Por Micael Machado

Poucas são as bandas que conseguem sobreviver à saída de um ou mais membros importantes de sua formação. Mas o grupo suíço de folk metal Eluveitie, liderado pelo vocalista e multi-instrumentista Chrigel Glanzmann, tem convivido com este tipo de percalço praticamente desde sua fundação, ainda em 2002. Sendo assim, depois das traumáticas partidas do baterista Merlin Sutter, do guitarrista Ivo Henzi e da vocalista Anna Murphy (esta também responsável pelo hurdy-gurdy, ou viola de roda, como é conhecido no Brasil) em 2016 (trio hoje reunido no Cellar Darling), o grupo se remontou com a chegada de Alain Ackermann para a bateria, Jonas Wolf para as seis cordas, Michalina Malisz para o hurdy-gurdy e Fabienne Erni para os vocais e harpa, além de trazer de volta a violinista Nicole Ansperger, que, junto com o guitarrista Rafael Salzmann, o baixista Kay Brem e o responsável pelos instrumentos de sopro Matteo Sisti, transformaram o conjunto num exército de nove peças pronto para retomar seu lugar no mundo metálico, primeiro com a gravação de um álbum acústico chamado Evocation II: Pantheon (que serviu como uma espécie de “respiro” para dar fôlego ao que estava por vir), em 2017, e depois com um de seus melhores registros de estúdio na carreira, Ategnatos, de 2019. Foi na turnê de promoção deste disco que o grupo tocou no festival Masters Of Rock, na República Tcheca, no dia 11 de julo de 2019, onde foi registrado o segundo disco ao vivo da extensa carreira da banda (descontados aqueles que vieram como bônus em edições especiais de alguns álbuns anteriores ou até mesmo um registro lançado como brinde da revista alemã Legacy em 2014).

Em um set de uma hora e quinze minutos de duração, é claro que muitas músicas marcantes acabaram ficando de fora da apresentação, mas o grupo conseguiu reunir no seu show, além de um solo de bateria (que, felizmente, não é muito extenso, possuindo pouco menos de três minutos e meio, mas que poderia, para o meu gosto, ter sido substituído por uma música “de verdade” dentre tantas que faltaram), cinco faixas de seu então novo disco (com destaque para a abertura com a faixa título, a agressiva “Deathwalker” e a variada “Rebirth”, já no bis) junto a algumas faixas um pouco mais antigas (como “Helvetios” ou “Havoc”) e aquelas “favoritas de sempre” que já se tornaram obrigatórias nas apresentações dos suíços, como “Thousandfold”, “A Rose For Epona“, “The Call Of The Mountains” ou “King”, estas duas, apesar de mais recentes, já consideradas clássicas pelos fãs.

As edições em CD e vinil de Live At Masters Of Rock

Fãs estes que, tenho certeza, tinham como curiosidade principal saber como Fabienne Erni conseguiria se sair ao desempenhar seu papel no palco. Pois (visto que ainda não tive, infelizmente, a oportunidade de assistir ao vivo a esta formação do grupo para formar uma opinião através de minhas próprias observações “in loco”) se os vídeos disponíveis no youtube mostram que Fabienne ainda terá que evoluir muito para chegar ao nível de presença de palco, carisma e empatia que Anna Murphy possuía, pelo menos a parte vocal do grupo está garantida sem ressalvas, como comprovam aquelas composições que exigem um destaque maior da cantora, como as citadas “The Call Of The Mountains” e “A Rose For Epona”, ou as mais novas “Epona” e “Artio”, esta, especialmente, quase um “número solo” talhado para a vocalista mostrar toda sua extensão vocal e sua bela voz.

Fica difícil recomendar uma ou outra faixa para o ouvinte ocasional que pretenda conhecer o Eluveitie através deste álbum, devido ao largo espectro musical do grupo, indo de momentos quase death metal (como parte da abertura de “Worship”) a momentos onde parecemos ser transportados às tavernas de filmes medievais (como em partes de “Thousandfold” ou da citada “Epona”), passando por temas que remetem às tantas bandas de gothic metal com vocais femininos que temos por aí (como em partes de “Breathe”), momentos quase pop (em “The Call Of The Mountains”, aqui apresentada com sua letra em inglês, sendo que Anna frequentemente a cantava em sua versão com letras em alemão, uma das várias versões em que a faixa chegou a ser registrada) ou temas mais introspectivos e belos como “A Rose For Epona”. Mas é claro que, neste disco e na extensa discografia da banda, um dos maiores destaques sempre será “Inis Mona“, há anos escolhida para o encerramento dos shows da banda, e que aqui, mantendo a tradição, fecha tanto o bis quanto o álbum.

Contracapa da versão em vinil de Live At Masters Of Rock

Disponível, é claro, nas muitas versões em formato digital obrigatórias nos dias atuais, Live At Masters Of Rock foi lançado lá fora em vinil duplo e CD simples, sendo que a versão nacional (disponível apenas neste segundo formato, pela gravadora Shinigami Records) traz um adesivo indicando ser uma edição limitada a trezentas cópias (não numeradas, infelizmente). Sendo assim, se você curte a complexa sonoridade desta quase orquestra musical de folk metal, não perca a oportunidade de garantir sua cópia do álbum, pois a satisfação será garantida. Com a pandemia que assola o mundo e as incertezas para o futuro que ela traz, fica difícil prever o futuro desta formação do Eluveitie, mas, se depender do mostrado neste registro, ele tem tudo para ser tão ou mais brilhante que a estrada que o grupo já percorreu com seus antigos membros. Quem sobreviver à “gripezinha”, verá!

Track List:

1. Ategnatos
2. King
3. The Call Of The Mountains
4. Deathwalker
5. Worship
6. Artio
7. Epona
8. A Rose For Epona
9. Thousandfold
10. Ambiramus
11. Drumsolo
12. Havoc
13. Breathe
14. Helvetios
15. Rebirth
16. Inis Mona

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