Por Mairon Machado

Quando o vocalista Peter Gabriel subiu no palco do Marquee Club em Londres, na noite do dia 19 de setembro de 1972, vestindo uma fantasia de morcego sob um conjunto sombrio de luzes, bradando os versos de “Watcher of the Skies”, o rock progressivo migrava para uma nova dimensão.

Até então, o rock progressivo era uma ampliação do psicodelismo londrino do final da década de 60, enaltecido em 1967 por álbuns de bandas como Pink Floyd (que veio depois a se tornar um dos principais nomes do estilo), com The Piper at the Gates of Dawn, Beatles e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, Rolling Stones e Their Satanic Majesties Request, Yardbirds e Little Games, e muitos outros grupos de menor escalão, mas também essenciais para a psicodelia londrina.

Genesis e amigos, destacando Gabriel, no centro, com a fantasia da raposa.

A cena de Canterbury também fervilhava ideias em 1972, e claro, o lançamento naquele mês de Close to the Edge mostrou ao mundo que o rock progressivo estava ganhando espaço não só como um estilo musical, mas também como uma referência de vida.

Até que Gabriel pisou no palco do Marquee, mostrou a fantasia de morcego ao mundo e praticamente anunciou: o rock progressivo não é composto também de longas canções e letras difíceis, mas também de teatralidade, espetáculo e encenação. A data de 19 de setembro abriu a primeira parte da turnê do quarto álbum do grupo britânico Genesis, que possuía Gabriel nos vocais, e que foi lançado há exatos quarenta anos. O nome do LP: Foxtrot.

Tido por muitos como um dos melhores álbuns da história do progressivo, ele foi gravado nos estúdios da Island em Londres, pela principal formação do Genesis, com Gabriel (voz, flauta, percussão), Steve Hackett (guitarras, violões), Tony Banks (teclados, violões), Mike Rutherfor (baixo, guitarras, violões) e Phil Collins (bateria, percussão, vocais), e é uma verdadeira aula para os iniciantes do rock progressivo.

Phil Collins, Steve Hackett, Mike Rutherford, Peter Gabriel (e a fantasia de homem-morcego) e Tony Banks

O álbum abre com a já citada “Watcher of the Skies”, e uma das introduções mais famosas da história do rock, feita pelos acordes do mellotron de Banks, seguindo com sua complicada marcação no baixo, as variações de andamento do órgão e a guitarra de Hackett soando como uma navalha dentro das caixas de som.

A bonita balada “Time Table” mostra todo o talento de Banks no piano, enquanto “Get’em out By Friday” destaca Gabriel na flauta, fazendo um solo magnífico, e mais um belíssimo arranjo musical feito pelo quinteto, alternando momentos agitados com outros de pura leveza. “Can-Utility and the Coastliners” vem na sequência, encerrando o lado A sendo a mais próxima do que o grupo havia gravado até então, com passagens acústicas dos violões, flautas e uma estonteante sessão instrumental destacando o mellotron, que intercala acordes assustadores sobre a levada dos violões de Rutherford e Hackett, e Collins demolindo sua bateria.

O lado B abre com a peça clássica “Horizons”, a rival de “Mood for a Day”, composta por Steve Howe para o Yes, e que aqui apresenta somente Hackett fazendo um emocionante e ao mesmo tempo intrincado solo no violão, abrindo espaço para a longa suíte “Supper’s Ready”.

O Homem-flor

Essa maravilha prog passou a ser a canção de encerramento dos shows do Genesis a partir de então, e sem sombra de dúvidas, está no Top 10 das mais importantes suítes do rock progressivo. Suas sete divisões (“Lover’s Leap”, “The Guaranteed Eternal Sanctuary Man”, “Ikhnaton and Itsacon and Their Band of Merry Men”, “How Dare I Be So Beautiful?”. “Willow Farm”, “Apocalypse in 9/8 (Co-Starring the Delicious Talents of Gabble Ratchet)” e “As Sure As Eggs Is Eggs (Aching Men’s Feet)”) encaixam-se com tamanha perfeição que após seus quase vinte e quatro minutos, o ouvinte sente a sensação de ter passado por uma sessão de massagem no cérebro, tamanha a beleza, complexidade e genialidade dessa obra.

Apenas cinco canções, que foram levadas aos palcos londrinos e europeu entre 1972 e 1973, sendo registradas no ótimo, mas não representativo (perto da grandiosidade da turnê) Live (1973).

Depois de Foxtrot, os grupos de rock progressivo passaram a tratar suas turnês não somente como a apresentação de canções para os fãs, mas também acharam métodos de explicar para os mesmos o que estava sendo expresso nos sulcos dos vinis.

Capa e contra-capa de Foxtrot

Claro, o Jethro Tull já vinha fazendo algo parecido durante a turnê de Thick as a Brick, mas para a história do rock progressivo, sem Foxtrot jamais teríamos tido a oportunidade de conhecer o homem-morcego, a raposa, o homem-flor ou o falso profeta, ou ainda o velhinho-fantasma de “The Musical Box” ou o Rael mutante de “The Colony of Slippermen”, mas principalmente, não teríamos o privilégio de obras como Selling England by the Pound (1973) e The Lamb Lies Down on Broadway (1974), ambas lançadas pelo Genesis, calcadas nos pilares progressivos expressos através de Foxtrot.

Se não é o melhor álbum do grupo, é o primeiro ponto de sela na carreira do mesmo. Depois dele, veio o auge do sucesso do Genesis, para aí surgir um novo ponto de sela, em 1975, com a saída de Gabriel. Mas isso é assunto para outra hora.

Tracklist:

  1. Watcher of the Skies
  2. Time Table
  3. Get’em Out By Friday
  4. Can-Utility and the Coastliners
  5. Horizons
  6. Supper’s Ready

9 comentários

  1. José Leonardo G. Aronna

    Os amigos do Genesis na foto acima são alguns integrantes da banda italiana Le Orme

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  2. Hiro

    O melhor álbum do Genesis pra mim, quase todas as faixas são igualmente boas e Supper’s Ready é minha música de prog favorita de todas.

    Grande banda, sem dúvidas.

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      • Igor Maxwel

        Gaspa, pra mim o melhor é o SEBTP, de 1973 (Foxtrot empata com ele), só que para a maioria dos fãs do Genesis, o melhor é o duplo The Lamb Lies Down on Broadway (1974), que você não gosta. Tem também o Nursery Cryme (1971), que veio antes do Foxtrot e que é foda demais. Ouça “The Musical Box”!

      • Marco Gaspari

        Hehe… fico até comovido por você me indicar The Musical Box para ouvir, Igor. Isso demonstra que pra você eu devo ser um rapazola e não o velho pré-gagá que ouviu Nursery Crime pela primeira vez lá pelos 16 ou 17 anos.

  3. Igor Maxwel

    Este sim é que é um verdadeiro disco de progressivo que eu curto bastante, e que sintetize o estilo de uma forma “decente”. Apesar de eu gostar mais do disco seguinte, Selling England by the Pound (1973), tenho um carinho muito grande pelo Foxtrot, pois foi este o disco que me iniciou na obra do Genesis, graças á Consultoria do Rock, site do qual eu participo comentando em algumas matérias.

    Foxtrot foi a minha porta de boas vindas ao mundo mágico de Peter Gabriel e cia., e vou começar falando do lado B: a chave para abrir essa porta foi exatamente a música “Supper’s Ready” (decidi ouvir após ler sua análise no quadro das Maravilhas Prog, aqui do site), a história da experiência sobrenatural que Gabriel teve na casa de sua esposa, e que muitos consideram-a como a “maior canção de todos os tempos”. Lembrando que essa música ocupa o lado B inteiro do vinil juntamente com a vinheta “Horizons” um curto momento no qual apenas Steve Hackett reincarna no violão o grande gênio barroco Johann Sebastian Bach, que serve como uma introdução a música citada, e funciona muito bem quando é tocada dessa forma ao vivo.

    Mas o lado A reserva também outras surpresas: a abertura com “Watcher of the Skies” se tornou por coincidência a música que abria os shows do Genesis nesta época. É raramente vista por muitos como a canção mais emblemática do grupo, mas na minha opinião ela perde feio para “Firth of Fifth” (gravada em SEBTP). Apesar de nunca ter sido tocada ao vivo, a balada “Time Table” se destaca fortemente na proposta e no contexto deste álbum. “Get ‘em Out by Friday” é outro clássico do grupo e nela se sobressai as mudanças tonais na voz de Gabriel através de uma história que satiriza os fatos do nosso cotidiano. Por fim, “Can Utility and the Coastliners” parece ser a canção que a maioria dos fãs mais gostam de Foxtrot, eu não entendo o porque, mas mesmo assim é uma boa música.

    Tudo somado, este álbum é altamente recomendado para quem quer realmente conhecer o Genesis e é obrigatório em qualquer biblioteca musical que se preze. Então amigos, façam como eu: comecem a conhecer o Genesis com Foxtrot, na minha opinião, o melhor disco do progressivo antes de Dark Side of the Moon (Pink Floyd).

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