Humble Pie – Humble Pie [1970]

Humble Pie – Humble Pie [1970]

Por Daniel Benedetti

O terceiro álbum de estúdio do Humble Pie, lançado em julho de 1970, ocupa uma posição singular não apenas dentro da discografia da banda, mas também no contexto mais amplo do rock britânico de transição entre o final dos anos 1960 e o início da década seguinte. Gravado no lendário Olympic Studios, em Londres, com produção de Glyn Johns e lançado pelo selo A&M Records, o disco representa um momento decisivo de redefinição estética. Ainda que comercialmente modesto, trata-se de um trabalho que sintetiza tensões criativas, mudanças estruturais na carreira do grupo e a consolidação gradual de uma identidade sonora mais pesada, voltada ao blues-rock e ao hard rock.

Para compreender plenamente esse álbum, é indispensável retomar a própria gênese do Humble Pie. A banda surgiu em um período particularmente fértil do rock britânico, quando o esgotamento da psicodelia e a reação à sofisticação excessiva de certos desdobramentos do gênero levaram muitos músicos a buscar uma reaproximação com as raízes do blues, do rhythm & blues e do rock primitivo. O Humble Pie nasceu como a convergência de trajetórias já bem estabelecidas, mas também como um gesto consciente de ruptura com imagens públicas que seus integrantes consideravam limitadoras. No centro dessa história está o encontro entre Steve Marriott e Peter Frampton. Apesar da diferença de idade, ambos compartilhavam experiências semelhantes: sucesso precoce, visibilidade intensa e, ao mesmo tempo, frustrações criativas. Marriott era o vocalista explosivo do Small Faces, um dos pilares do movimento mod, enquanto Frampton havia alcançado fama ainda adolescente com o The Herd. Em ambos os casos, a imprensa os enquadrava como ídolos juvenis, rótulo que pouco dialogava com suas ambições artísticas mais profundas.

Peter Frampton, Jerry Shirley, Steve Marriott e Greg Ridley. Humble Pie da esquerda para a direira

A amizade entre Marriott e Frampton se desenvolveu justamente a partir desse desejo comum de escapar de uma imagem fabricada e explorar um som mais cru e enraizado no blues. Experiências pontuais, como apresentações conjuntas e sessões de gravação em Paris, anteciparam essa colaboração. A ruptura definitiva ocorreu quando Marriott deixou abruptamente os Small Faces, convidando Frampton a formar um novo grupo. Esse gesto marcou o nascimento do Humble Pie, completado pelo baixista Greg Ridley e pelo baterista Jerry Shirley, ambos vindos de outras formações relevantes da cena britânica. Desde o início, a banda foi rotulada como um “supergrupo”, definição que, embora refletisse a soma de currículos respeitáveis, carregava também um peso simbólico. O próprio nome Humble Pie, expressão idiomática que remete a “engolir o orgulho”, funcionava como uma ironia deliberada diante das expectativas infladas que cercavam o quarteto. Essa ambiguidade — entre confiança artística e desconfiança em relação ao estrelato — atravessa os primeiros trabalhos da banda.

Os dois álbuns lançados em 1969, As Safe as Yesterday Is e Town and Country, revelaram um grupo ainda em busca de equilíbrio. O primeiro apresentou uma mistura vibrante de blues elétrico, folk e psicodelia, impulsionado pelo sucesso de “Natural Born Boogie”. O segundo, mais acústico e pastoral, evidenciou a inclinação melódica e introspectiva de Frampton. Essa dualidade criativa, longe de ser resolvida, tornava-se cada vez mais evidente. O final de 1969 trouxe um elemento externo decisivo: o colapso financeiro da Immediate Records, selo que havia lançado os dois primeiros discos da banda. A crise forçou o Humble Pie a buscar um novo contrato e, ao mesmo tempo, abriu espaço para uma reorientação estratégica. A assinatura com a A&M Records, somada à entrada de Glyn Johns na produção e do empresário americano Dee Anthony na gestão da carreira, marcou o início de uma nova fase.

Anthony, em particular, acreditava que a banda deveria enfatizar um som mais pesado e direto, capaz de dialogar com o público americano e competir com a ascensão do hard rock no início dos anos 1970. Essa visão encontrou terreno fértil em Steve Marriott, cuja performance vocal intensa e visceral se alinhava naturalmente a uma abordagem mais agressiva. O terceiro álbum, autointitulado, é o primeiro registro claro dessa transição.

Capa interna de Humble Pie

Gravado em 1970 no Olympic Studios, o disco homônimo apresenta oito faixas que evidenciam, de maneira cristalina, a tensão criativa interna do grupo. De um lado, o blues-rock vigoroso, marcado por riffs densos, grooves sólidos e vocais incendiários; de outro, momentos mais contemplativos, nos quais a sensibilidade melódica de Frampton ainda encontra espaço. A produção de Glyn Johns confere clareza e peso ao som, sem recorrer a excessos, permitindo que a energia da banda se imponha de forma direta. A arte da capa é outro elemento digno de nota. Inspirada nas ilustrações de Aubrey Beardsley, figura central do decadentismo britânico do final do século XIX, a capa conferiu ao disco o apelido informal de Beardsley Album. A escolha não é meramente estética: ela sugere uma conexão entre erotismo, ironia e transgressão, temas que atravessam tanto a iconografia quanto as letras do álbum. Ainda, toda ela, na versão original, é texturizada.

Single japonês de “One Eyed Trouser – Snake Rumba”, com “I’m Ready” no lado B

A abertura com “Live With Me” já estabelece o tom. A faixa combina peso, intensidade e passagens quase progressivas, alternando momentos explosivos com trechos mais contidos. Liricamente, aborda o desejo físico de forma direta, ecoando a tradição do blues e do soul. Em contraste, “Only a Roach” flerta com a country music e apresenta um clima bucólico e bem-humorado, refletindo o espírito irônico da contracultura. “One Eyed Trouser – Snake Rumba” mergulha sem reservas no hard rock, com guitarras proeminentes e um uso explícito de metáforas sexuais de duplo sentido, herança direta do blues boogie. Já “Earth and Water Song” revela o lado mais introspectivo de Frampton, utilizando imagens naturais para explorar temas de equilíbrio emocional e espiritual — um prenúncio claro da sonoridade que o levaria ao sucesso solo alguns anos depois.

A versão de “I’m Ready”, composição clássica de Willie Dixon, transforma o blues de Chicago em um hard/blues rock agressivo, reafirmando a disposição da banda em reinterpretar tradições sob uma ótica mais pesada. “Theme from Skint (See You Later Liquidator)” funciona quase como um comentário metalinguístico sobre a própria história recente do grupo, fazendo referência direta à falência da Immediate Records, com ironia amarga e consciência crítica. “Red Light Mamma, Red Hot!” é um dos momentos mais intensos do disco, destacando riffs e solos inspirados de Frampton e vocais incendiários de Marriott. A faixa celebra o imaginário urbano e sensual do blues-rock, enquanto “Sucking on the Sweet Vine”, que encerra o álbum, retorna a um clima mais introspectivo, enriquecido pela guitarra pedal steel de BJ Cole, sugerindo busca por liberdade e satisfação pessoal.

Do ponto de vista comercial, o álbum teve impacto limitado, especialmente se comparado ao sucesso inicial de “Natural Born Boogie”. Não alcançou posições relevantes nas paradas britânicas ou americanas, situação relativamente comum para o Humble Pie nesse estágio inicial. A crítica da época, em publicações como Melody Maker e New Musical Express, reconheceu a potência vocal de Marriott e a competência instrumental do grupo, mas apontou que a banda ainda parecia em busca de uma identidade definitiva. Avaliações retrospectivas, como as do site AllMusic, classificam o disco como um trabalho de transição — um elo entre a fase mais acústica e experimental e a guinada definitiva para o hard/blues rock que marcaria os lançamentos seguintes. Essa leitura se confirma ao observar os desdobramentos posteriores.

Após o lançamento, o Humble Pie passou grande parte de 1970 em turnê, especialmente nos Estados Unidos, onde começou a construir uma reputação sólida como uma das atrações ao vivo mais intensas do rock britânico. Sob a orientação de Dee Anthony, o grupo abandonou gradualmente o repertório acústico de Town and Country e passou a enfatizar apresentações mais pesadas, centradas em improvisações extensas e volume elevado. Um episódio emblemático ocorreu durante apresentações no Fillmore West, quando problemas técnicos levaram Peter Frampton a adotar um novo instrumento que se tornaria parte fundamental de sua identidade sonora.

Em retrospecto, o terceiro álbum do Humble Pie pode não ser o mais celebrado de sua discografia, mas ocupa um lugar crucial em sua evolução. Ele documenta o momento em que a banda começa a se afastar das ambiguidades iniciais e a encontrar sua faceta mais proeminente: um hard rock vigoroso, profundamente enraizado no blues, sustentado por músicos de altíssimo nível. Steve Marriott se afirma como um frontman excepcional, enquanto Peter Frampton já demonstra a combinação rara de técnica, sensibilidade melódica e carisma que o consagraria nos anos seguintes. Trata-se, portanto, de um disco que merece ser revisitado e reavaliado, não apenas como curiosidade histórica, mas como peça fundamental na trajetória de uma banda injustamente relegada a um segundo plano na narrativa do rock setentista.

Contra-capa do vinil

Track list

  1. Live With Me
  2. Only A Roach
  3. One Eyed Trouser – Snake Rumba
  4. Earth And Water Song
  5. I’m Ready
  6. Theme From Skint – See You Later Liquidator
  7. Red Light Mamma, Red Hot!
  8. Sucking On The Sweet Vine

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