Por Pablo Ribeiro

Pouquíssimos músicos podem carregar a bandeira do “Rock Star”, com propriedade e justiça. E se há um único sujeito que mereça, com sobras, esse título, esse é Paul Stanley, frontman, maior compositor, defensor e – principalmente – o líder incontestável da maior banda de Hard Rock do planeta: o gigante Kiss, banda que fundou no começo da década de 70, e que já faturou um montante de grana maior que a própria fama que ostenta. Com quase meio século de ótimos serviços prestados ao Rock And Roll, certamente Starchild (como ficou conhecido na banda) teria uma infinidade de ótimas histórias para contar. É exatamente isso que Face The Music – A Life Exposed entrega ao leitor.

Paul descreve de forma franca e direta, todas as suas dores, fracassos, realizações, dúvidas, frustrações e sucessos de sua vida. Judeu, nascido menos de uma década depois do holocausto nazista, o obeso menino Stanley Harvey Eisen encontrou na criação da persona de Paul Stanley – o “Starchild” – a fuga para sua vida difícil. Criado no subúrbios de Nova Iorque por pais infelizes e distantes, conviveu com a grave doença mental da irmã, e a dor da própria deficiência – sua orelha direita possuía uma má-formação que além da estranheza estética (Microtia), causou a surdez do ouvido. Lutou sozinho contra a depressão, e travou uma batalha – mais uma – em busca do sonho de se tornar músico.

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Contra-capa da versão original do livro, com frases de grandes astros da música

 

A partir daí, entra em questão o Kiss e todos os envolvidos na banda durante os últimos 40 anos. Paul é claro e direto quando fala de cada um de seus colegas, com uma franqueza cortante. Tudo está aqui, nas mais de 450 páginas do livro. Paul não poupa argumentos quando explicita o quanto não gosta do baterista Peter Criss, ou então quando se mostra decepcionado pelo fato do guitarrista Ace Frehley por este ter jogado seu talento na lata do lixo, e como ambos se tornaram parte do problema na reunião do Kiss levada a cabo nos anos 90 (quem teve oportunidade de ver ao vivo os dois músicos em questão, não tem como discordar de Stanley. A diferença de comprometimento e preparo em relação a Paul era gritante). Sobra, também para o baixista Gene Simmons (parceiro de Paul desde os primórdios do Kiss), e sua ganância e egoísmo quase sobrenaturais. Paul é categórico e deixa muito claro o seu posto de chefão do quarteto (o que, convenhamos, nem precisava ser dito – quem acompanha a banda e tem um relativo conhecimento de como a coisa funciona, e a história do conjunto, já sabia disso há um bom tempo), e que se não fosse ele, o Kiss já tinha virado história há pelo menos 20 anos. Não há como duvidar.

Claro, nem só de Kiss vive Paul Stanley, e como não poderia deixar de ser, a relação dele com as mulheres também é bem documentada. Mas, como que para novamente reiterar a seriedade das palavras do Starchild, por mais que ele tenha se divertido com inúmeras mulheres, nunca deixou de ser um solitário, e até mesmo um fracassado, no que diz respeito à sua vida sentimental, ainda que, no final das contas tenha perseverado.

No final das contas, fica muito claro que Paul Stanley – o personagem – serviu a contento para atender as necessidades psicológicas de Eisen, que o criou como um contraponto de sua personalidade doída e mal-tratada. Ambos, demoraram mais de 40 anos para se encontrar, e fundir-se em uma só entidade.

Com uma narrativa leve muito bem estruturada, seguindo em uma história bem amarrada e sem frescuras, Face The Music – A Life Exposed é – ao mesmo tempo – uma leitura muito agradável, e uma obra obrigatória e essencial não só aos fãs de Kiss e Stanley, mas os admiradores do Rock and Roll e de suas histórias. Stanley chegou a dizer que obras autobiográficas eram nada mais do que “cartas de amor escritas a si mesmo”. Parece que Starchild fez absoluta questão de fugir disso, o que – sem dúvida nenhuma – conseguiu fazer.

Paul e seu livro, em uma sessão de autógrafos.

Paul e seu livro, em uma sessão de autógrafos.

Uma curiosidade: A edição do livro objeto dessa resenha (o original em inglês da primeira edição, capa dura), traz além da imagem de Paul de cara limpa, uma sobrecapa com Stanley em sua icônica maquiagem, e o título da obra na vertical, na esquerda. A arte dessa sobrecapa é extremamente semelhante à biografia autorizada de Peter Criss, justamente o maior desafeto de Stanley no Kiss. Coincidência ou não, é no mínimo curioso. O fato, é que se formos comparar apenas o conteúdo dos livros, daí Paul dá uma surra em Peter. E bem dada.

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