Por Diogo Bizotto
Costumo dizer que, se existe uma banda de thrash metal que merecia sorte melhor, essa banda é o Testament. Tão competentes quanto seus contemporâneos Metallica, Megadeth e Slayer, mas sem ter obtido as vendas milionárias e o reconhecimento mundial destes, o grupo de Berkeley, na Califórnia, gozou de bastante prestígio no final dos anos 80 e no início dos anos 90 com seus primeiros álbuns, mas após o desmanche de sua primeira e clássica formação (a saber: Chuck Billy, vocal; Eric Peterson, guitarra base; Alex Skolnic, guitarra solo; Greg Christian, baixo; Louie Clemente, bateria) e a passagem de novos membros que nunca duravam muito tempo na formação, o Testament viu sua popularidade cair vertiginosamente nos anos 90.
No final da década, em 1999, a banda pôde experimentar novamente o gostinho do reconhecimento com o excelente álbum The Gathering, trazendo um time de primeira ao lado dos sempre presentes Eric Peterson e Chuck Billy: o baterista Dave Lombardo (Slayer, Grip Inc., Fantômas), o baixista Steve DiGiorgio (Sadus, Death, Autopsy) e o guitarrista James Murphy (Cancer, Death, Obituary), que já havia feito parte de outra encarnação do Testament. O disco foi exaltado por crítica e público, mas os resultados não puderam ser colhidos por muito tempo. Em 2001 Chuck Billy e James Murphy (que na época não se encontrava mais no grupo) foram diagnosticados com câncer.
The Legacy
Em meio à recuperação de Chuck, a banda resolveu remixar o material dos dois primeiros álbuns, The Legacy (1987) e The New Order (1988), mas, segundo o grupo, essa ação seria “politicamente” impossível. Isto é, provavelmente questões contratuais impediram o Testament de realizar seu intento. Assim, a banda promoveu o lançamento de uma coletânea com diversas regravações de faixas dos álbuns citados, First Strike Still Deadly, contando com a presença do antigo guitarrista Alex Skolnic, ausente desde 1993, do baterista John Tempesta, que havia gravado o álbum Low (1994), além de Steve DiGiorgio no baixo. A primeira e óbvia pergunta: mas valeu a pena, o disco merece a audição e uma possível aquisição? A resposta é um SIM bem grande, com letras garrafais, por três motivos, os quais vou deixar explícitos.
Primeiro motivo: John Tempesta. Qualquer um que está moderadamente acostumado ao Testament sabe que o som do grupo em sua primeira fase sempre foi mais cadenciado e melódico se comparado à maioria  de seus contemporâneos no thrash metal. Muito disso se deve ao background do virtuoso guitarrista Alex Skolnic, que inclusive mantém até hoje um trio onde toca jazz, mas também se deve ao estilo do baterista Louie Clemente. Longe de contar com as habilidades de bateristas como Dave Lombardo, Gene Hoglan (Dark Angel, Death, Strapping Young Lad) e Tom Hunting (Exodus), apenas para ficar no mesmo gênero, Louie sempre imprimiu um ritmo menos veloz para a banda, utilizando com parcimônia o bumbo duplo. Não é o caso de John Tempesta, que incrementou o andamento das canções não apenas com o uso mais presente dos dois bumbos, mas temperou as regravações com novos elementos, porém, sem procurar obter mais destaque que o resto do grupo, afinal, é nos riffs de Eric Peterson, nos solos e melodias de Alex Skolnic e nos vocais de Chuck Billy que residem as principais características do Testament.
The New Order
Segundo motivo: a produção. Não, não acho que The Legacy e The New Order sejam discos mal produzidos ou algo do tipo. Alex Perialas, responsável por essa tarefa nos dois álbuns, era um dos profissionais mais requisitados quando o assunto era thrash metal nos anos 80 e início dos anos 90. The New Order soa especialmente bem produzido para a época, com uma sonoridade analógica bem “guitarra e amplificador”, sem frescuras, com destaque para os timbres utilizados por Alex Skolnic. Mas por que raios então estou destacando a produção como um bom motivo para dar uma chance a First Strike Still Deadly? É simples: Junto ao co-produtor Doug Hall, e contando com a mixagem do renomado Andy Sneap, a banda conseguiu atualizar seu som e utilizou-se da técnica conquistada com o passar dos anos sem alterar as características de sua música, mantendo a proximidade com os arranjos originais sem soarem datados, dando lição a muita gente que acha que pra se fazer thrash metal hoje em dia a simples repetição de fórmulas basta para ser bem sucedido. As músicas soam frescas, como se pudessem estar sendo recém lançadas na época.
Terceiro motivo: a escolha do track list. Hoje em dia tanto The Legacy quanto The New Order são vistos como clássicos dentro do gênero, e quaisquer fossem as escolhas para integrar o track list de First Strike Still Deadly teríamos uma coletânea que agradaria praticamente todos os fãs do Testament. Mas há de se convir que as faixas contempladas se enquadram no rol daquelas que os fãs adoram assistir a banda tocar em seus concertos. Talvez a inclusão de “Apocalyptic City”, do primeiro, e “Nobody’s Fault”, cover do Aerosmith, do segundo, tornassem a sequência perfeita, mas aí já é querer demais.
Testament em sua formação clássica: Greg Christian, Eric Peterson, Chuck Billy, Louie Clemente e Alex Skolnic
Além disso, o Testament traz a participação especial em duas faixas, “Alone in the Dark” e “Reign of Terror” (essa ausente nos discos citados, presente apenas no lado b do single “Trial By Fire” e em uma demo da banda quando se chamava Legacy), do seu vocalista original, Steve “Zetro” Souza, que deixou a banda em 1986 para se juntar ao Exodus. Seus vocais nessas duas músicas são um atrativo a mais para quem  procura material diferenciado em sua coleção, mas no fim das contas a conclusão à qual se chega é a seguinte: AINDA BEM que Steve deixou o grupo, assim pudemos ser presenteados com a entrada desse que é para mim o mais versátil vocalista que o thrash metal já produziu, capaz de soar limpo e melódico em baladas como “Return to Serenity”, do álbum The Ritual (1992) e totalmente gutural, como no álbum Demonic (1997).
Chuck Billy conseguiu concluir seu tratamento contra o câncer e superar a doença em 2003, e a banda continuou na estrada, entre algumas trocas de formação, culminando no lançamento do álbum The Formation of Damnation em 2008, contando com a formação clássica, exceção feita a Louie Clemente, substituído por Paul Bostaph (Slayer, Forbidden, Exodus), que já havia tocado com a banda em 1993. Um grande álbum, destaque em meio à volta às atividades e aos bons discos de diversas bandas de thrash metal oitentistas. Não interessa por qual disco comeces a ouvir o Testament, duas coisas são certas: boas portas de entrada não faltam, e o primeiro ataque ainda é mortal.
Track List:
2. Into the Pit
3. Trial By Fire
7. Over the Wall
8. The New Order
9. The Haunting
10. Alone in the Dark
11. Reign of Terror

14 comentários

  1. leonardocastro

    No geral, eu gostei do disco, mas uma musica nao funcinou bem: Disciples Of The Watch. Sei lá, achei que a nova versao nao teve a força da original.

    Mas, realmente, nao tem nem como comparar o Clemente com o Tempesta…

    Responder
  2. micaelmachado

    Gostei do texto, Diogo! Eu conheço muito pouco do Testament, não o suficiente para me empolgar e virar fã, mas tenho de reconhecer a importância e a qualidade do grupo dentro do mundo do metal!

    Responder
  3. Mairon Machado

    Belo texto Diogo. O testament é sem duvida uma das principais bandas do genero. Gosto muito do Souls of Black, para mim o melhor da banda!

    Responder
  4. diogobizotto

    Mairon, conheci a banda com o "Souls of Black". Peguei emprestado na cega, sem ter ouvido sequer uma música do grupo e curti de primeira. Quanto a álbuns favoritos, é complicado… acredito que "Thr New Order" mereça esse título, mas o "The Gathering" é brincadeira… um dos grande discos dos anos 90…

    Responder
  5. leonardocastro

    O New Order é o meu favorito, seguido de perto do segundo. Depois o Practice, Low e o The Gathering. Mas o unico que eu nao curto mesmo o Demonic, nao gostei da roupagem death metal do disco.

    Agora, até concordo que o Testament seja visto como "segundo escalão do thrash", mas apenas se o primeiro escalão for o Big Four. Tirando essas 4, elas estão pelo menos no mesmo nível de qualquer outra…

    Responder
  6. diogobizotto

    Quiseste dizer "seguido de perto pelo primeiro", Leonardo?

    Eu também concordo com essa história de "segundo escalão", mas só se estivermos falando de sucesso comercial, porque do resto…

    Responder
  7. leonardocastro

    Diogo, isso, o meu favorito é o The New Order, seguido de perto pelo The Legacy 🙂

    Tipo, se o Testament é segundo escalão, bandas como Hallows Eve e Onslaught são do 35º… E ainda assim, ambas tem discos legais de se ouvir.

    Responder
  8. eduardoluppe

    Excelente post Diogo! O Testament é uma das minhas bandas preferidas e os álbuns Practice What you Preach, The Ritual e The Legacy são os que mais gosto. Grande banda! Big Five com o Testament! rsrs
    Recomendo para todos o vídeo "Seen Between the Lines" de 94, vcs vão chorar de rir com as histórias do Chuck Billy e com o capote que ele toma logo ao entrar no palco! kkkkkkk

    Responder
  9. Rafael "CP"

    Acho q só tem uma banda que eu iria admirar essa pratica : O Metallica.

    Eu detesto os albuns mais classicos deles no estudio , como Ride the lightning e Master of Puppets , mais amo as musicas ao vivo , portanto , acho q novas gravações me encantariam.

    Responder
  10. diogobizotto

    Pois é, eu gosto bastante da produção de "Ride the Lightning" e "Master of Puppets", especialmente esse primeiro tem um som "frio", que combinou muito com a sonoridade e com várias letras. É escutar o disco e ficar com nostalgia de um tempo que nem vivi (nasci em 84). O "And Justice For All…" sim acho mal produzido, mal mixado…

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.