Por Ronaldo Rodrigues

O Sir Lord Baltimore é um daquelas pedras preciosas do rock para os colecionadores de disco e envolve tudo o que nos motiva a escrever essa coluna – histórias insólitas e curiosas, ausência injustificada de sucesso e reconhecimento, sumiços do mapa e, obviamente, som de alta qualidade. O cenário da trama é a cosmopolita Nova York, no bairro do Brooklyn. Três estudantes secundaristas vidrados em Cream e Jimi Hendrix Experience, decidem se arriscar em uma banda. O único que já tinha uma experiência digna de nota no meio musical era o guitarrista Louis Dambra, que já tinha feito parte do grupo The Koala. O The Koala tocava uma espécie de garage-rock, básico e ardido, com vocais irreverentes e guitarras em destaque. Apenas um álbum foi lançado, em 1969, pela Capitol. O grupo, pela falta de sucesso e repercussão, se desmanchou em pouco tempo. Louis Dambra então, junto com seus novos parceiros – John Garner na bateria e Gary Justin no baixo, viram um anúncio no jornal Village Voice, patrocinado pelo caça-talentos Mike Appel. Os adolescentes, pretensiosos que eram, responderam o anúncio e Appel foi conferi-los. Naquela época era possível convencer um produtor musical sem ter exatamente um nome ou um repertório pronto e foi o que aconteceu com o pessoal. Mike Appel então tratou de batizar a banda como Sir Lord Baltimore em 1969, inspirado por um personagem do filme Butch Cassidy & Sundance Kidd, lançado naquele ano e estrelado por Paul Newman e Robert Redford.

Mike Appel e seu parceiro Jim Cretecos estavam em alta no show business da época, devido ao sucesso do seriado televisivo The Partdrige Family, e aproveitaram o momento para alavancar bandas em que acreditavam. O Sir Lord Baltimore, então, foi indicado para Dee Anthony, executivo na Mercury Records, que tinha em seu cast contratos de relançamento de artistas como Cream e Frank Zappa e posteriormente lançariam New York Dolls e Kiss. Appel e Cretecos foram também uma alavanca na carreira de Bruce Springsteen; já Dee Anthony foi fundamental para a ascenção de Peter Frampton como artista solo. O Sir Lord Baltimore, com contrato na Mercury e a produção de Appel e Cretecos, foi levado ao Electric Lady em NY, estúdio construído por Jimi Hendrix e operado por ninguém menos que Eddie Kramer.

No estúdio, os garotos não se intimidaram e tocaram tão alto e tão pesado quanto conseguiram. Em um momento, Kramer pediu para a banda segurar a onda no volume porque ele não conseguia ouvir Hendrix, com quem falava ao telefone na sala de operação do estúdio. Uma parte do álbum foi gravada no estúdio Vantone, em Nova Jersey. Obviamente que o repertório do Sir Lord Baltimore era suficientemente bom, mas ter essa infraestrutura e a expertise de Kramer foi fundamental para que o resultado sonoro de Kingdom Come, primeiro e lendário disco do grupo, fosse o que foi. O álbum foi lançado em dezembro de 1970 pela Mercury, com uma bela arte gráfica desenvolvida pelo designer Doug Taylor. A direção de arte do trabalho foi feita por Desmond Stroebel, que dentre muitos feitos, foi quem desenvolveu a arte do multiplatinado Rumours (1977), do Fleetwood Mac.

O álbum pode ser colocado no panteão dos pioneiros do heavy metal sem grandes controvérsias. O disco é indiscutivelmente pesado, urgente, com músicas rápidas e agitadas, marcações precisas de bateria e baixo, riffs de guitarra memoráveis de Dambra e os vocais rasgados de John Garner. Os instrumentos não se destacam exatamente por si só – a força do Sir Lord Baltimore estava no coletivo, na maquinaria da banda toda dedicada a fazer o chão rachar pelo peso. Diferentemente do Black Sabbath, cujo peso evocava uma ambientação de pesadelos, tormentos mentais ou mesmo fantasiosa, o rock pesado do Sir Lord Baltimore era bem mais pé no chão, da metrópole e suas misérias – aglomerações caóticas de gente e carros, poluição, mendigos revirando lixo, relacionamentos problemáticos, etc. Era como se o Sir Lord estivesse conectado com o Black Sabbath, mas soando mais submundo urbano como os Stooges. Apenas a faixa título do álbum já vale o disco todo; um épico de peso e groove, com uma batida avassaladora. Mas o álbum ainda tem outros grandes destaques como “Hard Rain Falling”, “I Got a Woman” e “Hell Hound”.

Kingdom Come lambiscou o fundão do top 200 da Billboard (posição 198 na parada de álbuns) e algumas poucas resenhas favoráveis na crítica especializada. Nesse ponto vale ressaltar que – sem sombra de dúvida – Sir Lord Baltimore foi a primeira banda a receber a alcunha de heavy metal em uma resenha. Ainda que o termo “heavy metal” já existisse, na literatura ou mesmo citados em músicas (a mais clássica menção é em “Born to be Wild”, do Steppenwolf), a primeira vez que o termo foi usado para designar o estilo da banda foi troféu do Sir Lord Baltimore, o que ocorreu pela máquina de escrever do crítico Mike Sander, na revista Creem em maio de 1971. Ainda que a banda tenha feito shows importantes, como no imponente Carnegie Hall e abertura de shows para a J. Geils Band e o Black Sabbath, foram poucos shows de promoção do álbum. O motivo, segundo consta, é que o pau realmente comia ao vivo – era comum os equipamentos serem detonados e avariados, tamanha força e volume com que a banda tocava seu repertório. No Filmore East, por exemplo, o próprio Bill Graham teria intervido no palco, interrompendo a banda que promovia um rebuliço em cima e embaixo do palco; quanto ao Black Sabbath, a disputa entre eles era clara e John Garner, o baterista/vocalista, dizia que os sabáticos eram pra lá de esnobes.

 

Vendo que a direção agressiva do som não estava rendendo o esperado, os executivos do selo e a banda resolveram puxar o freio de mão, já que a Mercury enxergava potencial de sucesso comercial no grupo. O novo álbum então começou a ser produzido na metade de 1971; Joey Dambra, irmão do guitarrista Louis Dambra, foi chamado para integrar o time, tocando teclados, guitarra e ajudando nos vocais. As composições teriam também o dedo do novo produtor da banda, John Linde. Em agosto de 1971, viria o novo álbum, batizado apenas como Sir Lord Baltimore.

Logo de cara, vemos o Sir Lord Baltimore adotando vocais mais sutis e dedilhados na faixa de abertura do seu segundo álbum, em “Man from Manhattan”. Quem vai com muita sede ao pote esperando outro petardo de peso, quebra a cara. O disco passa longe de ser ruim, mas, de forma compreensível, deixa os ouvintes confusos pela mudança de direcionamento em tão poucos meses. O peso ainda se faz presente em alguns momentos, em músicas ricas em variações, mostrando que a banda tinha muita lenha para queimar, mesmo em um terreno diferente.

A aposta não deu certo; o desinteresse do público pela banda em sua roupagem mais light era patente. Não conseguiu agradar os poucos fãs antigos nem tampouco ampliar o leque. Ficou muito difícil continuar, ainda que a banda tenha tentado após algum tempo de hiato. Em 1976 um novo repertório começou a ser elaborado por John Garner e Louis Dambra, mas o projeto foi abortado. Garner teve uma trajetória errática na música; converteu-se ao cristianismo protestante posteriormente, morou na rua por um tempo (após ter perdido o emprego) e ingressou na banda The Lizards nos anos 2000. O baixista Gary Justin abandonou a música e Louis Dambra foi outro que deixou a música em segundo plano. Apenas nos anos 2000 é que o repertório dessa quase “volta” do Sir Lord Baltimore ganhou vida, através de um novo álbum chamado Raw III, contando com Garner e Dambra. A discografia do grupo foi comentada aqui em nosso site, pelas mãos do nosso prolífico escriba Mairon Machado (leia aqui).

4 comentários

  1. Marcello

    Em meio físico, tenho apenas o segundo disco da banda, que consegui numa edição para lá de obscura – nunca identifiquei de onde veio, para falar a verdade. Não me chamou muito a atenção, por isso quando ouvi o primeiro (só digitalmente) descobri que tinha o disco errado!! Sir Lord Baltimore é daquelas bandas que mereciam muito mais sorte do que tiveram!

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    • Ronaldo

      Com certeza! era uma banda muito talentosa; uma pena que a trajetória da banda foi curta, talvez uma atitude rebelde demais, exagerada…mas musicalmente eram demais!
      Valeu Marcello, abraço!

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