Por Micael Machado

Em 1987, após dois discos mais voltados para a música pop (Camera Camera, de 1981 e Time Line, de 1983, verdadeiros “fiascos” aos ouvidos dos antigos fãs e também em termos comerciais) e de um período de relativa inatividade após a saída do baixista Jon Camp, em 1984, a parceria musical entre a vocalista Annie Haslam e o violonista e compositor Michael Dunford chegava ao final, acabando assim com a trajetória gloriosa do grupo britânico Renaissance, com a última apresentação da turma ocorrendo em 6 de junho de 1987 em New Jersey, nos Estados Unidos.

Addington e Dunford

Annie investiu em sua carreira solo (iniciada ainda em 1977, mas cujo segundo disco sairia apenas em 1989), e Dunford dedicou-se a elaborar um musical baseado na suíte “Song of Scheherazade”, lançada por sua então ex-banda no álbum Scheherazade and Other Stories, de 1975. Durante workshops para selecionar o elenco de seu novo empreendimento, o músico conheceu a cantora americana Stephanie Adlington, cujo talento fez Michael desistir da ideia do musical e montar uma banda para gravar algumas de suas novas composições instrumentais, chamando para compor a parte lírica a antiga parceira Betty Thatcher Newsinger, letrista da maioria das composições do Renaissance desde a primeira encarnação do grupo, em 1969. Com Phil Mulford no baixo, Dave Dowle na bateria, Stuart Bradbury nas guitarras e Andy Spillar nos teclados e programações, gravaram então um álbum com o sugestivo título de The Other Woman em 1994, disco responsável por trazer o Renaissance de volta à vida!

Com uma sonoridade ainda mais contestada pelos fãs do que os dois equivocados “últimos” registros da banda, as canções de The Other Woman podem, de forma simplificada, serem divididas em dois grupos, sendo o primeiro deles o das músicas com tendências mais “pop” e “dançantes”, recheadas de efeitos de teclados e alguns sons de bateria que já soavam datados antes mesmo de serem gravados. Dentre esta turma, o maior destaque vai para a faixa de abertura, “Deja Vu” (composição “balançada” que talvez tivesse chance de emplacar na onda “disco” do final da década de ouro do grupo, mas soava totalmente deslocada em uma época que via o declínio do grunge e a consagração do rock alternativo e do rap no meio musical), e para a longa “Somewhere West Of Here”, única do disco a ultrapassar os seis minutos, com trechos de teclados e violões que chegam a lembrar, bem de longe, algo do trabalho da banda na década de 1970. “Quicksilver” conta com a participação do guitarrista convidado Rory Wilson (ex-integrante do Broken Home, grupo britânico totalmente desconhecido para mim), e “Don’t Talk” é capaz de causar crises em quem sofrer de diabetes, com o alto nível de “açúcar” e “sacarose” de seu arranjo.

Detalhe do encarte de The Other Woman, com total destaque para a cantora Stephanie Adlington

O segundo grupo é o das baladas com maior ou menor intensidade de emoções. Nesta área, Dunford se sai bem melhor, pois a bela voz de Adlington (bastante agradável, preciso reconhecer, mas longe do alcance fantástico de sua antecessora) aparece com mais destaque, e as faixas não soam tão deslocadas no tempo quanto suas colegas de track list. “Lock In On Love” tem um belo e emocionante arranjo, enquanto a curtinha “May You Be Blessed” (cuja duração nem chega a dois minutos) é levada por camas de teclados e alguns trechos esparsos de piano que a tornam realmente bela. Levada ao violão, “So Blasé” possui elementos que a tornam mais “comum” dentro de seu estilo de composição, enquanto a faixa título trata dos problemas pessoais que Thatcher estava enfrentado naquele momento, com o final de um relacionamento (tema que também aparece, com menos ênfase, em outras faixas do álbum). O disco ainda conta com uma versão para “Love Lies, Love Dies”, curiosamente lançada (com resultados melhores) por Annie Haslam naquele mesmo ano, no álbum Blessing In Disguise, e um novo arranjo para “Northern Lights”, que já havia aparecido no disco A Song for All Seasons, de 1978, cujo single da versão original se tornou o de maior sucesso na carreira do Renaissance até hoje (e cuja regravação presente aqui a torna, obrigatoriamente, também a faixa de maior destaque deste registro, embora, a meu ver, inferior àquela com os vocais de Haslam).

Com o álbum tendo sido lançado pela gravadora britânica HTD Records (segundo o Discogs, apenas em CD, sem edições em vinil ou cassete), a arte gráfica da versão original é toda focada em Stephanie Adlington, com várias repetições da mesma foto de seu rosto ao longo das páginas do encarte, além de uma foto sua à beira da água na contracapa e uma outra mais “posada” no início do livreto (imagem esta que abre este texto, aliás). O disco não teve destaque nas paradas, o que não impediu Dunford e Adlington de lançarem um segundo registro, Ocean Gypsy, em 1997, contendo versões acústicas de destaques anteriores da carreira do grupo, que aqui aparece sob o nome Michael Dunford’s Renaissance (o que também acontece na compilação Trip To The Fair, de 1998, que traz um apanhado de faixas dos dois lançamentos anteriores da dupla), o que fez com que a banda nos três álbuns passasse a ser chamada deste modo por fãs e imprensa, algo que não é indicado na capa de The Other Woman, creditado apenas ao Renaissance.

Contracapa da versão original de The Other Woman

Michael Dunford e Annie Haslam voltariam a se reunir em 1998 em uma nova encarnação do Renaissance (que também trazia o baterista Terence Sullivan e o pianista John Tout da “formação clássica” dos anos 1970, e que viria a lançar o álbum Tuscany em 2001), o que “enterrou” de vez o trabalho da parceria entre Dunford e Adlington, com a cantora retornando aos Estados Unidos para ensinar canto na Nashville’s Belmont University, além de ter uma quase inexpressiva carreira solo mais voltada para o jazz. Já Dunford excursionou junto a Haslam e o Renaissance naquele 2001, com a dupla continuando a trabalhar junta nos anos seguintes, mas com Michael infelizmente vindo a falecer de hemorragia cerebral em 2012, época em que trabalhava no que viria a ser Grandine il Vento, disco lançado em sua memória no ano seguinte. Annie segue à frente de uma nova encarnação do Renaissance, sem o acompanhamento de nenhum dos membros da “época de ouro”, e parece que a “chama” do grupo não irá se apagar tão cedo, apesar de contar com alguns momentos onde brilhou de forma mais fraca, como neste The Other Woman.

Track List:

1. Deja Vu
2. Love Lies, Love Dies
3. Don’t Talk
4. The Other Woman
5. Lock In On Love
6. Northern Lights
7. So Blasé
8. Quicksilver
9. May You Be Blessed
10. Somewhere West Of Here

9 comentários

  1. André Kaminski

    Nunca tinha ouvido este disco do Renaissance. A resenha me interessou em ouvir esse lado mais “pop” da banda.

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    • Micael

      André, como diz o distado, “arrisque por sua própria conta e risco”! Para mim, o problema maior do disco não é ser “pop” demais, são os timbres e arranjos escolhidos, que envelheceram muito, muito mal!

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  2. Mairon

    Um dos maiores engodos do rock progressivo, mas não pior do que Camera Camera e Time Line, que são terríveis. Os anos 90 prejudicaram bastante algumas bandas jurássicas, mas os anos 80 foram bem pior, vide Triumvirat, Yes, ELP, Focus, King Crimson e o já citado Renaissance.

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    • Micael

      Mas nem foram tantas as bandas jurássicas que se arriscaram nos anos 90, não? E, ao meu ver, o King Crimson não se saiu mal naquela década!

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      • Mairon

        Perto do que fez nos tempos de In the Court of Crimson King até Red, a trilogia é muuuuuuuuuuuuuuito fraca!!

  3. Leonardo

    Apesar de ser fã do Renaissance, nunca me interessei em comprar esse disco. Ainda bem que não comprei!

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    • Micael

      Leonardo, realmente, é um disco mais para “completistas”, na minha opinião!

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  4. Marco Gaspari

    Fosse eu a Annie Haslam, lançava um disco chamado The Other Band.

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    • Micael

      Embora a carreira da Annie sem o Renaissance tenha momentos muito melhores do que o Renaissance sem ela (descontando, claro, os dois discos da fase inicial…).

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