Por Micael Machado

Há uma série de postagens aqui no site onde o nosso colaborador Mairon Machado associou um disco do chamado BRock dos anos 1980 para cada um dos sete pecados capitais. Como a ambição não faz parte da lista de “pecados maiores” condenáveis pela Igreja Católica, acabou ficando de fora daquela relação, mas, se um disco do período tivesse de “encarnar” este sentimento, não haveria, na minha opinião, um álbum mais adequado do que Duplo Sentido, último registro da formação clássica do grupo baiano Camisa de Vênus, composta então por Marcelo Nova nos vocais, Karl Hummel e Gustavo Mullem nas guitarras, Robério Santana no baixo e Aldo Machado na bateria.

Os motivos para eu fazer esta afirmação são, pelo menos, três: em primeiro lugar, obviamente, por ser um disco em vinil duplo, o primeiro (e um dos únicos) deste tipo naquela geração do rock brasileiro, pois a Legião Urbana, por exemplo, só veio a ter seu “duplo” (a compilação de apresentações ao vivo Música Para Acampamentos) lançado em 1992, e grupos como Titãs, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawaii, Ultraje A Rigor ou Ira! nunca tiveram LPs editados neste formato; em segundo, pela imensa quantidade de convidados especiais que participam ao longo das dezessete faixas do álbum, indo de ícones como Raul Seixas (que dispensa apresentações), Manito (à época já ex-membro de grupos como Os Incríveis, Som Nosso de Cada Dia e Mutantes, e que depois ainda viria a gravar com o Ultraje A Rigor e a Patrulha do Espaço, dentre outros) ou Luiz Carlos Batera (percussionista que tocou com gente do porte de Tim Maia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de ter feito parte da Banda Black Rio), além de músicos reconhecidos nacionalmente, como o pianista Sérgio Kaffa (que, dentre outros, tocou com gente como Sá & Guarabyra, O Terço, Cezar De Mercês e Arnaldo Baptista), o também pianista Paulo Calasans (que já acompanhou artistas do porte de Djavan, Gal Costa, Gilberto Gil e Roberto Carlos, entre outros), o músico e ator Chiquinho Brandão (que, dentre outros, acompanhou Elis Regina ao vivo em parte de sua carreira), os gaitistas Ricardo Henrique e Mica Griecco, além das “backing vocalistas” Vera Natureza, Maria Aparecida de Souza (Cidinha), Rita Kfouri e Nadir, e da própria esposa de Marcelo Nova à época, Inez Silva. O terceiro motivo, e, para mim, o mais importante, é a imensa variedade de estilos musicais que o quinteto abrange nos quatro lados do LP.

Conta a lenda (e Marcelo confirma no excelente livro O Galope do Tempo, de André Barcinski), que o cantor ficou muito decepcionado com as atitudes e posicionamentos de alguns dos membros do grupo após o estrondoso sucesso de Correndo o Risco, terceiro disco do Camisa, lançado em 1986, e que vendeu, à época, quase trezentas mil cópias, levando o quinteto ao primeiro patamar do Rock Nacional de então (o tão falado BRock). Decidido a partir para uma carreira solo onde pudesse fazer algo diferente do que vinha gravando com a banda, Marcelo comunicou a decisão de sua saída do Camisa a seus colegas ainda antes do início das gravações para o que viria a ser Duplo Sentido. Como os baianos ainda deviam dois discos para sua gravadora à época, a Warner, o próprio cantor se reuniu com o diretor André Midani para explicar que a banda estava se dissolvendo, e propor um álbum duplo para cumprir o acordo ainda pendente com o selo.

Com a aceitação dos termos pelo executivo, e como não havia a pressão de ter de superar as vendas do disco anterior, visto que a banda iria acabar de qualquer forma, os músicos, a meu ver, pareceram se ver livres para explorar várias de suas ambições musicais naquele que seria, então, seu último registro. Pelos sulcos do vinil original, passamos pelo “rock de FM” tão comum à época, na forma de músicas como “Muita Estrela, Pouca Constelação” (primeira parceria de Marcelo Nova com Raul Seixas, que participa como cantor na faixa, a qual chegou a ser lançada como compacto simples à época – vale lembrar que Marceleza e Raulzito gravariam posteriormente A Panela do Diabo, que, inclusive, representou a “preguiça” naquela série dos pecados citada lá no início do texto), “O País do Futuro” (que ganhou clipe e boa repercussão nas rádios naquele ano, além de contar com a percussão de Luiz Batera e uma temática na letra que, infelizmente, soa relevante ainda hoje) ou “Vôo 985”; rock and roll tradicional (“Chamam Isso Rock and Roll”, para mim, uma das melhores letras da carreira do grupo, recheada por solos de gaita e sax, este a cargo de Manito, e cujo ritmo vai ganhando velocidade à medida que o arranjo se desenvolve); rocks mais “agitados” como “Lobo Espiatório” (com letra em solidariedade ao músico Lobão, à época constantemente perseguido pela polícia, e que abre com falas de Al Pacino retiradas do filme Scarface) ou “Ana Beatriz Jackson” (cuja temática da letra, muitos apontam, lembra a de “Billy Jean”, de Michael Jackson); ecos da origem punk da banda (em “Após Calipso”, que conta com inusitados solos de flauta, sax e violino a cargo de Manito); algo do pós punk reinante em certos períodos dos anos 1980 (em “O Suicídio Parte II”, que retoma a temática lírica de “Pronto pro Suicídio”, do autointitulado disco de estreia da banda, e na instrumental “Chuva Inflamável”, a segunda deste formato lançada pela banda em toda a sua carreira – sendo a primeira uma versão para o tema da Pantera Cor de Rosa presente no segundo disco, Batalhões de Estranhos, de 1985); balada romântica acústica (“Deusa da Minha Cama”, outra que conta com a percussão de Luiz Batera, e com a rápida participação da esposa de Marcelo em um “Bom Dia” falado em seu início); blues (na excelente “Me Dê uma Chance”, um blues “rasgado” interpretado ao vivo no estúdio, e permeado por solos tanto de guitarra como de piano, por Paulo Calasans, sax, a cargo de Manito, e gaita, a cargo de Mica Griecco); e até uma versão moderna do tango argentino, em “O Último Tango” (que conta com Chiquinho Brandão no serrote).

Robério Santana, Aldo Machado, Gustavo Mullem e Marcelo Nova “apresentando” seu último registro juntos

No lado D, naquele que seria o último lado de um disco de vinil da banda ainda hoje (visto que os álbuns lançados após a “volta” do Camisa não foram editados neste formato), uma seleção de covers escolhidos apenas “para preencher o disco”, como Marcelo coloca no livro citado acima. Se a correta e quase literal versão para “Aluga-se”, de Raul Seixas (que inicia com o famoso “bordão” “Brasileiros e Brasileiras”, do então presidente José Sarney) ou “A Canção do Martelo” (versão em português para “Hammer Song”, da The Sensational Alex Harvey Band, que ficou ainda mais soturna que a sombria versão original, além de contar com um excelente solo de Órgão Hammond por parte de Manito) não chegam a ser surpresa para quem conhece os gostos musicais de Marceleza, também não o deveriam ser escolhas como “Farinha do Desprezo”, de José Carlos Capinam e Jards Macalé (afinal, o Camisa já havia gravado “Gotham City”, dos mesmos autores, no Batalhões de Estranhos), a qual, neste disco, ganhou tons de punk rock inusitados perto da acústica e “balançante” versão original, “Enigma” (composta por Adelino Moreira, a qual teve letra alterada por Marcelo, e também ganhou uma sonoridade quase punk), canção que ficou famosa na voz de Nelson Gonçalves (sendo que o Camisa já havia gravado no essencial Viva uma versão para “My Way”, consagrada na voz inigualável de Frank Sinatra – e seria assim tão absurdo afirmar que Nelson Gonçalves é o equivalente brasileiro de Sinatra? Então, por que não gravá-lo em um disco de uma banda como esta?) ou “Canalha”, de Walter Franco, outro artista que Marcelo sempre disse admirar (vale citar que a versão do Camisa, um rock agitado e “pegado”, soa para mim muito superior àquela que os Titãs registrariam décadas depois no disco Nheengatu. Curiosamente, os mesmos Titãs também gravariam, anos depois do Camisa, uma versão para “Aluga-se”, assim como os baianos fizeram neste disco aqui – e, para mim, com resultados também inferiores).

Segundo Marcelo, no livro citado acima, o disco “foi gravado num clima melancólico. Os integrantes da banda não se encontravam no estúdio (para gravar) … e depois o Peninha foi juntando as partes (registradas em separado por cada músico) para completar o disco”, referindo-se ao lendário produtor Pena Schmidt, um dos principais responsáveis por muitos dos discos de sucessos lançados pelo BRock naquela década, e que ficou com a “batata quente” nas mãos de produzir este registro que, ainda de acordo com Marceleza, seria “triste, melancólico, de final de etapa. Ali não tinha mais nada, só um contrato a cumprir”. Apesar das palavras do vocalista, eu não o considero assim. Há, para mim, momentos muito interessantes ao longo de sua audição, e é inegável que o Camisa encontra-se em seu momento mais maduro, tanto musical quanto liricamente falando, no momento da gravação deste último registro. Eu quase incluí este disco na categoria dos “Discos Que Parece Que Só Eu Gosto” aqui do site, mas, honestamente, dos cinco registros da primeira fase dos baianos (os quatro de estúdio mais o fantástico ao vivo), este talvez seja o que menos me atrai, justamente por causa de sua pluralidade de estilos, que, a meu ver, deixam o álbum como um todo meio sem foco, sem direção, com boas e excelentes canções ao lado de outras que não me atraem tanto.

Contracapa da versão original em LP

Talvez o público da época tenha pensado o mesmo, pois o disco vendeu muito pouco (não consegui encontrar um número preciso, mas alguns sites falam em 40 mil cópias vendidas, quantidade muito abaixo das 300 mil do disco anterior), sem ter propriamente uma turnê de divulgação para ele (apenas algumas poucas entrevistas e outros poucos shows, sendo que um deles, no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo, inclusive foi transmitido pela TV Cultura na época, e hoje encontra-se disponível no youtube), com este álbum duplo nunca tendo o reconhecimento que merece, aparentemente, nem mesmo por parte da banda. Tanto que, quando do “retorno” em 1995 (sem Gustavo e Aldo, que culminou no disco Quem É Você?, do ano seguinte), ou no show de 2004 que rendeu o DVD Ao Vivo No Festival De Verão Salvador (apenas com Marcelo, Karl e Gustavo da formação original), ou ainda na “volta” á ativa em 2015 (apenas com Marcelo e Robério), que já rendeu discos de estúdio e ao vivo, apenas a faixa “Muita Estrela, Pouca Constelação” acabou sendo lembrada nos palcos, com o grupo (ou seria apenas Marceleza?) desprezando totalmente as demais composições de seu “último registro”. Uma pena, pois é um álbum que merece ser redescoberto, ainda mais agora que está próximo de completar 35 anos de idade (a serem “festejados” agora em outubro, em data incerta, segundo a página da wikipedia). E você, está disposto a dar mais uma chance a este registro de duplo sentido?

Track List da versão original em LP:

Lado A:

01. Lobo Espiatório

02. O País do Futuro

03. Ana Beatriz Jackson

04. Vôo 985

05. Após Calipso

Lado B:

01. Me Dê uma Chance

02. Deusa da Minha Cama

03. Chamam Isso Rock and Roll

Lado C

01. Muita Estrela, Pouca Constelação

02. O Último Tango

03. O Suicídio (Parte II)

04. Chuva Inflamável

Lado D

01. Enigma

02. Farinha do Desprezo

03. A Canção do Martelo

04. Aluga-se

05. Canalha

8 comentários

  1. Marcello

    Como a maioria dos álbuns duplos, “Duplo Sentido” é um pouco exagerado; tem muita coisa boa no disco, devidamente destacada pelo Micael Machado. O sucesso do Camisa de Vênus com “Correndo o Risco” pegou todo mundo de surpresa – até a própria banda – e eles não conseguiram lidar bem com isso. É pena que a banda acabou logo depois, mas pelo menos deixou cinco bons discos para os fãs do BRock curtirem. Valeu a lembrança!
    Mas fica a dúvida: qual foi o primeiro álbum duplo de rock nacional? Parece-me que foi o “Saqueando a Cidade”, do Joelho de Porco, mas não tenho certeza! Alguém sabe?

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    • Micael

      Marcello, eu pesquisei antes de fazer este texto, e não consegui chegar a uma conclusão “definitiva” de qual seria o “primeiro duplo”. De minha parte, não sei realmente dizer, mas, talvez, alguém com mais conhecimento e vivência (especialmente da época) possa nos esclarecer!

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      • Marcello

        Então, a Wikipedia coloca como sendo o Joelho de Porco em 1983, mas não consegui mais nenhuma informação. Lembro que a velha revista Somtrês mencionou esse disco do Joelho de Porco como sendo o primeiro álbum duplo de estúdio do rock brasileiro. Mas fica a dúvida!

      • Mairon

        Mas aí é falando das bandas dos anos 80??? Por que se for ver, até Milagre dos Peixes Ao Vivo é rock (afinal, tem Som Imaginário ali)

      • Mairon

        Fa-Tal tambem é outro bom exemplo de disco duplo do rock nacional

  2. Mairon

    O primeiro duplo do rock nacional ao meu ver foi o Paebirú. Podem até discutir se é rock ou não, mas daí é até covardia, por que o disco é uma aula de lisergia

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    • Marcello

      Boas lembranças!! Fa-tal e Milagre dos Peixes Ao Vivo passaram longe do radar na minha pesquisa porque são gravados ao vivo. Mas o Paebiru realmente nem veio à cabeça. A gente fica meio confuso na hora de buscar porque nem sabe como rotular direito…

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      • Mairon

        Pois é. Se for BRock é uma coisa, mas rock brasileiro é outra hehehe. E tem o Clube da Esquina tb, que eu esqueci de citar ontem (apesar de que esse é mais MPB, com um pezinho no rock). O Fa-tal é de 71 e o Clube da Esquina de 72. Não sei a diferença de meses,, mas creio que sejam os primeirões mesmo pelo que lembro

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