Por Fernando Bueno

A história sempre se repete: o artista cresce em sua morte. Toda vez que um músico, ator ou qualquer outro do mundo das artes morre ele imediatamente se torna relevante de novo. E isso não foi diferente no dia da morte de Meat Loaf. Vi uma nota sobre ele até no jornal da Record e fiquei imaginando qual teria sido a última vez que o nome dele tinha aparecido na emissora do Edir Macedo. De uma certa forma, por outro lado, esse texto também só se materializou depois do acontecido. Mesmo eu sempre olhando para os dois CDs que tenho em minha coleção e imaginando um texto sobre os mesmos e ele nunca tenha saído.

Eu acho o Meat Loaf o maior artista desconhecido de todos. E essa análise vale tanto para os fãs brasileiros, quanto os europeus; já nos Estados Unidos a situação é bem diferente. Se você pegar para analisar seus números de vendas vai se impressionar: só Bat Out Of Hell de 1977 vendeu ao longo do tempo espantosos 43 milhões de cópias, números na casa de venda de discos históricos como Back In Black (51 milhões), Thriller (66 milhões) e Dark Side of The Moon (45 milhões). Mas por que eu falo que ele é desconhecido? Tirando esses últimos dias depois de sua morte, vocês já tinham visto alguém dizendo que estava passando todos os discos do Meat Loaf no player? Conhece alguém que coleciona seus álbuns? Ou mesmo alguém que recomendou algum de seus trabalhos que não fizesse parte da série Bat Out of Hell?

No fim das contas a resposta para seu sucesso ter sido um pouco ofuscado foi a falta de foco que ele mesmo teve de sua carreira e, também, um certo preconceito da mídia especializada por conta de sua silhueta um pouco maior do que vários outros artistas. O próprio cantor chegou a dizer que o maior desafio de sua carreira foi não ter sido levado a sério pela indústria da música: “me tratavam como um palhaço de circo”. Até seu nome artístico acabou surgindo por um apelido que ele tinha na época que jogava futebol americano na escola – e esse nome também não o ajudou em sua jornada. Além disso ele dividiu sua carreira como frontman com a de artista de musicais e a carreira cinematográfica – muitas vezes interpretando a si mesmo.

Mas foi durante sua carreira como cantor de musicais que ele conheceu Jim Steinman e sua vida seria transformada com essa parceria. O compositor usou todas as facetas da voz de Meat Loaf para criar um disco, no caso Bat Out of Hell (1977), em que os musicais são a principal influência. É possível vislumbrar os temas das canções sendo apresentados em um palco, pela performance teatral com que o cantor interpreta as canções. Podemos identificar passagens que remetem à Roy Orbison, Elvis Presley, Bruce Springsteen e até o Queen. O que ele faz em “Heaven Can Wait” é digno de nota. Porém um indivíduo que participou de toda elaboração do álbum teve um papel fundamental: Todd Rundgren. Ele produziu o disco e tocou vários instrumentos, alguns deles com passagens marcantes, como o solo de guitarra que reproduz o som de uma motocicleta na faixa título. A importância de Rundgren para o disco é percebida quando se ouve o segundo disco, Dead Ringer, em que ele não participa. Se você quiser saber mais sobre Todd Rundgren leia esse ótimo texto feito por Marco Gaspari – Já tomou seu Todd hoje?.

Dead Ringer foi lançado quatro anos depois de seu debut, após muitos shows tocando o material do seu disco de estreia. O disco foi composto com o mesmo formato que foi usado em Bat Out of Hell, sendo totalmente composto por Jim Steinman, com músicas com um jeitão de musical. Porém a falta de Todd Rundgren em praticamente todos os processos faz com que a banda de estúdio tenha sido muito maior que a que foi usada no primeiro disco, com músicos da E Street Band de Bruce Springsteen, Davey Johnsone, que acompanhava Elton John, Mick Ronson da banda de David Bowie e Nicky Hopkins, que tocou com praticamente todo mundo. Se nenhuma música de Dead Ringer ficou tão conhecida como alguma outra do álbum anterior, este contém muitas que mantém o nível muito alto como “Peel Out”, “I’ll Kill You If You Don’t Come Back”, a balada “More Than You Deserve” e a quase faixa título “Dead Ringer For Love” com a participação de Cher. Muita gente não consegue enxergar em um primeiro momento, mas a capa repete a imagem de uma moto da primeira. Tudo bem que é uma moto em forma de monstro cheia de algo parecido com tentáculos montada por um personagem a la Conan cheio de mulheres em volta. Mais rock and roll, impossível!

Uma briga judicial com Jim Steinman causou uma bagunça na sua carreira após Dead Ringer. São três álbuns em sequencia sem a influência de seu antigo parceiro musical mostrando que a dupla funcionava muito melhor junta do que separada. Uma curiosidade é que Jim tinha entregue uma música chamada “Total Eclipse of the Heart”, mas a gravadora rejeitou a canção que acabou sendo um sucesso retumbante na voz de Bonnie Tyler. Certeza que todo mundo que está lendo esse texto já ouviu essa música que marcou os anos 80. Esse processo ajudou a falência de Meat Loaf que chegou até a perder os direitos sobre suas músicas. Desses três discos o mais indicado seria o Bad Attitude de 1984, um disco que tem uma…MOTO…na capa. Destaque para a participação de Roger Daltrey na faixa de abertura e Bob Kulick nas guitarras. Seu som se aproxima ao rock de arena, quase AOR típico dos anos 80, mas que muita gente acha datado. Eu adoro! Tudo bem que não podemos dizer que esse disco seja totalmente “Steinman-free”, pois “Surf’s Up”, originalmente gravada no disco solo do próprio Jim Steinman tem uma releitura (muito melhor por sinal).

Feitas as pazes com Jim Steinman já nos anos 90, a dupla começou a trabalhar na sequencia de seu maior sucesso. E a fórmula deu certo; “I’d Do Anything for Love (But I Won’t Do That)” foi um enorme sucesso, mesmo para uma música de doze minutos de duração lançada em uma época em que Metallica e Guns n Roses, além das lamentações da turma de Seattle estavam em seu auge. O álbum, Bat Out of Hell II: Back Into Hell (1993), vendeu impressionantes 15 milhões de cópias.Outro disco que vale a pena ouvir é o Welcome to the Neighborhood de 1995. É um disco que sempre aparece em sebos ou listas de vendedores pela internet. Tem a participação de Pat Thrall, aquele que lançou um disco bastante conhecido com Glen Hughes em 1982. Como aconteceu com Dead Ringer, Welcome to the Neighborhood não conseguiu nem chegar perto do enorme sucesso do disco anterior e muita gente acaba tomando o disco como ruim, mas não é o caso. Também não tem a mão de Jim Steinman e possivelmente é o melhor dos álbuns sem ele.

Para finalizar gostaria de comentar sobre a terceira parte de Bat Out of Hell – The Monster Is Loose. Gravado já nos anos 2000, o disco se aproxima bastante do heavy metal (sua capa daria orgulho em qualquer fã do Manowar). Aqui outro grande produtor e compositor ajuda Meat Loaf, Desmond Child (leia mais sobre ele aqui) e também tem a participação de Steve Vai. Só acho o disco um pouco longo demais com seus quase 80 minutos.

Espero que esse texto tenha incentivado todos à conhecer ou revisitar os discos do Meat Loaf. Claro que buscar ouvir os grandes clássicos é um caminho até natural, mas peço para que vocês tentem pelo menos esses outros que comentei no texto e, se possível, voltem aqui para comentar o que acharam. Comentem também sobre os discos que possui e sobre algum outro que não foi citado por aqui.

1 comentário

  1. Tiago Bittencourt França

    Belo texto, eu sou um dos fora da curva que tenho vários álbuns do Meat Loaf na coleção e sempre me interessei pelo seu trabalho. Concordo que tanto o Dead Ringer quanto o Welcome to the Neighbourhood são discos mutio bons, porém subestimados por sucederem os clássicos Bat I e II. Outros álbuns que considero relevantes e recomendo são o Midnight at the Lost and Found de 83 e o Hang Cool Ted Bear de 2010. Deste último basta conferir a faixa “Love is not Real” com participação de Brian May, Steve Vai e Justin Hawkins, pra se ter uma idéia da qualidade. Grande abraço.

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