I Wanna Go Back: Uriah Heep – Abominog [1982]

24 de agosto, 2011 | por Diogo Bizotto
Diversos
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A coluna “I Wanna Go Back” deixará de ser publicada por tempo indeterminado em função das obrigações do colaborador Diogo Bizotto para com seus estudos. Tão logo seja possível, a coluna voltará, em caráter quinzenal, sempre às quartas-feiras, trazendo dicas de álbuns relacionados de alguma maneira com o universo AOR.


Por Diogo Bizotto
Em 1981 o Uriah Heep estava se desintegrando. Após a recepção morna do álbum Conquest (1980), único a contar com a presença de John Sloman nos vocais, além do baterista Chris Slade, em substituição ao habitual Lee Kerslake, o grupo sofreu a baixa de seu principal compositor, o tecladista e guitarrista Ken Hensley. Após mais uma turnê, contando com Greg Dechert como seu substituto, o que havia restado do Uriah Heep terminou de ruir. Sloman foi o primeiro a abandonar a banda, seguido pelo baixista Trevor Bolder e por Chris, além do recém contratado tecladista.

Mesmo fazendo parte de um grupo que já havia contado com múltiplas mudanças de formação em sua trajetória de pouco mais de uma década, a situação de Mick Box, única presença constante desde o debut, Very ‘eavy… Very ‘umble (1970), era dificílima. Sua primeira atitude foi contatar o velho companheiro Lee Kerslake, que se encontrava tocando com Ozzy Osbourne, tendo registrado os clássicos Blizzard of Ozz (1980) e Diary of a Madman (1981). Lee, que recentemente havia sido demitido, aceitou retornar e trouxe consigo o baixista Bob Daisley, também egresso das fileiras do Madman. O tecladista John Sinclair (Heavy Metal Kids, Lion) veio para ocupar a vaga deixada por Ken Hensley, e a nova voz do Uriah Heep materializou-se na forma de Peter Goalby, que havia registrado o álbum Hold On (1979), do Trapeze.

Analisando o line-up, é inegável o quão descaracterizado o Uriah Heep havia se tornado na época, mas levando em conta que os álbuns anteriores do grupo, lançados após a saída do vocalista David Byron, em 1976, já haviam descaracterizado bastante a sonoridade clássica do grupo, uma mescla de rock pesado e progressivo, pontuado por toques místicos e letras fantasiosas, não havia nada a perder.

Peter Goalby, Bob Daisley, Mick Box, John Sinclair e Lee Kerslake

Durante o final de 1981, o quinteto registrou Abominog, que foi lançado em março de 1982. A surpresa foi imediata, a começar pela estranhíssima capa, que fazia crer que o Uriah Heep havia embarcado em uma das mais fortes ondas a varrer o mercado fonográfico britânico na época, a NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal). Em parte, isso é verdade. O que o Uriah Heep fez em Abominog foi renovar sua sonoridade, mas sem direcioná-la a apenas um estilo. Ao mesmo tempo em que uma faceta heavy metal se fez presente, o aflorescido lado AOR foi mais importante ainda para firmar o Uriah Heep nos anos 80. Outra característica notável no disco é a quantidade de covers, que ocupam cinco das dez faixas presentes no track list.

Um riff heavy metal, mas ainda assim com a marca registrada de Mick Box, abre a primeira faixa, a impactante “Too Scared to Run”, como se dizendo “nós somos o Uriah Heep, e ainda temos muita lenha pra queimar!”. Os espertos licks e solos de Mick, combinados com a cozinha entrosadíssima de Kerslake e Daisley, além do bem postado teclado de Sinclair e do vocal de Goalby, agressivo na medida, fazem de “Too Scared to Run” um perfeito pé na porta, adentrando a década de 80 com classe e dignidade.

O AOR dá as caras sem medo algum através de “Chasing Shadows” e sua marcante introdução ao teclado. Peter Goalby revela-se um vocalista mais que adequado para esse tipo de faixa, soando como uma combinação de Ronnie James Dio com David Coverdale, mas com as facetas mais agressivas desses um tanto atenuadas. Os fãs mais antigos, acostumados com um Uriah Heep mais exuberante, podem ter se decepcionado com uma canção como essa, mas é inegável a competência do quinteto na construção instrumental e vocal (incluindo muitos vocais de apoio) de “Chasing Shadows”.

Foto presente na contracapa de Abominog

O primeiro cover surge com “On the Rebound”, original de Russ Ballard. Dotada de uma linha de baixo simples mas marcante, que conduz toda sua extensão, é perfeita para desagradar os fãs de álbuns como Demons and Wizards (1972) e The Magician’s Birthday (1972), mas ótima para conquistar uma audiência mais ampla, incluindo o ouvinte médio das FMs da época. “Hot Night in a Cold Town”, que também recebeu versões de John Cougar Mellencamp (em 1980) e de John Kay and Steppenwolf (também em 1982), inicia-se como uma balada, ao piano e voz, e tem um crescendo até atingir seu marcante refrão, calcado em backing vocals. Aprecio as outras duas versões, mas a do Uriah Heep é facilmente a de maior qualidade, em especial pela boa performance de Peter Goalby, um vocalista talhado para canções como essa. Destaque também para o solo de Mick executado ao final, sob o refrão.

Do Lion, sua ex-banda, o tecladista John Sinclair trouxe “Running All Night (With the Lion)”, um rock dinâmico, calcado em linhas de teclado bastante altas na mixagem e em um riff de guitarra bastante simples, mas que funciona muito bem. O hit do disco surge com “That’s the Way That It Is”, original de Paul Bliss, um hard rock polido que ajudou a dar um novo fôlego ao Uriah Heep, elevando Abominog à 56ª posição na parada de álbuns da Billboard, melhor colocação desde 1974. O AOR segue forte com outro cover, “Prisoner”, reforçando que o Uriah Heep estava deixando um tanto de lado seu aspecto mais viajante, e investindo forte em canções de estrutura mais tradicional. Para nossa sorte, o grupo também foi bem sucedido nessa seara, ao menos em Abominog.

Disco de ouro conquistado por
Abominog no Reino Unido

A pegada heavy metal volta com “Hot Persuasion”, na qual ouvimos brotar riffs interessantes da guitarra de Mick Box. O que acaba “amansando” um pouco a canção é a produção de Ashley Howe, que imprimiu um caráter polido ao track list, e à presença constante de John Sinclair e suas teclas, algo que não é novidade em se tratando de Uriah Heep, um grupo que sempre teve os teclados como instrumento vital. “Sell Your Soul” investe mais forte no peso, baseada em um instrumental sólido e veloz, além de vocalizações mais agressivas de Peter. O encerramento do álbum se dá com a regravação de “Think It Over”, lançada em single pelo grupo em 1980, quando ainda contava com John Sloman como frontman. Escolher qual das duas versões é a melhor fica como tarefa para os fãs, mas certamente trata-se de umas das melhores músicas presentes em Abominog, em especial devido ao bom desempenho de Goalby, Box e Sinclair. Particularmente, prefiro ouvi-la na voz de Peter, dotado de agressividade e polidez na medida certa.

Os fãs mais radicais podem não ter gostado dos rumos tomados pelo Uriah Heep em Abominog, mas é inegável que o disco deu um fôlego extra a uma banda que se encontrava agonizante, deixando os anos 70 para trás e adentrando sem medo a nova década, com uma sonoridade distinta, mas ainda assim dotada de muitas qualidades. A mesma formação ainda registraria o álbum seguinte, Head First (1983), o último a beliscar uma posição no Top 200 da Billboard. Mesmo tendo em vista a quantidade de formações diferentes que já compuseram o Uriah Heep, não hesito em afirmar que essa é das mais ricas em pedigree, e Abominog apresenta um resultado à altura de suas capacidades.

Track list: 

1. Too Scared To Run
2. Chasing Shadows
3. On the Rebound
4. Hot Night in a Cold Town
5. Running All Night (With the Lion)
6. That’s the Way That It Is
7. Prisoner
8. Hot Persuasion
9. Sell Your Soul
10. Think It Over



5 Comentarios

  1. O Uriah Heep é uma das melhores bndas da história, e talvez uma das mais injustiçadas. A Fase como Goalby é tenebrosa (vide Equator e Head First), mas o Abominog se escapa facilmente das atrocidades cometidas posteriormente. Bem pegado frase "perfeita para desagradar os fãs de álbuns como Demons and Wizards (1972) e The Magician's Birthday (1972), mas ótima para conquistar uma audiência mais ampla, incluindo o ouvinte médio das FMs da época" em On the Rebound. Foi mais ou menos isso que conteceu comigo. Porém, ouvindo o álbum mais algumas vezes, foi possível encontrar os pontos altos citados pelo Diogo (o que não ocorreu com Head First e Equator). A entrada do Bernie Shaw mudou novamente o Heep, e acho q a formção com o Shaw é a de mais pedigree. Mesmo assim, Abominog é o melhor disco do Heep lançado depois de Fallen Angel.

    Em tempo, eu prefiro a versão do Goalby do que a do Sloman em Think it Over. Alias, o Sloman era bem fraquinho para comandar a linha de frente do Uriah Heep substituindo monstros como David Byron e John Lawton.

  2. diogobizotto disse:

    Também acho que o Sloman não tinha méritos para merecer o posto. Parece mais que escolheram o cara pela possibilidade de atrair o público feminino do que qualquer outra coisa. Não seu certo, aí se convenceram que isso não é com o Uriah Heep e trouxeram mais um feioso, Peter Goalby.

    Quanto ao tal "pedigree"… sou suspeito pra falar, pois apesar de Trevor Bolder ser um ex-Spider From Mars e um ótimo baixista, sou fã demais de Bob Daisley, e curto mesmo o vocal de Peter. Sei que Bernie se adapta melhor ao catálogo antigo, mas acho a performance de Goalby em "Abominog" muito legal mesmo.

  3. POis eh, no Abominog funcionou, mas no Head First e principalmente no Equator, não funfou

  4. Encerrar a I Wanna Go Back com Uriah Heep foi digníssimo da sua parte, Diogo!
    Ainda não conheço os discos pós-David Byron, por isso tô ouvindo aqui os videos. Essa "Too Scared to Run" é Uriah Heep total, com um upgrade anos 80. Já as demais.. Como era de se esperar, não curti.
    Parabéns pelo texto!

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