Yes: uma análise da letra de “And You And I”

18 de março, 2011 | por Mairon
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Por Mairon Machado 
O amadurecimento de nossas vidas às vezes nos causa sensações e mudanças de opinião que, quando mais jovens, dificilmente nos passam pela cabeça. Um exemplo prático que eu tenho foi quando descobri John Coltrane. Odiava jazz! Nada podia ser pior. Um bando de músicos tocando sem direção. Isso era o que eu pensava. Mas, quando ouvi John Coltrane, descobri que estava errado. Jazz era além do que eu pensava, e graças a Coltrane e o CD Live in Japan, conheci um mundo novo, repleto de sonoridades e sensações que somente o jazz pode propiciar.
A época na qual conheci o jazz de Coltrane foi exatamente o início da minha puberdade, quando eu tinha meus 14 anos, e nessa época eu era viciado em Yes. Tudo o que eu ouvia eu relacionava com o Yes. Até mesmo bandas mais simples, eu comparava ao Yes. Entendendo lhufas de inglês, eu curtia o som, as viagens instrumentais, os arranjos, e sem saber o que Jon Anderson estava cantando para mim. Contando com a ajuda de meu irmão Micael, que sempre soube mais inglês do que esse que vos escreve, passava a ter conhecimento das letras, mas o que significava era muito vago.
Dois ou três anos se passaram e minha primeira namorada me deu um DVD do Yes, chamado Keys to Ascension, onde estavam as letras traduzidas de todas as canções presentes. Várias se tornaram mais claro o signficado, mas nenhuma delas me chamou tanto a atenção quanto a letra de “And You And I”.
Formação clássica: Bruford, Wakeman, Anderson, Squire e Howe
A canção que abre o lado B de Close to the Edge, um dos melhores álbuns do rock progressivo, gravado pela principal formação do Yes no ano de 1972, a qual contava com Jon Anderson (vocais), Steve Howe (guitarras), Chris Squire (baixo), Bill Bruford (bateria) e Rick Wakeman (teclados) foi uma das primeiras que eu ouvi lá nos meus 6 ou 7 anos de idade no antigo programa Hollywood Rock in Concert da TV Bandeirantes, e eu sempre pensei que fosse uma letra falando de amor.
Porém, a letra de Anderson, com composição de Howe, Squire e Bruford, fala muito mais do que apenas amor. “And You And I” conta a história de um personagem que  esta prestes a morrer ao lado de sua amada, e que parece ter sido seu único amor durante a vida, em uma letra que canta a puberdade, o sexo, o conhecimento adquirido da relação homem-mulher, a busca pela família e que culmina essencialmente com os minutos finais do personagem central.
Não vou me prender aos detalhes dessa canção de dez minutos, já que isso facilmente pode ser encontrado em um futuro Maravilhas do Mundo Prog, e sim apenas a letra de “And You And I. Dividida em quatro partes, a canção abre com “Cord of Life”, e as seguintes frases:

“A man conceived a moment’s answers to the dream,
Staying the flowers daily, sensing all the themes.
As a foundation left to create the spiral aim,
A movement regained and regarded both the same,
All complete in the sight of seeds of life with you.”
Esse trecho narra o surgimento do homem, o garoto que descobre a atração pelo sexo oposto. As respostas para o sonho podem ser atribuídas facilmente à questão da puberdade, sonhos eróticos, que o garoto agora vê na mulher como a realidade. Mas são sonhos que ocorreram, que fizeram parte da vida do personagem central, e que parecem estar sendo contados para alguém. A frase “all complete in the sight of seeds of life with you”, que aparecerá repetidamente, é a frase que mais atenção chama na letra, mas deixamos o seu significado para mais adiante e seguimos.
Lado B de Close to the Edge
“Changed only for a sight of sound, the space agreed.
Between the picture of time behind the face of need,
Coming quickly to terms of all expression laid,
Emotion revealed as the ocean maid,
All complete in the sight of seeds of life with you.”
Ainda falando sobre as mudanças corporais, de uma forma bem filosófica, onde a figura do tempo revela que o menino já não é mais um garoto, que ele precisa obedecer o que o corpo está pedindo (“behind the face of need”). As emoções reveladas como uma dama do oceano, completas com o sinal das sementes da vida, nos mostram que o garoto já teve uma experiência sexual, mas com a consciência de que o que precisa acontecer ainda está por acontecer.
“Turn round tailor, Coins and
Assaulting all the mornings of the Crosses
Interest shown, Never know
Presenting one another to the cord, Their fruitless worth;
All left dying, rediscovered Cords are broken,
Of the door that turned round, Locked inside
To close the cover, the mother earth.”
Aqui temos o desabafo do personagem central, sabendo que irá morrer (“door that turned round, Locked insid To close the cover, the mother earth.”), e assim podemos ver que ele não está sozinho, que existe alguém com ele, quando ele fala “presenting one another to the cord, Their fruitless worth”

“All the interest shown, They won’t

To turn one another, to the sign Hide, hold, they won’t
At the time Tell you, watching the world,
To float your climb. Watching all of the world,
Watching us go by.”
A escalada citada é a ida para o paraíso, a ida para o reino dos céus, o personagem tentando explicar sua morte para a pessoa que está ao seu lado, e que talvez está morrendo junto.

“And you and I climb over the sea to the valley,
And you and I reached out for reasons to call.”
Poster de divulgação do LP
E finalmente descobrimos que o personagem está com o seu amor, e que ele, consolando o amor, irá escalar sobre o mar até o final do vale, por razões da chamada divina, que é a morte, mas que no vale (o paraíso) eles permanecerão juntos.
Assim começa a segunda parte “Eclipse”, e algumas frases são repetidas com pequenas modificações:

“Coming quickly to terms of all expression laid,
Emotion revealed as the ocean maid,
As a movement regained and regarded both the same,
All complete in the side of seeds of life with you.”
O que são as emoções reveladas, as sementes da vida, o movimento considerado e recuperado? Logicamente, isso é um ato sexual. O movimento que acaba, repetidamente, levando ao orgasmo (as emoções reveladas como uma dama do oceano), onde as sementes da vida são projetadas pelo homem, ou seja, o esperma, que gerará a vida ao encontrar-se com a semente feminina (o óvulo). É o momento principal da letra, o momento onde o personagem revela que, apesar da morte, eles conseguiram cumprir com o objetivo que lhes foi dado pela natureza, o de manter a vida através da procriação. 
E seguimos então com “The Preacher the Teacher”:
“Sad preacher nailed upon the coloured door of time;
Insane teacher be there reminded of the rhyme.
There’ll be no mutant enemy we shall certify;
Political ends, as sad remains, will die.
Reach out as forward tastes begin to enter you”
Essa é a fase adulta, os problemas pessoais que o personagem enfrentou. Ora ele era um orador, rezando para solucionar seus problemas, ora um professor, ensinando os demais a resolverem seus problemas.

“I listened hard but could not see
Life tempo change out and inside me.
The preacher trained in all to lose his name;
The teacher travels, asking to be shown the same.
In the end, we’ll agree, we’ll accept, we’ll immortalise
That the truth of the man maturing in his eyes,
All complete in the sight of seeds of life with you.”
Mais uma vez, a maturidade se revela: “truth of the man maturing in his eyes”, e tudo estará completo com os sinais das sementes da vida junto com a pessoa ao lado do personagem.
Mais uma vez, a consolação de “Eclipse” surge, com outra pequena mudança:
“Coming quickly to terms of all expression laid,
As a moment regained and regarded both the same,
Emotion revealed as the ocean maid,
A clearer future, morning, evening, nights with you.”
Portanto, agora que já fizeram seus progenitores, e que irão falecer, eles consolam-se, com um futuro claro vivendo eternamente manhãs, entardeceres e noites um ao lado do outro.
O paraíso de Close to the Edge
A canção encerra-se com o sugestivo nome de “Apocalypse”, que indica exatamente não o fim, mas uma mudança, que é a morte, onde o casal irá viver a partir de então

“And you and I climb, crossing the shapes of the morning.
And you and I reach over the sun for the river.
And you and I climb, clearer, towards the movement.
And you and I called over valleys of endless seas.”
E assim, ambos falecem, e passam a viver no paraíso, sobre os vales e bem além dos mares, apenas com o amor entre eles. 
A interpretação é um tanto quanto complexa, mas, segundo Anderson em uma entrevista no ano de 1985, quando da época do primeiro Rock in Rio, “And You And I” é a “canção de amor mais pornográfica que alguém já ousou escrever!“. De qualquer forma, não há dúvidas de que temos uma história de amor narrada entre dois personagens, sendo ele um central que parece ser o que falece, e tenta consolar ao outro dizendo basicamente que um dia eles irão se encontrar,  tentando afagar a dor de uma perda depois de muitos anos vivendo juntos, e que somente me fez sentido quando eu consegui atingir a maturidade que a canção prega no decorrer de sua letra, tão simples, singela e fantástica como a maioria das letras do Yes nessa época.



16 Comentarios

  1. fernandobueno disse:

    Essa música é fantástica.
    Sobre a letra eu sempre considerei as letras do Yes sem sentido…rs
    Já vi também o anderson falando que escrevia as letras de acordo com o som das palavras. Por isso muita coisa fica confusa, porém ele tenta sempre manter uma idéia, um conceito.
    Lembram da história do Bruford e a pergunta "what the fuck is 'total mass retain'?"…rs
    Acho o Close to the Edge o melhor disco de progressivo e o album que resume o estilo.
    Essa foto do paraíso é demais. Já utilizei essa foto como plano de fundo em uma palestra que dei sobre hidráulica na faculdade…hehehehe (nerd e bolha!!!)
    Mas hidraulicamente falando isso é impossível…hehehehe…

    • Igor Maxwel disse:

      “Close to the Edge é o melhor disco de progressivo e que resume o estilo” uma ova! The Dark Side of the Moon e Selling England by the Pound são pra mim muito mais relevantes do que CTTE. Pink Floyd e Genesis rules!

  2. fernandobueno disse:

    Quando falo 'foto' favor entender imagem…

  3. Mister disse:

    Para muita gente o Yes foi a maior banda do rock progressivo. Mas precisa ser muito fã para considerar o Jon Anderson um bom letrista. Na maioria das vezes ele escrevia um monte de frases sem nexo. Acho que o cantor enchia a cara de elixir paregórico e ficava viajando nas letrinhas, procurando rimas para costurar as bobagens. Você tem todo o meu respeito, Mairon, por tentar dar algum sentido nessa letra do And You And I, mas mesmo assim acho que a sua interpretação é tão boa quanto qualquer outra, já que o original é uma salada só. Bom, é a minha opinião e opinião de cú é rôla.

  4. Grande Mister Master Gaspa. Essa questão de frases sem nexo não envolve somente o Jon Anderson. O Renato Russo por exemplo, idolatrado por muitos, escrevia coisas q para mim nunca fizeram sentido. Outro q tb escreveu muita coisa sem nexo foi o Robert Fripp. Dentre os letristas do Progressivo, para mim o melhor de todos foi e é o Peter Hammill. As letras dele sempre tem uma historia de fundamento, que fazem alusao a algo q da para se entender. Eu não menosprezo as letras do Jon Anderson. Awaken, Close to the Edge, as primeiras canções na fase Peter Banks, I've Seen All good People, … tem varias letras legais. Valeu o comentario

    E Fernando, o Close to the Edge só não é o melhor disco de progressivo da historia pq o Yes ainda fez o Tales e o Genesis lançou o Lamb Lies. O Pawn Hearts tb entra pau-a-pau nessa briga …

    O Bruford sempre baixou um pau no Yes, e eu nao consigo entender pq a rivalidade dele com o Anderson. Na turne do ABWH, da para se perceber a pouca vontade dele, e na Union Tour entao, ele é mais um co-adjuvante, quem ta tocando é o White. Mas, apesar de tudo, é o melhor baterista que o Yes já teve, sem duvidas, e um dos maiores (se nao o melhor) da historia

    • Igor Maxwel disse:

      Também não entendo porque o Bruford saiu do Yes após as gravações desta pobreza que é o CTTE (pobreza por que só tem 3 músicas), uma das razões pelas quais eu menosprezo o disco. Se ele tivesse sido menos “cabeça-dura” naquele tempo, a formação do Yes que muitos consideram como a melhor (Anderson, Wakeman, Howe, Bruford e Squire) duraria muito mais. E pensar que esta formação acabou por culpa do próprio Bruford…
      Felizmente o Yes achou em Alan White um substituto perfeito para Bruford e que se tornaria o baterista que mais tempo permaneceu no grupo.

  5. Mister disse:

    Longa vida ao Peter Hammill, esse sabe escrever. E se o Bruford tinha birra com o Anderson é porque o baixinho é um mala fantástico, que a gente perdoa por ele ser um cantor foderoso. Você falou bem sobre as letras da primeira fase do Yes. Nessa época o Anderson ainda não conhecia o elixir paregórico. Abração.

  6. fernandobueno disse:

    Não poderia deixar de recorrea à wikipédia….rs

    Elixir paregórico é um medicamento da classe dos narcóticos de administração oral, utilizado como antidiarréico e analgésico.

  7. diogobizotto disse:

    Eu também sou da opinião de que o Jon Anderson sempre se preocupou mais em encaixar as palavras conforme suas linhas vocais pediam, tendo como prioridade formar construções harmônicas, e acredito que na maioria dos casos foi muito bem sucedido nisso. É claro que isso pode muito bem não ser verdade e talvez ele pense muito bem no que escreve em termos líricos, mas que há cada coisa estranha proferida nas letras do Yes, ah, isso há…

    De maneira alguma isso tira o mérito do grupo. Nem sempre é fácil criar letras que unam sentido e perfeição métrica e melódica em uma canção. Vai ter gente querendo me bater, mas um grupo que costumava se sair muito bem nisso era o ABBA, que sequer tem o inglês como língua nativa.

  8. Eu até já tentei entender alguma letra do Yes, mas desisti quando li "lost and wandering, maybe, how it is, seems to be, it's as simple as this…" em "Release, Release". Até fresquei com isso no artigo que criei pra banda na desciclopédia!
    Mas, sim, são letras foneticamente perfeitas, principalmente "And You and I". Essa música pra mim tem um sentido bem melancólico, mas não relaciono isso com sua letra.

  9. Grande Mairon! acho que vc pegou na veia…essa música é simplesmente fantástica, minha favorita do Yes e uma das minhas canções top 10 de todos os estilos. Eu gosto tanto de sua musicalidade que poucas vezes me atenho a sua letra e ao seu significado (assim como em vários outros casos), a música é tão soberba que a letra fica pequena. Mas pela sua interpretação, dá pra ver tb um belo valor nela, não saberia entrar nesses méritos que vc entrou pela pobreza do meu inglês.
    Excelente texto e excelente assunto!
    Abraço!

  10. Grande Ronaldo, sempre bom ver um comentário teu por aqui! Abração e valeu!

  11. Gustavo disse:

    elixir paregorico ne veia é boooommmmmm !!!!!!!

  12. Eudes baima disse:

    O ministério da saúde adverte: ao ouvir rock progressivo e psicodélico, esqueça as letras.

    • Igor Maxwel disse:

      Apesar de eu não me simpatizar com o disco CTTE (por motivos óbvios), considero “And You And I” uma das melhores e mais belas coisas criadas pelo Yes.

  13. Igor Maxwel disse:

    A única música de CTTE que merece nota 10 é essa!

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