Cinco Discos Conhecer: Brasileiros Em Montreux
Por Mairon Machado
Inspirado pelas excelentes postagens do meu amigo Marcello Zapelini, trago hoje uma indicação de Cinco Discos (e mais três bonus tracks) Para Conhecer envolvendo artistas brasileiros que se apresentaram no tradicional festival Suíço. O Brasil teve sua primeira participação no evento de Claude Nobs em 1974, com Milton Nascimento e Flora Purim, e de lá para cá, garantiu diversas “Brazilian Nights”, levando a brasilidade para os europeus se deleitarem. Muitos discos foram lançados com registros destas apresentações, e trago aqui aqueles que não necessariamente são os melhores, mas os que de alguma forma são os que particularmente mais me agradam.
Gilberto Gil – Ao Vivo [1978]
A noite de 14 de julho de 1978 entrou para a história do festival de Montreux, muito por conta da apresentação de Gilberto Gil, e que felizmente foi registrada neste belíssimo disco (e também está disponível em vídeo em sites como os YouTubes da vida). Naquele que, até então, foi o maior público do festival, com 3700 pessoas, Gil e uma super banda (ver abaixo) entreteram a plateia da 12a edição do evento de um jeito que somente ele conseguia fazer. Falando tranquilamente em francês, o baiano eleva sua apresentação rapidamente, transformando o cassino de Montreux em uma festa brasileira. O repertório traz canções dos Doces Bárbaros (“Chuck Berry Fields Forever”, com letra cantada em inglês, ainda para uma plateia em marcha lenta, e “São João, Xangô Menino”, já levantando o pessoal), homenagem à Luiz Gonzaga (a acelerada “Respeita Januário”, que começa a colocar a casa abaixo) e duas faixas da carreira solo de Gil, “Chororô” e “Ela”. Porém, são os delirantes improvisos de “Bat Macumba”, com citação à “Exaltação À Mangueira” e Gil convocando a plateia para cantar o nome da canção entre muita percussão e palmas, e principalmente, “Procissão”, mesclando ainda “Atrás do Trio Elétrico”, de Caetano, e fazendo os suíços entoarem “Mamãe Eu Quero” a plenos pulmões, os auges com mais de 11 minutos de duração, de um show que teve nada mais nada menos que cinco Bis, graças a um público ensandecido que não parava de aplaudir Gil. Em um desses bis, Patrick Moraz e A Cor do Som subiram ao palco para acompanhar o baiano em uma jam session, registrada sob o título “Triole (Jam Session)”. As canções em sua maioria são longas, exploratórias musicalmente, mostrando um Gil totalmente solto para desfilar seu talento e carisma. Era o Brasil finalmente fincando seus pés no mercado europeu, e para uma imprensa mundial que ficou excitadíssima com um de nossos maiores representantes musicais.
Gil (violão, vocais), Rubão (baixo), Pepeu Gomes (guitarra, vocais), Mú Carvalho (teclados, vocais), Jorginho Gomes (bateria) e Djalma Corrêa (percussão)
Participação
A Cor do Som, Ivinho, Patrick Moraz, Mazola e Guti (faixa 8)
1. Chuck Berry Fields Forever
2. Chororô
3. São João, Xangô Menino
4. Respeita Januário
5. Ela
6. Bat Macumba / Exaltação À Mangueira
7. Procissão / Atrás Do Trio Elétrico / Mamãe Eu Quero
8. Triole (Jam Session)
A Cor Do Som – Ao Vivo no Montreux Internacional Jazz Festival [1978]
Na mesma data que Gil enlouqueceu os europeus, pouco antes A Cor do Som também já tinha causado um grande alvoroço. Com uma apresentação de pouco mais de meia hora, para uma plateia formada quase que exclusivamente por jovens, a trupe de Armandinho, Dadi, Mu, Ary e Gustavo (acompanhados ainda por Aroldo Macedo, irmão de Armandinho), fez a primeira apresentação de um grupo brasileiro no festival, e foi tão ovacionada que levou Nobs a encaixá-los em mais uma apresentação à noite. Porém, o público noturno era mais “conservador”, e acabou não dando a mesma receptividade aos brasileiros. Resultado: um disco que mostra o fervor da tarde e as vaias da noite sem medo de ser feliz, mas acima de tudo, como este grupo tinha uma capacidade instrumental muito acima dos padrões (vale lembrar que apesar de serem músicos experientes, este é apenas o segundo disco dos caras, e ainda totalmente instrumental). A guitarra e o moog são as atrações de “Dança Saci”, ótima faixa para apresentar os dotes musicais do jovem Mú (com apenas 21 anos) aos europeus, o qual comanda o ritmo animado de “Brejeiro” (Ernesto Nazareth) ao piano elétrico. Em “Chegando Da Terra”, a perfeição do duelo entre Armandinho e Mú, com uma velocidade impressionante nas notas, é de deixar qualquer um extasiado. Os dois inegavelmente são os músicos centrais, mas também, com a poderosa percussão de Gustavo e Ary, além das bases de Dadi, não tem como a coisa não funcionar (Aroldo participa de algumas das canções apenas). “Cochabamba” e “Festa Na Rua” são faixas virtuosísticas, mas que mostram a vaia comendo solta, enquanto “Espírito Infantil” e a inesperada “Eleanor Rigby”, voltada para o frevo, apresentam a criatividade na (re)criação de peças com sonoridade puramente brasileira, e com uma complexidade absurda. Nesta linha, é na sensacional versão de mais de dez minutos de “Arpoador” que os membros d’A Cor Do Som mostram todas as suas capacidades musicais, nesta que é um dos clássicos da banda, onde cada um recebe um pequeno momento solo – difícil saber qual o melhor – sobre uma base avassaladora criada pela genial mente brilhante de Dadi ao baixo, e extrapolando virtuosismo. Uma pequena constelação de estrelas gigantes, e que infelizmente, mudaram seu som radicalmente nos anos 80, sem nunca mais conseguir ter o brilho e a inovação musical de seus dois primeiros e essenciais álbuns.
Armandinho (guitarra, guitarra baiana), Dadi (baixo), Mú Carvalho (teclados, sintetizadores), Gustavo Schroeter (bateria), Ary Dias (percussão)
Com
Aroldo Macedo (guitarras em 4, 5, 6, 7 e 8)
1. Dança Saci
2. Chegando da Terra
3. Arpoador
4. Cochabamba
5. Brejeiro
6. Espírito Infantil
7. Festa na Rua
8. Eleanor Rigby
Hermeto Pascoal – Ao Vivo Montreux Jazz [1979]
Depois do sucesso de Gil, no ano seguinte foi a vez de outros dois gigantes brilharem na Suíça (e virem parar aqui neste Cinco Discos), naquela que foi conhecida como a primeira Brazil Night do festival. O primeiro deles é o mago albino Hermeto Pascoal, o qual vinha de gravações com Miles Davis e era idolatrado entre os jazzistas europeus, que o chamavam de “O Bruxo Dos Sons”. Nobs o apresenta: “O grupo que irá vir em poucos minutos desenvolveu um incrível sentido de tons, ritmos, harmonias, composição e improviso, absolutamente único. A mistura é simplesmente incrível“. Logo na apresentação da banda os urros vindos da plateia já são ensurdecedores, e quando o nome de Hermeto é chamado, bom, aí a casa vem abaixo. A intrincação de “Pintando o Sete”, “Maturi” e “Quebrando Tudo”, essa alucinante, com vocalizações – endiabradas – duelando com o teclado, assim como nas experimentações vocais e instrumentais de Hermeto em “Remelexo”, o saxofone, sobre as palmas da plateia, em “Sax E Aplausos”, com mais de 17 minutos de um desfile de improvisos em inúmeros instrumentos, onde Hermeto brilha no saxofone e na melódica, enquanto sua banda destroça nas percussões e nos metais, são de fazer qualquer admirador de música ficar embasbacado. Hermeto está fervendo, no alto dos seus 43 anos, e tudo, mas tudo o que ele faz, é um show a parte. Outro show que por si só vale o vinil são os músicos que acompanham o mago, seja no naipe de metais, que além de brilharem em “Sax e Aplausos”, também soltam os pulmões em “Nilza” e “Forró em Santo André”, onde o solo de Cacau no saxofone barítono deve ter feito John Coltrane soltar um largo sorriso de faceiro. Apenas desfrute de uma hora e 10 minutos de improvisos, loucuras e muita insanidade no palco, em um show visceral, onde Hermeto dá uma aula nos mais diversos instrumentos, com músicas extremamente complexas, atonais, mas como o próprio Nobs definiu, únicas. Hermeto foi aplaudido por mais de 15 minutos, abalando as estruturas do Cassino de Montreux, voltando quatro vezes para o Bis (e brindando a plateia com mais alguns números de tirar o fôlego, especialmente, a linda “Montreux”, música “muito lenta para curtir com a mente, e que foi fabricada no hotel“, nas palavras de Hermeto), mas principalmente, abalando o nosso próximo disco.
Hermeto Pascoal (saxofone soprano, saxofone tenor, flauta, vocais, clavinete, piano, melódica)
Com
Itiberê Zwarg (baixo), Jovino Santos Neto (piano), Cacau (clarinete, saxofone barítono, saxofone tenor, flauta), Nivaldo Ornelas (flauta, saxofone tenor, saxofone soprano), Nenê (bateria, percussão, clavinete) Pernambuco (percussão) e Zabelê (percussão)
1. Pintando O Sete
2. Forro Em Santo André
3. Remelexo
4. Bem Vinda
5. Sax E Aplausos
6. Lagoa Da Canoa
7. Fátima
8. Terra Verde
9. Maturi
10. Quebrando Tudo
11. Nilza
12. Forró Brasil
13. Montreux
14. Voltando Ao Palco
15. E Adeus
Elis Regina – 13th Montreux Jazz Festival [1982]
Na mesma data que Hermeto chocava Montreux, Elis fazia uma de suas maiores apresentações da carreira (e também, aquela que ela considerou uma de suas piores apresentações). A fúria de Elis com sua participação em Montreux se deve à diversos fatos, mas três deles se destacam: 1 – o repertório incluía mais bossas do que canções políticas, devido às exigências contratuais, para agradar o circuito europeu, e isto já fazia Elis torcer o nariz; 2 – ela teve que fazer um show extra como matiné – superlotada – durante a tarde, somente para os mais jovens, devido ao fato de os ingressos terem esgotado rapidamente só para ver o show dela à noite (e quem estava lá naquela tarde afirma até hoje que foi a melhor versão de Elis em todos os tempos); e 3 – a voz desgastada pela apresentação da tarde, e a presença de um grande número de senhores na noite, acabou fazendo ela tremer de ódio, o que, segundo ela, foi crucial para sua performance. Acompanhada pelo marido Cesar Camargo Mariano (um show à parte no piano elétrico) e um supertime, a performance da Pimentinha, honestamente, é arrebatadora. O LP apresenta cinco faixas do show da tarde: “Cai Dentro”, peça sensacional de Baden Powell, com uma Elis aplaudidíssima, os clássicos da sua carreira “Madalena”, “Na Baixa Do Sapateiro”, esta com uma introdução arrepiante e Elis rasgando a voz em uma versão inigualável, e “Upa Neguinho”, com uma Elis totalmente solta, falando em francês, dando risada e fazendo muitas improvisações vocais, além das faixas de Milton Nascimento, “Ponta De Areia” e “Fé Cega, Faca Amolada/Maria Maria”, nas quais Elis entrega-se de corpo e alma, como sempre fez em seus shows, mas também destacando os viajantes teclados de César, a percussão Muiriana de Chico Batera e o baixo pulsante de Luizão Maia. Do show da noite, a complexa “Cobra Criada”, de João Bosco, e o registro de um fundamental quarto fato: depois de Elis tocar pela tarde, e sair ovacionada, Hermeto Pascoal subiu no palco de Montreux e fez o que fez no disco citado acima. Com a pressão de tentar superar duas performances incríveis, exausta, Elis ainda teve a – sorte/ventura – de que Claude Nobs, empolgadíssimo com os dois shows dos brasileiros, chama-se Hermeto para dividir o palco em um Bis improvisado com a gaúcha. Furiosa, destruída corporalmente, e totalmente surpresa, Elis retornou ao palco para registrar um dos momentos mais emblemáticos já ocorridos em Montreux (e quiçá, na história da música mundial). Literalmente, ela e Hermeto travam um duelo de voz e piano, em um desafio no qual o bruxo albino impõe toda sua virtuosidade em “Corcovado”, “Garota de Ipanema” – que Elis detestava – e “Asa Branca”, tornando-as genialmente irreconhecíveis para os fãs brasileiros, mas que Elis enfrenta de frente, sem baixar a guarda, e sem saber onde o piano de Hermeto estava a levando. Elis superou-se, Hermeto superou-se, e só ouvindo e vendo para tentar se ter noção de 10% do que aconteceu no palco naquele dia. Os dois show acabaram saindo completos anos depois, no álbum duplo Um Dia (2012). O essencial, que é o dueto de Hermeto, felizmente já havia chegado neste que foi o primeiro lançamento pós-falecimento dela, mesmo contra a vontade da cantora. Um disco simplesmente histórico!
Elis Regina (vocais), Cesar Camargo Mariano (piano elétrico, teclados), Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão)
1. Cobra Criada
2. Cai Dentro
3. Madalena
4. Ponta De Areia
5. Fé Cega Faca Amolada / Maria Maria
6. Na Baixa Do Sapateiro
7. Upa Neguinho
8. Corcovado
9. Garota De Ipanema
10. Asa Branca
Com
Hermeto Pascoal (piano em 8, 9 e 10)
Os Paralamas do Sucesso – D [1987]
Fiquei muito em dúvida de qual seria o quinto disco aqui presente, e acabei escolhendo o que mais gosto dentre os que ficaram de fora. D é com certeza um álbum energético e vibrante, mostrando a melhor fase d’Os Paralamas do Sucesso, isso em 4 de julho de 1987. No auge de sua carreira, desfrutando do sucesso de Selvagem?, Os Paralamas mandam ver em um repertório para cima e muito animado. Apesar de começar com o freio de mão puxado, trazendo a inédita “Será Que Vai Chover?”, que ganharia uma versão de estúdio somente um ano depois, basta começar “Alagados” que a energia visceral que o Brasil já havia sentido durante o Rock in Rio chega até a Suíça. A partir de então, com o jogo ganho, o trio Herbert, Bi e Barone (adicionados de João Fera nos teclados) coloca o Cassino de Montreux abaixo. É petardo atrás de petardo, e com um grupo em excelente fase, desfilar sucessos do porte de “Ska”, “A Novidade”, “Selvagem” e “Meu Erro”. O ápice da noite vai para a espetacular versão de “Óculos”, com um longo trecho de improvisos, e também a incrível revisão para “Charles Anjo 45”, de Jorge Ben, que conclui um dos melhores discos ao vivo das bandas do chamado BRock. A banda só cresceria mundialmente a partir daqui, conquistando mercados tanto na América do Norte como no Japão, e tendo a certeza que naquele julho de 1987, a Europa já havia começado a se entregar para o som e energia d’Os Paralamas.
Herbert Vianna (guitarra, vocais), Bi Ribeiro (baixo), João Barone (bateria)
Com
João Fera (teclados)
George Israel (saxofone em 3)
1. Será Que Vai Chover?
2. Alagados
3. Ska
4. Óculos
5. O Homem
6. Selvagem
7. Charles Anjo 45
8. A Novidade
9. Meu Erro
bonus tracks
Para as bônus, pensei em trazer os álbuns de Baby Consuelo, Pepeu Gomes ou João Gilberto registrados por lá, mas escolhi três álbuns que ampliam a quantidade de artistas que tocaram em Montreux, sendo ambos compilações de apresentações brasileiras ocorridas no início dos anos 80.
Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira – Brasil Night – Ao Vivo em Montreux [1981]
Registrada em 4 de julho de 1981, esta compilação resgata a Brasil (com S) Night que levou Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira para a Suíça. Musicalmente, a compilação é realmente para admiradores da MPB, já que Moraes Moreira vivia uma fase no mínimo ruim em sua carreira, dando o ar da graça novo baiano apenas em “Davilicença”, mas sem a energia de outros registros desta mesma canção, enquanto Elba estava surgindo no Brasil, e até que faz uma apresentação segura, ensinando a plateia a dançar o xote de “Bate Coração” e o baião de “Baião”, mas sem conseguir ter a força de uma Elis Regina, em especial na chorosa “Tudo Azul”. Toquinho acaba sendo o craque do jogo, trazendo o lindo dedilhado do violão em “Berimbau”, com o instrumento que dá nome à canção também se destacando nas mãos de Djalma Corrêa (chocando os europeus, principalmente pela vibração escutada através das caixas de som), revisitando “Asa Branca” de uma forma totalmente desconstruída e comandando a clássica “Samba de Orly”, obra prima composta junto de Chico Buarque e Vinícius de Moraes (quem diria que Toquinho iria se tornar um direitoso anos depois). Para poucos, mas estes poucos sabem o que irão apreciar.
Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso – Brazil Night Ao Vivo em Montreux [1983]
Na edição de 1982, a Brazil Night teve como nomes Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso. Dos três shows, a Ariola Discos lançou esta boa compilação, com quatro canções de Alceu Valença, enquanto Milton aparece com três faixas, e Wagner com duas. O pernambucano surge com a animada “No Balanço da Canoa”, faz os europeus baterem palma e cantarem durante “Pelas Ruas Que Andei”, mas tem como ponto alto a tocante “Talismã” e a endiabrada “Casinha de Buinha”, levadas apenas por voz e violão. Já Milton Nascimento manda ver numa veloz “Fé Cega, Faca Amolada”, emociona com “Ponta de Areia” e encerra o LP com a entusiasmada “Maria Maria”, curiosamente três canções eternizadas por Elis três anos antes. Porém, é o virtuosismo de Wagner Tiso, com um super grupo (Nivaldo Ornelas no saxofone, Helio Delmiro na guitarra, Paulinho carvalho no baixo e Robertinho Silva na bateria, além da percussão de Frank Colón), o qual também acompanhou Milton, que mais chama a atenção. Comandando o piano com uma técnica invejável, Tiso brilha na paulada “Banda da Capital”, levantando o Cassino de Montreux, e “Balão”, conplexa e intrincada peça instrumental no qual o virtuosismo do mineiro é colocado à prova, junto da percussão de Colón, misturando elementos da música afro-brasileira com o Jazz de vanguarda, para deixar qualquer fã de boa música com um sorriso aberto.
Caetano Veloso, Ney Matogrosso e João Bosco – Brazil Night Montreux 83 [1983]
O dia 8 de julho de 1983 foi considerado pelo próprio Claude Nobs como a “noite mais emocionante, a mais vibrante e a mais explosiva dos 17 anos de Festival de Música de Montreux”, e seu registro em vinil é fundamental estar aqui. Caetano ocupa quase todo o lado A, trazendo três canções somente com voz e violão, no caso a empolgante versão de “Maria Bethânia”, as belas revisões para “Eu Sei Que Vou Te Amar/Dindi” e a lindíssima “Terra”, apresentada na íntegra e com a plateia acompanhando os vocais do refrão. Com A Outra Banda Da Terra, manda ver em versões mais que perfeitas e energéticas para “Eclipe Oculto” e “Odara”, as quais agitam o Cassino de Montreux. Ney faz uma apresentação ainda mais para cima, levando sua androginia e sua super banda (com Pedrão Baldanza, Pisca, Serginho e muito outros nomes importantes da música nacional) para ocupar quase todo o lado B, desfilando sensualidade na baladaça “Deixar Você”, fazendo os europeus vibrarem com “Andar Com Fé”, “Napoleão” e o forró de “Folia No Matagal”, esta trazendo a participação de Caetano como convidado, e fazendo até Nobs sambar. E na simplicidade de João Bosco (“Ruan basco”, segundo a apresentação de Nobs), e seu complexo dedilhado de violão, que surge a maior atração do vinil. Totalmente solto, e apenas com o violão de acompanhamento à sua voz, ele vai “cantar um samba” para a galera. O que ele faz em “Linha de Passe”, um ritmo descomunal, mas principalmente, no pout-porri com “Nação”, “Aquarela do Brasil” – com o Cassino vindo abaixo – e “O Mestre Sala dos Mares”, é para desafiar qualquer novato que se acha músico. Discaço, que honestamente, considero uma das melhores compilações nacionais em todos os tempos, e com certeza, talvez o maior representante da diversidade presente na Música Popular Brasileira.
