Por Micael Machado

Todo fã de rock progressivo tem a obrigação de conhecer ao menos de nome o excepcional tecladista Keith Emerson, que ganhou fama como membro do supergrupo Emerson, Lake & Palmer. O que talvez alguns não saibam é que, antes do ELP, Emerson também obteve fama e sucesso ao lado do The Nice, com quem tocou entre 1967 e 1970. Aqueles que não conhecem o som da banda, e resolvam iniciar pelo seu disco de estreia registrado em 1968, com o curioso nome The Thoughts of Emerlist Davjack (algo como “os pensamentos de Emerlist Davjack”, em tradução livre), certamente serão surpreendidos pela sonoridade completamente diferentes entre as duas bandas de seu membro mais conhecido…

Mas antes de tratarmos do disco em si, um pouquinho de história. Como disse, o grupo iniciou sua trajetória em 1967, inicialmente como banda de apoio à cantora norte-americana P. P. Arnold, que estava na Inglaterra acompanhando a dupla Ike a Tina Turner em uma excursão pelo país. Quando a turnê acabou, Arnold decidiu continuar no país, mas pediu ao seu manager, Andrew Loog Oldham (também empresário dos Rolling Stones, e co-proprietário da gravadora Immediate Records) que lhe arrumasse um novo grupo como suporte, pois estava descontente com os músicos que lhe acompanhavam então. Emerson foi convidado para a empreitada, e rapidamente se uniu ao baixista Lee Jackson, ao guitarrista David O’List e ao baterista Ian Hague em uma digressão onde também apareciam, apenas os quatro, como “banda de abertura” para a cantora principal. Após uma apresentação de destaque (sem Arnold) no National Jazz and Blues Festival daquele ano, e, com o retorno da cantora a seu país de origem ao final da temporada inglesa, Oldham ofereceu ao grupo (já devidamente denominado como The Nice) um contrato com sua própria gravadora, o que foi logo aceito pelo quarteto, que efetivou Jackson nos vocais (além de continuar no baixo) e substituiu Hague (que estava descontente com os rumos musicais que o grupo queria seguir) pelo baterista Brian Davison, e partindo para a gravação de seu registro de estreia.

Algumas sessões de composição e gravações foram feitas entre o final de 1967 e o início de 1968 (muitas delas aparecendo anos depois na compilação Autumn ’67 – Spring ’68, que contém versões alternativas para quase todas as faixas do primeiro disco), mas o álbum oficial só sairia em março de 1968. Àquela época, o Nice estava completamente inserido na cena “psicodélica” inglesa (então representada por grupos tão díspares quanto Pink Floyd, Jimi Hendrix Experience, The Crazy World of Arthur Brown, The Yardbirds e muitos outros, e que também fazia muito sucesso na costa oeste dos Estados Unidos, especialmente em San Francisco), como pode ser constatado nas faixas “Tantalising Maggie”, “Flower King of Flies”, “The Cry of Eugene” ou a própria “The Thoughts of Emerlist Davjack” (sendo que o nome do personagem principal, caso você não tenha percebido, é uma junção dos sobrenomes dos membros do grupo), sendo que as duas últimas, com o benefício do tempo e da história, acabam soando bastante genéricas, e muito parecidas a diversas outras composições do período (o que não contribui, de forma alguma, para diminuir a sua qualidade, que fique bem claro).

The Nice em 1968: Lee Jackson, Brian Davison, Keith Emerson e David O’List

Mas isto não significa que o quarteto estava preso a uma única forma de compor ou a um único estilo. “Bonnie K”, por exemplo, tem um pezinho e meio firmemente plantado no blues, enquanto “War and Peace” e partes da citada “The Cry of Eugene” já adiantam o estilo progressivo que Emerson adotaria mais adiante em sua carreira, sendo que a primeira conta com um verdadeiro show do músico em seu instrumento. Mas o grande destaque do álbum ficou, sem dúvidas, para “Rondo“, onde, ao longo de mais de oito minutos (um verdadeiro exagero para a época), Emerson faz misérias sobre um arranjo diferente elaborado por ele para a clássica “Blue Rondo à la Turk”, do Dave Brubeck Quartet, e inseriu definitivamente seu nome na história da música. A faixa fez um enorme sucesso, levando o Nice a excursionar pela Europa e os Estados Unidos, sendo anos depois incorporada ao repertório do Emerson, Lake & Palmer, onde, amparado pela base mais sólida construída por seus então parceiros, Emerson atingia voos musicais altíssimos na performance de suas teclas ao longo da faixa.

O sucesso de “Rondo” e das apresentações ao vivo do grupo, onde Emerson já tinha o costume de “maltratar” seu teclado, seja o arrastando pelo palco, jogando-o por cima de si ou mesmo atirando adagas no coitado (estas, segundo a Wikipedia, legítimos artigos originais da SS de Hitler, emprestadas ao músico por um de seus roadies, um certo Ian Kilmister, também conhecido como Lemmy – sim, este mesmo que vocês estão pensando) foi seguido por um novo single, uma versão para a peça “America”, de Leonard Bernstein, mas, em setembro daquele ano, o grupo acaba se separando de O’List, sendo que ainda hoje é discutido se o guitarrista saiu voluntariamente por questões particulares e de saúde (como consta, inclusive, nas “liner notes” do relançamento do primeiro disco de 2007), ou se foi expulso por Emerson após alguns desentendimentos entre os outros três membros e o titular das seis cordas. O certo é que a carreira do The Nice seguiria em frente, com o agora trio avançando cada vez mais no terreno do rock progressivo, estilo no qual, a meu ver, atingiu seu ápice no álbum Five Bridges, de 1970, gravado ao lado da orquestra The Sinfonia Of London. Naquele mesmo ano, Keith Emerson chegou à conclusão de que, musicalmente falando, o trio havia atingido o máximo de evolução possível, e decidiu abandonar o barco para formar o já citado ELP. Jackson formou o Jackson Heights, com quem tocou entre 1970 e 1973, e depois se reuniria brevemente com Davison em 1974 no projeto Refugee, onde tocaram ao lado do tecladista Patrick Moraz (que naquele mesmo ano se uniria ao Yes, o que foi o final do trio Jackson, Davison e Moraz). O quarteto “Emerlist Davjack” não tocaria junto de novo, mas o trio Emerson, Jackson e Davison ainda faria uma última excursão em 2002 (que resultou no álbum ao vivo Vivacitas, daquele mesmo ano), antes das mortes de Davison em 2008 e de Emerson em 2016.

Contracapa da versão original de The Thoughts of Emerlist Davjack

The Thoughts of Emerlist Davjack foi relançado várias vezes, com a inclusão de diversas e diferentes faixas bônus registradas naquele período a cada nova versão, como a já citada “America” ou o lado B do single para a faixa título, intitulado “Azrial (Angel of Death)”, e permanece ainda hoje como um marco na carreira de um dos músicos mais importantes da história do rock progressivo. Se tiver a oportunidade, procure conhecer este trabalho, que já mostra o talento de Emerson nas teclas, mesmo que ele fosse evoluir ainda mais posteriormente em sua carreira. Só não espere os grandes arroubos instrumentais do músico em sua fase ELP. A banda, aqui, é outra, mas ainda é uma “nice band” (é, não consegui resistir a este infame trocadilho, perdoem-me).

Track List (versão original):

Lado A
1. “Flower King of Flies”
2. “The Thoughts of Emerlist Davjack”
3. “Bonnie K”
4. “Rondo”

Lado B
1. “War and Peace”
2. “Tantalising Maggie”
3. “Dawn”
4. “The Cry of Eugene”

2 comentários

  1. Ronaldo

    Muito bom texto! esse disco pra mim é uma das pedras angulares do rock progressivo. Keith Emerson esteve na gênese do estilo, lançando suas primeiras sementes. Muito ousado para a época, com uma dose incomum de virtuosismo e construções não-convencionais dentro do rock. Show demais.

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    • Micael

      Valeu,Ronaldo! Eu gosto deste disco, mas, como escrevi, o acho bem diferente dos estilos daqueles onde a banda era um trio! E é curioso como a cozinha da banda é desmerecida até hoje, não é mesmo? Até o meu próprio texto não chega a fazer justiça aos caras, veja você…

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