Resenha de Box Set: Thin Lizzy – Thin Lizzy (55th Anniversary Deluxe Edition) [2026]
Por Marcello Zapelini
Em janeiro de 1971, um jovem trio de irlandeses (Phil Lynott, baixo, violão e vocais), Eric Bell (guitarras) e Brian Downey (bateria e percussão) entrava em estúdio para registrar seu primeiro disco, com produção de Nick Tauber e Scott English (apesar do nome, um norte-americano). O LP sairia pela Decca Records em abril (GB) e julho (EUA) daquele ano, e, embora tenha chegado ao 10º lugar na parada britânica, não apareceu na americana. As gravações não foram exatamente tranquilas, pois Lynott (que já era meio abusado) discutiu com English, que queria diminuir o volume do baixo; ainda assim, Eric Bell se lembra de ganhar sacos e mais sacos de maconha do americano, o que contribuiu para que ele declarasse posteriormente que a banda estava fora de órbita quando gravou o disco. O álbum demorou uma semana para ser lançado, pois o artista escreveu Tin Lizzy na capa! Nos EUA a capa seria diferente da britânica, com um desenho de um pequeno Ford Model T (afetuosamente conhecido como Tin Lizzie) no lugar da foto mais conhecida de capa.

O Thin Lizzy não é uma banda mal servida de lançamentos póstumos e boxes, pelo contrário. Em 2001 saiu Vagabonds Kings Warriors Angels, caixa com 4 CDs contendo uma bela seleção do melhor da banda, mais algumas raridades; dez anos depois, uma nova box com 8 discos compilou as apresentações para a BBC; em 2020, Rock Legends trouxe raridades, singles, outtakes e um concerto completo em 6 CDs e um DVD. Mais recentemente, em 2024 saiu 1976, cobrindo a fase Jailbreak e Johnny The Fox em 6 CDs e 1974-75, que abrange Night Life e Fighting (2025). Álbuns individuais também foram “encaixados”: Live and Dangerous foi lançado em box de 8 CDs contendo todos os shows gravados para o disco original em 2022 e Vagabonds of the Western World, terceiro disco de estúdio (o último com Eric Bell), saiu em 2023 em formato semelhante à box que se resenha aqui (3 CDs, 1 Blu-Ray).

Quem conheceu o Thin Lizzy por meio do apoteótico Live and Dangerous ou pelo megahit Jailbreak certamente se surpreende com o primeiro disco. A banda ainda não tinha seu som registrado de guitarras, há várias composições com influências folk e Phil Lynott ainda não tinha encontrado sua voz – nem tinha desenvolvido seu estilo pessoal de escrever letras – mas isso não deve ser interpretado como um álbum fraco ou desinteressante. Thin Lizzy, o primeiro LP, é um grande disco de rock, diferente do que viria depois, e certamente merece uma audição cuidadosa, e agora que completa 55 anos de seu lançamento, é comemorado numa box contendo três CDs e um Blu-Ray (a edição em vinil traz 4 LPs). Os discos vêm com capinhas individuais, acondicionadas em uma capa gatefold, tudo dentro de uma caixa que ainda inclui um livro de capa dura com fotos e textos sobre a formação da banda e sua trajetória até o lançamento do álbum. Temos o primeiro LP na mixagem original, uma nova remixagem em stereo por Richard Whittaker (CD 1), o primeiro single da banda (ainda com Eric Wrixon nos teclados), o EP New Day (lançado em agosto de 71, em versão original e remixada), mais seis músicas gravadas em sessões para a BBC no mesmo ano) compondo o segundo CD, e, por fim, no CD 3, onze versões alternativas e instrumentais, incluindo uma música inédita, “Beggar’s Song”. O Blu-Ray traz apenas áudio, incluindo as dez músicas do LP original, as quatro do EP e a inédita em mixagens ATMOS, 5.1, ATMOS instrumental, e o remix de Whittaker.

Em suma, bastante coisa interessante para o fã. Pessoalmente, sempre gostei do primeiro disco do Lizzy (e nem tanto do segundo, Shades of a Blue Orphanage), e essa box confirmou as razões para apreciá-lo. O remix de Whittaker é de muito boa qualidade, com mais clareza no instrumental, as BBC sessions são importantes para quem não tem a box de 2011, o EP é excelente (se bem que já estava disponível na íntegra para quem comprara a reedição em CD de 2010), a adição do primeiro single é muito bem-vinda (em especial por trazer o lado B, raridade em CD) e o CD de raridades é uma ótima adição ao catálogo do grupo, jogando nova luz sobre algumas músicas bem conhecidas. Minha única crítica se refere ao fato de que em 1977 algumas músicas do disco tinham sido remixadas para a compilação Remembering Part 1, com guitarras adicionais, e embora essas versões estejam no CD de 2010, não foram incluídas aqui – e havia espaço no CD 3 para isso. Mas é uma reclamação menor, que só faz sentido para quem é completista e quer ter tudo que a sua banda do coração gravou, não tira o brilhantismo com que essa box homenageia o primeiro LP.
Sobre o material musical em si, destaco, do LP original, as hards “Ray-Gun” e “Look What the Wind Just Blew In”, a primeira uma composição de Eric Bell e a outra de Phil, que trazem ótimo trabalho de guitarras, justificando a boa fama de Eric junto aos fãs do Lizzy; a bela “Honesty is No Excuse”, com interpretação emocionada/emocionante de Phil no vocal; a lindíssima “Eire”, em que a melancolia da música só é superada pela da voz de Phil; “Clifton Grange Hotel”, em que o baixo de Lynott conduz a melodia, e Eric Bell reafirma sua excelência; “Return of the Farmer’s Son”, que destaca a bateria pesada do ótimo Downey (que inclusive ganha crédito de coautor); e “Remembering Part 1”, que alterna peso e delicadeza e traz todos os envolvidos dando o melhor deles – possivelmente o melhor momento, instrumental e vocal, de todo o disco.

Nos demais discos, as versões instrumentais permitem que a gente dedique mais atenção para o ótimo trabalho instrumental dos músicos, ao passo que as que trazem vocais alternativos são boas para comparar a interpretação de Lynott com as versões definitivas. No EP New Day, tem-se a primeira letra realmente memorável de Phil, a bela “Dublin”, a divertida “Things Ain’t Working Down in the Farm” e a parte 2 de “Remembering”, tão boa quanto a primeira; entretanto, a única música que dispensaria na box, “Old Man Madness”, estava nesse EP. Também vale a pena destacar o primeiro compacto do grupo: o lado B, “I Need You”, é diferente de tudo o que o grupo gravaria, e até onde sei só estava disponível na box Rock Legends. A música inédita, “Beggar’s Song”, é uma boa balada, com Lynott ao violão e Bell tocando fogo em tudo com sua guitarra hendrixiana. E é interessante destacar “Reminiscing”, uma versão primitiva de “Remembering”, ainda instrumental, com mais de 9 minutos. Por fim, as sessões para a BBC permitem ter uma ideia de como o Lizzy em formato de trio soava ao vivo – novamente, é preciso colocar em evidência o desempenho de Eric Bell, que, na minha opinião, só perde para Gary Moore na lista dos guitarristas que passaram pelo grupo. Dentre as gravações da BC, o grande destaque vai para a artilharia pesada de “The Rise and Demise of the Funky Nomadic Tribes”.
Thin Lizzy – o grupo – é presença quase obrigatória na coleção de quem gosta do rock britânico da década de 70; Thin Lizzy – o LP – é um disco de estreia que não chega a indicar com precisão os rumos que a banda seguiria nos anos seguintes, mas se sustenta muito bem pelos seus próprios méritos, com boas músicas e uma performance memorável do ótimo guitarrista Eric Bell; e Thin Lizzy – a box set – é um bom modelo de como deve ser uma box destinada a marcar o aniversário de um bom disco. É claro que um show completo da época seria uma ótima adição, mas até onde sei não existe nenhuma gravação ao vivo de qualidade do período. Com este lançamento, seis discos de estúdio e um ao vivo do grupo de Phil Lynott já receberam o tratamento de box set; resta esperar para ver se teremos Shades of a Blue Orphanage e Bad Reputation como próximos lançamentos. E quem sabe, Black Rose, Chinatown, Renegade, Thunder and Lightning e Life/Live também sejam objeto de boxes no futuro.

Track list (edição CDs + Blu Ray)
Thin Lizzy – 2026 Remaster (Originally Released As Decca SKL 5082, April 1971)
CD1-1 The Friendly Ranger At Clontarf Castle
CD1-2 Honesty Is No Excuse
CD1-3 Diddy Levine
CD1-4 Ray-Gun
CD1-5 Look What The Wind Blew In
CD1-6 Eire
CD1-7 Return Of The Farmer’s Son
CD1-8 Clifton Grange Hotel
CD1-9 Saga Of The Ageing Orphan
CD1-10 Remembering
2026 Richard Whittaker Stereo Mix
CD1-11 The Friendly Ranger At Clontarf Castle
CD1-12 Honesty Is No Excuse
CD1-13 Diddy Levine
CD1-14 Ray-Gun
CD1-15 Look What The Wind Blew In
CD1-16 Eire
CD1-17 Return Of The Farmer’s Son
CD1-18 Clifton Grange Hotel
CD1-19 Saga Of The Ageing Orphan
CD1-20 Remembering
CD2-1 The Farmer (Single A-Side)
CD2-2 I Need You (Single B-Side)
New Day EP
CD2-3 Dublin
CD2-4 Remembering (Part Two): New Day
CD2-5 Old Moon Madness
CD2-6 Things Ain’t Working Out Down On The Farm
New Day EP – 2026 Richard Whittaker Stereo Mix
CD2-7 Dublin
CD2-8 Remembering (Part Two): New Day
CD2-9 Old Moon Madness
CD2-10 Things Ain’t Working Out Down On The Farm
Stuart Henry Sounds Of The 70s Session 1971
CD2-11 Look What The Wind Just Blew In
CD2-12 Return Of The Farmers Son
John Peel Session 1971
CD2-13 Dublin
CD2-14 Rise And Dear Demise Of The Funky Nomadic Tribes
CD2-15 Clifton Grange Hotel
CD2-16 Ray-Gun
CD3-1 Eire (Instrumental Take 1 Outtake)
CD3-2 Beggar’s Song (Unreleased)
CD3-3 Clifton Grange Hotel (Instrumental)
CD3-4 Honesty Is No Excuse (Extended)
CD3-5 Honesty Is No Excuse (Instrumental Outtake)
CD3-6 Ray-Gun (Instrumental Take 2 Outtake)
CD3-7 Reminiscing (Take 1 Outtake)
CD3-8 Eire (Outtake)
CD3-9 Ray-Gun (Alt Vocal)
CD3-10 Clifton Grange Hotel (Extended)
CD3-11 Things Ain’t Working Out Down On The Farm (Alt Vocal)
ATMOS • 5.1 • Stereo Remix • ATMOS Instrumental
BD-1 The Friendly Ranger At Clontarf Castle
BD-2 Honesty Is No Excuse
BD-3 Diddy Levine
BD-4 Ray-Gun
BD-5 Look What The Wind Blew In
BD-6 Eire
BD-7 Return Of The Farmer’s Son
BD-8 Clifton Grange Hotel
BD-9 Saga Of The Ageing Orphan
BD-10 Remembering
BD-11 Dublin
BD-12 Remembering (Part Two): New Day
BD-13 Old Moon Madness
BD-14 Things Ain’t Working Out Down On The Farm
BD-15 Beggar’s Song
