Adrenaline Mob – Men of Honor [2014]
Por Daniel Benedetti
Existe um preconceito recorrente contra os chamados “supergrupos”. A expectativa criada pela reunião de músicos consagrados costuma ser tão alta que qualquer resultado abaixo do extraordinário acaba sendo interpretado como decepção. No caso do Adrenaline Mob, essa percepção sempre esteve presente. Afinal, reunir Russell Allen, um dos maiores vocalistas do metal progressivo contemporâneo, Mike Orlando, guitarrista de enorme reputação técnica, John Moyer, do Disturbed, e, inicialmente, Mike Portnoy, parecia apontar para algo revolucionário.

Mas Men of Honor, segundo álbum de estúdio da banda, mostra que o objetivo nunca foi reinventar o heavy metal. Pelo contrário: sua maior virtude está justamente em compreender suas próprias limitações criativas e investir pesado naquilo que faz melhor — riffs sólidos, groove, peso e interpretações vocais de altíssimo nível. O disco funciona porque abandona qualquer pretensão de inovação e concentra todas as suas forças na execução.
Desde sua formação, em 2011, o Adrenaline Mob deixou claro que pretendia seguir um caminho distante do metal progressivo praticado por Russell Allen no Symphony X. O próprio Allen e Mike Orlando sempre destacaram, em entrevistas, que a intenção era criar uma banda mais direta, baseada em riffs, em groove e em energia, muito mais próxima da tradição de Black Label Society, Pantera e do hard rock moderno do que das construções intrincadas do prog metal. Em Men of Honor, essa identidade aparece plenamente consolidada.

Logo na abertura, “Mob Is Back” estabelece o tom do álbum com guitarras graves, riffs musculosos e uma produção moderna que privilegia impacto. Não há espaço para introduções longas nem passagens virtuosas gratuitas. Tudo existe para servir às canções.
Esse é um disco construído sobre riffs.
Mike Orlando demonstra possuir excelente senso de composição. Embora seja frequentemente lembrado por sua capacidade técnica, aqui ele opta por priorizar peso e eficiência. Seus solos aparecem quando necessários, sem transformar as músicas em vitrines de virtuosismo.

É impossível ignorar as influências de Zakk Wylde em diversos momentos. A construção dos riffs, o uso intenso de afinações graves, os fraseados pentatônicos e até mesmo certas escolhas melódicas remetem diretamente ao universo do Black Label Society. Ainda assim, Orlando evita cair na simples imitação, mantendo personalidade suficiente para sustentar a identidade da banda.
Outro ponto forte é Russell Allen. Sua interpretação continua sendo um dos maiores diferenciais do grupo. Poucos vocalistas transitam com tanta naturalidade entre agressividade e melodias limpas. Em “Dearly Departed”, por exemplo, Allen revela seu lado mais acessível, explorando uma abordagem quase hard rock, enquanto em “Men of Honor” alterna vocais limpos com passagens mais ásperas sem perder controle ou intensidade.

Mesmo a convencional balada “Behind These Eyes”, talvez uma das faixas menos ousadas do repertório, ganha relevância graças à sua interpretação emocional. Musicalmente, pouco acrescenta ao gênero, mas Allen impede que a música caia na banalidade.
A saída de Mike Portnoy poderia ter comprometido o grupo. Portnoy era, naturalmente, o nome de maior projeção da formação original, e sua substituição por A.J. Pero (ex-Twisted Sister) levantou dúvidas entre muitos fãs. No entanto, Men of Honor demonstra que a mudança pouco afetou a proposta musical.

Pero compreende perfeitamente o papel que lhe cabe. Seu trabalho privilegia o peso e o groove, evitando qualquer exibicionismo técnico. Em vez de competir com as guitarras, reforça sua agressividade com uma bateria firme, encorpada e extremamente consistente. Sua performance na faixa-título talvez represente o melhor exemplo desse equilíbrio.
Hoje, retrospectivamente, o álbum adquiriu um significado ainda maior por representar o último trabalho de estúdio completo de A.J. Pero antes de sua morte, em março de 2015. Isso naturalmente lhe confere um peso histórico adicional, embora sua qualidade musical independa desse contexto.

Nem tudo, porém, funciona da mesma maneira. O principal problema de Men of Honor talvez seja justamente sua excessiva familiaridade. Após algumas audições, torna-se evidente que poucas músicas realmente rompem a barreira da boa competência para alcançar o memorável. O álbum mantém um padrão de qualidade bastante consistente, mas também relativamente uniforme.
Canções como “Feel the Adrenaline” e “House of Lies” impressionam pela intensidade, enquanto “Come on Get Up” adiciona um groove interessante ao repertório. Já “Crystal Clear” e “Judgment Day” cumprem bem seu papel, embora dificilmente figurem entre os momentos mais marcantes da discografia da banda. A faixa-título acaba surgindo como o grande ponto de equilíbrio entre peso, refrão eficiente e identidade musical, tornando-se naturalmente o centro gravitacional do álbum.
Essa regularidade também se reflete na recepção comercial. O álbum alcançou apenas a 99ª posição na Billboard 200, desempenho modesto para um projeto cercado por tanta expectativa e formado por músicos já conhecidos do público do metal.
O resultado talvez confirme justamente aquilo que o disco transmite: trata-se de um trabalho voltado principalmente ao público já iniciado no gênero, sem grandes concessões ao mercado ou tentativas de ampliar significativamente sua audiência.
Do ponto de vista da produção, o trabalho também merece elogios. Mike Orlando e Russell Allen entregam um som moderno, pesado e limpo, valorizando cada instrumento sem sacrificar agressividade. As guitarras ocupam naturalmente o centro da mixagem, enquanto baixo e bateria oferecem sustentação consistente. Não há excessos de compressão nem uma estética artificial típica de parte do metal produzido na década de 2010.
No fim das contas, Men of Honor talvez jamais apareça em listas dos discos mais influentes do heavy metal moderno. Ele não inaugura tendências, não redefine o gênero, não apresenta novas abordagens composicionais, mas, talvez, essa nunca tenha sido sua missão.

O Adrenaline Mob escolheu conscientemente fazer um heavy metal direto, pesado e baseado em excelentes músicos tocando exatamente aquilo que sabem fazer. Nesse aspecto, o álbum alcança plenamente seus objetivos. Sua maior qualidade está justamente na honestidade artística.
Em vez de tentar parecer mais sofisticado do que realmente é, Men of Honor aposta na força dos riffs, na consistência da cozinha formada por John Moyer e A.J. Pero, na excelente guitarra de Mike Orlando e, sobretudo, na presença vocal quase impecável de Russell Allen. Não é um clássico do heavy metal contemporâneo e também não representa o auge criativo de nenhum de seus integrantes.
Entretanto, permanece como um registro sólido, extremamente bem executado e capaz de oferecer quase uma hora de metal pesado, vigoroso e competente — qualidades que, muitas vezes, valem mais do que uma busca desesperada por originalidade.

Track list
- Mob Is Back
- Come On Get Up
- Dearly Departed
- Behind These Eyes
- Let It Go
- Feel The Adrenaline
- Men Of Honor
- Crystal Clear
- House Of Lies
- Judgement Day
- Fallin To Pieces
- Gets You Through The Night
