A flauta por trás de “Bodies Under The Falls” é um ótimo exemplo. (Aliás, a bateria também dá umas atravessadas de tempo nessa música). “Killing The Giants As They Sleep” sofre do mesmo mal. Gostei das passagens mais folks tradicionais, por vezes meia country, incluídas no disco. Entretanto, quando junta tudo, o bicho pega. No lado mais pesado, onde achei que o rapaz se saiu melhor foram nos solos de guitarra. Legal saber que isso existe, mas não é um artista que acompanharia…

Diego: O tal do black metal é pra mim um mundo que não funciona. Por várias vezes tentei ouvir as banda clássicas do gênero e nunca me desceu. O que é considerado a natureza do gênero (a produção precária, amadora e tosca) é pra mim uma destruição de ouvidos. Não tinha a mínima noção de quem era esse Panopticon e ao ouvir Kentucky esperava que fosse mais um dos muitos ‘one man band’ do black metal com os dois pés no que é chamado de atmospheric black metal (um nome pomposo que quer dizer não tão violento). No entanto, Kentucky é diferente! A produção não é tão ruim e para os padrões black metal são até bons. Mas não só por isso, Austin L. Lunn (o nome por trás do projeto) tentou mesclar o black metal com o… bluegrass… Ok, admito, que isso me chamou a atenção. Mas a verdade é que Kentucky não faz mistura nenhuma. Eu esperava que o black metal fosse invadido por banjos e violões, o que temos ao invés disso, são vinhetas bluegrass entre as faixas de black metal, o que deixa o disco sem pé nem cabeça em alguns momentos. Não há uma fusão dos dois gêneros, o que há, na verdade, são dois gêneros no mesmo disco, poderíamos inclusive separar o disco em parte 1 e parte 2, quem gosta de black metal ouve uma parte, quem gosta de country a outra. Mas no final das contas Kentucky me surpreendeu, eu (salvos raras exceções) nunca havia conseguido achar sentido no black metal, e é a primeira vez que um disco do gênero me provocou um sentimento que não o asco. Na verdade Kentucky é um bom disco. Sofre do mal do século, é longo demais, deveria ter sido enxugado mais, já que o black metal é cansativo. Vale a pena dar uma ouvida, nem que seja por curiosidade. E fica também uma dúvida, os outros discos do projeto tem mais country? Pelas minhas pesquisas não, o que me deixa meio decepcionado pra falar a verdade.

Diogo: Quando li a respeito da sonoridade do Panopticon, minha expectativa foi lá em cima. Afinal de contas, unir o black metal em sua estirpe mais atmosférica com a música tradicional da região dos Apalaches, mãe da country music norte-americana, parecia-me algo no mínimo muito interessante. Ouvi o disco e fiquei um pouco decepcionado, pois achei que esses elementos não caminharam de mãos dadas tanto quanto eu gostaria. Em primeiro lugar, as canções folclóricas soam deslocadas do restante do álbum e mal se comunicam com o black metal. Segundo: quando essas duas linguagens estão na mesma faixa, não se integram tão bem, seguindo o mesmo caminho da grande maioria das bandas de heavy metal quando tentam unir à sua obra a música tradicional deste ou daquele lugar, seja país, estado ou região. Quando o Panopticon trabalha mais na linha do black metal (as faixas longas), eu até curto o resultado, mas, considerando o potencial existente, acredito que havia muito mais a ser feito.

Fernando: Sei que a utilização de rótulos é apenas uma maneira de organizar e situar as músicas dos artistas. Mas eu tenho um problema quando leio nessas descrições de estilos termos como: brutal, technical, math, crossover e, para citar o que aparece nesse caso, o atmospheric ou ambient. Simplesmente tenho preguiça do que esses termos aí significam no som de uma banda. O início traz um pouco de música tradicional americana, remetendo ao nome do álbum. Mas em pouco tempo a porradaria começa e fiquei surpreso pois foi bem melhor do que estava esperando. Achei o som nas partes mais metálicas um pouco abafado, mas não sei se é porque eu ouvi o disco pelo Youtube ou se é uma técnica de produção deixar tudo mais claustrofóbico mesmo. Impressiona tudo ser feito por uma pessoa só. O álbum alterna entre o black metal e algumas passagens de com banjos e instrumentos tradicionais dos interioranos americanos. Interessante o contraste, mas fico imaginando se o interiorano representado em marca d´água na capa aprovaria esse tipo de som.

Mairon: Velho, que loucura esse disco. Sério que é só um cara que está tocando tudo o que está saindo das caixas de som? Uma pena que o Panopticon (ou Austin Lunn) solte a voz durante os trechos de metaleira das músicas. Se ficasse só no bluegrass/folk que introduz o disco em “Bernheim Forest In Spring”, na delicadeza do banjo durante a faixa-título, ou nas vocalizações de “Which Side Are You On?”, seria um álbum magnífico. Curti muito quando violino, banjo e violão são os instrumentos centrais, como em “Come All Ye Coal Miners”. A barulheira insana que aparece em vários momentos, como em “Black Waters”, não agrada perante a musicalidade amena de outros tantos momentos, mas no geral, foi uma baita de uma surpresa positiva ouvir Kentucky. Legal!

Ronaldo: Há muito do receituário do black metal, que infelizmente não me conseguem arrancar nada além de algumas poucas palavras críticas. A se destacar a versatilidade do músico envolvido (Austin Lunn), que toca absolutamente bem tanto a guitarra (elétrica e acústica) quanto a bateria. Pena que se abstém de cantar na maior parte do tempo, urrando sem musicalidade alguma. E se daria bem fazendo mais trechos acústicos e melódicos. A mistura entre country-folk e black metal é insólita – não há liga entre os estilos. Quando um pára, o outro começa.

Ulisses: Black metal misturado com música regional não é novidade, mas fundido especificamente com folk, bluegrass e country é, no meu caso, algo que ouço pela primeira vez. Basicamente, temos os momentos rançudos de um lado, e os de banjos e flautas de outro, com poucos momentos onde a transição é fluida, mas também algumas partes em que os instrumentos típicos do bluegrass interagem com certa naturalidade com o black metal em uma faixa só, como a flauta em “Bodies Under the Falls” e o violino do convidado Johan Becker em “Killing the Giants as They Sleep”. Ainda assim, é justamente a diferença entre os estilos e a combinação de instrumentos nos momentos em que ambos os lados interagem que torna Kentucky uma audição interessante, mas não fica apenas por isso. O mais importante é a temática do álbum, que gira em torno da mineração de carvão que infesta o estado americano homônimo, situado na região dos montes Apalaches, contando inclusive com a inserção de vinhetas e samples com as vozes de mineradores e cidadãos, que complementam bem os momentos atmosféricos que o ouvinte confere no meio da estupenda “Killing the Giants as They Sleep” e no começo de “Black Waters”, por exemplo. Se isso não te parece black metal o suficiente, espere até ouvir uma velha mineradora militante afirmar com convicção: ‘I’m ready to die; are you?’, no final de “Black Soot and Red Blood” – nem só de demonolatria vive o estilo, graças a Satanás. E é em seu conteúdo lírico que encontramos o Panopticon engajado com uma causa social instigante e ainda relevante (visto que a indústria de carvão esteve em pauta nas mais recentes eleições presidenciais estadunidenses, por exemplo), lidando com todo o aspecto histórico do tema – desde o genocídio dos indígenas nativos por colonizadores (“Bodies Under the Falls”) até as disputas entre os mineradores sindicalistas contra os barões do carvão em Harlan County, nos anos 30 (“Which Side Are You On?”). Em suma, trata-se de um álbum bastante interessante dentro de seu estilo e que, como pude perceber através de minhas pesquisas sobre o estado do Kentucky para escrever este comentário, oferece mais do que apenas o aspecto sonoro. Austin Lunn, a mente por trás do Panopticon, criou um incrível tributo ao estado do Kentucky, que ainda sofre com as repercussões ambientais da mineração de carvão e os efeitos do colapso da indústria nos anos recentes. Não me tornei um fã de black metal, mas é facilmente a recomendação mais interessante aqui da lista – depois da minha, claro!



52 Comentarios

  1. Ronaldo disse:

    Parabéns pelo texto pessoal! Achei que o pessoal fosse ser mais tolerante com o disco do steve Winwood…a recepção para o disco do prince tb me surpreendeu!

  2. Anônimo de volta disse:

    Independente do posicionamento político do Lobão, o ruim no disco é que as músicas são chatas e cansativas. Engraçado, nego esquerdista nunca admite que as músicas do Chico Buarque sempre foram uma b…. e que hoje ele não é mais o suposto “grande compositor” que foi durante a ditadura militar quando compunha “músicas de protesto”. Tanto faz se nego é esquerda ou direita. O que importa são as músicas se são boas ou não. Eu sou anti-comunista mas nunca me incomodei de ouvir Napalm Death ou Dead Kennedys.

    • Diogo Bizotto disse:

      Se eu fosse deixar de ouvir determinados músicos e de ver determinados atores e diretores em ação devido às suas posições políticas, mais da metade daquilo que aprecio iria para a vala. Pessoas (artistas inclusos) não são seres unidimensionais, apesar de alguns fazerem um grande esforço para se colocarem apenas como entes políticos e nada mais. Aqui em casa, Rage Against the Machine e Ted Nugent sempre andaram de mãos dadas, não importando o tamanho das estupidezes que já tenham feito ou proferido.

      • Anônimo de volta disse:

        Mas o tio Ted está certo em várias opiniões dele, como exceção do fato dele adorar caçar animais indefesos. Só isso que eu sou contra, agora o fato dele ser contra imigração ilegal e contra o politicamente correto está mais do que certo.

  3. Luiz H. disse:

    Legal o tema. bem diversificada as escolhas. Quem poderia entrar fácil nesta lista é o Mike Oldfield, seus quatro primeiros discos são ótimos e o cara toca quase tudo. Abraço.

    • Luiz H. disse:

      Mas se fosse escolher um seria o Singin’ Alone do Arnaldo.

    • Mairon disse:

      O problema é que tem músicos convidados. Até pensei no Tubular Bells, mas a presença de elementos de orquestra descaracterizariam a proposta de hoje

  4. Raphael disse:

    Dos discos citados, o único que já ouvi foi o do John Fogerty, gosto bem da primeira metade, a segunda eu acho que cai bem, talvez pela “oitentização” mais clara.
    Estou ouvindo o do Lobão agora, realmente é um trabalho agradável, o que pega mesmo é a falta de esmero na produção, e o desequilíbrio entre som e canção, queria o instrumental fluindo mais em alguns momentos.
    E sem querer ser chato, mas já o sendo, os posts dessa seção poderiam vir com algum texto introdutório, explicando do que se trata o tema, fazendo um apanhado geral das indicações, algo que nem ocorre na “Melhores de Todos os Tempos”

  5. Diogo Bizotto disse:

    Posso estar enganado, mas creio que, de todas as edições da série, esta é a que menos trouxe discos que me surpreenderam positivamente. Tirando “Centerfield”, nenhum dos trabalhos me fez ter aquele pensamento tipo “uau, como eu não havia ouvido isso antes?”. “Arc of a Diver” é bonzinho, mas conhecê-lo na íntegra não adicionou tanto em relação às faixas que eu já conhecia. Tinha muita expectativa em relação a “Kentucky”, pois fui atrás de informações antes mesmo de ouvir o álbum, mas fiquei um pouco decepcionado com o fato da mistura de estilos não ter funcionado tão bem, apesar de ser um bom álbum no geral.

    • Ulisses Macedo disse:

      Sério que tu gostou tanto do Centerfield? É o melhor da carreira solo dele, mas vale dar uma olhada em Blue Moon Swamp (1997) e Revival (2007) também.

      • Diogo Bizotto disse:

        Gostei sim, John Fogerty é um músico cujas composições têm uma capacidade quase terapêutica em mim. A serenidade que esse cara é capaz de transmitir com suas canções é coisa de outro mundo, pouquíssimos outros artistas são capazes de gerar uma reação assim. É muito difícil ficar indiferente ao que ele faz.

  6. Diogo Bizotto disse:

    Ulisses, você que fez a indicação, sabe confirmar pra nós se “Centerfield” é 100% bateria eletrônica ou varia conforme a faixa?

  7. Diogo Bizotto disse:

    “(…) Mas que os Foo Fighters sejam (provavelmente) a maior banda de rock do planeta diz muito a respeito de como o rock espera pouco de si mesmo hoje em dia.”

    Ronaldo, eu juro que não havia lido essa citação antes de escrever meu comentário. Na verdade, isso é algo que eu digo há um bom tempo. Vamos combinar, a coincidência não é nem um pouco inesperada.

    • Ronaldo disse:

      Pois é! essa definição é tão precisa que fiz questão de parafrasear do autor. Tá na cara! A metáfora com o carpintaria tb é poderosa para o caso.
      Abraço,

  8. Diogo Bizotto disse:

    Quando recebi o tema pensei em três artistas, mas imaginei que os outros dois seriam citados pelos meus colegas e me decidi pelo Steve Winwood.

    Quais são os outros dois? Pra variar, sou capaz de apostar que passaram longe daqui.

    • Christiano disse:

      Eu iria indicar o primeiro do Paul Mccartney, mas achei que alguém já teria escolhido.

      • Diogo Bizotto disse:

        Eu penso que o pessoal tem que indicar o que der na telha mesmo. Se for repetido, a pessoa que estiver coletando os nomes avisa que já foi indicado e a pessoa troca, simples. Em toda edição acontece isso.

    • Fernando Bueno disse:

      Pensei de cara no Paul McCartney e depois no Richie Kotzen.

      • Diogo Bizotto disse:

        Kotzen passou longe por aqui, e olha que sou fã. Primeiro, pois já sei de cor as reações. Segundo, pois não há ninguém que represente tão bem o conceito de one-man band quanto Prince. Era obrigação moral citá-lo.

        • Tiago Bittencourt França disse:

          Como grande fã de Prince que sou poderia indicar váios outros álbuns dele para entrar nesta lista. Mas você acertou em cheio com Dirty Mind por ser o álbum que dá início ao direcionamento sonoro que ele seguiu durante toda a decada de 80 e que melhor representa a fase áurea do gênio pigmeu de Minneapolis.

  9. Diogo Bizotto disse:

    Caso de “Sister”, que falava sobre incesto ou de “Head” que soa quase como um daqueles contos eróticos que vinham estampados na findada Ele&Ela.

    Se, 37 anos depois, a indústria pornográfica ainda não produziu um filme baseado nessa música, já perdeu tempo demais.

  10. Diogo Bizotto disse:

    “(…) vejo pouco de interessante nesse funk sexualizado que pretende ser dançante mas acaba sendo robótico e anêmico.”

    Sinceramente, eu creio que a intenção era soar meio robótico mesmo, tanto que a sequência com “Controversy” e “1999” também investe nisso.

  11. Diogo Bizotto disse:

    Fiquei admirado que o comentário mais positivo em relação ao disco do Prince veio de um daqueles de quem menos esperava, o Mairon. Pra ti ver!

    • Mairon disse:

      Diogo. Tu me amas né?? Eu sempre te disse que gostava da fase inicial do Prince. Tá maluco??? Eu não gosto é a partir do Purple Rain, quando ele se vendeu …

      • Diogo Bizotto disse:

        Se vendeu? Agora eu fiquei mais confuso ainda.

        • Mairon disse:

          Fez o Purple Rain …

          • Tiago Bittencourt França disse:

            Se vc escutar o Around the World in a Day, que saiu depois do PR, verá que ele não se vendeu de forma alguma pois é praticamente um anti PR, ou seja, a “vibe sonora” dele naquele momento.

  12. Diogo Bizotto disse:

    Seus sons flutuantes e seus tons espaciais são quase feitos para o ouvinte deixar em uma confortável cama (ou sofá) e imaginar um filme dentro da cabeça. Deixar a imaginação funcionar. Nesses dias em que vivemos isso é mais do que um desafio! Vai encarar?

    E como é difícil dedicar um tempo exclusivamente para ouvir música, sem distrações. A vontade que o cara tem é de manter o conhecimento atual, mas com o tempo disponível da infância. Basta pensar que, com algumas exceções, os discos que mais ouvi na vida estão entre aqueles que primeiro comprei.

    • Diego Camargo disse:

      Eu sei Diogo, tenho vivido há anos essa coisa de ‘tentar ficar atualizado’, mas de uns meses pra cá parei, completamente. Não quero saber de atualizades a não ser que desperte o interesse, ouvir só pra dizer que ouvi, não rola mais, tanto que desse ano ouvi só 17 discos lançados, e não pretendo ir atrás muito não.

      Pra falar a verdade voltei a fazer o que há anos não fazia, todo dia, sento com os meus fones de ouvido e ouço pelo menos um disco com o encarte na mão e longe de tudo, pelo menos por 50 minutos eu me dou esse luxo, perco em quantidade, mas ganho em qualidade 🙂

      • Diogo Bizotto disse:

        Não quero saber de atualizades a não ser que desperte o interesse, ouvir só pra dizer que ouvi, não rola mais, tanto que desse ano ouvi só 17 discos lançados, e não pretendo ir atrás muito não.

        Mesma coisa por aqui, Diego. Tanto é que não participo mais da eleição de melhores discos que fazemos ao fim de cada ano. Seria completamente errado da minha parte pegar aqueles pouquíssimos que ouvi e ordenar. Ao mesmo tempo, na ânsia de tentar fazer isso da maneira que julgo ser mais correta, já houve ano em que ouvi cerca de 200 discos, a maioria apenas uma vez, no máximo duas, e geralmente enquanto executava outra tarefa. O resultado: não lembro de quase nada da grande maioria. Aqueles que ficaram como audição mais frequente são beeeeem minoria.

        • Diego Camargo disse:

          Diogo, eu fiz igual nos últimos anos. Tenho minhas estatísticas guardadas no RYM, então posso te dar números.

          Por exemplo, 2012 foram 272 discos que eu ouvi, em 2013 (341), em 2014 (223) ai eu fui parando, em 2015 (145), em 2016 (133) e esse ano só 17.

          E é bem como você disse, ouvi uma enorme quantidade desses discos ou indo/voltando do trabalho ou na frente do computador, resultado, a maioria eu ouvi uma vez só e a maioria eu não lembro de nada. Tem sentido uma coisa dessa? Parei e esse ano também não vou participar de melhores do ano, ou como você disse, seria falso demais da minha parte fazer uma lista de 10 discos se eu não ouvi nem 50 hahahaha

          • Diogo Bizotto disse:

            Fiz perfil recentemente no RYM, mas não estou cultivando o costume de dar nota para os discos novos que escuto. Prefiro escutar mais vezes, dar um tempo de amadurecimento, caso contrário acho que meu julgamento pode ser bem injusto. Claro, há quem dê nota baixa por prazer, especialmente a discos de bandas pelas quais já cultiva preconceitos. Isso fica bem evidente ao ver as notas baixas de álbuns de determinados artistas que não condizem com a realidade. Por ora, a maioria de minhas notas é para álbuns de bandas que ouço há muito tempo. Em função disso, inclusive, minha distribuição de notas parece mais piedosa que a realidade.

  13. Diogo Bizotto disse:

    virar crítico declarado da esquerda no Brasil em geral significa ser boicotado pelo meio artístico

    … E acadêmico.

  14. Diogo Bizotto disse:

    Às vezes você vê que ele tá forçando a barra na interpretação e na dramaticidade da composição, como em “O Que Es La Soledad Em Sermos Nos”

    Essa foi a gota d’água pra mim. Se cantando em português, um idioma mais redondinho, Lobão já soou pomposo e afetado demais, em espanhol, uma língua bem mais quadradona, seu vocal se tornou intolerável. Repito: faltou mesmo a mão de um produtor rigoroso e sem misericórdia em cortar seus exageros. Houvesse um, o resultado certamente seria melhor.

    • Diego Camargo disse:

      Eu ia falar do Espanhol na minha resenha e acabei esquecendo. Que terrível essa música, o espanhol do Lobão é tosco e a música ficou completamente sem nexo dentro do disco, tá lá uma música em espanhol no meio do disco.

      Sem contar que, o meu espanhol é bem meia boca, mas ele cantando dá a impressão de que o texto tem erros, talvez não sejam bem erros, mas ele não é natural, parece que o Lobão fez a letra em português e simplesmente traduziu palavra por palavra.

      Você ouve qualquer banda cantando em espanhol e é fácil ver que a do Lobão não flui. Ai você vê a versão que ele lançou no fim do ano passado dessa música, em português, e confirma que o texto foi traduzido palavra por palavra rs

      • Diogo Bizotto disse:

        Ah, traduzir palavra por palavra não dá mesmo. Fica parecendo letra de heavy metal brasileiro lá dos primórdios. Algumas até funcionam em meio à desgraceira sonora, mas qualquer senso de melodia vocal vai pro saco desse jeito.

  15. Diogo Bizotto disse:

    Na superfície, pode parecer que alguem teve a não tão brilhante ideia de entrecortar o black metal atmosférico norte-americano com trechos de bluegrass. Se essa realmente fosse a ideia central da empreitada, pode ter certeza que a experiência seria algo ridículo.

    Meu comentário já denuncia isso, mas eu não acho que seja uma ideia ridícula não. Claro, isso não poderia ser feito do jeito que a turma do folk metal europeu faz, que geralmente é ridículo mesmo, mas ainda creio que é possível fazer isso funcionar.

    • Diogo Bizotto disse:

      Aliás, gostei da capa do disco. Pessoal geralmente associa o black metal a paisagens geladas em geral, mas creio que esse clima meio “Deliverance” (apesar do filme se passar na Georgia, não no Kentucky), além de toda a temática lírica de um álbum como esse, também é digno de associação a uma forma violenta de música.

    • Alisson Caetano disse:

      Diogo, acho que o Ulisses foi dos que conseguiram entender bem a ideia do Panopticon. Na realidade o disco precisa de todo o contexto e da ideia das letras. Depois que se entende que o disco é conceitual sobre o povo de Kentucky, os trabalhadores das minas e uma crítica direta aos exploradores da região, desde o período de colonização aos tempos recentes, fica mais fácil de entender porque cada trecho folk estava ali. Na realidade o artista não quis fundir dois mundos, esse está mais pra um disco folk com apoio no black metal, mas no geral a parte folk é a principal, sem fazer questão de unir uma coisa na outra.

      Ah, a primeira vez que eu ouvi esse disco eu estranhei também.

  16. Diogo Bizotto disse:

    O que é considerado a natureza do gênero (a produção precária, amadora e tosca) é pra mim uma destruição de ouvidos.

    Sei que muita gente pode discordar, mas vejo bem mais méritos em muitas produções toscas e precárias de black metal do que em tantos outros discos em que tudo soa “cristalino”, em que “todos os instrumentos são bem audíveis” e mais uma série de clichês que, no fim das contas, querem dizer que nada foge ao padrão, mas também não há nada verdadeiramente positivo a destacar. Claro, como eu disse, isso é questionável. Meus ouvidos mudaram muito nos últimos anos e, algo que eu considerava bem produzido dez anos atrás, hoje em dia me soa asséptico. Produções (e mixagens e masterizações) verdadeiramente boas estão em extinção desde meados dos anos 1990. O som de bateria é algo que vem sofrendo especialmente, mas a decepção tem sido geral. Bandas que já fizeram história com álbuns absurdamente bem gravados hoje em dia seguem tendências e lançam coisas tecnicamente horríveis. O pior é que, com a desvalorização do formato álbum, a situação parece irreversível a médio e até longo prazo.

    • Diego Camargo disse:

      Concordo! Essa coisa de se poder gravar em qualquer lugar destruiu o som da bateria, o restante dos instrumentos é possível gravar até no banheiro da tua casa com uma certa qualidade (mas veja bem, isso é uma generalização, sei que não é bem assim), mas a bateria precisa de um lugar com boa acústica, se não a coisa fica horrível, sem contar quando os caras colocam 30 mil efeitos na bateria, ou o pior, pra mim, quando o som é pesado e a caixa da bateria tem aquele som agudo, mirrado…. pqp.

      • Diogo Bizotto disse:

        Ainda a esse respeito, recomendo a seção “Blind Ear” da revista Roadie Crew deste mês (sim, eu ainda compro). Dave Lombardo foi o escolhido da vez e desceu o sarrafo em quase todos os bateristas e produtores dos discos que ouviu em função do som sem vida e padronizado das produções atuais de heavy metal, incluindo o último disco do Slayer. Só elogiou Mikkey Dee e Ian Paice.

    • Ronaldo disse:

      Essa frase do Diego me representa!

    • Anônimo de volta disse:

      Eu também concordo Bizotto! Já teve nego que me esculhambou por eu curtir aquele ep clássico do Hellhammer Apokalipt Raids por ser extremamente cru, tosco e sujo. Mas é justamente esse o grande barato daquele disco, ser podre ao extremo. O Hellhammer que como todos sabem depois virou o Celtic Frost parecia um Black Sabbath ainda mais extremo e com velocidade.

  17. Ronaldo disse:

    Um outro cara que poderia ser citado seria o John Paul Jones!

  18. Diego Camargo disse:

    Puuuutz bicho, acabei de lembrar hoje do segundo disco solo do Józef Skrzek, Ojciec Chrzestny Dominika, de 1980.

    Discaço, duas faixas, 20 minutos cada, o cara toca tudo, voz, teclados, guitarra, violão, baixo, banjo, harmonica, percussão.

    Acabei esquecendo completamente desse disco mas eu recomendo!

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