Direto do Forno: Apocalypse – The 25th Anniversary Box Set [2011]

29 de dezembro, 2011 | por micaelmachado
Direto do Forno
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Por Micael Machado
Não lembro exatamente a primeira vez em que ouvi falar do Apocalypse, mas tenho guardada na memória a primeira vez que os vi ao vivo: foi em alguma tarde de domingo de 1997, no palco do auditório Araújo Viana, em Porto Alegre, em um festival de rock progressivo ao lado das também recomendadas Grandbell e Cinema Show. Foi a primeira vez que vi ao vivo um tecladista com diversos teclados no palco (lembro de doze, embora a foto do show no livro deste box mostre apenas uns dez…), assim como faziam gigantes do porte de Rick Wakeman e Keith Emerson, que eu assistia nas minhas fitas VHS. Foi também a primeira vez em que ouvi prog cantado em português, com letras em sua maioria exaltando a necessidade de proteger a natureza e preocupadas com o futuro do planeta, coisas que hoje podem estar na moda, mas à época eram bem incomuns.
Apocalypse 2011: Ruy Fritsch, Gustavo Demarchi, Fábio Schneider, Eloy Fritsch e Rafael Schmitt
Aos que não conhecem o som do Apocalypse, poderia resumir dizendo tratar-se de um grupo que não nega a influência dos dinossauros setentistas em sua música (Yes, Pink Floyd e Genesis à frente), além de muito do estilo do Marillion. Mas, ao invés de se contentar em ser uma mera cópia destes gigantes, o grupo mescla suas características de forma a compor uma música com “cara” própria, que agradará em cheio aqueles que se identificam com o estilo, especialmente se você for fã dos tecladistas citados no início do texto.
O tempo passou e não posso dizer que acompanhei de perto a trajetória do conjunto, até porque muitos de seus discos foram lançados apenas lá fora pela gravadora francesa Musea. Mas o fato é que a banda completou 25 anos de carreira em 2008, e somente agora, em 2011, consegue comemorar à altura, com o lançamento (viabilizado através de incentivos culturais do projeto “Financiarte”, da prefeitura de Caxias do Sul, cidade natal do quinteto) do box set The 25th Anniversary, composto de dois CDs (um ao vivo e outro de estúdio), um DVD e um belo livro com a história destes verdadeiros heróis do prog gaúcho, além de um poster com a arte da caixa e dos discos lançados pelo Apocalypse. Um verdadeiro presente aos fãs do grupo, e um item obrigatório a todo apreciador de rock progressivo.

Magic Spells
Começando pelo CD ao vivo, intitulado Magic Spells e gravado em 2005, durante a turnê promocional do EP Magic (2004). À época, o grupo havia recém se transformado em quinteto, com a saída do vocalista/baixista Chico Casara, substituído pelo cantor Gustavi Demarchi e o baixista Magoo Wise, sendo os demais membros os fundadores Eloy Fritsch (teclados), seu irmão Ruy Fritsch (guitarras) e o baterista Chico Fasoli. Esta mudança de formação trouxe também uma nova forma do grupo encarar suas músicas, transpondo as letras para o inglês e rearranjando antigos sucessos. 
Assim, nestes primeiros shows com os novos integrantes, o público do Apocalypse era apresentado à músicas conhecidas que soavam como novidades, como é o caso de “Corta” (agora intitulada “Cut”) – minha favorita da discografia do grupo, com um clima bem parecido com o das músicas do Marillion (sendo que em alguns momentos a voz de Gustavo lembra bastante a de Fish), e uma das composições onde o guitarrista Ruy Fritsch brilha tanto quanto seu irmão – “América do Sul” (“South America“), “Refúgio” (“Refuge“), a bela balada “Lágrimas” (“Tears”, com destaque para Ruy Fritsch), “Mágica” (“Magic”) e a excepcional “A Paz da Solidão” (“Peace In The Loneliness”). Embora o repertório seja bastante parecido com o do DVD Live In Rio, de 2006 (os dois discos foram gravados na mesma época), aqui o grupo se mostra um pouco mais contido, talvez por tratar-se ainda do início da nova trajetória. Mesmo assim, não tem como não se impressionar com a sonoridade progressiva e com o talento dos músicos, especialmente Eloy Fritsch, que por vezes soa como se fossem dois tecladistas ao mesmo tempo em cima do palco. Magic Spells ainda conta com duas composições de estúdio como bônus, a progressiva “Escape” e a balada “Not Like You”, originalmente presentes (em registros ao vivo) no disco The Bridge Of Light (2008). No encarte (em inglês) do CD consta a frase “Ouça alto e com as luzes apagadas. Deixa a magia começar”. Belo e adequado conselho!

2012 Light Years from Home

O segundo disco, intitulado 2012 Light Years from Home, é o primeiro registro inédito de estúdio com Gustavo (o EP Magic era de regravações, e o álbum anterior, The Bridge Of Light, apesar de contar com composições inéditas, foi gravado ao vivo), e também o primeiro disco sem a participação do baterista Chico Fasoli (substituído pelo excelente Fábio Schneider). Além disso, com a saída de Magoo, Eloy assumiu também o baixo, mostrando habilidade também nesse instrumento.

Embora ainda essencialmente prog, no geral a banda soa mais leve em seu novo registro, com arranjos menos pomposos que antes, e os teclados já não “dominando” as composições da mesma forma que antigamente, havendo mais espaço para o trabalho dos outros músicos, especialmente para as linhas de baixo e a percussão de Schneider. Até os solos de Ruy estão mais contidos, e ele e seu irmão parecem estar jogando mais “para o time”, colocando de lado a pura técnica exibicionista (que eu adoro ouvir, diga-se de passagem) em favor de arranjos mais enxutos e precisos, além de trazer alguns elementos do rock sessentista para o caldeirão de influências do Apocalypse, especialmente em “Set me Free“. A flauta de Demarchi (que praticamente não aparece em Magic Spells) também tem maior espaço nas composições, especialmente na linda “The Angels and Seven Trumpets” e na balada “Take my Heart”. O vocalista também soa bem mais adaptado ao estilo do grupo, pois no CD ao vivo ainda soava por vezes como um cantor de metal melódico, devido ao seu registro bastante alto, assim como os cantores deste estilo (fato que ele repete aqui em “‘Till Another Side”). Não que seja ruim, mas o prog geralmente tem cantores em tons mais baixos, e soa “estranho” ouvirmos algo parecido com o registro de Edu Falaschi em seus primeiros tempos de Angra em meio às viajantes melodias do Apocalypse…
“On the Way to the Stars” destaca a guitarra de Ruy e os teclados de seu irmão. Os coros da balada “Morning Light” (que tem a participação da vocalista convidada Mila Pulita) ficaram muito bonitos, e é impossível não ouvir o início de “Find me Now” e não se imaginar escutando uma banda dos anos setenta, em muito graças aos timbres de teclados escolhidos por Eloy. Três baladas em sequência (“A Cry in the Infinity”, “To Kiss the Tears You Cry” – esta com vários efeitos sonoros em seu início – e a curta “Blue Angel”) preparam o terreno para o encerramento do CD, com os quatorze minutos da suíte que lhe dá nome. Se a faixa de abertura (“New Sunrise“) não me agradou muito, por soar por vezes meio “modernosa” em demasia, não tem como não se apaixonar por esta verdadeira gema prog que é “2012 Light Years from Home”, sem dúvidas a melhor composição deste disco e um dos destaques na longa discografia destes gaúchos. Com um início bastante calcado na sonoridade do trio Emerson Lake & Palmer, onde Eloy Fritsch e Fábio Schneider dão um verdadeiro show em seus instrumentos, a melodia que acompanha as linhas vocais lembra algo dos musicais da Broadway, soando bastante interessante, e sendo substituída mais adiante por uma interpretação mais “emocional” por parte de Demarchi, a qual, junto com o belo arranjo, irão agradar não apenas aos prog maníacos, mas a todos que gostam de música bem tocada e arranjada. Uma nova parte ao estilo do ELP se faz ouvir, levando a suíte a seu encerramento, não sem antes termos uma rápida repetição da parte mais “emocional” dos vocais. Maravilha prog sem sombra de dúvidas! Importante citar que a capa e toda a bela arte gráfica do CD ficou a cargo do vocalista Gustavo Demarchi, que realizou um trabalho excelente. Pode não ser o melhor disco do grupo, mas com certeza marcará dentre tantos belos trabalhos lançados pelo Apocalypse!
The 25th Anniversary Concert

Gravado entre estes dois discos, o DVD The 25th Anniversary Concert é para mim o grande destaque deste box. Neste show especial, registrado em setembro de 2009 em Porto Alegre, a formação em quinteto se mostra muito mais entrosada do que em Magic Spells, com Gustavo inclusive acrescentando linhas de flauta antes inexistentes a temas como “Cut” (inexplicavelmente “podada” em mais da metade de sua duração), “South America” e “Refuge”, e que tornaram ainda melhor o que já era excelente. É muito interessante ver Eloy “bailando” entre suas torres de teclados, mas meu lado baixista se alegrou mesmo foi de ver/ouvir Magoo tocando um baixão Rickenbacker (de longe o meu modelo favorito do instrumento) em algumas músicas originalmente registradas no The Bridge Of Light, como “Follow the Bridge” e “Dreamer”. Assim como acontece na versão deste disco, o violinista gaúcho Hique Gomez participa de “Not Like You“, acrescentando seu enorme talento aos inerentes aos músicos do Apocalypse. Completam o track list versões para “Blue Earth” (outra que tem um perceptível corte na edição)  e “Magic”.

O DVD tem uma enorme qualidade de áudio e imagens, além de  legendas em inglês e português, inclusive nas músicas. Ainda constam como bônus as faixas “Ocean Soul” e “Last Paradise” (outra com a presença de Hique Gomez), registradas no show que resultou no The Bridge Of Light, e “Waterfall Of Golden Waters”, na versão presente no DVD Live In Rio.
The 25th Anniversary Book
Finalmente, mas não menos interessante, há o livro contando toda a história do Apocalypse (em português e em inglês), desde as dificuldades dos primeiros dias até os atuais (e ainda difíceis) momentos do grupo. Os primeiros shows, as primeiras gravações, o contrato com a Musea, as primeiras viagens ao exterior, participações em festivais, histórias das gravações dos discos, a mudança ocorrida com a saída de Chico Casara, o desenvolvimento da formação em quinteto, a saída de Chico Fasoli e a preparação para o lançamento do box set, tudo está registrado nas páginas de The 25th Anniversary Book, escrito por Eliton Tomasi, editor da extinta revista Rock Hard/Valhalla. O livro ainda conta com depoimentos de pessoas importantes nestes 25 anos de estrada, além da discografia do grupo, muitas fotos (infelizmente apenas em preto e branco) e de uma cronologia (apenas em inglês) assinada por Leonardo Nahoum, chefão da gravadora Rock Symphony, que lançou vários discos do Apocalypse no Brasil.
Poster
Todo o material é composto de um papel de alta qualidade, assim como a parte gráfica de todos os itens do box também tem um alto padrão de qualidade. Um detalhe curioso é que todos os box sets “gringos” que possuo são compostos de uma base fechada por uma tampa, mas este é uma caixa mesmo, abrindo pelo topo, com abas para encaixe ao fechar e tudo. 
No dia 11 de setembro de 2011, o grupo se apresentou no teatro da Universidade de Caxias do Sul (RS) (já com o novo baixista Rafael Schmitt), em um espetáculo conjunto com a orquestra e o coral municipal, como parte dos eventos de divulgação do box set, tocando seis músicas cobrindo sua carreira (“Follow the Bridge”, “Ocean Soul”, “Last Paradise“, “Cut“, “Blue Earth” e “Refuge”). Segundo o próprio grupo, foi a primeira vez que uma banda brasileira do estilo se apresentou nestes moldes dentro do país (outros já haviam se apresentado só com orquestra ou só com o coral, mas não com os dois juntos), em um show que rendeu uma boa repercussão ao Apocalypse, e que, esperamos, vire um DVD em breve.
Apocalypse tocando com a orquestra e o coral de Caxias do Sul (Crédito: Maicon Damasceno)
Como já disse, The 25th Anniversary é item obrigatório a todo apreciador de rock progressivo, e uma excelente porta de entrada a quem quiser conhecer a sonoridade do Apocalypse. Disponível nas melhores lojas do ramo, o box também pode ser encontrado no site oficial do grupo e no site da citada Rock Symphony. Se você tiver a oportunidade, não deixe de adquirir. Com certeza, não se arrependerá! 
Track lists:
Magic Spells (Live)
1. Refuge
2. Crying for Help
3. Mirage
4. Magic
5. Cut
6. South America
7. Tears
8. Blue Earth
9. Time Traveller
10. Freedom
11. Peace in the Lonelyness
12. Escape (Studio Bonus Track)
13. Not Like You (Studio Bonus Track)
2012 Light Years From Home (Studio)
1. New Sunrise
2. Set Me Free
3. Take my Heart
4. The Angel and Seven Trumpets
5. On the Way to the Stars
6. ‘Till Another Side
7. Morning Light
8. Find me Now
9. A Cry in Infinity
10. To Kiss The Tears You Cry
11. Blue Angel
12. 2012 Light Years from Home
The 25th Anniversary Concert (Live DVD)
1. Cut
2. South America
3. Follow the Bridge
4. Dreamer
5. Blue Earth
6. Not Like You
7. Magic
8. Refuge
9. Ocean Soul (from the Bridge of Light Concert)
10. Last Paradise (from the Bridge of Light Concert)
11. Waterfall of Golden Waters (from DVD Live in Rio)



1 Comentario

  1. Não sou fã nem acompanho o trabalho do Apocalypse, mas ouço algumas coisas de quando eles cantavam em português e curto, apesar daquela sonoridade típica do prog brasileiro me chatear algumas vezes, assim como as letras esotéricas ensolaradas, também típicas do prog nacional. "Do Outro Lado da Vida", ainda que possua essas duas características, é uma maravilha do mundo prog capaz de desbancar MUITAS maravilhas internacionais! Acho que preciso dedicar mais tempo pra ouvir esses caras – assim como tirar a trava pra ouvir eles cantando em inglês -, porque eles não podem ter sido tão geniais apenas uma vez. Ah, um otro clássico que eu curto MUITO é a música "The Arrival of the Spaceship", única que conheço da carreira-solo do Eloy Fritsch, por enquanto. Tecladista e compositor de mão cheia! Ou será que foi só dessa vez? Já baixei umas coisas e logo saberei!

    P.S.: O título da música – e do DVD – tem alguma coisa que ver com a "2000 Light Years from Home" dos Stones?

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