Por André Kaminski

Finalizando a derradeira terceira parte da discografia do Accept. Você pode conferir a Parte I e a Parte II clicando nos links.

As costas de Stefan Kaufmann realmente se arruinaram de vez e ele passou a tocar apenas guitarra na banda de Udo. As baterias de Predator foram gravadas por Michael Cartellone (Lynyrd Skynyrd). Logo lançariam seu décimo primeiro álbum de estúdio.


Predator [1996]

Aqui os caras deram uma mudada bem grande na sonoridade. Eles apostam muito mais no hard rock do que no heavy metal então há umas linhas mais melódicas e um foco maior nos refrãos do que antes. A impressão que dá é que os caras ouviram um tanto de AC/DC e adicionaram também algumas pequenas pitadas de Van Halen na receita do disco. Infelizmente, não achei que ficou tão legal devido mesmo a qualidade das composições que, no geral, não fazem do disco ruim, mas que fica naquele patamar de mediano com alguns momentos baixos. Apesar de tardio, os anos noventa parece que deram uma mordiscada na banda para tentar soar parecida com o que andava a moda naqueles tempos para dar uma cara mais “muderna” nas velhas bandas clássicas. Duas canções aqui que soam diferentes do que estamos acostumados a esperar do Accept mas que até que me agradaram bem. Elas são “Diggin’ in the Dirt” que tem até aquelas famosas “paradinhas rítmicas” de riffs e bateria que lembram um pouco as bandas de nu metal que estavam iniciando naquele período. Até achei uma canção bem interessante, talvez a melhor dentre as poucas músicas “exóticas” da carreira do Accept. Gostei também de “Run Through the Night” com um bom riff de guitarra e Udo variando entre a voz limpa e a rasgada (conhecida) de sempre dando um toque bem divertido nesta faixa. Já “Crucified” é um exemplo de música que achei bem fraca. Tenta emular aquele estilo mais speed de antes, tem até umas pequenas passagens de wah-wah, mas é uma canção que parece forçada, sem alma. Quem tinha saudades dos (bons) vocais do baixista Peter Baltes, há três músicas com o próprio liderando as vozes. Fazia tempo que ele não se arriscava ao microfone. No mais, um disco médio mas esquecível na discografia da banda.


Em 2005 com Herman Frank (guitarra), Udo Dirkschneider (vocais) e Wolf Hoffmann (guitarra)

Depois de finalizar a tour de promoção ao disco, a banda entrou em mais um hiato para cada um se concentrar em seus projetos pessoais. Este duraria até 2009. Udo continuou se empenhando em sua banda U.D.O. Wolf Hoffmann passou a se dedicar a uma carreira de fotógrafo e lançou um álbum solo chamado Classical [2003]. Não consegui notícias do que Peter Baltes fez neste período exceto ter feito uma pequena participação no Bassinvaders, projeto do Markus Grosskopf (Helloween). A banda fez apenas alguns poucos festivais no verão de 2005 com Udo, Hoffmann, Baltes, Frank e Schwarzmann que foram bem recebidos pelo público, o que atiçou a pressão por uma volta. Udo descartou seu retorno definitivo para se concentrar em sua banda. Porém, os quatro restantes contrataram o vocalista Mark Tornillo e se fecharam em estúdio para compôr e gravar em 2009. Gaby Hoffmann também foi dispensada de escrever as letras para as novas canções.


Blood of Nations [2010]

Após 14 anos longe dos estúdios, eles retornam com esse excelente Blood of Nations. Apesar da capa feia e simplória, o som que sai dos auto-falantes é digno dos melhores momentos da carreira do Accept. O novo vocalista Mark Tornillo substitui Udo à altura e faz vocais rasgados tão bons quanto do feioso. Quanto ao som, é heavy metal tradicional do início ao fim. As duas guitarras de Hoffmann e Frank solam e soltam belas paredes de riffs. As principais faixas que gosto são “The Abyss” com um riff mais cadenciado e de excelente gosto e vocais mais “sombrios” junto ao rasgado de Tornillo. A faixa titulo “Blood of Nations” segue como uma sequência da anterior mas agora em um estilo um pouco mais puxado para o hard rock em seus riffs principais e tradicional nos refrãos dando uma dinâmica bem legal. Por fim, ainda exalto “Pandemic” que, senhor, tem aquela pegada clássica do Accept que só o próprio Accept consegue mesmo fazer. De banguear em casa mesmo. Talvez o único defeito do disco é ser um pouco longo demais, mas ainda assim, não chega a cansar ao final de sua audição. Grande álbum, um dos destaques desta década.


Stalingrad: Brothers in Death [2012]

Um bom disco dos alemães embora inferior ao anterior. Críticos e muitos fãs o consideram de alto nível, eu já fico mais ali no patamar de disco nota 7. Um disco que meio que serve para louvar o seu passado. Como de praxe, a banda sempre coloca um speed metal para abrir o álbum como é o caso de “Hung, Drawn and Quartered”. Mais duas faixas que se destacam aos meus ouvidos são a ótima “Hellfire” que me lembra alguma canção que eu já tenha ouvido dos seus conterrâneos do Rage e “Revolution” que parece ter sido feita especialmente para soar aquele hino ao vivo para levantar o ânimo do show após alguma balada com sua velocidade. Não pensem que desgosto do disco. Acho-o bom, um disco sólido e que pode ser ouvido a qualquer momento. Só talvez as composições não tenham me impressionado tanto quanto a outros discos do Accept.


Blind Rage [2014]

Mantendo a mesma formação dos álbuns anteriores, Blind Rage pega a mesma fórmula do anterior, melhora e apresenta mais 11 composições de mais um heavy metal tradicional pesado e que varia entre a velocidade do speed e a cadência do mais clássico oitentista em uma produção com uma roupagem mais moderna. Aqui temos exemplos como “Dying Breed” cujo estilo de composição parece ter saído diretamente da fase Udo oitentista se não fosse a produção moderna. “Dark Side of my Heart” é uma composição típica do Accept com aquele baixo pulsante de Baltes e os vocais de Tornillo ditando o ritmo para dar aquele ar meio “motociclista estradeiro” que a banda sempre passou em suas músicas. “Fall of the Empire” já é aquele tipo de música de estilo épico e de refrão ao jeito “hino” que a banda faz com alguma frequência. “Wanna be Free” é uma balada muito boa com uma temática bonita de liberdade e um refrão marcante. “The Curse” se destaca por belas melodias hard rock e muitos solos de guitarra que lembram bons momentos de bandas como o Bonfire e o Gotthard. É mais um belo trabalho dos alemães que produziam e faziam longas tours desde seu retorno. O considero melhor que Stalingrad.


Peter Baltes (baixo), Herman Frank (guitarra), Mark Tornillo (vocais), Stefan Schwarzmann (bateria) e Wolf Hoffmann (guitarra)

Poucos meses após o lançamento deste disco, em dezembro de 2014, Herman Frank anunciou nova saída do grupo. Desta vez, ele disse que foi pelos mesmos motivos da sua primeira saída, em 1984: ele cansou de ficar de lado em relação às composições e solos, declarando que ele não tinha espaço para compôr, estava farto de ter que ficar focado apenas nas bases e ainda chamou a banda de “Wolf Hoffmann Project”. A banda então contratou o guitarrista Uwe Lulis (ex-Grave Digger). No mesmo dia, um pouco mais tarde, o baterista Stefan Schwarzmann também deixou a banda para se juntar a Frank no Pänzer. O baterista americano Christopher Williams assume as baquetas.


The Rise of Chaos [2017]

Não acho o trabalho feito neste disco com grandes atrativos. Apesar da crítica e dos fãs o considerarem outro trabalho ótimo, sinto que a banda está se repetindo nas ideias e faltando ousar um pouco mais, ficando naquele feijão com arroz de sempre e um tanto quanto acomodada. Tudo bem, “Die by Sword” parece ter sido inspirada em bandas como Hammerfall e Manowar, mas o restante do trabalho parece reciclagens feitas de canções dos três discos anteriores. Aqueles mais fanáticos e fissurados gostam sempre disso, mas para mim, é necessário buscar algo novo, alguma influência ainda pouco trabalhada. Mesmo nos primeiros discos deles haviam boas ideias não tão bem executadas que poderiam tentar de novo. Mas a banda joga num porto seguro que, lamentavelmente, me cansa rápido. daqui também gosto de “Rise of Chaos” mais pelos seus méritos de composição própria do que a busca de um algo a mais. Mesmo o guitarrista novo Uwe Lulis e o baterista Christopher Williams não trouxeram algum frescor às canções.


Em 2018, mais uma surpresa: Peter Baltes anunciou a saída do grupo. Segundo Hoffmann, ele mesmo até hoje não sabe os motivos da saída do velho amigo baixista e disse que sequer consegue entrar em contato com ele. O baixista alemão Martin Motnik assumiu o seu lugar desde então, tendo hoje apenas o guitarrista Wolf Hoffmann como integrante principal desde a sua fundação. Em 2019, a banda ainda acrescentaria um terceiro guitarrista que é Philip Shouse, sendo agora um sexteto.

Em todos esses anos, o Accept passou a tocar muito em shows e festivais até 2020 parar tudo devido a pandemia. Entretanto, a banda já anunciou que remarcou diversos de suas datas para 2021 e que continuará normalmente.

Chegamos ao final de mais uma discografia comentada nossa. Como sempre, são textos trabalhosos mas sempre com resultado final recompensador. Espero que tenham gostado de nossa passagem pelos muitos discos dos alemães e que possam se inspirar a pegar mais alguns discos do Accept e botar em alto volume aí na sua casa.

A formação em 2020. Christopher Williams (bateria), Philip Shouse (guitarra), Mark Tornillo (vocais), Wolf Hoffmann (guitarra), Uwe Lulis (guitarra) e Martin Motnik (baixo)

5 comentários

  1. Igor Maxwel

    Terceira e última parte da discografia da minha banda alemã favorita… Vamos lá!

    Ignorando totalmente o Predator (de 1996), começo falando do Blood of the Nations, o retorno triunfal dos teutônicos e com uma nova formação (24 anos depois de Russian Roulette, que até então fora o último disco realmente relevante do Accept antes dessa volta histórica). Este álbum que inclusive foi o primeiro colocado da lista dos melhores de 2010 aqui da Consultoria, trouxe como novidade (e que novidade!) o vocalista norte-americano Mark Tornillo (ex-membro do TT Quick) para ocupar o lugar de Udo nos vocais (lembrando que o baixinho não queria deixar sua carreira solo por nada),e o resultado finalmente atendeu a todas as expectativas dos fãs mais antigos, ao mesmo tempo em que alcançou também uma geração mais nova de seguidores ao Accept. É neste álbum que se tem início A MELHOR formação do quinteto, na minha percepção: o já citado vocalista Mark Tornillo, Wolf Hoffmann e Herman Frank nas guitarras, Peter Baltes no baixo, Stefan Schwarzmann na bateria e o premiadíssimo produtor Andy Sneap, que produziria todos os discos seguintes dessa nova fase da banda. Em agosto BOTN completa 10 anos de lançamento e nada mais justo do que comemorar esta data ouvindo este petardo em alto e bom som!

    Stalingrad (2012) apenas veio para confirmar o que BOTN profetizava dois anos antes: o Accept estava realmente de volta e para ficar marcado de vez entre os grandes nomes do heavy metal mundial como Judas Priest e Iron Maiden, por exemplo. Outro discaralhaço! Já o Blind Rage (2014) fecha com chave de ouro a trinca de álbuns da nova fase dos alemães, e devo admitir que gosto mais desse álbum do que do BOTN e do Stalingrad, por ser mais diversificado que os anteriores. Foi o primeiro disco que eu ouvi com a voz do Tornillo, já que antes sempre falava que o Udo ainda era melhor que ele e blá blá blá. Mas depois disso, eu percebi que estava realmente enganado. Blind Rage finalmente me convenceu de que o baixinho já era no Accept e que o escolhido para o posto de vocalista foi mais do que acertado, foi merecido.

    Só uma observação: Blind Rage na verdade não conta com 10 faixas, e sim com 12 faixas no total – a versão que eu tenho conta com a faixa-bônus japonesa “Thrown to the Wolves” e mais as 11 faixas do formato original. Outra correção: na verdade, Stefan Schwarzmann e Herman Frank não saíram do Accept no final de 2014, mas no final de 2015 após o término da grandiosa turnê de Blind Rage (que rodou o mundo inteiro), e que Christopher Williams e Uwe Lullis só entraram em seus respectivos postos durante o ano de 2016.

    A estréia desses dois últimos novos membros em estúdio se deu com o (na minha opinião) fraco The Rise of Chaos (2017), o último disco do Accept lançado até agora, e que me mostra uma banda 100% cansada, com a inspiração totalmente em baixa (eles a gastaram toda nos três discos anteriores) e que parece estar gritando durante o disco todo “agora eu quero parar”. Mas o certo é que essas mudanças na formação e também no som do Accept não ajudaram muito (qual será a opinião do Udo a respeito disso, não sabemos). Soma-se a esse fato a saída de Baltes dois anos depois ocorrida.

    Encerro dizendo que não gostei muito dessa “reformulação” do Accept como sexteto com a chegada de um terceiro guitarrista (tal como a formação atual do Maiden) e do novo baixista substituto do Baltes. Não espero mais nada deles daqui pra frente… mas mesmo assim, desejo vida longa e sucesso aos teutônicos e que eles continuem assim por todo o sempre!

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      • Igor Maxwel

        Nossa… Eu realmente não sabia disso… Sempre pensei que Herman e Schwarzmann saíram da banda no final de 2015 após aguentarem a turnê de Blind Rage até o fim… Vou dar uma checada nesse link que você me passou para enfim entender tudo…

  2. L

    Excelente trabalho. Do Rise of Chaos eu curto a Race to Extinction também, e detesto uma música chamada Koolaid, Jesus, que música horrível!!!!

    Rapaz, escutei a discografia do Udo, e acho que esses vocalistas deviam.ter cuidado em seguir carreira solo, nem todo mundo é o Ozzy. Se bem que o Ozzy de solo só tem o nome, já que meio mundo de gente talentosa dá pitaco na hora de fazer as músicas.

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    • Igor Maxwel

      “Koolaid” é a única música que se salva do fraco The Rise of Chaos, já que as outras não contam com nenhum status para serem hinos clássicos do Accept em sua nova fase, como foram, por exemplo, “Stampede”, ” Teutonic Terror”, “Shadow Soldiers”, “Pandemic”, “Stalingrad”, “200 Years”, etc.

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