Blue Öyster Cult – Fire of Unknown Origin [1981]

Blue Öyster Cult – Fire of Unknown Origin [1981]

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Por Micael Machado

No início dos anos 80, o quinteto norte americano Blue Öyster Cult já havia passado por momentos melhores em sua carreira. Formado por Eric Bloom (guitarra base e vocais), Donald ‘Buck Dharma’ Roeser (guitarra solo e vocais), Allen Lanier (teclados e guitarra), Joe Bouchard (baixo e vocais) e seu irmão Albert Bouchard (bateria), o grupo vinha de dois lançamentos com vendas praticamente inexpressivas perto de seu catálogo anterior, o mais comercial Mirrors, de 1979, e Cultösaurus Erectus, de 1980, que falhou na tentativa de ser o retorno da banda à sonoridade mais pesada de seus primeiros lançamentos, mas levou o BÖC (como é conhecido pelos fãs) a excursionar ao lado do então revigorado Black Sabbath (que estreava o vocalista Ronnie James Dio em sua formação) na famigerada Black And Blue Tour, a qual gerou muita confusão e um vídeo até hoje inédito em DVD, que tem o mesmo nome da turnê. Devendo muito dinheiro à gravadora, e vendo seu prestígio decair cada vez mais, eles sabiam que precisavam fazer um novo álbum que resgatasse a imagem e a popularidade do Culto da Ostra Azul (bem como as vendas de outora). Assim sendo, em 1981, gravaram Fire of Unknown Origin, produzido pelo lendário Martin Birch (Iron Maiden e Deep Purple, dentre muitos outros), o disco responsável por trazer de volta os “velhos tempos” de glória, e afastar as preocupações tanto dos músicos quanto dos seguidores do Culto!

 

Começo a tratar do disco falando de “Veteran of the Psychic Wars“, a terceira faixa, que também é uma de suas melhores composições, trazendo de volta o clima “misterioso” dos antigos registros do BÖC, além de um peso evidentemente maior que o das demais canções do track list, evidenciado pela marcação da bateria de Albert Bouchard. Com letra composta pelo consagrado escritor de ficção científica Michael Moorcock (que já havia trabalhado com o grupo anteriormente em faixas como “The Great Sun Jester”, de Mirrors, e “Black Blade”, de Cultösaurus Erectus), e cantada por Eric Bloom (como a maioria das outras músicas deste play), esta é uma das melhores canções da história do grupo, em muito graças ao clima de tensão criado pelos teclados e pelos excelentes solos de guitarra. Foi lançada em single, atingindo o número 24 da “Billboard Rock Tracks” dos EUA, além de aparecer na trilha sonora do filme de animação “Heavy Metal”, também de 1981, para o qual o grupo, ironicamente, escreveu uma canção baseada em um dos subtemas da trama, a interessante “Vengeance (The Pact)”, que foi preterida pelos produtores do filme, e acabou abrindo o lado B do disco sobre o qual estamos lendo. Tendo os vocais divididos entre Joe Bouchard e Buck Dharma, esta canção é praticamente separada em duas partes independentes, tendo em seu início uma sonoridade que mostra as influências do então iniciante estilo AOR na nova metodologia de composição do grupo (sempre atenta ao mercado), além de apresentar um dos mais belos solos de guitarra presentes neste registro. Pouco depois deste, após uma parte mais “macabra” executada pelos teclados, ocorre uma guinada, e a faixa ganha peso e velocidade, para depois voltar ao seu ritmo inicial e terminar em alta após mais uma execução do refrão. A pesada, porém não muito rápida, “Heavy Metal: the Black and Silver”, escrita por Albert e Eric junto ao seu empresário Sandy Pearlman, e que originalmente fechava o lado A, também foi inspirada pelo mesmo filme citado, e novamente foi deixada de lado pela equipe responsável pela animação.

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Allen Lanier, Buck Dharma, Eric Bloom, Albert Bouchard e Joe Bouchard

 

Iniciando com um interessante tema somente ao piano, “Joan Crawford“, apesar dos toques comerciais que carrega, é outro destaque no track list deste álbum. Com um refrão impecável, daqueles que grudam na cabeça por um bom tempo depois de apenas uma audição, e letra inspirada no livro “Mommie Dearest”, escrito por Christina Crawford, filha adotiva da personagem que dá título à música (para aqueles que não sabem, uma das maiores estrelas do cinema americano no século XX), a canção tem uma parte totalmente insana lá pelo meio, onde diversos efeitos sonoros são ouvidos, como freadas de carros, telefones tocando, um bebê chorando, sirenes, buzinas e até uma espécie de corneta militar como a dos filmes de cavalaria do velho oeste, além da fantasmagórica voz da falecida atriz chamando por sua filha após voltar do tumulo, como afirma a arrepiante letra, e uma breve citação a “In the Hall of the Mountain King”, do compositor norueguês Edvard Grieg. Seu clipe (que aparentemente tem exibição restrita no Brasil em todos os canais da internet) passava com frequência no extinto programa Fúria Metal da MTV, e foi um dos responsáveis por apresentar este que vos escreve à sonoridade do Culto da Ostra Azul (sendo, não só por isso, considerada por mim como a melhor faixa deste lançamento). Lançada em single, ficou apenas na posição 49, o que considero muito pouco para sua qualidade. O final desta faixa é emendado ao início de “Don’t Turn Your Back”, que fecha o álbum com toques mais comerciais, e que nunca me agradou muito, tendo a presença da cantora Sandy Jean nos backing vocals, e sendo uma das duas canções deste registro onde o vocal principal é feito por Buck Dharma.

A outra é “Burnin’ for You“, a grande responsável pelo sucesso estrondoso do disco. Com letra escrita pelo crítico musical Richard Meltzer, e musicada por Buck, a canção seria inicialmente utilizada no álbum solo em que o guitarrista estava trabalhando na época (e que viria a ser Flat Out, lançado em 1982). Mas o grupo lhe convenceu de que ela poderia ser o single que recuperaria a credibilidade do BÖC junto a seus fãs, o que, de fato, aconteceu. Embora bem mais leve do que outras músicas lançadas anteriormente pelo quinteto, ela caiu no gosto do pessoal ligado ao rock daquele início de década, com sua sonoridade pegajosa, refrão fácil e teclados e guitarras bem encaixados. O single atingiu o número 1 da mesma parada citada anteriormente, e levou o álbum a receber o certificado de platina nos EUA. Uma bela forma de recuperar o prestígio perdido em algum lugar do passado.

Tendo os vocais de Eric, a faixa título (cuja letra foi escrita pela cantora e poetisa Patti Smith, à época namorada de Allen Lanier) abre o álbum apresentando riffs pesados e teclados climáticos em seu início, caindo depois em um desinteressante clima mais “balançado”, que contrasta com o excelente refrão e a bela sessão de solos de guitarra no meio da canção (aliás, solos excelentes de guitarra são uma constante não só neste, mas em outros lançamentos da carreira do BÖC). A veloz “After Dark” dá destaque ao baixo de Joe Bouchard e aos teclados de Allen (além de possuir um interessante riff e outro solo magistral de Buck), mas não chega a ser um grande destaque perto das demais canções, assim como “Sole Survivor”, que considero muito comercial e melosa, e que tem a presença da cantora e atriz Karla DeVito nos backing vocals. A capa criada pelo artista gráfico Greg Scott resgata o clima “misterioso” que a banda carregava em seus primeiros álbuns, com a presença do que parecem ser os “seguidores” do Culto da Ostra Azul, vestidos como druidas (o que está mais à frente exibe em seu manto o símbolo do quinteto, presente de alguma forma em todas as capas do grupo), com uma expressão vidrada como se tomados pelo fanatismo religioso, e segurando, cada qual, a sua própria ostra azul. Um clássico, e possivelmente a melhor arte já exibida em um disco da banda.

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Contracapa de Fire of Unknown Origin

A turnê resultante ficou registrada no duplo ao vivo Extraterrestrial Live, de 1982, além de marcar a demissão do baterista Albert Bouchard, substituído por Rick Downey, ex-roadie e técnico de iluminação do próprio grupo. O BÖC havia novamente voltado ao topo do rock mundial, mas, infelizmente, não conseguiu manter a posição tão arduamente conquistada. Seus próximos lançamentos (o mais recente é Curse of the Hidden Mirror, de 2001) não conseguiram manter a popularidade adquirida, e as contantes trocas de membros e direcionamento musical também não ajudaram em nada ao conjunto. Eric Bloom e Buck Dharma continuam excursionando e mantendo o nome da banda vivo, embora seu significado mais importante esteja, inevitavelmente, ligado a um tempo que ficou para trás, e do qual Fire of Unknown Origin pode ser considerado como o último momento de brilho. O que, para um grupo de tal relevância, é lamentável.

I’ve been living on the edge so long, and far too old to see

Track List:

1. Fire of Unknown Origin

2. Burnin’ for You

3. Veteran of the Psychic Wars

4. Sole Survivor

5. Heavy Metal: the Black and Silver

6. Vengeance (The Pact)

7. After Dark

8. Joan Crawford

9. Don’t Turn Your Back

2 comentários sobre “Blue Öyster Cult – Fire of Unknown Origin [1981]

  1. Marco Gaspari
    Vou dar um pitaco aqui absolutamente pessoal, Micael. Cheguei a comprar importados os três primeiros álbuns do BOC ainda no lançamento. A sonoridade tinha o diferencial das três guitarras e tudo mais, mas o que pegava mesmo era a aura criada em torno da banda. O que eram aquelas capas em branco e preto explorando uma simbologia que nos convidava a participar de alguma sociedade secreta dedicada a sabe-se lá que tipo de culto místico!!! Com a dificuldade do acesso a informações então, a gente viajava no tema. Quando lançaram o terceiro disco, ainda em um nível muito bom, parece que aquele jato da capa aterrissou a banda no chão da realidade. Quebrou-se o encanto, era uma banda como todas as outras. Não entendo como puderam ser tão idiotas de não manter e explorar todo o mistério que formaram ao seu redor. Isso acabou de repente, como se alguém da banda dissesse: cansei dessa porra de culto à puta da ostra azul. Ou algum executivo de gravadora exigisse que eles acabassem com a frescura. Sei lá, só sei que a partir daí a ostra passou da validade e ficou imprópria para consumo. Como capas, tanto a dos dinos quanto essa (que tentou de certa forma resgatar o culto) são legais, mas o som de Buck Dharma e suas ostras, pelo menos para mim, já havia empenhado todas as suas pérolas. Isso aí, meu amiguinho.

    RESPONDER15 de julho de 2013 às 11:42

    Mairon
    Concordo com o Marco. Os três primeiros BOC são muito bons, mas depois, é bem complicado.

    RESPONDER15 de julho de 2013 às 12:36

    Micael
    Concordo com você, Marco! Os primeiros discos são, com certeza, os melhores, com sua aura de mistério e de algo “proibido”. Mas se pode achar músicas boas em quase todos os outros discos (pelo menos até este aqui), basta peneirar um pouco. Fire of Unknown Origin nunca foi o meu disco favorito da banda (que deve ser algum dos três ao vivo desta fase), mas é um registro importante na carreira da banda por ter sido uma espécie de retomada do sucesso comercial que eles tinham antes (o que não significa qualidade). Além disso, foi o disco que me apresentou aos caras através do citado clipe de “Joan Crawford”, então, é natural eu ter uma certa “quedinha” por ele! Mas, sim, ele está abaixo dos primeiros discos! Grato pelo comentário!

    RESPONDER15 de julho de 2013 às 23:02

  2. A versão de “Veteran of the psychic wars” presente em “Extraterrestrial Live”, além de ser superior à de “Fire of Unknown Origin”, traz um dos solos mais memoráveis desse subestimado guitarrista chamado Donald Roeser, a.k.a. Buck Dharma. De fato, os três primeiros álbuns do BÖC são acima da média, mas, como dito, aqui e ali, a banda lançava boas músicas. Continua sendo, para mim, um comedor de farinha das barrancas do Rio Madeira, uma boa banda.

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