Por Fernando Bueno
O Dr. Sin foi o resultado da dissolução da banda de Wander Taffo, famoso por seu trabalho com o Rádio Táxi. Os irmãos Busic, Andria (baixo e vocal) e Ivan (bateria), egressos do grupo de Taffo, juntaram-se ao guitarrista Eduardo Ardanuy, que já havia tocado com outras conhecidas bandas nacionais. Os três se tornaram o grupo de apoio do controverso Supla, e, com o “Papito”, gravaram um disco e fizeram alguns shows. Após um tempo, decidiram que deveriam seguir com uma carreira própria.
A banda foi contratada pela gravadora Warner sem nem mesmo ter algum material, fato que gerou bastante surpresa, dado que esse não é o procedimento normal de uma gravadora. A verdade é que os contatos que o trio estabeleceu trabalhando com tanta gente conhecida facilitou muito a contratação. Isso também explica a oportunidade de, antes mesmo de ter um álbum lançado, se apresentar em um festival importantíssimo nacionalmente: o Hollywood Rock de 1993. Nesse festival, o Dr. Sin abriu a noite que contaria com a banda de maior evidência no mundo naquele ano, o Nirvana.
Durante a explanação sobre cada disco, deixarei um pouco de lado os comentários a respeito do virtuosismo do trio, já que essa é uma característica tão forte dos músicos, que observações do tipo se tornariam repetitivas demais. A maioria dos fãs brasileiros de rock pesado sabem que Eduardo Ardanuy (que no começo da carreira era chamado de “Duzinho Malmsteen”) é um dos melhores guitarristas do país, e, mesmo tendo “concorrentes” de peso como Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, considero-o o melhor de todos. Os irmãos Busic também são frequentemente citados em diversas eleições congregando os melhores em suas funções.
É difícil classificar a sonoridade do grupo, já que durante todos esses anos muitas influências foram agregadas ao seu som. Começaram como um representante nacional do hard rock, feito de uma forma bem particular, é verdade. Entretanto, ao longo do tempo, elementos de heavy metal, progressivo, hard setentista e até um pouco de thrash metal foram adicionados. O importante é que criaram uma sonoridade característica, algo que identificamos logo que escutamos uma música da banda, e isso talvez seja a maior consagração que um artista pode conseguir.
Dr. Sin [1993]
Muitos dos que conhecem Dr. Sin citam esse álbum, tido como o preferido de quase todos os fãs. Em seu track list consta a música mais conhecida e que resume o som da banda “Emotional Catastrophe”. Riffs intrincados, belos refrões e um trabalho vocal que é uma das marcas do trio. Sem deixar a peteca cair temos “Dirty Woman”, com seu riff sacana que combina perfeitamente bem com a temática da canção. Para justificar o rótulo de hard rock não poderiam faltar as baladas, e eles também as fazem com maestria, como podemos ouvir em “You Stole My Heart” e “Through My Window”. A ótima faixa que leva nome da banda tem uma levada no início que lembra “Emotional Catastrophe”. “Valley of Dreams”, com seus vocais dobrados e refrão marcante, é um dos destaques do disco. Na época do lançamento desse disco, não conhecia a versão orginal de “Have You Ever Seen the Rain”, e essa era uma das que mais gostava no álbum. O Dr. Sin pegou uma música simples e a incrementou sem mudá-la muito. Depois que conheci a versão do Creedence Clearwater Revival, acabei me decepcionando um pouco. O álbum fecha com “Scream & Shout”, com mais um refrão pegajoso, que deixará, para quem acompanhou o disco todo, a impressão de que essa é a especialidade da banda. Na versão em CD, lançado em 2004, consta uma versão ao vivo de “Revolution”, tirada de 10 Anos ao Vivo. Esse álbum foi, ao meu ver, desnecessariamente regravado e lançado como o nome de Original Sin em 2009. Claro que ocorreu uma pequena melhora na qualidade da gravação, mas esse nunca foi um problema para o Dr. Sin. O real problema era uma dificuldade com a Warner em relação à distribuição desse disco e regravando-o sob outro nome e em uma gravadora diferente isso seria parcialmente resolvido. Isso apenas prova o que disse lá no início: esse é o álbum mais importante da banda.
Brutal [1995]
Sempre que ouço Brutal fico com a ideia de que trata-se de uma continuação do primeiro disco, com a adição de peso, talvez até justificando seu nome. “Down in the Trenches” é um ótimo exemplo disso, porém, em sua segunda parte, ocorre a troca do peso da guitarra pelo clima pesado da canção. “Silent Scream” e “Karma” aparececiam na ápoca como os principais destaques do álbum. Digo isso porque, com o tempo, “Fire” e seu incrível solo foi se tornando tão popular, principalmente entre aqueles que adoram malabarismos guitarrísticos, que hoje é provavelmente considerada a principal música desse álbum. Uma versão dessa música gravada no álbum 10 Anos ao Vivo, com a participação de Andre Matos, foi febre entre os fãs. “Fire” inclusive foi tema da novela “Chamas da Vida” da TV Record. “Isolated”, “Hey You” e “Shed Your Skin” são outras faixas que ficam em evidência. “Kizumba” é um curto solo de bateria, na qual até um sambinha aparece, praticamente uma introdução para “Someone to Blame”.
InSinity [1997]

Analisando toda a carreira do Dr. Sin, chego à conclusão de que InSinity é seu disco mais fraco. Contudo, esse demérito se deve muito mais à qualidade dos outros álbuns do que a alguma falha cometida. Musicalmente, InSinity é muito semelhante a Brutal, com faixas dinâmicas como “Brother”, que resgata a pegada hard do primeiro disco. “Sometimes” e “Flying to Die” lembram muito o Rush e são densas e arrastadas. Ótimas canções. “Revolution”, que aparece em uma versão ao vivo no relançamento do primeiro disco, está presente neste álbum. Para incluir mais um estilo na lista dos explorados, “Insomnia” conta com alguns vocais falados, que remetem ao hip hop. InSinity também traz a primeira parceria entre o Dr. Sin e o vocalista Michael Vescera, co-responsável pela produção do álbum, além de cantar canta em uma das faixas, “No Rules”. Um dos maiores hits do Dr. Sin, única faixa gravada em português, está presente nesse álbum. Homenageando o esporte (ou os esportes) preferido dos brasileiros, “Futebol, Mulher e Rock n’ Roll”, aparece aqui como bônus apenas para o Brasil (no Japão foi “Holy Man”, cover do Deep Purple). Além disso, conta com algumas inserções dos famosos jargões do narrador de futebol Silvio Luiz. Para quem assistiu a jogos na TV Bandeirantes no início dos anos 90, é uma forma de lembramos dessa fase. Foi na turnê promocional de InSinity que a banda abriu alguns shows de Yngwie Malmsteen; o sueco gostou tanto do que ouviu, que em seu álbum ao vivo, Live!! (1999), incluiu um CD bônus com quatro músicas do show de abertura. Para quem conhece o viking e sua personalidade difícil, sabe que isso é digno de nota. Não sei se o fato de Michael Vescera ter sido um dos muitos vocalistas que passaram pela banda de apoio de Malmsteen influenciou a sua posterior inclusão no line-up do Dr. Sin.
Andria Busic, Michael Vescera, Ivan Busic e Eduardo Ardanuy
  
Dr. Sin II [2000]

A entrada de um músico conhecido internacionalmente no line-up oficial da banda foi uma cartada que todos entenderam como ideal para finalmente trazer reconhecimento global ao grupo. Dr Sin II traz um pouco mais de heavy metal à sonoridade característica do grupo, principalmente devido à voz de Michael Vescera. Andria Busic não deixou de cantar com a presença de um novo vocalista, e a combinação das duas vozes foi o ponto alto dessa nova parceria, como é possível conferir em “Eternity” e “Devil Inside”. Outros destaques ficam para a faixa de abertura, “Time After Time”, e para a rápida “Danger”. Porém, apesar de alguns êxitos e de boas músicas, o disco como um todo não agradou muito, ou melhor, não correspondeu às grandes expectativas que gerou quando a união foi anunciada. Isso reflete o fato de que muita gente acaba julgando diversos trabalhos de acordo com as expectativas que eles geram, não os avaliando com imparcialidade. É importante citar que Dr. Sin II foi disponibilizado de uma maneira totalmente fora dos padrões normais da época. O álbum era vendido em bancas de jornais junto com uma revista que contava a história da banda. Atitude parecida foi a do músico Lobão, que lançou a revista Outracoisa, que sempre trazia um CD encartado. Para finalizar, esse álbum foi lançado nos EUA e na Europa com o nome Shadow of Light, com uma capa horrível. Não que a original seja ótima, mas basta conferi-la para perceber o porquê da lembrança. Após o lançamento desse álbum e da realização de alguns shows, provavelmente devido à repercussão abaixo do esperado, Michael Vescera deixou o grupo.
Um trio novamente
  
Listen to the Doctors [2005]
Algum membro da banda disse em uma entrevista que o trio estava andando de carro em São Paulo ouvindo a rádio Kiss FM quando tocou uma música, que se não me engano era “Doctor Doctor”, do UFO. Eles começaram a brincar com o nome da banda, Dr. Sin, e lembraram de outras canções que contavam com a palavra “Doctor” no título. Depois de perceberam que existia um número grande de canções com essa característica, e de várias bandas das quais eles eram fãs, tiveram a ideia de gravar um disco com essas faixas. “Calling Dr. Love” (Kiss) ficou mais pesada e com vocais mais trabalhados que a original. Já “Dr. Rock” (Motorhead) está mais na linha da versão original, a exemplo de “Doctor Doctor” (UFO). Quando comprei o álbum, a canção que mais me chamava atenção era “Dr. Feelgood” (Mötley Crüe), e, para falar a verdade, nem sei o porquê. Só que, hoje em dia, o resultado final dessa faixa me desagrada. Aquele groove característico da original meio que desapareceu, além dos vocais estarem muito “falados” durante as estrofes, fato que deixou seu andamento um pouco estranho. Também não curti muito o resultado de “Somebody Get Me a Doctor” (Van Halen). Não conhecia as versões originais de “Just What the Doctor Ordered” (Ted Nugent) e de “The Doctor” (The Doobie Brothers), mas os resultados ficaram interessantes. “Dear Doctor”, dos Rolling Stones, também acabou ficando com o jeitão original, no melhor estilo jam session, com gaitas e piano gravados por um dos inúmeros convidados que participaram do álbum. Aliás, jam session é o que ocorre na faixa que fecha o álbum, “Doctor Jazz” de King J. Oliver, músico que, devido à minha ignorância, não faço ideia de quem seja. A principal característica desse álbum foi a diversidade. Temos de Mötley Crüe a Beatles, e até jazz, mistura que agradou a todos. Poucos grupos conseguem fazer isso dessa maneira.
Bravo [2007]

Depois de sete anos sem lançar um disco de músicas inéditas, Bravo saiu fortemente influenciado pelo prog metal, como na faixa de abertura “Drowing in Sin”. Em Bravo comprovamos que Eduardo Ardanuy sabe criar riffs como poucos. As levadas mais hard rock ficaram escassas (aparecem em “Life is Crazy”), mas essa mudança foi positiva e se encaixou perfeitamente à sonoridade do trio. Ouçam a densa e emocionante “Empty World” e percebam essa mudança, e depois, para quebrar o clima, se surpreendam com a velocidade de “Freedom”. Um pouco de música oriental aparece em “Taj Mahal”. “Celebration Song” é perfeita para quem gosta de Led Zeppelin, já que contém diversas referências de músicas compostas (ou não…) por Jimmy Page. Talvez por terem ficado tanto tempo sem lançar um novo álbum, o track list apresente dezesseis músicas, número acima do normal. Mesmo com a elevada conta, as faixas estão em um mesmo patamar, sendo até difícil eleger destaques. O trio aproveitou muito bem o tempo que tiveram para amadurecer as músicas que entrariam no álbum. Destaque para a capa, que é, ao lado da arte feita para Dr. Sin, a mais legal que a banda já apresentou.

Animal [2011]
Na resenha de Brutal, disse que o álbum era uma evolução do disco de estréia, porém com mais peso. Também podemos dizer que Animal é uma continuação de Bravo com um pouco mais de peso. O Dr. Sin novamente lançou um álbum de extenso track list, e, a exemplo de Bravo, com um padrão constante. A banda novamente demorou bastante para lançar outro registro de inéditas (durante esse tempo também regravaram o álbum de estréia). O disco foi lançado no final do ano, época na qual aconteceram os festivais Rock in Rio IV e SWU. Li uma entrevista na qual o trio demonstrou que ficou chateado por não ter sido convocado por nenhum desses festivais. Essa falta de reconhecimento acompanha a banda ao longo de quase toda sua carreira, exceto em seus primórdios, como comentado anteriormente. Voltando ao álbum, temos novamente uma miscelânea de estilos, do hard ao progressivo, além de duas homenagens prestadas pela banda. Em “The King” o homenageado é Ronnie James Dio, talvez o músico que mais recebeu esse tipo de tributo logo após sua morte. A faixa inicia com um teclado que logo faz com que todos lembrem de “Rainbow in the Dark” (Dio), e no final da música é executado o riff de “Heaven and Hell”. A segunda homenagem é para os amantes da série de filmes “Guerra nas Estrelas”. “May the Force Be With You” mostra o lado nerd do trio, que terá muito apelo com esse tipo de público. São destaques também “Animal”, “Lady Lust”, que parece uma música saída do álbum do Heaven and Hell (a banda), “Faster Than a Bullet”, que lembra o Deep Purple da Mark II, e a sentimental “Pray for Tomorrow”. “Ninja”, que fecha o álbum é uma música instrumental que a banda já executava há algum tempo ao vivo e só agora foi registrada em disco.

1 comentário

  1. diogobizotto

    Estou bem pouco habituado a "Bravo" e "Animal", mas entre o resto da discografia do Dr. Sin meu favorito é "Brutal". As seis primeiras faixas desse álbum são um absurdo, é música ótima atrás de música ótima, mas destaco em especial "Isolated", que conta com um dos solos de guitarra mais memoráveis que já tive o prazer de ouvir, e não me refiro apenas ao rock nacional, mas à música popular em geral.

    Como frisado pelo Bueno, a capacidade instrumental do trio é algo inquestionável, especialmente em se tratando de Edu Ardanuy, no entanto, devo admitir que não acho a voz de Andria uma das mais agradáveis no gênero. Não é nada que comprometa a qualidade do grupo, mas a breve inclusão de Michael Vescera foi bem interessante. Outra coisa: gostaria de ter visto o Dr. Sin investindo mais em músicas cantadas em português, não apenas para que houvessem mais oportunidades no mercado nacional, mas porque acho que nosso idioma pátrio pode funcionar bem no rock pesado.

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