Por Ronaldo Rodrigues

Duas polêmicas recentes alimentaram o campo de batalha dos fóruns de fãs de rock. A primeira, e muito maior, foram os vídeos de Ed Motta fazendo críticas pesadas a Raul Seixas e Elvis Presley, bem como ao público de rock em geral. A segunda, foi a crônica até bem humorada do colunista Carlos Castelo no jornal O Estado de São Paulo (leia aqui), na qual ele tira sarro do rock progressivo e, de carona, de si próprio.

Como fãs que somos, temos frequentemente o hábito de levar nossos gostos, estilos e ídolos a sério demais. A maioria das tentativas de dar risada desses assuntos constrange os mais aguerridos. Contudo, alguns pontos da crônica de Castelo me fizeram refletir e traçar essas linhas. O cronista afirma em seu texto que seu gosto pelo rock progressivo se mantém com o passar do tempo, mesmo hoje ele reconhecendo que o estilo é exagerado, passível de “cancelamento” e até cafona (sentiu vergonha entre seus colegas por ter ido ao show de Rick Wakeman no Brasil nos anos 70), sendo impossível de ser assimilado pelas novas gerações. Todavia, o ponto nevrálgico de seu humor se assenta em cima de ver fotos de seus ídolos do passado (exemplificando novamente a partir de Rick Wakeman) tal como ele próprio é hoje – de altivos e pretensiosos jovens para velhos barrigudos e aparentemente acomodados.

Extrapolo a conversa e imagino que ele deva pensar o mesmo do estilo que lhe marcou na juventude e até hoje o acompanha – de ousado e pretensioso para preguiçoso e acomodado. Penso que aqui devemos ponderar bastante o que sai das penas dos jornalistas e dos críticos, porque a preocupação primeira destes é com o texto e seu leitor e não com o assunto a ser tratado. Se o assunto o ajuda, o assunto pode até vir a ser elogiado; se o assunto não o favorece, uma crítica ácida ou ferrenha pode vender mais jornal (ou mais audiência virtual nos dias atuais) do que um esforço para ver predicados positivos no que se ouve/vê. Exemplifico: há estilos musicais ricos na parte lírica ou na performance (incluindo figurino, coreografia, elementos de palco, etc.). Mesmo que da parte estritamente musical aquilo seja de medíocre pra baixo, haverá muito conteúdo para um crítico escrever sobre. Agora, se há apenas 3 ou 4 caras tocando em um palco simples, sem macaquices e figurino regular, como um jornalista não-músico pode encontrar matéria-prima para escrever um texto (eventualmente longo)? especialmente se esse estilo não lhe for o favorito? então, uma fonte de possível má vontade já é criada logo de cara. Muitas bandas perceberam isso ao traçar suas estratégias de carreira, de que era preciso chamar atenção não só do público mas também dos “formadores de opinião”, quer seja pelo que ocorria no palco ou fora deles (há os que foram para o lado do fomento das polêmicas, reais ou fabricadas).

Nisso, a gente entende porquê que grupos como o Rush lotavam estádios e foram ignorados em grandes veículos de mídia por muitos anos, ou ainda porque o próprio rock progressivo é tão vilipendiado no meio do jornalismo musical – há uma forte predileção no estilo pelo lado instrumental, as letras são frequentemente abstratas, e muitas bandas não tinham/não tem fortes elementos visuais atrelados (como o Yes, o Gentle Giant, o próprio Rush, o King Crimson, etc.). O mesmo pode se dizer do heavy metal – quantos não são os grupos em que temos apenas 4 ou 5 membros cabeludos de camisetas pretas tocando no palco? qual o interesse de um jornalista/crítico espremer seu saco de adjetivos para transmitir realidade de um conteúdo tão pouco “descrítivel” em termos textuais além da música? o caminho da crítica negativa e estereotipada é mais sedutor. Por outro lado, é compreensível que artistas muito “visuais” e performáticos sejam venerados e incensados, independentemente da qualidade musical que trazem consigo. O próprio jornalista Carlos Castelo reforça essa tese, já que seu incômodo com ainda gostar de rock progressivo mesmo depois de tanto tempo reside em um aspecto não musical, mas visual (o quanto ele e seu ídolo hoje se parecem).

Um outro aspecto que percebo que incomoda sobremaneira os jornalistas é o quanto um estilo está consolidado. Eles procuram sempre – para tentar nos vender – exatamente o oposto disso, a novidade. E não só a novidade de um “produto”, mas uma novidade conceitual, uma inovação. Então, inovações no rock sempre renderam mais atenção do que aquilo que já estava ali assentado, mesmo que dentro do que já estava assentado fosse a obra-prima do estilo. Enquanto o Led Zeppelin e o Pink Floyd escreviam discos fundamentais em sua respectivas praias, a crítica inglesa era dominada por discussões sobre a emergência do glam-rock (que no aspecto meramente musical não representou novidade nenhuma no rock, era rock básico puro e simples), a nova fantasia do David Bowie ou sobre a maquiagem do Marc Bolan. Material visual sempre foi mais atrativo para a escrita do que a música pela música. Nesse contexto,  hoje o rock se encontra em um encruzilhada conceitual que justifica muito de sua ausência na mídia. Se passarmos rapidamente pela história, veremos que todas as inovações que o rock sofreu geraram subestilos. O rock progressivo, provavelmente, foi o ápice do desenvolvimento do rock em termos meramente musicais. Foi o mais próximo que o rock se aproximou da música erudita e de vanguarda. Ir além dessa fronteira é apenas e tão somente deixar de ser rock e isso até já aconteceu no passado, com grupos vanguardistas e do progressivo eletrônico. Também podemos dizer o mesmo de outros subestilos do rock.

 

É preciso entender com clareza essa questão da inovação na arte. Ela não é o principal valor da arte, apenas uma circunstância estética. É possível ao artista se expressar com uma linguagem própria ou emprestada/adaptada de outros desde que partilhe dos mesmos valores ou queira usá-la para um fim específico. Não podemos achar que a música de hoje precisa ser absolutamente original e não se pareça com nada do passado – isso é um mito. O mero fato da música de hoje ser feita pelas pessoas de hoje, no contexto de hoje, mesmo que ela se valha de uma estética passada, já fará ela soar como um produto do hoje. O que se chama de “música de vanguarda”, a música feita por compositores eruditos da primeira metade do século XX é singular – passadas décadas, ela ainda é chamada de “vanguarda”, não porque nada novo não foi criado de lá pra cá, mas porque uma fronteira conceitual foi atingida. Dentro daquela estética, não há nada essencialmente novo que possa ser feito e não há nada de errado nisso. Nem todos os artistas mais conceituados de um estilo foram 100% inovadores – depois de criada uma linguagem, se estabeleceram e se expressaram naquele terreno, obviamente com técnica e qualidade acima da média. Também nem tudo que foi inovação na carreira de um artista foi considerado como ponto alto de sua obra, p.ex. Miles Davis – Bitches Brew (1970) e Doo-bop (1992) são discos inovadores; o primeiro é uma obra-prima do jazz/fusion, o segundo não.

Em outras linguagens artísticas não existe essa cobrança pelo novo, pela inovação, como parece ser na música. No cinema, por exemplo, filmes em branco e preto são bem aceitos, filmes com roteiros lineares idem, filmes com conceito maniqueísta e de romantismo clássico, etc. O que vale mesmo é um bom roteiro, boas atuações, bons diálogos, boa técnica…Na música deveria ser assim também: a banda pode tocar o heavy metal tradicional do início dos anos 80 e isso não importar tanto, mas deveria valer mesmo as boas composições, boas partes instrumentais, bons vocais, boa sonoridade, etc. Voltando a questão da crítica, em música convencionou-se tachar de retrógrado quem utiliza uma estética consagrada e louvar, independentemente da qualidade musical, as tentativas de inovar em um estilo. Mais uma vez, uma das razões pra isso é o quanto adotar esse tipo de discurso ajuda a tecer e vender um bom texto. Se o assunto ajuda o jornalista a escrever um bom texto, logo o assunto é ótimo; caso não, desce a lenha. (reconheço os riscos da generalização, mas é inegável que isso ocorre). Imagino o que o colunista do Estadão poderia escrever caso Rick Wakeman, no alto dos seus 70 e tantos anos, ainda fosse bastante magro e ostentasse um longo cabelo escorrido tocando com capas cintilantes e orquestras todos os mesmos sintetizadores dos anos 70…diria se tratar de um eterno adolescente padecente da síndrome de Peter Pan. Há que se ler e absorver tudo isso com muita reserva. Rock não deve ter compromisso com nada – nem com uma determinada estética, nem com uma determinada idade (nova ou velha), nem com agenda política, nem o escambau; apenas deixar o som rolar e a cabeça ferver.

9 comentários

  1. Fernando Bueno

    Excelente Ronaldo!!!
    O que eu vejo é a facilidade para esses críticos musicais criticarem estilos que não são mainstream pq dificilmente ele terá que debater com alguém, ou seja, encarar o contraditório. Aí acaba se tornando verdade. Hoje, depois de mais de 50 anos de rock, acredito que nem seja mais tão necessário evoluir sempre. Já tiveram milhares de bandas que já fizeram isso e muita gente que pede evolução não conhece essas bandas. É impossível conhecer tudo mesmo. Depois de tantos anos as referências são quase infinitas e a possibilidade de fazer algo diferente diminui também. Seu texto deveria vir na sequencia do que sai do Carlos Castelo. Seria um ótimo debate!

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    • Ronaldo

      Valeu, Fernando! Você tocou em pontos bem importantes – como esses assuntos são meio “pauta fria”, ninguém (de um veículo oficial ou de peso) contrapõe e fica pra posteridade como “verdade”.
      Abraço!

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  2. André Kaminski

    Excelente texto Ronaldo por trazer uma pauta que, numa roda de bar, geraria horas e horas de debates.

    No caso, eu particularmente concordo e muito contigo: há sempre uma cobrança dos críticos em relação ao rock para inovar, chamar a atenção e causar. Acredito que esses mesmos críticos ressentem o fato do gênero não ser mais mainstream e que lá no fundo gostariam que o gênero voltasse às glórias de outrora quando era capa das velhas revistas musicais. Hoje em dia, seria a “capa” dos portais da internet.

    Mas é aquela coisa: o jazz é capa desses mesmos portais? Ou a new wave? Ou o pagode? Como é de costume, tais gêneros tiveram seu lugar ao sol e passou. Mas ainda tem lá seus fãs fiéis no underground.

    Os grandes portais de notícias e críticos musicais fazem o menos possível para criticar música e sim para enaltecer artistas muito mais pelo além-música do que pelo que lançam. Até porque a imensa massa de seus leitores e acessos não gostam de música pelo que ela tem como qualidades mas sim pelo que o artista representa dentro do mundo da fama. São seus relacionamentos, seus namoros, suas brigas, suas ideologias, suas polêmicas.

    Não acho que isso tenha mudado dos anos 70 para cá. Não acho que a imensa maioria ouvia os rocks, mpbs, punks ou que for pela música em si: era somente porque naquele período, as rádios e mídia escolheram promover aquele tipo de música, independente de suas qualidades.

    O ouvinte comum, a maioria da população mundial, apenas ouve o que está no rádio ou na tv. Somente uns poucos apaixonados pelo estilo tentam de alguma forma ensinar ou incentivar a ouvir mesmo música aos seus filhos, sobrinhos e afilhados. Seja em gêneros antigos ou mesmo esses mais novos. Esses apaixonados eram poucos antigamente. E continuam sendo poucos hoje em dia.

    Supomos: eu tenho um filho que só ouve funk. Só Anitta e MC Kevinho. Eu particularmente, chegaria para ele e mostraria: “pô, legal esses artistas de hoje, mas ouça também esse Claudinho e Buchecha aqui ó, tem umas letras bem bacanas.”

    Se influenciaria ou não, eu não sei. Mas tentaria, pelo menos, buscar apresentar artistas que julgo possuírem uma qualidade superior como parte de sua formação estética e tentar tirar um pouco da “dependência” daquilo que só o mainstream julga que é bom e relevante.

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  3. Davi

    Bom, o rock no passado era “progressivo”/estacionário (vamos combinar que mesmo nas décadas anteriores não eram todos os artistas que eram inovadores). O rock atual está em uma fase regressivo/estacionário (ainda que tenha surgido artistas de bastante qualidade). Já o Ed Motta está em uma fase negativista reacionário (e olha que essa fase dele já dura 50 anos)…

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  4. Davi

    “Um outro aspecto que percebo que incomoda sobremaneira os jornalistas é o quanto um estilo está consolidado. Eles procuram sempre – para tentar nos vender – exatamente o oposto disso, a novidade.” Verdade. Toda hora tem um artista que surgiu para “salvar o rock”. A bola da da vez é o Maneskin, que aliás tenho visto mais gente comentando da estética do que do som hehehe

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  5. CLEIBSOM CARLOS ALVES CABRAL

    Ed Motta queria visualizações, pois nas redes este é único fato que conta, e conseguiu! A rede funciona assim: vamos falar do que “todos” estão falando porque “todos” estão falando, independente do que seja, pois assim teremos as visualizações de “todos” que estão falando e assim “todos” continuarão falando, e assim por diante. Ou seja, é a cobra comendo o próprio rabo e isso é uma estupidez!
    Quanto a birra da crítica com o progressivo, creio que seja apenas uma questão de esnobismo e pedantismo e esbarra no subjetivismo, pois não há motivo lógico para isso.
    Por que é “in” curtir BOB DYLAN, VELVET UNDERGROUND, THE BEATLES, NEIL YOUNG, etc, etc, e “out” curtir GRAND FUNK RAILROAD, KISS, RUSH, YES, etc, etc?
    Por que CHICO BUARQUE e CAETANO VELOSO são “gênios inquestionáveis” e PAULO SÉRGIO e ODAIR JOSÉ não? Por que era legal tirar o sarro do cabelo paquita do HUMBERTO GESSINGER e não do bigode cafona do RENATO RUSSO?
    Mas, independente das respostas, isto é assunto passado, pois a crítica musical, e não só ela, enquanto força influente não existe mais e no mundo contemporâneo ninguém se importa com o que um crítico pensa.

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  6. Marcelo

    Fantástico Ronaldo. Mas é difícil lhe dar com idade (no caso o repórter do Estadao Carlos Castelo). O q vale é se ainda tem sinapses pra sentir o som. Se o repórter do Estadão não tem, o q lhe resta é usar o humor, mas com muita ênfase ressaltar e assumir q não aguenta mais (o que ele não fez) ; e mais importante: deixar o Rick Wakeman em paz com o cochilo dele. Pq convenhamos são mais de meio século de música e uma foto com uma frase tentando ridicularizar não podem nunca ser maior do q a própria música. Parabéns ao Ronaldo Rodrigues e “shame on you” Carlos Castelo.

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  7. Victor Hugo

    Muito bom texto Ronaldo. Você fechou a questão. O ponto é: o jornalista não é notável. Ao menos para mim – creio, para boa parte dos apreciadores de rock progressivo – e Rick Wakeman, ainda o é, apesar dos jornalistas de sempre (que desde os anos 1980 tentam afirmar que não é notável nem relevante…), ao menos, Wakeman ainda é notável e relevante para os fãs rock progressivo até hoje. E, parece, ainda é notável e relevante (ainda que por motivos equivocados…) para certos jornalistas que, esses sim, são não notáveis e irrelevantes…

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