Por Mairon Machado
O nascimento do Emerson, Lake & Palmer não afetou somente nos grupos citados na edição anterior do Maravilhas do Mundo Prog. A sonoridade complexa feita pelo grupo britânico se espalhou pelo mundo, e principalmente, o fabuloso e complicado trabalho feito por Keith Emerson nos teclados, gerou seguidores que passaram a trabalhar mais e mais com sintetizadores, moogs, sinclaviers, hammonds e mellotrons.
No leste europeu da década de 70, atrás da cortina de ferro, muitos grupos faziam um rock progressivo bem diferente do que estava sendo feito na chamada Europa Ocidental. Syrius (Hungria), SBB (Polônia), Klan (Polônia), Gunesh Ensemble (União Soviética), Modo (União Soviética) e FSB (Bulgária) mesclavam uma sonoridade pesada de sintetizadores com guitarras ácidas, quase no space rock, porém com um virtuosismo jazzístico típico da região oriental da europa, e que são pérolas raras para os colecionadores e admiradores do rock progressivo. Cada um dos grupos citados, entre tantos outros, merece um destaque especial aqui no Maravilhas do Mundo Prog, mas hoje, iremos dedicar o espaço para um dos poucos grupos do lado oriental que ousou (digo ousou, pois não era comum fazer isso na época) tentar tocar igual aos irmãos ocidentais. Estamos falando dos húngaros do Panta Rhei.
Panta Rhei em apresentação (1977)
Para conhecermos um pouco mais sobre esse obscuro grupo, precisamos voltar a década de 70, e relembrar que na época, um corte de valores, produtos e financiamento de bens de consumo foi feito entre o lado oriental e o lado ocidental da europa. Quem estava no lado interno da chamada “Cortina de Ferro” raramente sabia sobre o que estava acontecendo do outro lado da “Cortina”. A chegada de materias era em sua maioria clandestina. Documentários diversos narram a briga e dor que os alemães sofreram por terem seus parentes afastados pela construção do Muro de Berlin, que acabou dividindo a Alemanha em dois países: República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental) e República Democrática Alemã (Alemanha Oriental).
Porém, sempre havia um jeito de se burlar as regras, e um garoto húngaro chamado Kálmán Matolcsy era um dos que mais fazia isso. Kálmán possuia um parente que trabalhava na força aérea húngara, e seguidamente, esse parente trazia para o garoto discos do lado ocidental, principalmente da Inglaterra, com o jovem Kálmán se apaixonando pelos tradicionais Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin e Yardbirds.
Kálmán Matolcsy
Mas foi quando esse parente o apresentou o álbum Tarkus (1971), do grupo Emerson, Lake & Palmer, que Kálmán descobriu a potência dos teclados, instrumento que ele tocava sem nenhuma pretensão. O choque musical da suíte “Tarkus” abalou Kálmán de tal forma que obcecado, passou a seguir os passos de Emerson, ampliando sua coleção de teclados e disponibilizando-os no palco da mesma maneira que seu ídolo, além de também construir alguns especialmente para reproduzir o som de Emerson.
Em 1974, Kálmán conheceu os irmãos Szalav: Alex (guitarra) e András (baixo). Com eles, passou a descobrir um pouco mais do rock progressivo inglês, como The Nice (outro grupo com Emerson), Yes e King Crimson, já que ambos tinham seus contrabandos em casa. Não demorou para o trio formar um grupo, que, com a adição de Csaba Béke (bateria), se tornou o Panta Rhei.
Alex Szalav
O fato do grupo ser húngaro torna a história um pouco mais complicada de ser contada, mas o que se sabe é que entre 1974 e 1982, o Panta Rhei variou entre o jazz e o progressivo, mas sempre com um “plus“, que era exatamente a paixão de Kálmán pelo Emerson, Lake & Palmer. O grupo gravou diversos álbuns durante esse período, mas somente um foi lançado como veremos a seguir, principalmente pelo boicote a sonoridade ocidental do quarteto e a outros problemas.
Bartók, o álbum não lançado
Por exemplo, em 1976, foi registrado o álbum Bartók, tendo a participação de Miklós Kiss na bateria. Pouco tempo depois, Csaba voltou ao seu posto, e Enikö Àcs ingressou como vocalista. O disco apresentava uma homenagem ao compositor húngaro Béla Victor Jánus Bartók (25 de março de 1881 – 26 de setembro de 1945), mas, quando da época de lançamento, a família de Bartók acabou recusando a homenagem alegando diferença de sonoridade (?) entre o original e o que foi gravado. Bartók acabou sendo lançado 20 anos depois no CD Epilogus 2.
E foi somente na primeira parte dessas coletâneas de  canções do Panta Rhei, intitulda Epilogus, que o mundo conheceu a nossa Maravilha prog dessa semana. 
O ano de 1976 era especial para o Panta Rhei , já que o grupo estava no auge das improvisações. Ao vivo, espichavam as canções facilmente para além dos 10 minutos. A consciência musical de Kálmán porém o dizia que somente improvisos era pouco para o talento do quarteto, e assim, lançou o desafio para seus colegas de começar a registrar peças clássicas. Assim como o Emerson, Lake & Palmer fez com “Pictures at an Exhibition” de Mussorgsky, o Panta Rhei passou a trabalhar em cima das canções de Bartók.
Só que as curtas canções de Bartók ainda não estavam satisfazendo o ego de Kálmán, e então, ele apresentou uma nova e pomposa ideia: a interpretação ao vivo (em estúdio) da suíte “Peer Gynt”. Composta pelo norueguês Edvard Grieg no ano de 1875, “Peer Gynt” é dividida originalmente em cinco atos, com um total de 26 movimentos entre eles. A saber, a divisão de nomes é a seguinte:
Ato I: 
“Prelude: At the Wedding”;
“Halling”; 
“Springar”.
Edvard Grieg (1905)
Ato II: 
“Prelude: The Abduction of the Bride / Peer and Ingrid”; 
“Peer Gynt and the Herd-Girls”; 
“Peer Gynt and the Woman in Green”;
“Great Folk May Be Known by the Mounts …”; 
“In the Hall of the Mountain King”; 
“Dance of the Mountain King’s Daughter”; 
“Peer Gynt Hunted by the Trolls”; 
“Peer Gynt and the Boyg”.
Ato III: 
“The Death of Åse”.
Ato IV: 
“Prelude: Morning Mood”; 
“The Thief and the Receiver”; 
“Arabian Dance / Anitra’s Dance”; 
“Peer Gynt’s Serenade”; 
“Peer Gynt and Anitra”; 
“Solveig’s Song”; 
“Peer Gynt at the Statue of Memnon”.
Ato V: 
“Prelude: Peer Gynt’s Homecoming: Stormy Evening on the Sea”; 
“Shipwreck”; 
“Solveig Sings in the Hut”; 
“Night Scene”;
“Whitsun Hymn”;
“Solveig’s Cradle Song”.
Dentre todos os movimentos, certamente “In the Hall of the Mountain King” é o que ficou mais consagrado. No rock, grupos e artistas como Apocalyptica, SRC, Big Brother & The Holding Company, Electric Light Orchestra, The Who, Rainbow, Rick Wakeman entre outros, prestaram suas homenagens a essa parte de “Peer Gynt”, cada um adicionando elementos característicos da banda, e hoje, diversos são os fãs que atrevem-se a expandir os conhecimentos para a música clássica a partir de audições desse movimento com sua banda favorita.
András Szalav
Mas, voltando a interpretação dada pelo Panta Rhei, o grupo fez uma mescla com os diferentes atos da canção, baseando-se principalmente no Ato IV, ao vivo no estúdio e com a colaboração do Bartók Choral da Universidade de Eotvos, transformando esse clássico de Grieg em uma Maravilha prog de alto quilate. A canção abre com os teclados e a bateria introduzindo o belíssimo tema de “Prelude: Morning Mood”, somente ao piano e depois acompanhado pelo coral. O famoso tema  do movimento  (que até sua vó conhece) vai sendo recheado por sintetizadores e moogs, com os vocais barítonos e sopranos se soprepondo, e assim, baixo, bateria e guitarra fazem o acompanhamento lento dessa linda melodia.
O moog começa a fazer o solo central, e os vocais, em uma linha similar a “Atom Heart Mother” (Pink Floyd), são emocionantes, levando ao piano que nos apresenta “The Thief and the Receiver”. O tema central passa a ser acompanhado pelo coral e pelo baixo, e então, a bateria faz o acompanhamento final junto dos teclados, puxando “Arabian Dance”, com o tema central no moog, bem mais veloz que a versão original, tendo acompanhamento do baixo e da bateria no melhor estilo Emerson, Lake & Palmer. O synclavier faz o tema central de “Anitra’s Dance”, sempre com o ótimo e preciso acompanhamento de Csabas e András, e assim, as complicadas mudanças de tempo aparecem, retormando o tema principal no moog, onde Kálmán sola com alguns improvisos, e então, a sessão lenta nos apresenta “In the Hall of the Mountain King”.
Csaba Béke
Falar o que desse movimento? O andamento denso do moog e dos sintetizadores com o Panta Rhei deram um toque ainda mais estranho e engraçado para o tema central, que vai crescendo com o ritmo do baixo e da bateria, até chegar a uma velocidade absurda, que nos leva ao curto solo de Csaba. O tema central é repetido, e então, começamos a ouvir a sequência da suíte,  com “The Abduction of the Bride”.
O baixo faz o tema central, suavemente, e assim, coral e bateria surgem, em um andamento leve, entoando “Ingrid’s Lament” (ou “Peer and Ingrid”). O Coral faz a melodia do tema central, seguido pelo piano, que mantém a melodia do tema central junto com o baixo. Depois, é a vez do coral e do moog entoarem o tema central, e assim, começamos a  doida introdução de órgão, baixo e bateria, que leva ao solo de órgão principal desse movimento, com uma ótima cadência de baixo e bateria, onde Kálmán exibe um pouco de sua virtuose, e o acompanhamento final de Csaba e András é sensacional, na mesma linha do que Carl Palmer e Greg Lake faziam acompanhando Keith Emerson.
A canção vai para seu final com “Solveig’s Song”, onde o coral novamente aparece fazendo o tema central, que depois é tocado pela guitarra de Alex, voltando então ao tema de “Solveig’s Song” com o coral e encerrando-se com a bela cadência de Csabab e András, acompanhados pelos longos acordes de Kálmán, que pomposamente recheam a melodia do coral enquanto Csabab faz diversos rolos, fechando com chave de ouro uma interpretação soberba e um arranjo fantástico para homenagear um dos principais compositores noruegueses.

O único LP oficial do Panta Rhei
Somente em 1980, depois de 6 anos de  começar a andar na estrada e quatro após a gravação de “Peer Gynt Suite”, o Panta Rhei acabou lançando o seu primeiro álbum, Panta Rhei, que apresentava uma sonoridade bem diferente para o que era a carreira da banda até ali, com muito jazz rock e várias adaptações da música clássica, vendendo 30.000 mil cópias no lado leste da europa. Porém hoje em dia, achar esse LP é como procurar uma agulha no palheiro. Enikö e Csaba foram substituídos por András Laár (guitarra) e András Schmitt (bateria). 
Em 81, Csaba voltou para seu posto e em 82, ocorreu o último show do grupo, que apresentou uma longa peça progressiva que infelizmente não foi registrada.
Laár foi participar do grupo new wave KFT, enquanto que o trio Kálmán, Andrés e Alex Szalay formaram um novo grupo, com o pseudônimo de P. R. Computer, onde P. R. é exatamente a sigla de Panta Rhei (e não Progressive Rock como muitos acreditam ser) que lançou no mesmo ano o álbum P. R. Computer, com uma sonoridade bem eletrônica onde destaca-se por exemplo a faixa “Well Tempered Computer” (tradução livre: Computador Bem Temperado) uma alusão a obra “Das Wohltemperirte Clavier” (tradução livre: Cravo Bem Temperado), de Johann Sebastian Bach, e que vendeu 80.000 cópias, mas que também se tornou uma peça rara para os colecionadores de vinis.
Único registro do projeto P. R. Computer
O grupo permaneceu junto até 1989, e assim, cada um seguiu seu caminho, sendo que Alex Szalay virou meu colega, e agora é professor de Física e Astronomia na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, além de ter construído o pedal de efeitos Shadow SH-075 MIDI Guitar System no ano de 1987, e que é vendido até os dias de hoje, sendo usado por nomes como Steve Morse (um dos pioneiros), Travis Larson e Steve Vai.
Kálmán faleceu no dia 12 de setembro de 2005, deixando para trás dois filhos e sua esposa. A morte de Kálmán mereceu uma homenagem nas rádios húngaras em outubro do mesmo ano. Já Andrés aposentou-se e hoje vive na obscuridade.
Aos que querem conhecer a obra do Panta Rhei, e principalmente, a Maravilha de “Peer Gynt Suite”, Alex Slavay construiu o site oficial da banda, e lá, disponibilizou para download grátis TODOS os registros que o Panta Rhei fez na história. Basta clicar com o botão direito e mandar “Salvar Como … “, esperar baixar e deliciar-se com a sonoridade do grupo. Entre as canções, diversas homenagens ao Emerson, Lake & Palmer, sendo uma delas, nossa próxima Maravilha do Mundo Prog.

5 comentários

  1. Mister

    Mairon
    Gostei muito do texto. Sou tarado por bandas da ex cortina de ferro e é sempre um prazer encontrar matérias como esta, pois são raras as pessoas que se dispõem a escrever a respeito e mais ainda as que procuram conhecer esses sons. Sou fã do Collegium Musicum, grupo da antiga Checoslováquia, que tinha muito do ELP em seu som. Marian Varga, o tecladista, não deve nada aos Emersons e Wakemans da vida.

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  2. Mairon Machado

    Obrigado Gaspa. Eu conheço pouco do Collegium Musicum, e do pouco que ouvi gostei. A melhor banda da cortina de ferro para mim sem duvida foi/é o SBB da Polônia. Outra excelente banda dessa região é o Opus, da Iugoslávia. Ambos eu pretendo apresentar por aqui.

    Abração

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