Por Davi Pascale

Em 23 de Maio de 1979, os quatro mascarados do Kiss lançavam o LP Dynasty. E pela primeira vez, enfrentaram várias acusações pesadas em relação à sonoridade que estavam seguindo. Acusados de flertarem com a disco music (gênero repudiado pelos roqueiros da época) na sua música de trabalho, a hoje clássica “I Was Made For Lovin´ You”, os músicos perderam bastante seguidores em seu primeiro trabalho após as férias da banda. A situação pioraria ainda mais com os dois trabalhos seguintes (Unmasked e Music From The Elder). Entretanto, vamos deixar isso para o futuro e manter nosso foco aqui.

Vindo de uma extensa maratona de shows, na época de Love Gun, e constantes brigas internas, a banda foi aconselhada a tirar um ano de férias. Porém, não sem antes deixar algum material para que a gravadora pudesse trabalhar o grupo. Foram lançados, nesse período, a coletânea Double Platinum, os 4 álbuns solo e o filme, realizado em parceria com a Hanna-Barbera, Kiss Meets The Phantom Of The Park (no Brasil, conhecido como Kiss E O Fantasma das Trevas). O material solo não obteve o sucesso esperado, entretanto a gravadora depositava confiança de que o próximo álbum traria a atenção de volta. Acreditava que a força estava na união de seus integrantes. E esse álbum seria justamente, o Dynasty.

De alguma forma, Ace Frehley ganhou um pouco mais de destaque nos últimos álbuns em que esteve com a banda. Parece que o fato do LP solo do spaceman ter atraído um pouco mais de atenção do que a dupla Stanley/Simmons, ajudou a inverter um pouco o jogo a seu favor. Nos últimos trabalhos que fez com o conjunto, passou a emplacar mais composições e a cantar um pouco mais – tanto nos LP´s quanto nos shows (na tour de Unmasked, costumava cantar 4 faixas por noite). Peter, por outro lado, continuava a reclamar da falta de atenção e ficava chateado por não aceitarem, com facilidade, composições suas. Dizia que não entendia a razão, uma vez que a balada “Beth” tinha sido o maior sucesso do Kiss e era dele (o que não é mentira). Criss também acreditava que os músicos sentiam vergonha de seu LP solo. Para demonstrar ao rapaz que não tinham nada contra ele, nem contra o disco dele, o grupo resolveu convidar Vini Poncia para produzir o próximo álbum. O mesmo produtor que havia produzido o disco solo de Peter um ano antes.

 

Banda passava por momento delicado

 

O que ninguém esperava é que esse mesmo Vini Poncia seria o responsável por afastá-lo do projeto. Sua primeira recomendação era que Peter não teria permissão para palpitar em qualquer música, em qualquer arranjo. O produtor o considerava um músico fraco e dizia que não tinha ouvido musical. Referia-se à ele como tone deaf. Termo utilizado para quando um musico é incapaz de distinguir duas notas ou incapaz de manter o andamento. Peter Criss sempre foi um ótimo cantor, portanto é capaz que estivesse se referindo à permanecer no tempo. Peter, na verdade, não era um músico ruim. Ele era limitado, mas era competente. O problema é que quando realizou esses dois projetos ao lado de Vini, estava no auge de sua dependência química, abusando do álcool e tinha seus movimentos debilitados graças à um grave acidente de carro que havia sofrido no ano anterior. Todos esses itens, quando somados, prejudicavam consideravelmente o nível de sua performance. Por conta de todas essas confusões, acabou gravando apenas a faixa “Dirty Livin´”. O resto do material foi gravado por Anton Fig, que anos mais tarde se juntaria ao Ace no Frehley´s Comet.

Peter, obviamente, não estava feliz com toda essa situação e, mais uma vez ,teve 3 das 4 faixas que levou para as gravações vetadas. A já citada “Dirty Livin´” foi a única aceita. Outras duas – “Out Of Control” e “There´s Nothing Better” seriam gravadas em seu primeiro trabalho solo pós-Kiss, lançado em 1980, enquanto “Rumble” permanece inédita. O baterista passava por um período delicado, estava se separando de Lydia Criss (que, segundo dizem, estava tentando ganhar rios de dinheiro no divórcio) e estava ficando cada vez mais debilitado fisicamente por conta do vício. Afastá-lo das gravações foi um choque para o músico e ajudou a deixa-lo ainda mais para baixo. Sua saída do conjunto era realmente uma questão de tempo.

Embora a turnê recebesse o nome de The Return of Kiss, os músicos estavam mais afastados do que nunca. O disco foi gravado como se fossem sessões solo, praticamente. Em “Sure Know Something”, foi Paul Stanley quem gravou a linha de baixo e também a guitarra solo. Em “Magic Touch” também tomou o lugar de Gene, assumindo as quatro cordas. Ace Frehley gravou a linha de baixo em “Save Your Love”, “Hard Times” e “2.000 Man” (cover dos Rolling Stones que seria regravado mais tarde no MTV Unplugged). Com isso, o baixo do the demon é ouvido apenas em “Charisma” (faixa que criou em cima de “Simple Type” do Wicked Lester), “X-Ray Eyes” e a música mais lembrada do trabalho, “I Was Made For Lovin´ You”.

 

I Was Made For Lovin´You flertava disco com rock

Inspirada em suas visitas ao Studio 54, Stanley quis escrever uma canção disco, mas que ainda mantivesse a essência do Kiss. No box set da banda, o compositor explicou sua sacada: “Percebi que todas aquelas músicas tinham o mesmo andamento. Você poderia misturá-las sem nenhum corte. E todas eram sobre o hoje, sobre o agora, sobre se divertir e não se preocupar com o futuro”. A ideia era pegar essa batida e misturar com a guitarra do rock. Foi a última faixa a ser apresentada para o LP. Gene Simmons, embora não morresse de amores pela canção (sentimento que ainda permanece), acreditava que a faixa tinha que estar no disco, justamente por ser algo que não se esperava deles. Essa ideia de elemento surpresa o agradava.

Embora seja a mais popular do projeto, muitos fãs torceram o nariz para o grupo por conta disso. Não sei se a ideia de utiliza-la como primeira faixa de trabalho foi inteligente, justamente por conta desse impacto no ouvinte. Sem dúvidas, tinha um grande potencial (tanto que até hoje é pedida nos shows), porém se tivessem trabalhado uma canção rock antes, como “Magic Touch” ou “Save Your Love”, acredito que os fãs iriam se ligar que o grupo não havia feito um álbum flertando com a disco music, mas sim algumas faixas. Para ser mais direto, acredito que “I Was Made” e “Dirty Livin´” se encaixem na descrição, já músicas como “Charisma”, “X-Ray Eyes” e até mesmo “Sure Know Something”, apesar do indiscutível acento pop, não vejo influência disco.

A situação não estava fácil. A turnê não foi um sucesso. Shows cancelados, público diminuindo, as brigas aumentando… Havia uma insatisfação com o visual também. O próprio Paul Stanley já chegou a declarar que considera o visual dessa época um erro. Segundo suas próprias palavras: “muito Disney, muito Las Vegas”. Entretanto, embora o relacionamento deles não estivesse em um ótimo momento, o resultado do disco é ótimo. Os elementos principais estão ali somando novas influencias. Algo que, para mim, é sempre interessante. O som é mais polido do que o de Love Gun, sem dúvidas, mas ainda assim longe de algo que possa ser considerado pasteurizado. LP com acento pop, mas ainda assim, muito bem feito.

Faixas:

01)   I Was Made For Lovin´ You
02)   2.000 Man
03)   Sure Know Something
04)   Dirty Livin´
05)   Charisma
06)   Magic Touch
07)   Hard Times
08)   X-Ray Eyes
09)   Save Your Love

6 comentários

  1. CLEIBSOM CARLOS ALVES CABRAL

    Este disco é muito bom e tem uma das melhores músicas do KISS de todos os tempos, a sensacional CHARISMA! Na verdade, eu o considero mais um disco solo do Paul Stanley do que da banda, mas as qualidades de DYNASTY são inegáveis.

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    • Davi Pascale

      Charisma é sensacional mesmo. É uma das minhas preferidas desse disco.

      Responder

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