Freddy Scherer, Leo Leoni, Steve Lee, Marc Lynn e Hena Habegger

Por Diogo Bizotto
“Que banda é essa que está tocando?” – foi o que perguntei enquanto passava os olhos pelos lançamentos mais recentes (à época) do universo hard rock, lá pelos idos de 2003, em uma loja porto-alegrense que hoje em dia não existe mais. “É Gotthard!” – foi o que me respondeu o vendedor, enumerando as qualidades do grupo e citando as boas notas que seus discos haviam recebido em sites especializados. Gostei do que ouvi, mas foi somente um tempo depois, quando travei conhecimento com a coletânea dupla One Team One Spirit (2004), que pude realmente ter uma bela amostra de quão boa era essa banda originária de Lugano (Suíça), e que se tornaria muito importante para mim nos anos por vir. Admirei-me que um disco duplo compilando 36 faixas de apenas sete álbuns de um grupo relativamente recente pudesse ser possuidor de tantas virtudes dignas de nota aos fãs de hard rock, especialmente da faceta mais melódica, mas fiquei mais surpreso ainda ao constatar que, ouvindo posteriormente sua discografia, material de qualidade é o que não faltava!
O Gotthard, que desde o início contava com Steve Lee (vocal), Leo Leoni (guitarra), Marc Lynn (baixo) e Hena Habegger (bateria), sofreu um grande abalo há um ano, quando, no dia 5 de outubro, faleceu Steve Lee, enquanto participava de uma viagem de motocicleta pelos Estados Unidos, junto a outros 20 turistas suíços, incluindo sua namorada e o baixista Marc Lynn. A turma, que encontrava-se estacionada no acostamento de uma estrada, trocando seu equipamento para encarar a chuva que havia começado a cair, foi surpreendida quando uma carreta derrapou e colidiu contra diversas motocicletas, uma delas atingindo Steve Lee em cheio, que faleceu ainda no local.
Apesar da trágica perda de um vocalista e compositor de tanto talento e carisma, o Gotthard promete seguir em frente, com um novo cantor que ainda está por ser anunciado, levando adiante o legado de sucesso desta que há muito tempo é a maior e mais importante banda egressa da Suíça, vendendo milhões de álbuns e sempre galgando a posição mais elevada nas paradas locais, além de ter visto seu êxito internacional aumentar consideravelmente nos últimos anos. É ao sucesso de Leo, Marc e Hena (além do atual segundo guitarrista, Freddy Scherer) em seu novo caminho, e à memória de Steve Lee, que dedico essa discografia comentada.
Gotthard [1992]
Em uma época já de decadência para o hard rock em sua forma mais tradicional, inspirado por grupos que experimentaram o auge nos anos 70 e 80, como Whitesnake, Led Zeppelin, Deep Purple e Bon Jovi, o Gotthard lançou sua boa estreia auto-intitulada, sem medo de soar deslocado. O início do álbum é arrasador, com “Standing in the Light”, calcada em riffs e em um refrão simples e efetivo, exemplificando o bom alcance vocal de Steve Lee; “Downtown”, esbanjando energia; “Firedance”, a mais setentista e cadenciada do disco; além de “Hush”, em uma versão que, ouso dizer, ficou melhor e muito mais malandra que a registrada pelo Deep Purple para essa canção originalmente gravada por Billy Joe Royal. Também se faz presente aqui aquilo que se tornaria uma das marcas registradas do Gotthard e garantia de sorriso no rosto de seus apreciadores: as power ballads, representadas no disco por “Angel”. Hard rocks de vocação atual (à época), mas com um pé nos anos 70, recheiam o restante do track list, com destaque para “Take Me” e “Hunter”. O álbum encerra-se com a acústica “All I Care For”, quebrando o ritmo agitado imposto pelas faixas anteriores e adiantando um estilo de composição que seria explorado no futuro. Vale citar que Gotthard foi produzido por Chris Von Rohr, baixista e fundador do Krokus (grupo suíço de maior sucesso mundial), que ocuparia essa posição por uma década, agindo como um membro da banda, inclusive coescrevendo diversas músicas.

Dial Hard [1994]

Provavelmente o disco mais pesado do Gotthard, Dial Hard é a melhor indicação para aqueles que primam, acima de tudo, por guitarras roncando alto, mas sem perder o swing. “Higher” oferece de início a performance mais agressiva de Steve Lee, enquanto a excelente “Mountain Mama” esbanja malemolência através da guitarra de Leo Leoni, que abusa do talk box. Nada mau para um grupo de suíços, normalmente estereotipados como frios! Contornos heavy metal surgem com a rápida “Here Comes the Heat” e com “Open Fire” (na cola do Whitesnake fase 1987), enquanto “Get It While You Can” traz um saudável tempero funk. A produção de Chris Von Rohr, que já havia sido boa no antecessor, é ainda melhor em Dial Hard, fazendo com que todos os instrumentos soem na cara, bem timbrados e equalizados. A tradição de executar um cover mantém-se aqui, caso de “Come Together”, dos Beatles, que, acrescida de uma citação a “Why Don’t We do It in the Road”, outra canção do grupo, não segue à risca os arranjos originais, soando em perfeita conjunção com o track list hardeiro de Dial Hard. Aqui, a power ballad da vez é a ótima “I’m on My Way”, que, após um crescendo inicial, atinge seu ápice em um refrão perfeito para ser entoado ao vivo. O track list é completo por outras faixas que, mesclando uma dose de peso com influências blues (destaque para “I’m Your Travellin’ Man”), não deixam o nível do disco cair, tornando Dial Hard um dos mais equilibrados registros dos suíços.

G. [1996]

Marcando um princípio de mudança de sonoridade no grupo, G. mostrou um Gotthard que passou a dar ênfase maior nas melodias, algo que seria sentido mais fortemente nos anos por vir. Enquanto o lado mais pesado e blueseiro de Dial Hard não foi deixado de lado, aparecendo com força em canções como as destacadíssimas “Sister Moon” (fazendo com muito mais competência o que o Aerosmith deixou de fazer nos anos 90) e “Make My Day”, as power ballads começaram a aparecer com mais frequência, ocupando um espaço maior no decorrer de cada álbum. Em G. estão dois dos maiores êxitos do Gotthard nessa seara, a marcante “Let It Be”, calcada em uma bela melodia tocada na guitarra, e a semiacústica e emocional “Father Is That Enough?”. O cover da vez é “Mighty Quinn (Quinn the Eskimo)”, composição de Bob Dylan alçada à fama por Manfred Mann, acrescida aqui de riffs simples na escola AC/DC e recebendo ênfase no  contagiante refrão. Hard rocks velozes também aparecem com destaque, caso de “Hole in One” e da metálica “Ride On”. “One Life, One Soul”, balada acústica que fecha o disco, seria posteriormente gravada em uma versão contando com os vocais da soprano espanhola Montserrat Caballée, que particularmente não me agradou. A exemplo de Dial Hard, o restante das faixas presentes em G. mantêm o nível elevado, mais ainda que o anterior, sobressaindo-se canções como “In the Name”, “Movin’ On” e a sacana “Sweet Little Rock ‘n’ Roller”. Não apenas meu favorito, G. é o preferido de muitos fãs do Gotthard!

D frosted [1997]

Álbum acústico gravado ao vivo com a participação de músicos amigos, D frosted marcou a estreia de Mandy Meyer (Cobra, Asia) como segundo guitarrista oficial do grupo. Transbordando alto astral, o disco pôs à prova as composições do Gotthard, que se mostraram totalmente funcionais no formato. Especialmente as canções mais suingadas, como “Hole in One” (destacando o órgão hammond), “Sweet Little Rock ‘n’ Roller” (introduzida ao piano) e “Mountain Mama” foram apresentadas com muita qualidade. Além das faixas extraídas de Gotthard, Dial Hard e G., quatro novas músicas se fizeram presentes no show: a  lenta e suave “Someday”; a sessentista “Out on My Own”, conduzida por melodias extremamente pop (e ótimas!); “Hurry”, a mais próxima do resto do catálogo do grupo, animadíssima; e “Love Soul Matter”. A respeito dessa última, que conta com participação de Vic Vergeat (da banda hard setentista Toad) nos vocais junto a Steve, é necessário citar: habitualmente tenho completa rejeição a corais infantis, e isso inclui suas inserções no rock. Entretanto, gostei do resultado em “Love Soul Matter”, certamente um dos destaques do disco.

Open [1999]

Se em G. o Gotthard já havia dado sinais de que começaria a percorrer caminhos mais melodiosos, em Open isso foi escancarado de vez. Ao mesmo tempo que o álbum soa muito mais pop que o antecessor de estúdio, a veia sessentista e setentista da banda revelou-se à flor da pele. Essa combinação se refletiu muito bem no cover para “Blackberry Way”, do grupo inglês The Move. Outra que segue o mesmo caminho é “Hey Jimi”, que, tomando emprestadas citações líricas e musicais extraídas de diversas canções criadas por Jimi Hendrix, constitui uma interessante homenagem ao fabuloso guitarrista. De modo geral, o track list é ocupado majoritariamente por pop rocks agradáveis, nos quais as guitarras estão menos “na cara” do que nos álbuns anteriores, caso de faixas como as boas “Free and Alive”, “Got to Be Love”, “Want You In” e “Back to You”. Quem prefere os discos anteriores terá como prováveis maiores destaques “Cheat and Hide” e “Tell No Lies”, enquanto os fãs de baladas mais suaves encontrarão o que procuram em “Let It Rain” e “Peace of Mind”, além de “Best Time”, injetada de blues. Apesar de possuir qualidades, fica nítido após poucas audições que Open é um álbum inferior aos seus antecessores, mas nem por isso deixou de registrar uma excelente canção para a posteridade, caso da balada AOR “You”, uma de minhas favoritas da banda. Ótima música para elevar o nível de Open na discografia do Gotthard.

Steve Lee

Homerun [2001]

Último disco a ser produzido e coescrito por Chris Von Rohr, Homerun é provavelmente o maior sucesso na trajetória do grupo. Assim como em Open, há um atenuamento da faceta hard da banda, que soa mais pop na maior parte do track list. Contudo, aqui também foram diminuídas as características sessentistas e setentistas, algo bem demonstrado desde a escolha do cover para “Take It Easy”, hit solo de Andy Taylor, ex-guitarrista do Duran Duran. Surgiram nessa época também as comparações com o Bon Jovi, algo justificável dada a aproximação do Gotthard com a sonoridade que os norte-americanos vinham fazendo recentemente, exemplificado em músicas como “Light in Your Eyes”, “End of Time” e na ótima abertura com “Everything Can Change”. Homerun também pesa como nunca nas baladas, que ocupam quase metade do track list. Felizmente, ao menos para os entusiastas desse tipo de música, o Gotthard sempre manifestou competência nessa seara, seja em canções de caráter acústico, como “Lonely People”, seja em power ballads de refrão memorável, exemplificadas por “Homerun” (um tanto brega, admito), “Reason to Live” (ótima!) e “Say Goodbye”, além do maior hit single da carreira dos suíços, a marcante “Heaven”. Faixa um tanto atípica, “Eagle” é outro destaque do álbum, constituindo um reggae com pegada hard rock. Por fim, não posso deixar de citar aquela que, além de ser minha favorita do disco, simboliza a atitude do Gotthard e de Steve Lee dentro e fora dos palcos, a positiva “Come Along”, que sempre me remete aos bons momentos vividos tendo a banda como trilha sonora.

Human Zoo [2003]

Primeiro álbum a não ser produzido e coescrito com Chris Von Rohr, Human Zoo abre em alta com a hardeira faixa-título, seguida por uma das melhores composições do grupo, “What I Like”, exemplificando a maturidade conquistada após mais de uma década de carreira através de uma canção variada e bem arranjada, alternando estrofes semiacústicas com um refrão memorável e melodias orientais. Assim como em Homerun, a quantidade de baladas é grande, e “No Tomorrow” é o melhor exemplar egresso de Human Zoo, sem deixar as guitarras pesadas de lado. Contudo, “First Time in a Long Time”, “Still I Belong to You” e mesmo a brega “Have a Little Faith” são garantia de sorriso no rosto dos “baladeiros”, assim como a suave “What Can I Do”, que finaliza o álbum. De resto, o disco oferece uma coleção coesa de rocks que alternam entre o hard melódico e o pop rock, de onde se destacam, do primeiro tipo, “Top of the  World”, ótima ao vivo, e do segundo, “Janie’s Not Alone”, dona de belos arranjos de cordas. Human Zoo também foi o último lançamento a contar com a guitarra de Mandy Meyer, que foi substituído por Freddy Scherer, egresso de outro grupo suíço do gênero, o China, no qual o baixista Marc Lynn já havia tocado nos anos 80.

Lipservice [2005]

Se nos álbuns anteriores o Gotthard havia pesado a mão em canções calcadas no lado mais melódico (ou mesmo pop) do hard rock, em Lipservice a banda resolveu valorizar mais seu passado hardeiro, mas com os pés fincados no presente. Isso está evidente na abertura com a ótima “All We Are”, que remete ao lado mais rock ‘n’ roll da NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal). As guitarras estão roncando como não o faziam desde G., e são o fio condutor das músicas, que também são permeadas diversas vezes pelo órgão hammond, remetendo às influências setentistas do grupo. Mesmo assim, a faceta mais atual da banda dá as caras em faixas como “Dream On” e “I Wonder”. As guitarras comem frouxo em diversas outras, com ênfase para a simples e contagiante “Cupid’s Arrow” e a destacadíssima “Anytime Anywhere”, que chegou a receber uma versão em espanhol, chamada “El Traidor”. Outra que também foi regravada no idioma é o hit “Lift U Up” (transformando-se em “Tu Pasión”), perfeita para ter seu refrão bradado pelo público. O nível das habituais baladas não fica para trás; na verdade, algumas das melhores canções do gênero registradas pelo Gotthard estão em Lipservice: “I’ve Seen an Angel Cry” une hammond e guitarras pesadas com maestria, enquanto “Nothing Left at All” traz um dos melhores refrões compostos pelo grupo. Melhor ainda é “Everything I Want”, minha favorita do álbum. Jon Bon Jovi e Richie Sambora, vocês precisam ouvir essa! O álbum finaliza com a acústica e pessoal “And Then Goodbye”, dotada de uma letra com a qual qualquer pessoa mais tímida pode se identificar. Belíssimo disco, que, se fosse lançado 15 anos antes, seria um provável sucesso internacional de grandes proporções.

Domino Effect [2007]

Seguindo a linha das faixas mais atuais presentes em Lipservice, Domino Effect lança os olhos para o futuro, substituindo o uso do clássico hammond por teclados de timbres mais modernos. Uma canção que ilustra bem a união das guitarras com esses teclados é a quase heavy metal “Gone Too Far”, uma das melhores do álbum. Guitarras musculosas permeiam diversas músicas, caso da viciante faixa-título, da ótima “Come Alive”, dona de uma bela performance de Steve Lee, e de “Bad to the Bone” e “Now”, essas sim trazendo a presença do hammond. Algumas canções mais pop rock também fazem parte do track list, mas soando muito mais contemporâneas que aquelas registradas em álbuns como Open, Homerun e Human Zoo. Entre estas, destaque para “The Oscar Goes to You”, com teclados emulando cordas. Mesmo as baladas presentes no disco possuem um tom mais contemporâneo, até mesmo um tanto melancólico, como nas boas “Falling”, “Letter to a Friend” e “Tomorrow’s Just Begun”. A power ballad em formato mais clássico é “The Call”, dona de um memorável refrão e óbvia escolha para single. Outra conexão mais forte com o passado é “Heal Me”, que remete aos ótimos tempos de Dial Hard e G.. Bom álbum, mas que ficou devendo em relação ao excelente disco anterior.

Need to Believe [2009]

A palavra de ordem para o Gotthard em Need to Believe é “evolução”. A banda investe mais ainda em uma sonoridade contemporânea, algo que está bem exemplificado na abertura com “Shangri La”, que, apesar de extremamente zeppeliana, soa atual, beneficiando-se de uma produção moderna, de qualidade indiscutível. “Unspoken Words” é outra que transpira modernidade, assim como “Break Away”, que traz linhas vocais interessantes, “Ain’t Enough”, “I Know, You Know” e “Right From Wrong”, que pouco lembra a banda que estava revisitando os anos 60 e 70 em Open. “Rebel Soul” investe no peso e deixa explícita a boa produção e, em especial, a excelente timbragem do baixo de Marc Lynn, que soa mais claro e alto do que nunca. Entre as faixas mais pop rock, destaque para “Unconditional Faith”, levada pela união entre o mandolim e as guitarras de Leo e Freddy. “I Don’t Mind” é outra recheada de guitarras pesadas, mas dessa vez com a pegada bluesy dos primeiros álbuns. Dessa vez as baladas receberam menos espaço do que nos álbuns anteriores, mas não deixam de marcar presença, sendo “Tears to Cry” a mais marcante. Uma despedida digna do talento de Steve Lee.

Danke schön, grazie mille, merci beaucoup… Valeu, Steve!!!

1 comentário

  1. fernandobueno

    Muito bom Diogo…
    Me inspirou para ir atrás dos discos que não escutei ainda. Tenho três discos do Gotthard (os três últimos) e vou atrás dos primeiros…

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