Por Fernando Bueno

O Barclay James Harvest fez parte daquela revolução musical que estava acontecendo na Grã-Bretanha ali nos anos de 1966, 1967 e 1968. Muitos daqueles grupos que apenas faziam versões de músicas americanas de rhythm and blues e soul começaram a fazer material próprio totalmente influenciado por esse tipo de som e também pelo psicodelismo que tomava conta do país. Os Beatles com Revolver e Sgt Peppers Lonely Heats Club Band (de 1966 e 1967, respectivamente), por exemplo, estava no topo das paradas. Aí temos uma imensidão de bandas que colocaram todas as suas influencias embaixo do braço e abraçaram essa tendência misturando todos os estilos da época e embarcaram nessa prolífica seara musical.

O Barclay James Harvest foi formado nesse icônico ano de 1967 e, assim como muitos grupos daquela época, tinham muitas boas ideias e um desejo de se estabelecerem como uma grande novidade. Porém só conseguiram gravar seu primeiro disco em 1970. E, ao meu ver, ficaram um pouco deslocados pois tivessem lançado esse disco pelo menos no fim de 1968 ainda estariam junto das bandas da vanguarda do rock psicodélico. Em 1970, talvez, esse tipo de som já estivesse um pouco atrasado. Seu segundo disco Once Again (1971), por exemplo, já se situava no rock progressivo que estava em um período de alta demanda, porém, novamente atrasados, já que músicas como “She Said” lembra muito o que o King Crimson fez em seu álbum de estreia de 1969.

Mas tudo o que estou falando deve ser considerado com o deslocamento temporal que temos hoje em dia e não da época, já que estou tentando entender o motivo de uma banda com tantos predicados não conseguir um sucesso concreto em seu tempo de atuação e hoje acabar sendo consumida apenas por quem gosta de desenterrar boa música. A falta de sucesso do grupo já foi descrita por nosso antigo colaborador Jose Leonardo Aronna em seu texto que aborda seu segundo disco que você pode ler aqui nesse link.

A banda foi formada por John Lees (guitarras, voz e flautas) e Wooly Wolstenholme (teclados, voz e gaita) que se conheceram na escola de Artes de Oldham. Os dois já haviam participado de várias bandas de tradição mais bluseiras. Já Mel Pritchard (bateria) e Les Holroyd (baixo, voz e guitarra) tinham um background mais na linha da soul music. Por volta de 1966 e 1967 esses dois núcleos acabaram se fundindo para se tornar The Blues Keepers que também tinha mais alguns componentes, mas foram os quatro que se tornaram o Barclay James Harvest.

A exemplo de milhares de bandas o quarteto resolveu ir morar todos juntos para se aproximar e criar música. Mas as coisas não aconteceram como todo adolescente sonha para uma situação como essa. O local onde moravam, em Oldham, tinha sido uma estalagem do século 16 e viviam com auxílio de um empresário local que havia conhecido a banda tocando em uma festa da cidade. A vida deles se resumia em compor e tocar, ocasionalmente, no circuito musical local. Os próprios músicos descreviam sua existência na época como “espartana”.

O disco inicia com a lisérgica “Take Some Time On”. Guitarras bem na cara, um riff bem sacado e uma melodia vocal que pega o ouvinte de cara. As orquestrações aparecem em “Mother Dear” fazendo quase que todo o corpo principal da música. “The Sun Will Never Shine” poderia ser uma música do The Moody Blues, com seu refrão épico e cheio de emoção.

Em “Good Love Child” eles retomam o clima mais roqueiro e ácido da faixa de abertura. Caso saísse como single talvez tivesse chamado mais a atenção para a banda. “The Iron Maiden” foi o lado B para o single de “Taking Some Time On”. Tem um trabalho de vozes matador, mas no todo serve apenas como uma introdução para a faixa mais longa do disco.

A música que fecha o disco original, “Dark Now My Sky”, já mostra bastante qual caminho a banda seguiria no futuro. Com uma pegada totalmente progressiva, em sua vertente mais sinfônica, a banda faz variações ao longo de seus doze minutos que vão de passagens somente orquestrais, um belo solo de guitarra e até um trecho somente de baixo e voz. Essa faixa foi talvez a mais trabalhada ao longo do tempo em que estavam compondo e tocando na cena local, até chegar em sua versão final que ficou registrada em disco.

Capa do relançamento de 2002

O disco saiu originalmente com sete faixas, mas quem conseguir a reedição em CD lançada em 2002 vai ter ainda um conjunto enorme de faixas bônus, treze ao todo, com uma versão preliminar de “Dark Now My Sky”, alguns singles lançados anteriormente e que não estavam no disco e outras faixas inéditas até então. Na época foram lançados também o segundo álbum, Once Again, o terceiro, Barclay James Harvest and Other Stories (1971), e o quarto, Baby James Harvest (1972), todos eles com vários bônus, muitos deles inéditos, que faz os colecionadores ficar de olho nessas edições mesmo tendo que relevar o mau gosto da mudança das capas – tentaram criar uma unidade que deixou tudo parecido e desfigurou as imagens originais.

“Early Morning” tem um clima na linha de “Whiter Shade of Pale” sem o mesmo brilhantismo. Já “Mister Sunshine” ataca com um clima meio paz e amor com uma flauta doce fazendo a melodia principal. As duas músicas saíram como lados A e B de um single em 1968 e serviram como um cartão de visitas da banda. Depois, mesmo com a baixa repercussão desse single, conseguiram participar no mesmo ano de um programa na BBC em que executaram seis músicas – todas elas inéditas e presentes nessa versão em CD de 2002. Outro single saiu com as faixas “Brother Thrush” e “ Poor Wages”, também presentes no CD e que não saíram na versão original do disco de estreia. Comparando essas músicas com o que entrou no disco há uma clara evolução, mas todo esse material poderia ter sido aproveitado em um álbum já que a qualidade ainda era muito alta. Outro ponto que fica claro quando se ouve essas músicas e compara-se com o que está presente no disco é o crescente interesse e uso de orquestração. E o ponto de mudança aconteceu no meio do processo de composição em que eles chegaram à conclusão que deveriam alugar um mellotron. A curiosidade que fica é: será que o processo de composição estava tão prolífico que várias ótimas músicas foram completamente esquecidas na hora de gravar o álbum de estreia? Eles não sentiram que estavam desperdiçando material? Essa dúvida fica apesar de ser claro que o que entrou no disco é superior sem sombra de dúvidas.

Um detalhe que pode explicar essas dúvidas apresentadas acima é que durante esse período um outro personagem também aparece na história. Robert John Godfrey ajudou a moldar o som do quarteto, fazendo até parte do line up. Ele era uma espécie de diretor musical sendo responsável justamente pelos arranjos de orquestra. Porém nos créditos do disco ele aparece como arranjador e condutor de duas faixas (“When the World Was Woken” e “Dark Now My Sky”). Porém, como outro músico, Norman Smith, foi creditado da mesma forma para uma outra faixa (“Mother Dear”), assim o nome de Robert Godgrey pode passar desapercebido. Porém graças ao nosso consultor André Kaminski eu não deixei passar batido essa história. O fato é que ele realmente fez parte desses primeiros anos do Barclay James Harvest e algumas fontes dizem que ele sempre foi deixado de lado na história do grupo devido à sua opção sexual e o consequente desconforto das namoradas dos outros componentes do grupo. No segundo álbum ele também é creditado da mesma forma. Ele acabou saindo da banda para uma carreira solo e depois formou o The Enid.

O material original do disco de estreia já é digno de fazer o leitor que não conhece a banda, ou que não conhece esse disco em si, correr atrás. Junto com as faixas extras torna esse lançamento obrigatório para todos os que leem esse texto, já que, se chegaram até aqui, mostram-se interessados nos bons sons daquele período. Faça um favor para você mesmo e vá atrás sem medo!!!

2 comentários

  1. Mairon

    Melhor disco deles em disparado. Once Again é fantástico tb, mas esse é uma obra-prima. Valeu o resgate, Bueno

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  2. Tadeu

    “Everyone is everybody else” (1974) e “Time honoured ghosts” (1975). Estes dois discos são sensacionais!

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