Por Ronaldo Rodrigues

Para quem não conhece o termo, bootlegs são discos não autorizados pela banda, produzidos por fãs com material captado também sem autorização. Em geral, bootlegs trazem as performances “cruas”, tal qual foram executadas. Discos ao vivo oficiais tendem a ter um tratamento melhor, inclusive captando performances de diversos shows diferentes (ou uma série de shows) visando oferecer ao ouvinte uma performance perfeita, sem erros ou problemas técnicos. Na pesquisa para esse tema me deparei com o seguinte questionamento em um texto de referência – o que seria um bom bootleg? A pergunta é realmente muito boa. A resposta que desenvolvi diria que um bom bootleg consegue conciliar uma performance muito boa, uma qualidade de som ao menos razoável (há muita subjetividade nessa parte) e um bom setlist (representar bem uma tour, trazer algo inédito ou incomum). Se tudo isso ainda vier com uma boa história para contar no pacote, tudo fica ainda mais interessante. É muito difícil conciliar todos esses quesitos, mas essa seleção de discos visa trazer um misto de todas essas coisas para uma das bandas com a maior oferta de bootlegs da história – Led Zeppelin.

Não é por menos – o Led Zeppelin foi a banda mais famosa e renomada em uma época em que o rock se tornou algo gigantesco no mundo inteiro. Então, os fãs e os técnicos de som tentavam de diferentes maneiras guardar registros dos poderosos shows que a banda fazia, fosse como um souvenir ou como uma forma não lícita de levantar uns trocos. O Led Zeppelin tem uma enorme legião de fãs, que constrata com um séquito eloquente de detratores, que nesses anos de redes sociais conseguiram amplificar suas bandeiras questionando o talento e a importância da banda, dando excessiva ênfase nas apropriações não creditadas. Um dos pontos criticados é justamente a performance do Led Zeppelin nos palcos. Ainda que seja possível reconhecer os tropeços dos músicos nas suas performances ao vivo, é preciso colocar as coisas em uma perspectiva muito clara, colocar os pingos nos “is”. O show business era muito mais acelerado naqueles tempos do que hoje. Não existe hoje praticamente nenhuma banda grande que lance um disco por ano (quiçá mais de 1 álbum em intervalo menor do que 12 meses), nem realize turnês com shows diários ou com intervalo mínimo por diversos anos seguintes. Se pensarmos que em 1969 o Led Zeppelin colocou dois discos no mercado e fez duas longas turnês americanas, um leitor atento poderia se perguntar – qual era o tempo que esses caras tinham pra compor ou ensaiar para uma turnê? A coisa era feita na base do “trocar o pneu do carro com o carro andando”. Tudo era feito nos hotéis, aviões ou vans em ritmo frenético. E esse ritmo foi mantido na carreira do Led Zeppelin de forma quase ininterrupta por quase 4 anos.

Nisso, se o leitor ainda achar ser possível o Jimmy Page acertar todas as notas de todas as músicas em todos os shows, ou o Robert Plant aguentar o tranco dos agudos em todos os shows, ou ainda o John Bonham não perder a cabeça do compasso em algum momento, só sendo deus mesmo. Coloque no meio dessa história toda o ego inflado pela fama rápida, as bajulações, as garotas, as chapações de droga e bebida, etc. É razoável esperar um show perfeito de um grupo que tenha meses para ensaiar para uma turnê e faça shows espaçados. Não era o caso do Led Zeppelin. Nisso, apenas ignorantes não são capazes relevar as imperfeições das performances. E olha que 80% de mais das frequentes 2 h de show que a banda dava era puro acerto. Os bootlegs dessa lista primam exatamente por mostrar o Led Zeppelin em noites inspiradas em diferentes fases de sua carreira. Vamos a eles.


Texas International Pop Festival [1969]

O fim dos anos 60 e o início dos anos 70 foi a era dos festivais. Mas o Led Zeppelin participou de poucos deles, muito por estratégia de promoção pensada por Peter Grant, de mostrar que a banda não devia dividir palco com ninguém (nem mesmo banda de abertura). No início de carreira, no entanto, a visibilidade dependia desse tipo de vitrine. Um dos poucos festivais ao ar livre do período agraciados com o Led Zeppelin no line-up foi o Texas International Pop Festival, que aconteceu duas semanas após Woodstock. A qualidade de som desse registro não é das mais incríveis, mas é uma das performances que explica a reputação que a banda construiu logo no início de sua carreira. John Paul Jones e John Bonham entrosadíssimos; Jimmy Page deitando e rolando e Robert Plant com a voz calibrada e muito afinada; isso que temos aqui em estado bruto. O setlist traz a banda abrindo o show com uma poderosa versão de “Train  Kept A Rollin”, que serviu para aquecer as turbinas, incluindo uma boa dose de improvisação. Em seguida, “I Can’t Quit You Babe” mostrava a irreverência com que o Led Zeppelin tocava o blues e o peso que imprimia nesse estilo. 15 minutos de “Dazed and Confused” explodem a cabeça do ouvinte com o baixo de JPJ em evidência e uma longa versão de “You Shook Me” é o grande destaque do show, com todos os músicos improvisando muito. “How Many More Times” é outra que vem em versão quilométrica, na qual a banda improvisa livremente e faz célebres inserções de trechos de blues e rock n’ roll, tão comuns em suas performances nos anos seguintes. É de se invejar os participantes desse festival , que além de terem visto um grande momento do Led Zeppelin nos palcos, ainda assistiram shows de Grand Funk Railroad, Janis Joplin, Johnny Winter, Ten Years After, Chicago, Canned Heat, Santana, B.B King, Freddie King e muitos outros grandes artistas.


Montreux 1970 [1970]

Para quem conhece o material do DVD oficial do Led Zeppelin lançado em 2003, verá que esse show tem um setlist bastante parecido com o do fantástico show da banda no Royal Albert Hall no início de 1970. Esse show aconteceu em março, no famoso Cassino de Montreux, na Suíça (o mesmo que inspirou “Smoke on the Water” do Deep Purple). Diferentemente do som tratado e apurado do DVD, aqui você ouve a crueza charmosa dos bootlegs; diferentes álbuns não oficiais, com diferentes nomes e capas trazem registro desse mesmo show. A abertura com “We’re Gonna Grove” mostra um John Bonham endiabrado, fazendo viradas surpreendentes e Jimmy Page soltando fogos pelas ventas! Robert Plant também está em grande forma, com agudos viscerais, cantando com muito gás. “Heartbreaker” é introduzida com Jimmy Page trazendo o riff de “Rice Pudding” do Jeff Beck Group; Jonh Paul Jones fica um pouco sem saber o que fazer mas logo se acha e o riff cavalar da canção coloca tudo nos trilhos novamente. Jimmy Page faz um solo inicialmente bem fiel à versão de estúdio e depois traz ideias improvisadas bem interessantes, para explodir junto com a banda toda. “Since I’ve Been Loving You” é outro grande destaque, com John Paul Jones no Hammond, Jimmy Page voando baixo e Robert Plant com uma interpretação absurdamente emocionante – de arrepiar! Em seguida, Jones faz um solo de órgão com tintas progressivas (que até lembra passagens de músicas do Focus) para desaguar na belíssima e poderosa versão de “Thank You”. Por fim, “Whole Lotta Love” é tocada em estrutura igual a versão de estúdio, o que não era muito frequente na ocasião, já que a música era enxertada com muitos improvisos e inserções de canções de blues e rock do fim dos 50’s/60’s. Outro detalhe interessante desse bootleg é ouvir trechos de conversas da plateia nas partes mais silenciosas. Apesar de o registro ter oscilações de qualidade de captação, a performance da banda é tão boa que supera essas limitações técnicas.


Any Port in a Storm: Southampton University [1973]

É um bootleg com boa qualidade de som, captado de um show do Led Zeppelin em sua terra natal. Era a turnê de Houses of the Holy, a mesma retratada no filme/álbum The Song Remains the Same. Mas aqui temos a versão crua da história toda, na qual a banda já mostra mais maturidade, centrada em uma estrutura mais definida de arranjos e momentos de improviso. Ainda que a voz de Robert Plant denotasse cansaço, ele faz boas adaptações e não perde a linha na maior parte do tempo. Jimmy Page brilha na hora do solo em “Black Dog”. “Dancing Days” é bem divertida e mostra a classe de John Paul Jones, mesmo nesse período em que seu baixo passou a ser mais discreto na banda. A faixa “The Song Remains the Same” era inclusa no meio do setlist, diferentemente das turnês seguintes onde ela era a faixa de abertura; aqui somos brindados com uma bela versão e outro momento em que Jimmy Page brilha, com ótimas alternâncias entre a guitarra de 12 cordas e de 6 cordas, com o poderoso acompanhamento de John Paul Jones e John Bonham. “Stairway to Heaven”, com belíssima interpretação de Robert Plant e a precisão de John Paul Jones nos teclados. Uma curiosidade é a versão de “Thank You” acompanhada por mellotron, ao invés do órgão Hammond, que deu um realce interessante. O destaque fica com “How Many More Times”, tocada em estrutura bem próxima a sua versão de estúdio, com John Bonham arrasador e Robert Plant idem, emendando de forma avassaladora com “Communication Breakdown”, para concluir esse grande registro.


Snow Jobs – Live in Vancouver [1975]

Robert Plant e Jimmy Page tiveram problemas de saúde ao longo da turnê de 1975 – Plant passou boa parte da turnê com gripe e Jimmy Page lesionou o dedo de uma das mãos. Mas ambos se esforçaram bastante e, com o profissionalismo de praxe, não deixaram a peteca cair, nesse registro de boa qualidade de som, captado na passagem da banda pelo Canadá. O baixo de John Paul Jones está em evidência nessa captação e mostra como ele ia incrementando as linhas de baixo das bases das músicas – um exemplo de sua elegante atuação é “Over the Hills and Far Away”. John Bonham também ia mostrando uma crescente sofisticação de sua bateria. “The Song Remains the Same” é onde Jimmy Page tem um de seus melhores momentos no show, com um poderoso acompanhamento da banda toda. “Kashmir” é outro grande destaque do setlist, no qual John Paul Jones faz o baixo com o pedal e dá um peso extra a música. Já John Bonham liquida a fatura com um solo longo e destruidor em “Moby Dick”. No final, “Whole Lotta Love” se mistura com “Black Dog” e a plateia já está rendida, com todos dando o melhor de si até o fim.


Listen to this, Eddie [1977]

Esse bootleg retrata as loucuras da turnê americana de 1977, recheada de episódios insólitos e muita loucura. A banda toda entra no palco muito entrosada e com muito gás – “The Song Remains the Same” é tocada bem mais rápida no início do que o normal e a plateia fica enlouquecida! Robert Plant canta muito bem o tempo todo e John Bonham mostra sua evolução como baterista ao longo dos anos, trazendo um fraseado muito criativo, devidamente respondido pelo baixo de John Paul Jones, que nessas alturas adotou o modelo Alembic como sua identidade sonora. Só por essa abertura, já vale o show e o bootleg. “Sick Again” começa como “The Rover”, mas Jonh Paul Jones logo puxa a faixa para uma entrada meio insegura de Jimmy Page, que logo retoma as rédeas da história e manda brasa em um fantástico solo. “No Quarter” é apresentada em versão quilométrica, na qual John Paul Jones se mostra como um tecladista de respeito, tanto no piano elétrico quanto no acústico. Robert Plant é outro que brilha na canção, seja pela interpretação, seja pelos longos agudos. “Heartbreaker” é resgatada em grande estilo, com Plant mandando ver e Jimmy Page soltando faísca. A emenda de “Whole Lotta Love” com “Rock n’ Roll” fecha com grande estilo, onde a banda mostra seu poder de fogo.

13 comentários

    • Fabio Rossi Torres

      Youtube tem tudo: Canais Led Zeppelin Boots e Led Zeppelin Rarities

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  1. Marcello

    Acho que todo mundo tem seu bootleg favorito do Led Zeppelin… Pure Blues (1970) e Conquistador (1975) para mim são imbatíveis!

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  2. Mairon

    “mostrar que a banda não devia dividir palco com ninguém (nem mesmo banda de abertura).”

    Sim, tomaram vaia dos próprios fãs depois que a Grand Funk detonou no palco kkkkk

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    • Ronaldo Rodrigues

      isso aí foi um episódio pontual! Adoro o Grand Funk (os discos pré We’re an american band), mas eles nunca fizeram sucesso fora dos EUA, viraram pop muito cedo e nem foram uma banda com a mesma envergadura do Led Zeppelin.

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      • Mairon

        Falei zoando Ronaldo, kkkk. É que aquele evento foi cômico

      • GFR > LZ

        Sujeito fica ofendido quando alguém faz uma crítica a uma banda de rock kkkkkkkkkkkkkkkkkk
        Amadureça cara

  3. Mairon

    Esses bootlegs são fora do normal mesmo. Led, Yes e Pink Floyd são as bandas que mais tenho bootlegs, e cAinda indico mais cinco:

    Drag Queen – Showzaço da turnê do Houses of the Holy, gravado em Nova Iorque. 30 minutos de Dazed and Confused, 22 de Moby Dick, 15 de No Quarter …

    Brutal Artistry – incrível bootleg que mostra as gravações do Physical Graffitti, e como foi trabalhoso fazer Kashmir

    Live at Earl’s Court 75 – 3 horas e meia de show, com o set acústico matando a pau

    In Through The Out Door The Complete Outtakes And Rehearsals – A dificuldade do Bonham para gravar “Carouselambra” é digna de estudo

    Knebworth 79 – O que John Paul Jones e John Bonham fazem com “Achilles Last Stand” é de chorar

    Tem uma caixa chamada Studio Sessions Ultimate com 12 CDs que é formidável. Traz diversos outtakes registrados desde o primeiro álbum. Raríssima!!

    Valeu Ronaldo

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  4. Micael

    Tenho alguns bootlegs do Led, mas dos citados só ouvi o de Montreaux.

    Sou daqueles que preferem a banda ao vivo do que em estúdio (essas pessoas existem ou sou só eu?), especialmente depois do lançamento do 4, onde os álbuns passaram a não me atrair tanto, mas nos shows o bicho sempre pegava.

    O “problema” de querer colecionar bootlegs do Led é que, ou você fica com versões incompletas dos shows, ou se prepara para bancar cds e vinis triplos ou maiores, para contemplar os já citados longuíssimos shows da turma. E, para isso, haja grana!

    Parabéns pela matéria, Ronaldo! Excelente!

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    • Ronaldo Rodrigues

      É, fica salgado pra caramba! principalmente os das tours de 77. Quase todos são triplos!
      Tb sou outro que gosto muito do LZ ao vivo, mas tenho enorme amor pelos de estúdio, pq são muito bem gravados, produção excelente e tal.
      Abraço!

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  5. Márcio

    O West Was Won para mim é imbatível o nível da sonoridade desse álbum é algo impressionante.

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