Por Micael Machado

Antes de existirem Renato Russo e a Legião Urbana, existiu Renato Manfredini Júnior, nascido carioca mas morador de Brasilia, professor de inglês, astrólogo, escritor e sonhador, dentre outras coisas. É dele que trata Somos Tão Jovens, filme dirigido por Antonio Carlos da Fontoura que estreou no dia 03 de maio de 2013 (portanto há 9 anos), e que agradou aos fãs daquela que foi, ao menos para mim, a maior e melhor banda do rock brasileiro em todos os tempos.

Começando pela descoberta da epifisiólise de Renato (doença óssea que lhe deixaria de cama por meses, fazendo com que ele se apaixonasse perdidamente por música e literatura, além de aprender a tocar violão, e que poderia ter sido melhor explorada pelo roteiro, a meu ver), o filme acompanha a juventude do personagem, mostrando sua trajetória deste ponto até as vésperas da primeira viagem da Legião ao Rio de Janeiro, onde tocariam no Circo Voador, conseguiriam um contrato com a gravadora EMI e se tornariam um dos maiores fenômenos da música brasileira.

 

Os atores que interpretam os músicos do Aborto Elétrico
e da Plebe Rude, as primeiras bandas punk de Brasília

 

Os conflitos existenciais e sexuais de Renato, seu sonho de ser reconhecido (seja como músico, seja como escritor, ou até mesmo como cineasta, como ele imagina em uma divertida auto-entrevista na banheira), os primeiros ensaios com o Aborto Elétrico (ao lado do baterista Fê Lemos, interpretado pelo ator Bruno Torres, e do guitarrista sul-africano Andre Pretorius, creditado no filme como Petrus, sei lá por quê, e interpretado por Sérgio Dalcia), a época da segunda formação do grupo, com Renato na guitarra e Flávio Lemos no baixo (o ator Daniel Passi), a fase como Trovador Solitário, e a formação da Legião Urbana ao lado de Marcelo Bonfá (Conrado Godoy), são retratados de uma forma que conseguirá (acredito eu) agradar mesmo àqueles que não conhecem com riqueza de detalhes a trajetória de Juninho, como sua família lhe tratava. Aos fanáticos pelo grupo (meu caso), então, pouco restará a criticar (talvez apenas duas ou três incongruências que só chatos perfeccionistas como eu perceberiam), e muitos serão os momentos emocionantes que surgirão na tela diante de nossos olhos.

 

Aninha (Laila Zaid) e Renato (Thiago Mendonça)

 

A interpretação de Thiago Mendonça (conhecido por ter representado o Luciano no filme “Dois Filhos de Francisco”) no papel de Renato é impressionante. O ator parece ter “incorporado” o músico, de forma extremamente convincente (embora por vezes um tanto caricata), lembrando o ocorrido com Val Kilmer no filme sobre os The Doors dirigido por Oliver Stone. Tocando e cantando ele mesmo as partes que seriam originalmente de Júnior, Thiago consegue convencer totalmente a quem assiste à película, com um timbre por vezes bem próximo ao de Russo, especialmente mais ao final do filme. Também se destaca no elenco a atriz Laila Zaid, no papel de Aninha, personagem fictícia que representa algumas meninas importantes na vida de Renato (a amiga com quem ele perde a virgindade, a confidente que foi a única a quem ele teve coragem de confessar seus desejos homossexuais, aquela para quem ele compôs “Ainda É Cedo”, dentre outras tantas), e serve como contraponto sentimental à fúria adolescente do personagem principal.

Além disso, as músicas incidentais do filme são, em sua maioria, versões instrumentais de clássicos da Legião, arranjadas pelo tecladista e produtor Carlos Trilha, que colaborou com o grupo no final da carreira e com Renato Russo em seus dois discos solo.

Quase todos os fatos importantes da trajetória do adolescente Renato Manfredini Júnior são retratados com bastante fidelidade, pelo menos de acordo com o que foi informado no excelente livro “Renato Russo: O filho da Revolução”, do jornalista Carlos Marcelo Carvalho, que serviu de base para o roteiro do filme. Senti falta de uma menção à presença da Plebe Rude (citada com destaque em determinados momentos da película) quando da primeira apresentação da Legião em um festival na cidade de Patos de Minas (com Eduardo Paraná na guitarra e Paulo Paulista nos teclados), que acabou com todos os músicos presos pelos militares que governavam o país na época, outro acontecimento que não é citado (curioso o fato de que Philippe Seabra, cantor e guitarrista da Plebe, representa o prefeito da cidade nesta parte). A ausência de uma citação à passagem de Ico Ouro Preto pelo grupo (ele aparece apenas como guitarrista do Aborto Elétrico pós-Renato, algo que realmente aconteceu) e a falta da famosa frase “faz barulhinho que tá bom” dita por Renato para Dado Villa-Lobos (interpretado por seu filho Nicolau) quando da execução de “Ainda É Cedo” no primeiro show deste com a banda (um momento importante do filme) também me marcaram, assim como o fato de Júnior ter atuado como ator, jornalista e radialista ainda antes do Aborto Elétrico também passar longe do roteiro.

Thiago representando a fase Trovador Solitário de Renato Russo

Mas, como disse, estes são aspectos que só pessoas tão fanáticas pelo cantor quanto eu lamentariam, e não impedem que o filme seja muito bem feito, tratando o “mito” Renato Russo com dignidade, e o “ser humano” Renato Manfredini Júnior com respeito e até uma certa dose de devoção, algo que seus colegas da “tchurma” de Brasília sempre lhe dedicaram. Recomendado fortemente para todos aqueles interessados em algum nível pela trajetória daquele que considero o maior poeta da língua portuguesa da minha geração, e, aos fãs da Legião, digo que é, simplesmente, obrigatório!

Força Sempre!

Somos Tão Jovens!

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