Por Daniel Benedetti

Em 1981, o selo francês Carrere Records lançou o álbum de estreia do conjunto Dokken, Breaking the Chains, apenas na Europa.

O disco foi gravado na Alemanha, onde o Dokken criou estreitos laços com Michael Wagener, produtor musical e engenheiro de som do gigante alemão Accept. E foi a gerente do grupo alemão, Gaby Hauke, quem conseguiu o contrato do conjunto com a gravadora francesa.

O álbum saiu com o nome de Breakin’ the Chains e sob o nome de Don Dokken, além de alguns nomes de canções grafados de modo errado. Naquela época o grupo era formado pelo líder e vocalista da banda Don Dokken, pelo guitarrista George Lynch, pelo baixista Juan Croucier e pelo baterista Mick Brown. Esta versão contém algumas mixagens e títulos diferentes de músicas da edição posterior norte-americana. “Paris is Burning” é chamada apenas de “Paris” e é, na verdade, uma versão de estúdio em oposição à gravação ao vivo em Berlim de dezembro de 1982. O álbum também continha uma música chamada “We’re Illegal”, que mais tarde foi transformada em “Live to Rock”.

De volta aos Estados Unidos, o Dokken agora era gerenciado por Cliff Bernstein, o qual fez a banda assinar contrato com a Elektra Records para o lançamento do disco nos Estados Unidos, Breaking The Chains, em versão remixada para o mercado americano.

Breaking the Chains foi lançado no mercado norte-americano em 18 de setembro de 1983, pelo selo Elektra Records.

A banda fez uma turnê de arena, nos EUA, apoiando o Blue Öyster Cult, em 1983, mas, ao seu final, o conjunto ficou com pouco dinheiro e quase foi demitido da gravadora devido à falta de sucesso do disco. O álbum foi considerado um fracasso comercial pela gravadora, que teve a intenção de desfazer o contrato com a banda. No entanto, o gerente do Dokken, Burnstein, convenceu a Elektra de que eles poderiam fazer um álbum mais bem-sucedido, que se materializou no disco seguinte.

Embora a banda tenha sido muito popular na Europa durante esse período, eles ainda não haviam feito progressos comerciais nos Estados Unidos. Revistas como a Kerrang! publicaram sobre o Dokken no Reino Unido. Com a ameaça de ter seu contrato com a Elektra Records encerrado, o Dokken partiu para sua “última chance” com a gravadora, literalmente, com as costas contra a parede.

George Lynch

Mas os problemas começariam a surgir.

Primeiro, o baixista Juan Croucier deixou o grupo para se juntar ao Ratt, cuja carreira, estava prestes a decolar. Em segundo, mas não menos importante: o guitarrista George Lynch havia desistido e voltado à banda, várias vezes.

Era evidente, desde o início, uma incompatibilidade manifesta de caráter entre Lynch e o vocalista Don Dokken, impedindo que ambos trabalhassem juntos e, mais de uma vez, deflagrassem uma hostilidade aberta.

Durante as idas e vindas de Lynch, Don Dokken testou outros guitarristas, incluindo Warren DeMartini, o qual, mais tarde, também se juntaria ao Ratt. Paralelamente, Lynch fez uma audição para a banda de Ozzy Osbourne, como possível substituto do falecido Randy Rhoads, mas não foi selecionado. Assim, finalmente, decidiu-se por permanecer com o Dokken após o lançamento de Breaking the Chains nos EUA. Para preencher a vaga de baixista, o gerente da Shrapnel Records, Mike Varney, sugeriu a Don Dokken um membro de sua própria banda, Cinema, chamado Jeff Pilson. Ele se juntou ao conjunto após uma audição, em 1984.

George Lynch começou a juntar riffs de guitarra e outras ideias musicais em um gravador de quatro canais, em sua casa, em 1983, logo sendo acompanhado pelo baixista Pilson e pelo baterista Mick Brown.

Os três formaram uma equipe compositora coesa, a qual produziu várias demos, incluindo letras e vocais. Don Dokken foi excluído deste estágio criativo, trabalhando em músicas e letras por conta própria ou com Pilson.

A balada “Alone Again” foi o resultado de uma colaboração de Don com Pilson e é a reformulação de uma música escrita por Dokken em 1975. Lynch se opôs a inclusão da música no futuro álbum, pois ele não queria que o mesmo contivesse baladas, mas finalmente foi convencido de outra forma.

Don Dokken

De acordo com Don Dokken, a banda compôs 25 músicas neste período, as quais foram reduzidas às 10 melhores. Antes da pré-produção começar, Don Dokken propôs, como produtor, seu amigo alemão Michael Wagener, cujo currículo incluía obras com Accept, Raven, Great White e a produção e engenharia de Breaking the Chains.

Previsivelmente, a amizade de Wagener com Dokken e, mais importante, a insatisfação de Lynch com o som do álbum de estreia, trouxeram a rejeição da proposta do vocalista pelo resto da banda. A Elektra Records selecionou o especialista Tom Werman para produzir o disco. Tom já havia produzido trabalhos muito bem-sucedidos com nomes de peso como Cheap Trick, Molly Hatchet, Ted Nugent.

Werman esteve presente nos ensaios, ajudando a selecionar e a organizar as músicas antes da produção começar. A gravação do álbum começou no Cherokee Studios, em Hollywood, na Califórnia, contando com o engenheiro de som, Geoff Workman, cuja personalidade e comportamento errático não se encaixavam facilmente com a direção de Werman. Este relacionamento problemático foi o ingrediente que faltava ao choque crescente de egos entre Lynch e Dokken. Tudo foi ainda extremamente exacerbado pelo abuso de cocaína e álcool por músicos e técnicos. Tentando apagar incêndios, Werman estabeleceu um horário de trabalho para que evitasse a presença simultânea do guitarrista e do vocalista no estúdio, com a gravação de Don com o resto da banda no final da manhã e à tarde; e do guitarrista à noite. Este arranjo foi mantido por toda a permanência de George Lynch na banda, já que ele e Dokken nunca trabalharam juntos em um estúdio de gravação.

Após algumas semanas de trabalho, a situação explodiu quando Lynch rejeitou violentamente os apelos de Werman para alguns de seus solos de guitarra e, por fim, recusou-se a trabalhar novamente com o produtor.

Werman se encheu daquilo tudo, desistiu e partiu para férias de verão com sua família, fazendo com que Don Dokken solicitasse novamente a contratação de Michael Wagener para completar as gravações e mixar as faixas.

Apesar do acordo entre Werman e Burnstein sobre o envolvimento de Wagener, o resto da banda continuou a recusá-lo, comprometendo o lançamento do disco. O vocalista expressou suas preocupações aos executivos do selo e pediu a eles que interviessem e trouxessem Wagener para finalizar o álbum. A Elektra acabou atendendo o pedido de Dokken, mas também contratou o produtor britânico Roy Thomas Baker, famoso por seu trabalho com Queen, Journey e The Cars – e por seu estilo de vida hedonista.

A principal tarefa de Baker foi manter a banda em controle e ocupada, enquanto Wagener gravava os vocais principais à noite, além de mixar o álbum, ajudado secretamente por Dokken. A produção também superou o desaparecimento súbito e inexplicado de Lynch, por uma semana, e terminou a gravação e mixagem em agosto de 1984.

Jeff Pilson

“Without Warning” possui menos de 2 minutos e serve como introdução para “Tooth and Nail”, uma faixa que vai direto ao ponto, sem muitos rodeios, em praticamente um Heavy Metal. Já em “Just Got Lucky”, a banda aposta no Hard Rock com bastante pegada oitentista, com presença de teclados e um refrão bastante pegajoso. “Heartless Heart” mantém a pegada Hard Rock/Glam Metal, contando com um ritmo cadenciado, mas com peso na medida certa. Outra vez soando pesado e intenso, é desta maneira que o Dokken aparece em “Don’t Close Your Eyes”. Um Hard Rock de ótimo nível é o que apresenta a poderosa “When Heaven Comes Down”.

“Into the Fire” continua com a sonoridade Hard Rock, mas em uma abordagem que conta com uma melodia mais maliciosa ao invés de apostar exclusivamente no peso. Em “Bullets to Spare”, o ritmo é mais cadenciado, mas a música soa bem pesada e a bateria de Brown é muito presente. “Alone Again” é certamente a balada do álbum, mas sua abordagem foge da mesmice, especialmente pela atuação soberba da guitarra de George Lynch, imprimindo sua marca mesmo nas passagens mais suaves. Em “Turn On the Action”, o ritmo volta a ficar bem acelerado, com a seção rítmica imprimindo peso à canção.

Tooth and Nail aumentou o nível de sucesso do Dokken e se tornou um disco clássico do grupo. Atingiu a 49ª colocação da principal parada norte-americana desta natureza. O álbum foi lançado em 14 de setembro de 1984. O principal single para sua promoção foi “Into the Fire”, o qual recebeu suficiente cobertura das rádios, especialmente, entre outubro e dezembro daquele ano.

O videoclipe da supracitada música também recebeu moderada exibição na MTV dos Estados Unidos, aparecendo na trilha sonora do filme A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors, lançado em 1987. O segundo single, “Just Got Lucky”, foi um tanto menos bem-sucedido, embora havia sido suportado por um videoclipe dirigido por Wayne Isham.

Tooth and Nail recebeu críticas principalmente positivas. Paul Suter, em sua revisão para a revista britânica Kerrang!, elogiou os vocais ‘fortemente melódicos’, de Don Dokken e o ‘estridente e deslumbrante solo’, de George Lynch.

Stephen Thomas Erlewine, do AllMusic, dá ao trabalho uma nota 4 de 5 possíveis, ficando entusiasmado com a guitarra de Lynch, afirmando que “não há um solo no álbum que não valha à pena ouvir” e apreciou a voz de Don Dokken por tornar ainda mais convincente o material “cliché”. Para apoiar o lançamento do disco, a banda começou uma longa turnê pelos EUA, em 9 de outubro de 1984, no Texas. Durante a turnê, eles estavam sendo banda de abertura para Twisted Sister e Y&T, Dio e Kiss.

O Dokken encabeçou algumas datas com o Loudness e concluiu a turnê em 10 de abril de 1985, em Syracuse, Nova York, abrindo para Sammy Hagar. Nos meses seguintes, eles cessaram as atividades ao vivo para compor e gravar seu terceiro álbum de estúdio, Under Lock and Key, o qual seria lançado em novembro de 1985. “Alone Again” foi lançada como um single depois que a turnê terminou e se tornou o maior sucesso da banda. A balada foi ajudada pela forte rotação do videoclipe, dirigido por Isham, na MTV americana, durante 1985, dando à banda o primeiro e maior sucesso na Billboard Hot 100, a principal parada de singles dos EUA.

Tooth and Nail supera a casa de 1 milhão de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos.

Formação:

Don Dokken – Vocal

George Lynch – Guitarras

Jeff Pilson – Baixo, Backing Vocals

Mick Brown – Bateria

Faixas:

  1. Without Warning
  2. Tooth and Nail
  3. Just Got Lucky
  4. Heartless Heart
  5. Don’t Close Your Eyes
  6. When Heaven Comes Down
  7. Into the Fire
  8. Bullets to Spare
  9. Alone Again
  10. Turn On the Action

2 comentários

  1. André Kaminski

    Adoro demais os quatro primeiros discos do Dokken e mesmo o primeiro não sendo lá um grande sucesso, tem a excelente “Breaking the Chains”.

    Quanto a esse, um álbum que tem as clássicas “Heartless Heart” e “Into the Fire” não tem como ser ruim.

    Caprichou no texto, hein Daniel?

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