A Young Guide Person’s To: Caetano Veloso as Guest (Part II)

Por Mairon Machado

A segunda “coletânea” apresentando Caetano como convidado, agora traz a presença do baiano em álbuns ou canções ao lado de mulheres. É curiosa a relação de Caetano com artistas femininas, pois até 1980, ele só havia participado de gravações ao lado ou de Gal Costa ou da irmã Maria Bethânia, com uma rara participação no álbum Os Meus Amigos São Um Barato, interpretando “Odara” junto da dona do disco, Nara Leão, o qual marcou o retorno de Nara aos lançamentos regulares depois de algum tempo.

Porém, a partir de 1980, Caetano expandiu seus horizontes musicais ao lado de mulheres, gravando ora composições suas, ora regravações, ora canções inéditas. As 14 participações que listo abaixo, conforme citado na primeira parte, são todas canções que nunca haviam sido lançadas – até então – em álbuns oficiais de Caetano, mas destaco que além delas, você encontrará a voz do mano Caetano nos seguintes discos de artistas femininos (marcas com * estão presentes no CD de extras das caixas 40 Anos Caetanos, Vol. 3 e Vol. 4), lembrando que estes são os que tenho em coleção, e deve haver muito mais por aí:

Telma Costa* (Telma Costa), Xuxa (Xuxa e Seus Amigos), Margareth Menezes (Gente de Festa *, Para Gil e Caetano), Vania Bastos (Cantando Caetano), Cesaria Evora (São Vicente de Longe), Negra Li* (Negra Livre), Belô Velloso (Belô Velloso), Elba Ramalho (São João Carioca), Maria Dolores Pradera (Caminemos), Mercedes Sosa (Cantora), Hebe Camargo (Hebe Camargo & Convidados), Roberta Spindel (Dentro do Meu Olhar), Maria Odette* (Maria Odette), Dona Ivone Lara (Casa de Samba 1), Gil (Casa de Samba 3)

O Lado A tem sete canções ao lado de cantoras brasileiras, enquanto o Lado B fica com cinco cantoras internacionais e duas brasileiras (uma delas com Caetano cantando em inglês). No próximo mês, trago a participação de Caetano em discos de bandas, assim como gravações ao lado de Bethânia e Gal.


Lado A

1. “Nosso Estranho Amor”: Marina – Olhos Felizes [1980]

Um dos maiores sucessos da carreira de Caetano, em termos de composição, “Nosso Estranho Amor” foi gravada pela primeira vez no segundo álbum de Marina (futura Lima). Este blues conduzido por piano e guitarra, no qual Caetano expõe seus problemas de relacionamento com a esposa na época, Dedé Gadelha, tem a participação do compositor cantando o imortal refrão “ah mainha, deixa o ciúme chegar, deixa o ciúme passar e sigamos juntos“. Enquanto Marina declama a letra blueseira e apaixonada, Caetano surge com vocalizações ao fundo, e soltando a voz no refrão. Emblemática, atemporal e com um timaço de banda de apoio (Helvius Vilela, do Tempo Trio, no baixo, Pedrinho Batera, do Som Nosso de Cada Dia, na bateria, Paulo Rafael do Ave Sangria, nas guitarras, e Paulo Barros no baixo), um magistral solo de guitarra, música fundamental para abrir esta “coletânea”.

2. “Mansidão”: Jane Duboc – Jane Duboc [1982]

Quem ouve Depois do Fim, o incrível álbum que a Bacamarte lançou em 1983, e se encanta com a voz de Jane Duboc, se quer imagina que o disco foi gravado quando ela ainda não possuía uma carreira oficial. Ao longo dos anos 70, e início dos anos 80, Jane foi voz ativa nos backing vocals de artistas como Roberto Carlos, Chico Buarque, Tavito e, Caetano Veloso, fazendo parte do grupo que registrou Outras Palavras (1981). A amizade entre os dois levou Caetano a contribuir no segundo disco solo de Jane, contando que o primeiro “oficial” foi lançado carregando o sobrenome do então marido Gay Vaquer, sob a alcunha de Jane Vaquer, e ao lado de José Tobias, em 1977, e somente em 1980 ela lançou o primeiro disco com o nome Jane Duboc, no caso Languidez, criando assim “Mansidão”, uma linda bossa nova que surge com o violão e a voz de Caetano, seguido pelo piano e a voz de Jane. Um belo contraste entre os instrumentos e as vozes, serpenteados por um belíssimo baixo acústico. A voz de Jane se sobressai na maior parte do tempo, mas o violão e a voz de Caetano se fazem presentes, ajudando a nos revelar a amplitude cultural de uma das maiores intérpretes de nosso país.

Com Joyce

3. “Samba da Benção”: Joyce – Negro Demais No Coração [1988]

Joyce Silveira Moreno foi apadrinhada por Vinícius de Moraes, destacando-se como cantora, instrumentista e compositora, o que a levou a se tornar a Menina dos Olhos da Bossa Nova durante a década de 70. Nos anos 80, depois de uma série de discos de pouco sucesso, Joyce resolveu regravar composições do padrinho no álbum Negro Demais No Coração. E coube a Caetano emprestar sua voz para abrir o disco com a atemporal “Samba da Benção” (com a frase que batiza o álbum), de Vinícius e Baden Powell. Joyce esbanja graça na sua voz e no violão, e quando Caetano passa a cantar, é um complemento gigantesco para algo que se transforma em uma jam maravilhosa, inserindo músicas incidentais (“O Samba da Minha Terra”, “O Que Que A Baiana Tem”, “Requebra Que Eu Dou Um Doce”, “Aquarela Do Brasil” e “El Manisero”) que fazem uma fusão sensacional do samba carioca de Vinícius com a malemolência do gingado baiano de Dorival Caymmi, através das vozes carioca e baiana de uma dupla sensacional, e por que não, genial!

4. “Cantar”: Silvia Patricia – Silvia Patricia [1991]

Mais uma baiana na vida de Caetano, Silvia Patricia (hoje, Sylvia Patricia) veio ao mundo em uma família musical (para se ter ideia, seu avô é primo do pai de Alceu Valença). Falaria horas sobre o talento e a formação de Silvia, que é uma artista reconhecida internacionalmente, mas no Brasil, quase não se fala dela. Em 1988 lançou seu primeiro disco, inspiradíssima em Marina Lima. Com seu segundo disco, lançado em 1991, Silvia mergulhou naquele clima de canções sem tantos teclados e mais dançantes, no que foi chamado pela imprensa de “Pop urbano”, e chamou Caetano para cantar “Cantar”. uma faixa bastante linda e suave, levada pelos violões de Waltel Blanco e Chico Braga, onde a voz de Silvia está bastante delicada. Mas com certeza é Caetano quem dá o upgrade definitivo à faixa, ao entrar com sua voz igualmente delicada, mas cheia de manha. Os violões com um ar sertanejo, e o belo arranjo de cordas, dão um ar campeiro para a faixa que a torna ainda mais atrativa, e não à toa, levou-a a fazer parte da trilha de Pantanal.

5. “Onde O Rio É Mais Baiano”: Alcione – Brasil De Oliveira Da Silva Do Samba [1994]

A parceria do baiano Caetano com a maranhense Alcione é de longa data. Em 1994, Marrom gravou “Onde O Rio É Mais Baiano”, uma ode de Caetano à escola Estação Primeira da Mangueira. E quem melhor que a mangueirense raiz para entoar um sambaço de tirar o chapéu. Anunciado com honras, Caetano dá um show cantando seu samba, e claro, o vozeirão de Alcione preenche as caixas de som. O refrão no ritmo do Olodum, com ambos cantando juntos, enaltecendo que “A Mangueira é onde o Rio é mais baiano“, é o momento mais forte de uma grande canção. Caetano regravou-a em Livro (1997), disco bastante influenciado pelas percussões do Olodum, e fez mais uma nova parceria com Marrom no clássico A Paixão Tem Memória (2004), com “Pedra de Responsa”*. Mas para mim, é “Onde O Rio é Mais Baiano” a melhor faixa que ele gravou com a Rainha do Samba.

6. “Noite Chuvosa”: Ângela Maria – Amigos [1996]

Se na edição anterior trouxe para a coletânea a colaboração de Caetano com a magnífica voz de Nelson Gonçalves, não podia deixar de fora sua fundamental contribuição com a Sapoti Ângela Maria. Uma das maiores vozes de sua geração, Ângela também quis surfar na onda de gravar com artistas da nova geração, e em Amigos, chamou Caetano para interpretar “Noite Chuvosa”, de Britinho. A doloria canção ganhou um ar dramático através do piano de Eduardo Souza Neto e do violão de João Lyra. Caetano e Ângela alternam-se nas estrofes, dividindo o espaço igualitariamente, e o arranjo de cordas engrandece o samba-canção do pelotense João Adelino Brito, com uma magistral interpretação de Ângela. Para poucos, mas esses poucos sabem o que quero dizer.

7. “Jeito Faceiro”: Virgínia Rodrigues – Nós [2001]

Em 1997, a cantora baiana (mais uma) Virgínia Rodrigues surgiu ao mundo através de uma descoberta de Caetano, durante as gravações do já citado Livro. O vocal lírico e grave de Virgínia chocou os puristas da axé music, mas encantou aqueles que apreciam música clássica com inovações, levando o The Times de Londres a chamá-la de “nova diva da música brasileira”, enquanto a imprensa estadunidense batizou-a de “Cinderela Brasileira”. O que ela entrega em Nós, homenageando os blocos afro de Salvador, são encantadoras faixas com orquestras e violões, além de belos arranjos que fazem a negritude baiana do candomblé e da umbanda ser totalmente recriada musicalmente. E ainda tem a honra de dividir os vocais com quem a descobriu em “Jeito Faceiro”, uma canção que parece saída das entranhas do Uakti, com um belo arranjo percussivo, e ainda a voz delicada e singela de Caetano sendo um contraponto aos graves e potentes cânticos de Virginia. O dolorido violino que acompanha o vocal dos dois equilibra as diferenças vocais, e é impossível não se arrepiar com algo tão inovador, e ao mesmo tempo reflexivo. Você não precisa gostar de axé music, mas o que foi feito por Caetano e Virgínia aqui, é de altíssimo padrão!

Com Elza Soares

Lado B

1. “Sophisticated Lady”: Elza Soares – Somos Todos Iguais [1985]

Depois de um período conturbado em sua vida, quando se separou de Garrincha, e viu o “gênio das pernas tortas” falecer, afastada da música e sem dinheiro para sustentar a si e ao filho Garrinchinha, Elza procurou Caetano desesperada pedindo ajuda. O baiano a acolheu, e a levou para gravar “Língua”, em Velô (1984). A canção virou um sucesso nacional, e no ano seguinte, a Som Livre lançava Somos Todos Iguais, com Elza voltando ao mercado da música após cinco anos. Em um repertório variado, o jazz revisitado de “Sophisticated Lady” (Duke Ellington) é um êxtase musical, ainda mais conduzido pelo violão e a voz aveludada de Caetano, que canta em inglês, enquanto a voz áspera e cheia de potência de Elza (particularmente, ao vivo um dos shows mais impressionantes que eu vi) preenche as caixas de som. Infelizmente desconheço os músicos que acompanham Elza, mas o solo de saxofone, e a base do piano, junto ao violão de Caetano e um espetacular baixo acústico, é para ficar girando o uísque embriagado pelo álcool e pela leveza de uma brilhante canção.

2. “Olhos Castanhos”: Eugenia Melo e Castro – Amor É Cego e Vê [1991]

A portuguesa Eugenia Melo e Castro fez sucesso no Brasil nos anos 80, graças a sua parceria com Kleiton Ramil e a capacidade de descobrir talentos de Wagner Tiso, que produziu os primeiros discos da cantora no país. Através de Tiso, Eugenia conheceu Caetano, que logo no segundo disco da portuguesa, entregou “Meu E Assim”, presente também no terceiro álbum dela. No quarto, grava a faixa-título “Coração Imprevisto”, e finalmente, em 1991, a dupla faz uma linda adaptação para “Olhos Castanhos”, de Alves Coelho Filho. Apesar dos teclados modernosos e do andamento quadradão, o sotaque português delicadíssimo de Eugenia funciona perfeitamente com a voz manhosa de Caetano, que alternam-se nas estrofes de forma que um complementa o outro. Faixa para curtir sem pretensão alguma, e apenas absorver um pouco dos sempre bem-vindos ares lusitanos.

Com Fiorella Manoia

3. “Il Culo Del Mondo”: Fiorella Mannoia – Gente Comune [1994]

Em 1994, Caetano foi a Itália para gravar com Fiorella Manoia uma ótima versão para “O Cú Do Mundo” (lançada originalmente no excelente Circuladô, de 1991), intitulada “Il Culo del Mondo”. A versão musicalmente é muito fiel ao original de Caetano, levada por um baixo estonteante, o violão marcante e uma percussão jamie muriana para fã de King Crimson não botar defeito. Ouvir Fiorella soltando seu vozeirão nas agressivas palavras da letra de Caetano, em italiano, dá um charme ainda maior para uma música naturalmente agressiva, na qual Caetano colabora cantando também em italiano, e refazendo o refrão em português. Os dois se encontraram 12 anos depois para regravar uma versão em italiano de “13 de Maio”, gravada originalmente por Caetano no álbum Noites do Norte (2001). Ok, eu havia dito que não ia colocar regravações de Caetano na lista, mas como resistir a uma ruivinha xingando muito em italiano?

4. Mistério de Afrodite”: Teresa Salgueiro – Brizzi do Brasil [2002]

Este é um caso curioso, pois o álbum é uma daquelas belas amostras do talento de um compositor (no caso Aldo Brizzi) que se apoia em ombros de gigantes para transformar suas ideias em arte. Com a presença de nomes como Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Tom Zé, entre outros, o compositor italiano chamou Caetano para duas canções, e uma delas esse delicado fado, ao lado da eterna voz do Madredeus Teresa Salgueiro. Caetano usa e abusa de vocalizações, fazendo intervenções cruciais, mas é Teresa o centro das atenções, dando uma aula – como sempre – de interpretação vocal. Com um instrumental apenas ao violão, baixo e uma tímida percussão, é no tocante sotaque português, que contracena divinamente com as participações cheias de dor de Caetano, entoando o nome de uma faixa belíssima, que ela tem que se fazer presente aqui. Pontual e para se embriagar acompanhado de um bom vinho português!

5. “Island of Wonder”: Nelly Furtado – Folklore [2003]

A canadense Nelly Furtado fez sucesso em 2000 com o álbum Whoa, Nelly!. Com apenas 21 anos, a menina encantou o mundo com faixas como “I’m Like A Bird” e “Turn Off the Light”, que levaram Nelly a vender mais de 7 milhões de discos ao redor do mundo, e seu som pop com elementos do trip hop. Em seu segundo álbum, a descendente de açorianos resolveu mudar totalmente a sonoridade. Batizado de Folklore, o disco imerge em sons voltados ao folk (como o nome diz), tendo como destaque a bela canção “Island of Wonder”. Composta por Caetano, ela mistura algo do flamenco com pitadas do olodum, em um ritmo hipnotizante e tenso, que ganha um toque emotivo brilhante nas vozes de Nelly (cantando em inglês) e Caetano (cantando em português e inglês). O refrão desta canção é lindíssimo, e apesar dos scratches no meio da canção, as vozes de Nelly (arregaçadora) e Caetano carregam ela para status de grandiosa.

Com Lila Downs, no Oscar

6. “Burn it Blue”: Lila Downs – Frida [2003]

Não necessariamente uma participação em um álbum de uma artista, mas sim (mais) uma parceria com uma cantora, “Burn it Blue” está presente na trilha sonora do filme Frida, na qual a mexicana Lila Downs é responsável pela voz de cinco faixas. Dentre elas, este espetáculo sonoro que encerra o álbum, e que foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original na 75ª edição do Academy Awards em 2003 – com apresentação da dupla Caetano e Lila em pleno palco do Oscar defendendo a canção, com orquestra e tudo – , do qual a trilha ganhou, mas a canção perdeu para “Lose Yourself”, do Eminem, feita para o filme 8 Mile. Tendo tom dramático, ela é puxada pelo violão flamenco e uma das performances vocais mais lindas e incríveis de toda a carreira de Caetano, cantando em inglês. A presença de cordas dá ainda mais dramaticidade para a canção, que ganha contornos de ansiedade com a entrada da voz angustiada de Lila, contrapondo a voz de Caetano. O duelo vocal dos dois, ele em inglês, ela em espanhol, é de se ajoelhar diante das caixas de som, e quando ela canta sozinha, caralho, é de arrepiar. Que música incrível, praticamente obscura na discografia do baiano, e com certeza, uma das grandes obras já registrada em toda sua carreira, seja solo, seja ao lado de outro artista.

7. “Pé Do Meu Samba”: Mart’nália – Ao Vivo [2004]

Fechando a coletânea, algo para irritar os leitores. Caetano sembre teve um pé no samba, e ao longo de sua carreira, compôs diversas canções no estilo. Uma de suas composições batizou o álbum de Mart’nália de 2003, que acabou sendo levado aos palcos e registrado em Ao Vivo (2004). Um lindo samba, onde o cavaquinho de Tavinho Menezes e a cuíca de Ovídio Brito fazem a base para uma interpretação magistral de Caetano. Seu dueto vocal com Mart’nália, ao longo do refrão, é fantástico, e claro, a voz cheia de marra e do sotaque carioca de Mart’nália dá um ar ainda mais agradável para esse sambaço. Os xiitas fãs de metal vão se ofender ao ver mais um samba por aqui, mas aos que têm mente aberta e apreciam boa música, independente do gênero, com certeza irão curtir essa faixa.

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