Por André Kaminski

Se você pegar uma máquina do tempo e retornar exatos 40 anos no passado provavelmente você estaria na expectativa do lançamento do primeiro álbum do Asia [1982] que sairia em 2 meses com a banda sendo formada por gigantes do progressivo. Óbvio, a banda serviria muito mais como mudança oficial de direcionamento musical dos músicos envolvidos já que os discos mais “pops” do Yes e do Emerson, Lake & Palmer haviam fracassado. Era uma época em que as rádios e gravadoras estavam sedentas pelo AOR e de rocks mais leves que estavam fazendo sucesso nas paradas.

John Wetton (vocais e baixo), Geoff Downes (teclados e vocais), Steve Howe (guitarra e vocais) e Carl Palmer formavam o time, O primeiro saído do King Crimson e do U.K. O segundo do Yes (na época parado) e do Buggles. O terceiro também do Yes. E o quarto acho que nem preciso mencionar.

John Wetton

Lançado o debut e o sucesso foi instantâneo. Venderam 4 milhões de cópias só nos Estados Unidos e os mais de 6 milhões no restante do mundo fizeram do disco ser um multiplatinado com faixas como “Heat of the Moment” e “Only Time Will Tell” sendo tocadas incessantemente nas rádios e na MTV. Estádios com ingressos esgotados se tornaram rotina no ano de 1982. Uma grana violenta entrando. David Geffen agigantava ainda mais a sua Geffen Records que havia sido recém fundada poucos anos antes.

Banda feliz e faceira, hora de gravar o segundo álbum já no ano seguinte. E aí começaram os problemas.

Só 1 milhão de cópias? Fracasso!

John Wetton sempre foi um ótimo compositor de faixas pegajosas. Mesmo tendo um background prog e sendo um baixista de muita técnica, ele soube como poucos em usar a sua técnica na composição de melodias cativantes. Ele foi o principal responsável pela maioria das composições. O primeiro disco do Asia tinha aquela aura de “disco facinho de digerir com a classe de quatro caras fodas do prog”. Um AOR/prog bonito e requintado.

Além disso, uma briga de egos se iniciou entre os membros da banda, principalmente entre John Wetton e Steve Howe. Um dizia para o outro que ele era o responsável pelo sucesso da banda. Nesse cabo de guerra, Geffen beneficiou Wetton e Downes que foram os compositores dos hits de sucesso do primeiro álbum. Howe se deu mal na disputa e teve suas contribuições reduzidas em apenas uma faixa.

Steve Howe

Além disso, Geffen queria que a banda lançasse o segundo trabalho a todo custo. Para Howe, um enorme erro visto que ele achava que as composições criadas de maneira muito apressada (“rushed”). A própria banda não confiava no disco que estavam criando, achando que não possuíam um single de abertura forte o suficiente e para piorar, receberam uma mixagem extremamente artificial. Embora tivessem pedido para o disco ser todo remixado, não deu tempo de fazer muitos ajustes e Alpha [1983] foi lançado com poucas alterações.

O disco conseguiu vender mais de 1 milhão de cópias e o single “Don’t Cry” até recebeu boa atenção por parte da mídia. Mas naqueles tempos em que para ser um sucesso eram necessários vários milhões de cópias vendidas, o disco foi considerado decepcionante tanto para a gravadora quanto para a banda.

Daí para frente, a coisa só degringolou ainda mais.

Mais problemas

Carl Palmer

Pouco após o lançamento do disco, John Wetton deixou a banda. Segundo Howe, Wetton resolveu sair devido ao seu alcoolismo e pelo fato dos outros membros brigarem com ele devido às suas performances ruins nos shows. Já Wetton disse que foi demitido. As resenhas na época malhavam a banda por shows ruins e isso acabou influenciando nas vendas de ingressos que passaram a diminuir drasticamente. Após sua breve saída, Greg Lake o substituiu marcando novamente a banda com shows ruins (Lake mal teve tempo de ensaiar e cantava grande parte das letras em teleprompts).

Lake não quis continuar e Wetton retorna sob a condição de que Howe teria que cair fora do grupo. Downes e Palmer aceitaram. O próprio Howe nem ligou muito pois ele estava empenhado na banda GTR.

Lançaram um terceiro álbum, encerraram as atividades e voltaram pouco tempo depois

Veio o terceiro disco em 1985. Downes disse que a Geffen fez um trabalho de divulgação bem pobre. Além disso, com a entrada do guitarrista Mandy Meyer – e sem um Steve Howe para se impôr – as guitarras soaram mais magras desagradando boa parte de seus fãs. Sem muitas perspectivas e a Geffen cagando e andando para a banda, eles meio que encerram as atividades em 1986 sem nem fazer uma tour de promoção do disco.

Geoff Downes

Quando a banda retornou para shows em 1989, eles já tinham perdido o bonde. Na época, o hard farofa dominava o rock. Sem a estabilidade da formação original (com membros novos e ex-membros entrando e saindo com o passar dos anos) e ter se mantido com Downes como o líder principal nos anos 90, era tarde demais para o Asia conseguir os mesmos números que Journey e Kansas obtiveram mesmo com essas bandas tendo seus períodos de vacas magras.

Claro que a qualidade inferior de seus hit singles nos seus lançamentos posteriores ao primeiro álbum influenciaram a diminuição de seu sucesso. Porém, o fato que podemos concluir é que o ponto chave para o Asia não ter sido uma banda muito maior do que é hoje foi o fato de egos inflados, um certo desleixo por parte de Wetton e David Geffen querer verdinhas para ontem serem os principais motivos para isso.

Eu gosto de muitos discos dos anos 90 e 2000 e o Asia tem uma discografia digna. Mas é aquela coisa: a banda tinha potencial para muito mais, talvez até mesmo de serem gigantes do rock até os dias de hoje. Uma prova de que alguns detalhes mal resolvidos e um timming errado pode fazer com que bandas e projetos de muito valor acabem reduzidos a um tamanho muito menor do que poderiam ter sido.

5 comentários

  1. Marcello

    Acho que havia muito ego envolvido… Além disso, a maioria dos fãs de rock progressivo esperava algo mais elaborado, e acabou tendo um disco de música pop – muito bem feita, muito bem elaborada, mas nada condizente com o histórico desses músicos. Pessoalmente, acho que o grupo deveria ter tido um vocalista dedicado – nada contra o vocal do John Wetton, pelo contrário, mas a fórmula da banda exigia isso – pois bandas com forte apelo pop normalmente confiam num frontman com boa presença de palco (além, é claro, da boa figura), e Wetton ficava meio limitado pelo baixo. Não sabia que a Geffen tinha abandonado o grupo nos discos posteriores. De todo modo, sempre vou me lembrar do final de uma resenha do “Final Countdown”, do Europe (não me lembro do autor…): “não confie em bandas com nomes de continentes”.

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    • André Kaminski

      David Geffen meio que estimulava muito essas picuinhas nas bandas que sua gravadora produzia para rechear os tabloides e mantê-los na mídia. Junta aí quatro caras de personalidade e a fogueira tá feita. Quanto ao que os fãs antigos esperavam, de fato, isso influenciou mas o problema é que eles não conseguiram manter os novos fãs que conquistaram com seus discos subsequentes.

      Quanto ao Wetton, de fato ele não era o típico “vocalista galã”, ainda assim, conseguiram boas vendas. Concordando contigo, é possível que não tenham também atingido um público (feminino) ainda maior por isso.

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  2. Leonardo

    Comprei o LP na época do lançamento, pensando ouvir uma maravilha prog, Não fique 1 mês com o disco! kkk

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  3. Fernando Bueno

    Gosto demais dos discos e quem esperava que a banda viesse com algo super eleborado na linha do que todos fizeram nos anos 70 é pq não tinham se ligado no momento em que estavam passando. Gosto muito do segundo disco, o terceiro é fraco e depois tem o disco da volta com a formação clássica que é muito digno tb. nesse meio tempo tivemos até dois Asia excursionando….

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