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Por Fernando Bueno

É inevitável para qualquer um ao comentar ou escrever sobre uma banda ter a tendência de classificá-la dentro das várias vertentes da música. É quase impossível falar no Yes sem citar o rock progressivo, o Metallica sem falar de heavy metal ou o Ramones sem pensar em punk rock. Essa classificação, apesar de muitos não gostarem dessa prática, é extremamente útil principalmente quando estamos indicando algo de novo à alguém. Tendo idéia do que a pessoa encontrará pode incentivá-la a buscar a música do grupo ou até mesmo afastá-la logo de cara.

Entretanto, na história do rock existem várias bandas que são difíceis de classificar seja porque elas passeiam por diferentes vertentes ou fundem nuances de vários estilos. Como exemplo disso podemos citar o Rush, o Queen, o Jethro Tull, o Supertramp, etc.. Você já deve ter lido ou até mesmo participado de calorosas discussões que tentavam definir em um único rótulo alguma banda dessas aí.

O The Mars Volta é um grupo que torna esse tipo de discussão praticamente impossível já que a surpreendente combinação de estilos que o grupo faz, torna o som do grupo único. Mas antes de falarmos de sua música, para situar um pouco um pouco o leitor, vou aqui fazer uma pequena introdução histórica sobre eles.

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Omar Rodrígues-Lópex e Cedric Bixler-Zavala

Formada em 2001 no Texas, mais precisamente na cidade de El Paso, o The Mars Volta teve início a partir de outra banda chamada At the Drive-In de onde dois de seus músicos Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodrígues-Lópex saíram por conta de um dos maiores pretextos para separação de bandas da históra: as divergêcias musicais. Os dois montam um projeto de música chamado De Facto. Eva Gardner, baixista, e Jeremy Michael Ward, tecladista, juntam-se à dupla em seguida e, com o auxílio do baterista Blake Flemming e a produção do conhecido Alex Newport, gravam uma demo com duas músicas. Algum tempo depois mais três faixas são gravadas com o mesmo line-up e todo esse material se tornou o EP Tremulant, de 2002, que saiu já sob o nome The Mars Volta. Cedric diz que o nome da banda foi influenciado por um livro de Federico Fellini, um cineasta italiano, em que ele explica uma técnica de filmagem e edição de filmes.

Várias mudanças de formação acontecem, contando inclusive com o Flea por algum tempo como baixista, e o aclamado primeiro disco, De-Loused in Comatorium, é gravado em 2003 com a seguinte formação: Cedric Bixler-Zavala (vocal), Omar Rodriguez-López (guitarra e backing vocal), Jeremy Michael Ward (sintetizadores, programação e manipulação sonora), Isaiah Ikey Owens (teclado), Juan Alderete (baixo) e Jon Theodore (bateria). Também participou da gravação do disco o então guitarrista do Red Hot Chilli Peppers Jonh Frusciante adicionando algumas passagens de guitarras. A proximidade do The Mars Volta com o Red Hot rendeu também uma turnê conjunta das bandas o que ajudou no sucesso de De-Loused in Comatorium.

Porém durante a turnê Jeremy Ward morre de overdose de heroína fazendo com que a banda tenha que cancelar o restante da turnê. O acontecimento causou bastante impacto nos seus membros que fez até a dupla fundadora da banda parar com o uso de entorpecentes, particularidade muito forte dos dois.

Tocando a bola pra frente e visando a gravação de um segundo álbum Paul Ninojos, que já participava dos shows ao vivo tocando guitarra e sintetizadores, foi efetivado no lugar do companheiro morto. O irmão de Omar, Marcel, também foi adicionado ao line-up como percursionista e tecladista. Assim, quase dois anos depois, chega às lojasFrances The Mute que atingiu a quarta posição na Billboard.

A exemplo do álbum anterior, Frances the Mute é um álbum conceitual e foi baseado em um diário encontrado em um carro que Jeremy tinha comprado recentemente. O autor do diário é desconhecido, mas as anotações são de alguém que foi adotado quando criança e que estava procurando seus pais biológicos. Além disso, essa pessoa aparentemente sofria de um trauma causado pela morte de um ente querido.

mars20volta1Se o som do grupo já é complexo, a divisão das faixas também é de difícil compreensão e pode ser um pouco confusa, mas vou tentar facilitar as coisas. O álbum é dividido em três partes: (1) Cygnus…Vismund Cynus, que contempla a primeira faixa de mesmo nome e as duas faixas seguintes; (2) Miranda That Ghost Just Ins’t Holy Anymore, uma única faixa de mais de treze minutos e; (3) Cassandra Gemini, as oitos faixas restantes do disco. O dedilhado do início da primeira parte de “Cygnus…Vismund Cygnus” engana o ouvinte por uns momentos já que a quebradeira insana que vem em seguida é o que The Mars Volta faz de melhor. Já na primeira música o ouvinte terá uma idéia de como será o restante do disco. O caos sonoro dá espaço à uma passagem mais viajante, que por sua vez se transforma em um rock mais simples e atmosférico até voltar à pegada do início para, por fim, acabar como se fosse uma das experimentações que o Pink Floyd fazia lá na época do Atom Heart Mother.

O que chama atenção ao longo de todo o álbum, e também nos outros discos da banda, é a qualidade de gravação e produção. Todos os instrumentos são nítidos e bem timbrados. “The Widow”, que foi lançada como single, é a faixa de maior destaque do disco em que Cedric transmite muita emoção em uma interpretação ótima e usando muito bem seu impressionante alcance vocal. Para se adequar ao pradrão de single ela saiu editada, sem a sua parte final novamente com experimentações sonoras. A curiosidade é que na verdade esse single se chama “Frances the Mute”/”The Widow”. São duas músicas contendo a já citada e também a faixa “Frances the Mute” que mesmo tendo o nome do álbum não entrou no disco por conta da falta de espaço no disco. Assim essa faixa, de 14 minutos, foi cortada.

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O single “Frances the Mute”/”The Widow”

Outra característica do The Mars Volta é que além da combinação de estilos em suas músicas eles também misturam idiomas, no caso, o inglês e o espanhol. As vezes durante uma mesma faixa os dois idiomas são usados como na faixa de abertura e em “L’Via L’Viaquez” em que todas as estrofes são cantadas em espanhol e o inglês aparece apenas em uma passagem mais calma que, paradoxalmente, tem influências latinas.

A segunda parte do álbum é a suíte “Miranda That Ghost Just Isn’t Holy Anymore”, com suas quatro partes é o momento de calmaria do disco e certamente agradará quem gosta das coisas mais viajantes do Porcupine Tree ou do Pain of Salvation. O solo de sax no seu final dá um ar jazzístico à música.

Como dito anteriormente a terceira parte do álbum, chamada Cassandra Gemini, tem oito faixas. Porém elas são divididas duas a duas como se a cada duas faixas fosse uma música completa. Falei que era confuso não? “Tarantism, Pt 1” é ao meu ver outra candidata que poderia se tornar um single. Possui um solo de sax muito parecido com alguma coisa do Van der Graaf Generator. A transição para “Tarantism, Pt 2” só é perceptível se você estiver acompanhando os minutos no visor do aparelho de som ou do mp3 player. A primeira parte de “Plant a Nail in the Navel Stream, Pt 1” é marcada pela grandiosidade e clima épico dos instrumentos de sopro e dos teclados. Já sua segunda parte começa com um longo e improvisado solo de guitarra e novamente cai no experimentalismo do space rock. Aliás, o mesmo acontece com “Faminepulse, Pt 1”. Isso acaba explicando o fato da banda ter um (e eram dois) integrante só para programação e manipulação sonora.  As duas últimas faixas são bem curtas, menos de um minuto cada uma, mas fecham o álbum de uma ótima maneira. A primeira como rock empolgante que marcou o disco todo e a última “Sarcophagi” relembrando os momentos calmos do início de tudo.

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A gravação do disco seguiu uma prática que era utilizada por Miles Davis em que ele não deixava um músico ouvir as partes dos outros. Quem comandou a gravação foi o guitarrista Omar Lopez que também compôs todas as partes instrumentais e produziu o disco. Ele passava para o músico o que queria dele e apenas um metrônomo acompanhava os dois. Para finalizar tudo, ele ainda chamou um convidado Adrián Terrazas-Gonzáles, para tocar todos os instrumentos de sopro do álbum, que acabou ficando na banda.

Outro ponto interessante que deve ser citado é que a capa de Frances The Mute foi criada por Storm Thorgenson do grupo Hipgnosis. Recentemente falecido, Storm foi o criador de diversas capa icônicas do rock como The Dark Side of Te Moon do Pink Floyd e diversas outras. Assim como as do Pink Floyd nesse álbum do The Mars Volta não há o nome da banda na capa do disco. Preferi escolher a imagem com o nome do grupo para identificar melhor a matéria.

Depois desse disco a banda ainda gravou mais cinco álbuns, sendo o último em 2012 pouco antes do encerramento oficial das atividades, até que ontem retornou com um álbum auto-intitulado, surpreendendo aos fãs, e que ainda não ouvi. Para o ouvinte que gostar de Frances The Mute e também do álbum de estréia, pelo menos mais dois discos são indicados: Amputechture de 2006 e Bedlam in Goliath de 2008.

O The Mars Volta pode parecer presunçoso, exagerado, excessivo e maluco. Pode ser tudo isso e muito mais e realmente não é de fácil assimilação. No geral identificamos momentos de rock progressivo, space rock, psicodelismo, jazz, música latina e muitas outras características de diversos estilos musicais no som da banda. O principal para curtir os caras é não ter preconceitos e não ser escravo de amarras musicais. Ou seja, se você é daqueles que pensam que a música deve seguir a padrão introdução-estrofe-refrão-solo e somente esse, esqueça a banda.

Track list

1. Cygnus … Vismund Cygnus

2. Thw Widow

3. L’Via L’Viaquez

4. Miranda That Ghost Just Isn’t Holy Anymore

5. Cassandra Gemini

5 comentários

  1. ALESSANDRO ALVES CORDEIRO

    Essa banda é realmente espetacular. pena ter acabado.

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      • ALESSANDRO ALVES CORDEIRO

        PUTS É E VERDADE, NÃO TAVA NEM LIGADO QUE A BANDA TINHA VOLTADO AHAHHAA, OBRIGADO PELA INFORMAÇÃO, JÁ ESTOU OUVINDO ABRAÇO

  2. Marcello

    Conheci o Mars Volta por meio do site ProgArchives alguns anos atrás, e meu primeiro disco deles foi justamente o Frances The Mute – coincidentemente, os outros dois discos deles que adquiri são o Amputechture e o Bedlam in Goliath; bons álbuns, mas não tanto quanto o “homenageado” nesta seção. Não sabia que a banda tinha voltado, vou atrás desse novo álbum.

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  3. Fernando Bueno

    Fiquei sabendo depois de ter saído o texto que a banda tinha voltado. Tenho que ouvir

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