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Por Bruno Marise

Em maio desse ano, completaram-se 26 anos de um dos discos de estreia mais impactantes do rock nacional. Mas por que um álbum tosco, barulhento, sujo e completamente desbocado conseguiu fazer tanto sucesso e vender milhares de cópias, agradando até o público de fora do rock? Calma que eu vou explicar. Ou tentar, pelo menos.

Sujeira, barulho, distorção, velocidade, putaria, bagaceira. Era tudo o que o rock brasileiro e a molecada da época precisavam na metade dos anos 90. E os Raimundos tinham isso de sobra, com uma pegada e uma energia elevadas ao extremo. Após uma década repleta de bandas pasteurizadas, megaproduzidas e totalmente comerciais (sem falar do auge do brega e do sertanejo corno), os Raimundos meteram o pé na porta, pegando na veia dos jovens sedentos por algo que fazia falta há muito tempo.

Rodolfo, Fred, Canisso e Digão

Nascido em Brasília, no final dos anos 80, o grupo tocava basicamente covers de Ramones, (Daí o nome, uma versão abrasileirada da banda nova iorquina) mas logo sacou que forró (todos os integrantes possuíam ascendência nordestina) era possível de ser tocado com guitarras, e passaram a fazer versões hardcore das músicas do forrozeiro Zenílton, mistura que foi intitulada de Forrócore. Com uma fita demo gravada em 1993 dando o que falar e correndo de mão em mão. Não demorou a aparecerem convites para tocar no Rio de Janeiro, e abrir para bandas como Ratos de Porão, Camisa de Vênus e também os Titãs, donos do selo independente Banguela, projeto da banda com o finado produtor Carlos Eduardo Miranda, que prometeu gravar 4 bandas diferentes com o orçamento de produção de apenas um disco dos Titãs.

Lançado em 1994, Raimundos, destilava músicas pesadas, letras recheadas de palavrões e referências a sexo, drogas e violência. Guitarras distorcidas, riffs pegajosos, baixão na cara, bateria frenética e letras cuspidas velozmente por Rodolfo, era como soava a estreia dos brasilienses, hardcore com muito peso e influências nordestinas. Completava a banda Digão(guitarra), Fred (bateria) e Canisso (baixo).

O grupo bem no início

A primeira faixa é a já conhecida pelo público, “Puteiro em João Pessoa”, onde Rodolfo, filho de paraibanos, narra a aventura de sua primeira experiência sexual, proporcionada pelos dois primos mais velhos. Sem dúvida um clássico da banda, com um riff grudento, letra bem humorada e muita energia. “Palhas do Coqueiro” é o exemplo de como uma música de corno deve ser, “Debaixo de um teto de espelhos/É onde tu estás a me chifrar/Eu fico aqui coçando os meus córneos/Imaginando em que motel você está/Eu acho que o grande motivo agora eu sei/Você deve pensar que eu sou broxa ou que eu sou gay (…)”.

A maioria das faixas tem características e pegada muito parecidas, mantendo sempre a sonoridade pesada e as letras escrachadas. Ainda podemos destacar o primeiro single do disco, “Nega Jurema”, que conta a história absurda de uma traficante de maconha, que foi salva por um milagre. Uma verdadeira ode à cannabis que se repete em “Bê a Bá”: “Eu já conheço as pistoleira e cansei de mulher rampeira/A única que não me cansa é a tal de Maria Tonteira/Por ela eu como vidro, subo a nado cachoeira/Se ela vier prensada apertada é mais maneira”.

Encarte do LP

A temática nordestina é constante no disco, e aparece em praticamente todas as músicas, contendo até versões de canções regionais populares como “Cajueiro/Rio Das Pedras”, “Carro Forte” e “Deixei de Fumar (Cachimbo da Mulher)”, e inclusive o uso de instrumentos típicos como acordeon e triângulo. E não dá pra esquecer das poéticas “Bicharada”, “Cintura Fina” e “Minha Cunhada”, com sua pegada ramônica.

“Selim”, a última faixa, entrou meio a contra gosto dos integrantes, que não queriam uma “balada” enfiada em meio à porradaria. Mas foi ela que ajudou a alavancar as vendas de Raimundos, com sua letra debochada e melodia grudenta. Raimundos vendeu 150 mil cópias, recebendo disco de ouro, e provou que era possível fazer música pesada, com letras em português e ao mesmo tempo pagar as contas, e serviu de influência para inúmeros grupos que viriam depois, mesmo que muito menos relevantes e de qualidade inferior. No ano seguinte veio o disco de platina com Lavô tá Novo (1995) e a consagração nacional, mas foi aqui que os brasilienses botaram o rock pesado de novo no mapa do cenário musical brasileiro.

Contra-capa do CD

Track list

  1. Puteiro Em João Pessoa
  2. Palhas Do Coqueiro
  3. MM’s
  4. Minha Cunhada
  5. Rapante
  6. Carro Forte
  7. Nega Jurema
  8. Deixei De Fumar Cana Caiana
  9. Cajueiro Rio Das Pedras
  10. Bé A Bá
  11. Bicharada
  12. Marujo
  13. Cintura Fina
  14. Selim

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