Por Mairon Machado

Dando sequência aos lançamentos de box recentes de Glenn Hughes, que resgatam apresentações do músico em carreira solo, hoje apresento o segundo volume, com shows entre 1993 e 2013. Diferente do primeiro volume, este conta com seis CDs. É uma mídia a menos, e não é só musicalmente que perdemos, mas também do ponto de vista visual, já que o primeiro volume traz um livreto com informações do que está no CD, e aqui, apenas um encarte-pôster com propagandas para os relançamentos de oito álbuns de Hughes em carreira solo, no formato duplo, e informações básicas das canções de cada um dos CDs, sem se aprofundar no que está em cada mídia.

Apesar disso, o Box é tão bom quanto seu antecessor, e também começa com um disco não inédito, no caso a compilação Incense And Peaches: From The Archives Volume 1, que foi lançada originalmente em 2000, e que resgata obras nunca lançadas da carreira de Hughes, registradas entre 1995 e 1998. O álbum foi o primeiro a ser lançado pelo selo próprio de Hughes, o Pink Cloud Records, em uma tiragem muito limitada, e agora, chega em uma tiragem maior para os fãs de The Voice of Rock. Na mídia, temos canções ao lado de Ritchie Kotzen (“Against The Grain”, “Down The Wire” e “Stoned”, que apareceu em uma versão diferente no álbum Wave Of Emotion, de 1996), Roy Z (“Let’s Get Together”), JJ Marsh (“Inside & Above”) e canções que ficaram de fora de Feel (1995), bem como a versão demo de “Push”, que foi lançada em 1995. São onze canções (e uma breve vinheta, que é uma gravação caseira na qual honestamente não consegui entender o sentido, chamada “Hey Ken, Are You Home?”), em uma obra bem diferente, onde o casamento das técnicas vocais de Hughes com a ginga da guitarra de Kotzen soa muito bem. O álbum não apresenta nada de hard rock ou de Hughes ao Sabbath (como poderia imaginar um fã ao ver a imagem de Hughes e Tony Iommi na capa), sendo mais voltado ao pop e ao lado mais dançante da carreira de Hughes, que honestamente, não é muito atrativo no geral (há coisas assustadoras, como “Jolayne”, “What Is Your Role?” e You Are My Dream! que são inexplicáveis para um disco de Hughes. O Volume 1 indica que haverão outros tipos de lançamento similar, mas até o momento, e passados 21 anos do lançamento original, até agora nada. Para piorar, não há nenhuma informação de músicos acompanhantes, mas pesquisando encontrei a participação de Gary Ferguson  bateria), George Nastos (guitarra) e Hans Zermüehlen (teclados) em “Jackie Got The Call Today”, e só. Achei um pouco de descaso com o fã.

No segundo CD, somos levados para Börlange, Suécia, no dia 17 de junho de 1993, com a apresentação no Blitz Nightclub daquela cidade. Neste show, Hughes está acompanhado de Eric Anders Bojstedt (guitarra), Thomas Larsson (guitarra), Ian Haugland (bateria), Mic Michaeli (teclados) e John Léven (baixo). É o time que ficou conhecido como Hughes-Europe, por ter nomes ligados ao grupo Sueco (os três últimos), e que excursionou pela Escandinávia entre 93 e 94. No repertório, uma mescla de canções do Deep Purple (“Burn”, “Gettin’ Tighter”, a surpresa “Smoke On The Water”, “This Time Around” e “You Keep On Moving”), Trapeze (“You Are The Music”), do projeto Hughes/Thrall (“Coast To Coast”, “I Got Your Number” e “Muscle And Blood”), todas em versões muito próximas aos originais do ponto de vista instrumental, mas sempre com uma novidade e surpresa na parte de interpretação por Hughes. Temos também canções do então recém lançado álbum solo de Hughes, Blues (L.A. Blues Authority Volume II), de 1992, as quais são “A Right To Live”, “So Much Love To Give” e “The Boy Can Sing The Blues”. Além disso, temos também uma linda revisão para “The House Of The Rising Sun”, aquela que ficou famosa com o Animals, aqui em uma linha que lembra bastante os traços de guitarra de Jimi Hendrix, e uma breve interpretação de “Georgia On My Mind”, de Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell, e que ficou famosa na voz de Ray Charles, e que claro, Hughes esbanja suas influências de soul music e falsettos agudíssimos, acompanhado pelo piano de Michaeli. Sensacional. A qualidade de gravação é típica de um bootleg, bastante abafada, com o baixo e teclados quase inaudíveis, mas vale a pena por conta da rara oportunidade de ouvirmos as canções de Blues ao vivo, por que basicamente após essa tour elas foram eliminadas dos track lists de apresentações de Hughes, e como Hughes está mandando ver, com a voz afiadíssima.

O terceiro CD nos mantém na Escandinávia, com o Show de Göteborg, Suécia, no Zoo Club, em 10 de setembro de 1993. O time que acompanha Hughes é praticamente o mesmo do CD 2, com exceção da bateria, agora com Hempo Hildén empunhando as baquetas. No track list, apresentações de canções que fariam parte de From Now On, o qual foi lançado em 1994, as quais são “Liar” e “Lay My Body Down”, que pega uma plateia bastante receptiva para as novas canções. “House of the Rising Sun” está novmente no track list, mais próximo a versão do Animals, e claro, Deep Purple (“Gettin’ Tighter”, “This Time Around” e “You Keep On Moving”) e Hughes/Thrall (“Coast To Coast”e “I Got Your Number”), além da revisão de “Georgia On My Mind” na mesma linha do show de Börlange. Novamente a qualidade de gravação é muito precária, com teclado e baixo inaudíveis, mas os vocais de Hughes estão perfeitos, assim como guitarra e bateria. Ficaram de fora do CD três canções que pertenceram ao track list apresentado (“Burn”, “Muscle and Blood” e “Smoke on the Water”), e assim, para fechar o CD, temos como bônus cinco canções de uma apresentação no The Cathouse, em Glasgow, Escócia, no dia 08 de novembro de 1995, na turnê de Feel, com “Muscle and Blood”, “This Time Around” (com a plateia cantando em uníssono, de forma emocionante) e “You Are The Music” das bandas que Hughes passou, e “Big Time” e “Talkin’ to The Messiah”, pertencentes ao álbum que estava sendo promovido na época. Não há informação dos músicos que acompanham Hughes aqui, mas através do site oficial de Hughes, encontrei o time com Glenn Hughes nos vocais, George Nastos (guitarra), Dave Patton (guitarra), Ruben Voltiera (teclados), Paul Kirkham (baixo) e Glenn Deitsch (bateria), e a qualidade de gravação é ainda pior que o show de Estocolmo, muito abafada, valendo apenas pela raridade de se ouvir Hughes ao vivo com essa formação. Estas cincos canções apareceram como bônus no bootleg A Dino in Gino, cujas canções “oficiais” são exatamente as que estão no quarto e quinto CDs desse box.

Trata-se de uma apresentação que divulgou o álbum Addiction em Estocolmo, no dia 10 de novembro de 1996. A banda é formada por Hughes (baixo, vocais), Lars (Lasse) Pollack (teclados), Sampo Axelsson (baixo), J. J. Marsh (guitarras) e Morgan Ågren (bateria). Os dois CDs trazem o show completo, com uma boa qualidade de gravação, e que parece nos colocar próximo ao palco do Gino Club, novamente mesclando a carreira solo, agora com cinco discos na época, e clássicos das bandas em que passou. Assim, ouvimos quatro canções de Addiction, a saber a faixa-título, “Cover Me”, os encantadores oito minutos de “I Don’t Want To Live That Way Again” e a belíssima “Talk About It”, bem como a paulada “Push!”, de Feel. Dos clássicos, temos Hughes/Thrall (o espetáculo vocal de “Coast To Coast”, e “First Step Of Love”) , versões estendidas do Deep Purple (“Gettin’ Tighter”, com os improvisos utilizados na época da turnê de Come Taste the Band, os dez minutos de muitas vocalizações e falsetes de “You Keep On Moving”, o solo de bateria em “You Fool No One” e “Burn”, com um imperdoável erro de J. J. Marsh, kkkkkk) e as surpresas do Trapeze, “Way Back To The Bone”, “Touch My Life” (que abrem o show) e o swing de “Your Love Is Alright”, mostrando que o funky está no genoma de Hughes. Como bônus desse show, são adicionadas duas gravações caseiras, as quais são uma fenomenal interpretação para “Goodbye to Romance”, de Ozzy Osbourne, acompanhado por violão, baixo e bateria, e um improviso sobre escalas de blues, com Hughes soltando sua voz rasgada na canção batizada simplesmente de “12-Bar-Blues”, ambos gravados em 1992.

Por fim, o sexto e último CD viaja para Roma, em 2013, no dia 30 de maio, com a apresentação no Crossroads Live Club, e um repertório focado basicamente nos clássicos do Deep Purple, com nada mais nada menos que sete das onze canções sendo dos britânicos (“Burn”, “Gettin’ Tigher”, “Might Just Take Your Life”, “Mistreated”, “Sail Away”, “Sotrmbringer” e “You Keep On Moving”). Temos ainda dois espetáculos de versões do Trapeze (“Black Cloud” e “Sinful”), surpreendentes, “Soul Mover” da carreira solo e uma swingante revisão para “Superstition”, de Stevie Wonder. Infelizmente o CD não informa quem acompanhou Hughes nesse show, nem o site oficial de The Voice of Rock, mas pelo que consegui encontrar de informações, ele esteve acompanhado da Matt Filippini Band. Não tenho como afirmar. A qualidade de gravação novamente cai bastante, mas nada impossível e ouvir. Fica só a sensação que se tivéssemos um Jimmy Page por trás desses lançamentos, ou mesmo um Steve Wilson, certamente o processo de restauração desses shows ia ser bem melhor.

Mas fica o registro para a posteridade de mais meia dúzia de CDs, que eterniza para sempre registros de um dos principais artistas da história da música. O Box musicalmente perde em relação ao primeiro volume, mas mesmo assim, é um achado por contar com as raras canções ao vivo de Blues, bem como as preciosidades apresentadas ao longo dos seis CDs. E claro, ouvir Hughes cantando, tocando, e sempre acompanhado por ótimas bandas, é sempre muito bem vindo a qualquer hora. Mês que vem apresento a terceira (e última por enquanto) caixa da série!

Track list

CD 1 Incense And Peaches: From The Archives Volume 1

1. Down The Wire

2. Against The Grain

3. Jackie Got The Call Today

4. Jolayne

5. Let’s Get Together

6. Stoned

7. What Is Your Role?

8. You Are My Dream!

9. Doublelife

10. Push! (La Demo)

11. Inside & Above

12. Hey Ken, Are You Home?

CD 2 Blitz Nightclub In Börlange, Sweden (17/06/1993)

1. Burn

2. Muscle And Blood

3. A Right To Live

4. So Much Love To Give

5. You Are The Music

6. The House Of The Rising Sun

7. Coast To Coast

8. This Time Around

9. Gettin’ Tighter

10. You Keep On Moving

11. Smoke On The Water

12. Georgia On My Mind

13. The Boy Can Sing The Blues

14. I Got Your Number

CD 3 Zoo Club, Göteborg, Sweden (10/09/1993)

1. The Liar

2. The House Of Rising Sun

3. Lay My Body Down

4. Coast To Coast

5. This Time Around

6. Gettin’ Tighter

7. You Keep On Moving

8. I Got Your Number

9. Georgia On My Mind

10. Big Time

11. You Are The Music

12. Muscle And Blood

13. This Time Around

14. Talkin’ To The Messiah

CD 4 Gino, Stockholm, Sweden (10/11/1996 – part 1)

1. Way Back To The Bone

2. Touch My Life

3. Cover Me

4. Push!

5. Talk About It

6. First Step Of Love

7. Coast To Coast

8. Your Love Is Alright

9. Gettin’ Tighter

10. I Don’t Want To Live That Way Again

CD 5 Gino, Stockholm, Sweden /10/11/1996 – part 2)

1. You Keep On Moving

2. Addiction

3. You Fool No One

4. Burn

5 Goodbye To Romance (1992)

6. 12-Bar-Blues (1992)

CD 6 Live In Rome (30/05/2013)

1. Stormbringer

2. Might Just Take Your Life

3. Sail Away

4. Black Cloud

5. Mistreated

6. Superstition

7. Sinful

8. Gettin’ Tighter

9. You Keep On Moving

10. Soul Mover

11. Burn

2 comentários

  1. Marcello

    A resenha da primeira box deixou vontade de ir à procura dela para comprar, mas a segunda, nem tanto. É minha impressão ou há uma perda significativa de qualidade da segunda para a primeira, em termos puramente musicais? Quer dizer, parece que Hughes escolheu aqueles bootlegs gravados num cassete com microfone de walkman escondido no bolso traseiro da calça de alguém no fundo da plateia…

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    • Mairon

      Ahauhauhauha. Valeu Marcello, a definição é bem essa mesmo. A qualidade em termos musicais perde muito em relação ao box 1. Vale mesmo por conta da fase Blues, mas só isso. É um box que para quem não é colecionador, não vale a pena. Abração

      Responder

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