Por André Kaminski

Tema escolhido por Daniel Benedetti

Com Davi Pascale, Fernando Bueno, Mairon Machado e Ronaldo Rodrigues

Após um tempo parado e um ataquezinho de pelanca em que eu pistolei com os consultores (mas eu tinha motivo, estavam me abandonando), voltamos com o Consultoria Recomenda. Sabem como é, eu sou o Roberto Justus da seção, o Fernando que me substituiu fez o papel de João Dória.

Iremos variar a cada dois meses entre um Recomenda e um Ouve Isso Aqui. Nessa edição, o nosso querido estagiário Daniel Benedetti escolheu um excelente tema e nos mandou recomendar discos de blues rock britânico. Os seis discos desta edição e os comentários de nossos consultores demonstram a absurda qualidade musical que este tão amado estilo proporciona aos seus fãs. Fique a vontade para comentar as nossas indicações e sugerir mais discos de qualidade em nossos comentários.


Spooky Tooth – Spooky-Two [1969]

Por Daniel Benedetti

Passei a ouvir este disco mais atenciosamente quando o encontrei em uma lista gringa sobre álbuns de Blues Rock. Desde então, ele tem sido uma presença constante em minhas audições. Seu estilo rústico – e até mesmo ‘cru’ – traz à tona faixas inspiradas como “Evil Woman” e seus intensos 9 minutos. “Lost in My Dream” é mais sorumbática e contrasta bem com “That Was Only Yesterday”. Mas minha preferida é a ótima “Better by You, Better than Me”, a qual ganhou uma versão metálica do Judas Priest.

André: Esta é uma banda em que sempre me prometo de ouvir com mais atenção mas que acabo sempre adiando. Ótima oportunidade para ouvir um pouco mais deste álbum que segundo dizem os críticos, é o melhor deles. Banda interessante que faz muito uso de órgão Hammond e piano. Duas das canções que mais gostei foram “I’ve Got Enough Heartaches” com aquele arranjo de vozes excelente e “That Was Only Yesterday” que sabe variar entre a calmaria e a energia surpreendendo com tamanha desenvoltura. Deveria mesmo ter me aprofundado neles antes.

Davi: Descobri essa banda alguns anos atrás por conta do Gary Wright. Gosto do trabalho solo dele, fui buscar informação de onde mais ele havia tocado e caí aqui. Não considero o Spooky Tooth uma banda de blues-rock, embora alguns veículos utilizem o rótulo para definir o som da banda. Na real, eles fazem uma mistura de hard rock, psicodelia, soul, prog e blues. Todos esses elementos estão misturados no caldeirão musical do grupo, criando uma sonoridade única e de enorme qualidade. Nesse trabalho, em específico, gosto muito das faixas “Waitin´ For The Wind”, “Evil Woman”, “That Was Only Yesterday” e “Better By You, Better Than Me”. Foi bacana reescutá-lo, é um belo álbum, mas creio que fuja um pouco do tema…

Fernando: Tenho esse disco e fazia anos que não o ouvia. Que voz de Gary Writh!! O único americano entre uma banda de ingleses. “I’ve Got Enough Heartaches” é uma lindeza e o que Gary e Mike Harrison fazem juntos em “Evil Woman” é fanstástico. E tem música aqui que o Judas Priest colocou em um de seus álbuns “Better By You, Better Than Me”, com a maestria de sempre. Porém, seria esse disco em que o blues esteja mais diluído dos que aparecem nessa lista?

Mairon: A turma de Gary Wright vez que outra pinta no meu computador. Não tenho nada deles em disco, ou mídias, mas sempre que posso passeio pela carreira da banda, e Spooky Two é um dos meus preferidos. Da parte blues, temos o arranjo vocal gospel de “I’ve Got Enough Heartaches”, o ritmo dançante de “That Was Only Yesterday” e o tour de force de 9 minutos em “Evil Woman”, sonzeira fantástica como manda o figurino, e que é o resumo da ópera para o Spooky, com um solo de guitarra fantástico, órgão comendo e arranjos vocais incrivelmente bons. Bons arranjos vocais também aparecem em “Feelin’ Bad”. A dupla de órgão com Mike Harrison é quase um rival ao Van der Graaf de Peter Hammill e Hugh Banton, e por isso eu coloco o Spooky Tooth com um pezinho no progressivo. Exemplos de inspirações prog estão em “Hangman Hang My Shell on a Tree”,  “Lost in My Dream” ou “Waitin’ for the Wind”. E para os metaleiros de plantão, aqui está o original de “Better by You, Better than Me”, que o Judas Priest fez questão de manter igualzinha, apenas dando um pouco mais de peso nas guitarras para substituir os teclados. Baita disco, baita banda!

Ronaldo: O Spooky Tooth não era exatamente um grupo de blues, mas um dos muitos grupos britânicos que tinham o blues como base para a criação de uma nova linguagem de rock. Além de uma pegada mais nervosa do que os pares blueseiros, o grupo tinha uma base forte na soul music e uma ênfase nos teclados que os aproximava do rock progressivo (ou de um som mais eclético, como o Traffic). O disco é, em boa parte, calcado em baladas ou músicas de andamento médio. Essa característica não tem correlação com a qualidade do material apresentado, que é de alto nível – composições cativantes, bons arranjos e vocais de primeira (a dupla Mike Harrison e Gary Wright não brincava em serviço). “Evil Woman”, “Lost in My Dreams” e “Better by You, Better than Me” tem um clima mais denso e sinistro, com riffs de guitarra mais evidente. Em uma cena marcada por bandas que tinham verdadeira devoção pelo blues norte-americano, o Spooky Tooth soa um pouco deslocado, ainda que o disco em questão seja muito bom.


Danny Bryant – Blood Money [2016]

Por André Kaminski

Para diferenciar um pouco dos meus colegas, resolvi indicar este álbum de um britânico mais novo e não tão conhecido por aqui, apesar de já ter uma discografia considerável. Com uma forte influência do blues americano misturado com soul e funk e com uma produção mais moderna, me impressiona muito ouvir ótimas músicas como “Unchained” e o belo sacolejo proporcionado por “On the Rocks”. Aliás, como é bom ouvir Bernie Marsden, um dos primeiros guitarristas do início do Whitesnake de volta e solando belamente como sempre.

Daniel: Jamais havia ouvido Danny Bryant e, pesquisando sobre o músico britânico, descobri a existência de sua já longa carreira. Outra boa recomendação. Gostei muito da trinca “Master Plan”, “Slow Suicide” e “Unchained”. A presença do Hammond – e do guitarrista Bernie Marsden – em “Just Won’t Burn” já a transformaram em um grande destaque do disco. Enfim, gostei do álbum e vou passar a acompanhar (e conhecer) a carreira do Danny Bryant.

Davi: Esse cara, eu não conhecia. Gostei bastante. Trabalho de voz diria que correto, mas o trabalho de guitarra é muito bom. Um som tradicional com bastante influência de anos 70, arranjos bem variados. No estilo de tocar, pego bastante influência de Albert King, um ‘q’ de Stevie Ray Vaughan, mas pego algumas referências de Gary Moore também, como no caso de “Unchained”, por exemplo. Achei muito legal a participação do Bernie Marsden (Whitesnake) em “Just Wont Burn”, mas meus momentos favoritos ficam por conta de “Master Plan”, “Slow Suicide” e “Fool´s Game”. Além da já citada “Unchained”, é claro. Vou procurar ouvir mais algum disco dele.

Fernando: Disco mais novo desses que entraram aqui. Tenho um chute sobre quem o indicou, talvez um consultor que é conhecido por gostar de TUDO e por ter uma coleção gigante. O fato é que é um bom disco, agradável de ouvir, porém falta alguma coisa mais memorável, aquele tipo de coisa que faz a gente ficar cantarolando, uma melodia mais marcante. Alguma coisa.

Mairon: Confesso que desconhecia o trabalho de Danny Bryant até esse recomenda. Bryant apresenta muitas influências de Albert King (“On The Rocks”), Stevie Ray Vaughan (“Fool’s Game” e “Master Plan”), Ray Charles (“Unchained”). Bryant toca super bem, o cara é um bom guitarrista de blues, traz bastante feeling, modernão, e faz um blues rock bem comum. Me surpreendi com o resgate de Bernie Marsden em “Just Won’t Burn”, baladaça bluesy para arregaçar corações, com um duelo de solos muito bom. Gostei do som, mas achei muita mais american blues do que british blues. Se colocasse para tocar, sem dizer que era britânico, jamais iria adivinhar. Bom para conhecer!

Ronaldo: Bom guitarrista contemporâneo de blues-rock. Não acompanho tanto a cena atual do estilo, mas é possível notar por esses e outros trabalhos que os que se aventuram nessa seara atualmente são bem menos puristas que os blues-rockers britânicos dos primórdios. O que se ouve nesse disco é uma grande mistura de diversas vertentes do r&b e da música negra americana, tendo uma pegada frequentemente funkeada nas faixas e baladas embebidas na soul-music. As guitarras são de alto nível, com uma pegada pesada e uma interpretação muito consistente. Há bastante teclado em todas as faixas e, alguns são até um tanto incomuns para o estilo. A instrumental “On the Rocks” mostra o poder de fogo de Bryant e sua banda. Mas no fim das contas, a produção trata de dar ao resultado um verniz mais pop ao trabalho como um todo, o que pode agradar uns e desagradar outros.


Robin Trower – Bridge of Sighs [1975]

Por Davi Pascale

Sempre gostei muito de blues-rock, mas meus artistas favoritos, dentro desse gênero, são, em sua maioria, norte-americanos. Quando pintou o tema fiquei pensando, pensando, pensando… Não queria indicar um disco qualquer, queria indicar “o” disco. Comecei a revirar minha coleção e eis que me deparo com esse CD aqui. Esse é o segundo álbum solo do Robin Trower após sua saída do lendário Procol Harum. Sem grandes frescuras, som honesto, cru e altamente inspirado. Gravado em formato de power trio, o álbum já chama a atenção de cara com o riff impactante de “Day Of The Eagle”. Contando com as mãos de Geoff Emerick (engenheiro de som dos Beatles) e de seu velho parceiro Matthew Fisher na produção, o rapaz entregou um álbum criado na dose certa. Há canções lentas brilhantes como a faixa-título e “In This Place” e canção com riffs arrasa-quarteirão como os de “The Fool and Me” e “Little Bit of Sympathy”. Os solos são perfeitos. James Dewar cantava bem pra cacete e o trabalho de bateria de Reg Isidore era bem eficiente. Ah, muita gente compara o estilo dele tocar aqui com o Jimi Hendrix. Ouça e veja se concorda ou não com a comparação.

André: É um crime pensar no fato do quanto Robin Trower é desconhecido no Brasil. Sujeito extremamente underrated e injustiçado. Nem mesmo em sua terra natal ele teve o reconhecimento que merecia. Pelo menos os Estados Unidos o reconheceram. Aqui tem a melhor faixa da carreira do Trower que é “Too Rolling Stoned”, coverizada pelo UFO e que já ouvimos em um War Room passado. Incrível é perceber o esmero por parte do guitarrista em suas composições, das quais claramente se percebe uma dedicação em empolgar o ouvinte. Disco nota 10!

Daniel: Segundo álbum solo de Robin Trower, lançado depois que ele saiu do Procol Harum. Tenho que confessar que havia ouvido este disco há muitos anos e não me recordava dele. “Too Rolling Stoned” é uma porrada nos ouvidos, o ótimo balanço de “Lady Love” contagia, assim como a ‘dolorosa’ guitarra de Trower em “About to Begin”. Ah, claro, a faixa-título é sensacional. Depois que o ouvi novamente, já foram mais diversas audições. Para meu gosto, é o melhor disco da lista.

Fernando: Sabia de sua carreira solo e que esta era bastante de alto nível, mas nunca tinha conhecido o Robin Trower além do Procol Harum. Durante a audição eu notei que conhecia uma das músicas e descobri que a faixa título já foi regravada pelo Opeth. Foi uma ótima experiência e já vou deixar anotado para voltar a ouvir esse disco e os outros, também muito bem avaliados em todos os lugares que pesquisei. Ahhh… ouvi uma versão remaster de 2007 e achei o som fantástico. Fiquei curioso para ouvir em sua versão original.

Mairon: Lembro que quando conheci esse disco, o dono havia assinado na capa a inscrição “O Fantasma de Jimi Hendrix”. Eu fiquei impressionado como a guitarra de Trower realmente lembra bastante a de Hendrix, e logo de cara, na ótima “Day of the Eagle”, com um riff e um ritmo que iria agradar ao Deus Negro da guitarra, ou na funkeada “The Fool and Me”, para mim o melhor som do disco, com um balanço fantástico. Acompanham essas influências “Little Bit of Sympathy”, swingada como poucas, e a longa “Too Rolling Stoned”, onde as influências Hendrixianas estão presentes em um solo matador de Trower. Porém, não é só de Hendrix que bebe a fonte de Trowe. Há psicodelia em “In This Place”, licks vertiginosos em “Lady Love”, e claro, muito blues. A faixa-título é o cerne disto, uma aula de blues para ser levada às escolas de música do mundo inteiro, enquanto “About to Begin” é daqueles blues lentos para se chapar com um uísque e só curtir a voz de James Dewar. Aliás, além de um baita guitarrista, o álbum também conta essa voz espetacular de Dewar, que passou pelo Stone the Crows). Curto o álbum, claro, e respeito Trower, com certeza, e por isso, foi uma audição ótima e extremamente bem vinda nesse recomenda.

Ronaldo: Jimi Hendrix foi nascido, batizado e criado no blues. Sua obra, porém, transcendeu em muito as possibilidades oferecidas pelo estilo até então. O impressionante legado do gênio da guitarra gerou uma abordagem totalmente diferenciada no instrumento, que mesclava uma construção inteligente de frases sobre as escalas do blues aliada a uma ferocidade rítmica incomum para os guitarristas de blues. Robin Trower foi um dos ícones do aprofundamento dessa linguagem ao longo dos anos que se seguiram. Mas, novamente, estamos tratando de blues trabalhado e reprocessado com tanta intensidade que é difícil encontrar com clareza os ingredientes originais da mistura. O disco tem um conjunto fantástico de músicas empolgantes, cheias de riffs e solos de guitarra memoráveis, no qual há uma decisiva contribuição dos vocais, do baixo e da bateria. “The Fool and Me” e “Too Rolling Stoned” tem grooves que são impossíveis de enjoar.


Beck, Bogert & Appice – Beck, Bogert & Appice [1973]

Por Fernando Bueno

Álbum de estúdio único desse que um dos grandes supergrupos montados nesse período do rock, todos eles influenciados pelo sucesso do Cream, claro! Chegaram a gravar um álbum ao vivo um ano depois. A versão para “Superstition” de Stevie Wonder com o inesquecível início com o talk box é demais. E o que dizer de “Morning Dew” cantada por Camine Appice? Yes!!! He can sing! O som do trio é todo baseado em baixo, guitarra e bateria, mas em algumas faixas eles tem a participação de Duane Hitchings que também era do Cactus, o que fazia quase como se o Jeff Beck tivesse invadido um ensaio da banda e começado a tocar. Caso, por algum motivo, não tenham interesse no álbum sugiro ouvirem pelo menos “I’m So Proud” para ver o trabalho de voz da banda. Excelente!

André: Beck é britânico, mas dá de se dizer que ele lidera os outros dois americanos em um ótimo registro. Interessante é o fato de Carmine Appice ser o principal vocalista da maior parte do tracklist. Por sinal, é com os vocais dele a maioria das músicas que eu mais gostei. A guitarra e o baixo são muito proeminentes, o que não é necessário citar o fato de que são dois monstros em seus respectivos instrumentos. Para quem curte este blues rock já quase pendendo para o hard, está aí uma ótima sugestão.

Daniel: A fusão do guitarrista do Yardbirds com a ‘cozinha’ do Vanilla Fudge/Cactus. Blues e rock se encontram com uma tremenda pegada hard, em um disco curto, mas extremamente prazeroso de se ouvir. Adoro a faixa “Lady” e os vocais de Carmine Appice nela. O sentido de urgência de “Lose Myself with You” e a pegada de “Livin’ Alone” precisam ser destacadas. A interessante versão para “Superstition” é um ‘plus’. Outra boa indicação.

Davi: Esse é outro disco que tenho na minha coleção e já fazia um tempo que não colocava para rodar. Aqui não tem erro, né? Com um time desses não tem como o trabalho ser meia bomba, fala sério. Sempre gostei muito do Jeff Beck. Em especial, os álbuns que gravou ao lado do Jeff Beck Group e do Yardbirds. Carmine Appice, então, nem se fala. Ídolo! Entre as músicas mais lentas, gosto bastante de “Oh To Love You” e “Sweet Sweet Surrender”, que considero muito bonitas, mas os grandes destaques acabam sendo os rockões mesmo. “Black Cat Moan”, “Lady” e “Why Should I Care” são minhas favoritas. Só que, mais uma vez, fico em dúvida se ele se encaixa no rótulo blues-rock.

Mairon: A união de um gênio injustiçado da guitarra com dois remanescentes da genial injustiçada Vanilla Fudge se torna um disco genial injustiçado. Digo isso por que poucos são os que se lembram dessa aula de hard rock entregue pelo BBA nesse álbum. Esqueça as baladaças “Im So Proud”, “Sweet Sweet Surrender” e “Oh To Love You” se você deseja só quebrar o pescoço, mas se não, aprecie bastante os vocais de Bogert em ambas. Agora, para quebrar o pescoço, todo o resto de Beck Bogert & Appice é demolidor. Certamente você conhece a versão matadora de “Superstition” que o trio apresenta aqui, o que por si só já vale o disco. Mas há mais. A pancadaria de Bogert e Appice no início de “Lady” é para relembrar os bons tempos da Vanilla Fudge ao vivo, mas a linhagem musical é dos melhores tempos do Cream, principalmente pelos vocais. Outra que lembra bastante o Vanilla Fudge é “Why Shoud I Care”, rockzão para sair pulando pela casa, e com Appice fazendo misérias nos dois bumbos. Outro rockaço matador é Livin’ Alone”, com uma sequência instrumental mágica, que começa com Carmine Appice fazendo rufos sozinho, passa por Bogert solando com distorção e culmina com um belo solo de slide feito por Beck, acompanhado por palmas. Jeff Beck mandando ver com o slide em “Black Cat Moan”, e o que ele faz com o wah-wah em “Lose Myself With You” é só para que você entenda por que ele é um gênio. Não diria que é um álbum de blues rock britânico, mas que é um baita disco, ô se é!

Ronaldo: Meus comentários aqui me levam a discordar da abordagem dos meus colegas na adequação dos discos ao tema. Nesse caso, estamos tratando mais de produtos derivados do blues-rock do que de blues-rock per se. Esse é um trio de ferro do rock setentista (2/3 da banda era americano e não britânica) que conseguiu se manter unido apenas por um breve período de tempo, deixando um legado em estúdio abaixo do que rendia nos palcos (muito devido a falta de uma produção que favorecesse o peso de sua execução). Ainda sim trata-se de um grande disco – os primeiros segundos de “Black Cat Moan” já são incríveis e indiscutíveis. Apesar do blues estar implícito em todas as escalas pentatônicas exploradas a exaustão nesse disco, creio haver exemplares bem mais representativos do estilo preconizado na lista.


Savoy Brown – Looking In [1970]

Por Mairon Machado

Não se engane pela introdução virtuosa do violão em “Gypsy”, esse disco é uma aula de Britsh Blues. O Savoy Brown é um representante muito forte dessa cena, levado por um timaço que estava fervilhando nessa época. O ritmo avasssaladoramente sensual de “Poor Girl”, com um baixo fenomenal e um solo de guitarra fabuloso por Kim Simmonds, o grande nome do Savoy Brown na época, já são os verdadeiros pratos desse discaço. Outra sonzeira extremamente sensual é “Sunday Night”. O que Simmonds faz com a guitarra aqui é enlouquecedor. Não há pernas que resistam a ginga do baixo de Tone Stevens. Quer blues raiz, ouça “Take It Easy” e duvido não se imaginar ouvindo os clássicos blueseiros do Mississippi. Que sonzeira!! E encarar os 8 minutos de “Leavin’ Again” é uma jornada para se chegar ao fim com as pernas e o pescoço destruídos. Delicie-se com as explorações percussivas da faixa-título, os vocais rasgados de Lonesome Dave em “Money Can’t Save Your Soul”, com Simmonds brilhando também ao piano, e a elegância instrumental de “Sitting an’ Thinking”. As congas, aliás, são um charme extra para um disco delirante. Espero que meus colegas apreciem.

André: Essa eu já conheço melhor e este disco é fascinante. O que falar do baixão foda de “Money Can’t Save Your Soul”? Uma das minhas canções favoritas deste estilo. Citei só o baixo mas todo o arranjo instrumental desta canção é coisa de gênios. O disco todo é um petardo atrás do outro e a indicação de ouvi-los numa matéria com este tema foi mais do que bem vinda.

Daniel: Sexto álbum de estúdio da banda Savoy Brown e é o primeiro a contar com o ótimo Dave Peverett como vocalista. Gosto bastante da banda e Looking In é, bem possivelmente, meu disco preferido do grupo. Foi ótimo ouvir novamente faixas extasiantes como “Sunday Night”, a guitarra frenética de “Looking In” ou mesmo a melodia maliciosa de “Sitting An’ Thinking”. Ótima indicação!

Davi: Ah, bacana a indicação. Já tem um tempo que estava querendo pegar mais alguma coisa deles para ouvir e não sabia por onde começar. A discografia deles é enorme. Parece que esse é um dos álbuns mais famosos deles. Não sou expert no trabalho do Savoy Brown, mas pelo desenho da capa, esperava um disco um pouco mais pesado, com mais músicas na linha da (ótima) “Poor Girl”. No entanto, não há como negar a qualidade do álbum. Muito bem feito e muito bem tocado, sem dúvidas, mas em uma primeira audição não me empolgou tanto. As que mais gostei foram “Leavin´ Again” e a já citada “Poor Girl”. De todo modo, vou procurar ouvir mais alguns álbuns deles.

Fernando: Conheço quase nada de Savoy Brown. Li algo rápido e vi que nesse álbum eles tiveram que lidar com a saída de seu principal membro e compositor. Mas para mim parece que eles souberam se virar muito bem. O que sei é que com esse antigo membro o som tinha mais jazz nessa mistura e aqui o blues ficou mais evidente. Tenho que ouvir o material anterior, mas, me parece, que não fez falta alguma esse outro ingrediente musical. O que dá para notar é que as músicas são muito mais orientadas pela guitarra e menos para a voz.

Ronaldo: Militantes da cena blues desde muito cedo, o Savoy Brown teve muitas formações e uma longa discografia fortemente calcada no blues. Gradualmente, ao longo dos discos, o blues elétrico do grupo foi adquirindo assinatura própria e se metamorfoseando em algo que desaguou no hard rock. Não tão pesados quanto o Led Zeppelin, mas com muita qualidade e personalidade. O disco em questão situa-se em um momento de inflexão da banda, na qual as fronteiras do blues-rock do grupo estavam se expandido. Há blues de qualidade temperado com outros condimentos em todas as faixas desse bom álbum de 1970. Alguns dos destaques são o groove suave e as maravilhosas guitarras de “Sunday Night” e o clima de jam session da faixa “Leavin’ Again”.


Fleetwood Mac – English Rose [1969]

Por Ronaldo Rodrigues

O Fleetwood Mac, encabeçado por Peter Green, era uma das maravilhosas crias do grupo de John Mayall. Uma das primeiras formações da história do rock a ter três guitarristas na mesma banda (apesar de serem raras as faixas em que os três tocassem guitarra simultaneamente), o Fleetwood Mac tinha por mérito o fato de explorar em detalhes diversas facetas do blues e do r&b americano, seja o blues de Chicago (com a presença de naipe de metais), o fraseado de Elmore James, as transições do blues rural para o elétrico, o sentimentalismo das blues-ballads guiadas por vocais ou os momentos mais cheios de groove do cruzamento entre o blues e o gospel. Como destaques, duas icônicas faixas do período – “Black Magic Woman” (eternizada na versão do Santana, lançada em 1971) e a lindíssima “Albatross”.

André: O Fleetwood Mac que eu gosto é esse daí: blues rock mesmo, com guitarras e energia. Parece outra banda quando comparada ao famoso e, em minha opinião, soporífero Rumours [1977]. Peter Green aqui arrebenta na guitarra e na gaita de boca, além de ser o vocalista que eu mais gosto. O mais que clássico “Black Magic Woman” ainda é o destaque principal do cd. Porém, o disco infelizmente cai no defeito de cansar um pouco na parte final com a pouca variedade instrumental ainda mais se compararmos com os outros discos que foram citados por aqui. No mais, me surpreendeu em saber que a falecida Dona Bizantina da Praça é Nossa (quando jovem) é o Mick Fleetwood. “Apolônio, é você Apolônio!”

Daniel: English Rose foi o segundo álbum da Fleetwood Mac nos Estados Unidos e se trata de uma compilação que reúne faixas do álbum Mr. Wonderful, singles e algumas músicas até então inéditas. “Stop Messin’ Round” e “I’ve Lost My Baby” são destaques óbvios, além da bela instrumental acústica, “Albatross”. Gosto muito de “Black Magic Woman” e de “Love That Burns”, mas minha predileta é a ‘sofrida’ “Something Inside of Me”. Excelente indicação!

Davi: Esse álbum, na verdade, é meio que uma coletânea. É um LP criado para o mercado norte-americano misturando o material de Mr Wonderful com canções de singles e afins. Nos anos 60, tinha muito disso. Beatles, Stones, Hollies, todos esses grupos, a discografia americana difere da inglesa por um período. A capa é uma das coisas mais feias que já vi, mas o disco em si é muito bom. Gosto do estilo deles tocarem. Os arranjos são bem variados, misturando momentos calmos com arranjos mais animados no melhor estilo blues de Chicago.”Stop Messin´ ´Round”, “Doctor Brown” e “Albatross” são meus momentos favoritos. E ahhh, os (ótimos) músicos do Fleetwood Mac que me perdoem, mas a versão de “Black Magic Woman” com o Santana é muito mais enigmática.

Fernando: Para que conheceu o Fleetwood Mac ali no Rumors, aquele fantástico disco de rock, é difícil pensar que eles tiveram essa fase totalmente blues. É uma outra banda mesmo. Mas aqui, em ser terceiro disco a banda já dava mostras que tinha outras facetas musicais além do blues como vemos em faixas como “Abatross”. Porém “Doctor Brown” quase nem podemos chamá-la de blues rock pois é quase um blues puro. Bom disco, tenho que voltar a ouvi-lo mais.

Mairon: Coletânea de uma daquelas bandas exemplo de como nós éramos um dia, e você não irá acreditar. Cara, saber que o Fleetwood Mac surge dos Bluesbreakers de John Mayall, tocava esses blues tão fantásticos, e depois virou a choradeira com a entrada da Stevie Nicks e da Christine McVie, me dói na alma. Teve um War Room do Rumours que me falaram para ouvir o Fleetwood Mac raiz, e como é bom ouvir Peter Green comandando os ingleses em blues espetaculares como “Doctor Brown” , com um naipe de metais marcando presença na audição ou em “I’ve Lost My Baby”, aqui com o delicioso slide de Jeremy Spencer. As canções que o naipe de metais aparece são as que mais me agradaram. Que tesão de blues ballad são “Without You”, “Love That Burns” (solo de piano emocionante) e “Something Inside of Me”, puta que pariu. A última lembrou me muito “Ball and Chain”, na versão consagrada pela Big Brother & The Holding Company. As instrumentais “Jigsaw Puzzle Blues” e “Evenin’ Boogie” são um êxtase por si só, enquanto a outra instrumental, “Albatross”, é uma delicadeza tão sutil que a espinha se arrepiou como uma gata no cio. Há ainda o peso (perto das demais) de “One Sunny Day”, a recriação estupenda para “Coming Home”, de Elmore James, e os sucessos “Black Magic Woman”, consagrada pelo Santana em Abraxas, e “Stop Messin’ Round”, únicas que eu conhecia de antemão. Desconheço o por que Green saiu do grupo, e como as mulheres entraram para levar o Fleetwood Mac a outro patamar, mas cara, essa coletânea e os dois discos anteriores são realmente muito boas.

 

11 comentários

    • André Kaminski

      Orra, e ainda chamou o Davi de “gosta de tudo” o que é o mesmo que chamar de pouco exigente. E aí Davi, ele tá te tirando uma! 😛

      Responder
      • Ronaldo Rodrigues

        caraca, essa foi boa! hahahaha

      • Davi Pascale

        Fake news. Já expliquei sobre esse assunto na entrevista que fiz aqui no site.

  1. Leonardo

    Senti falta do Bluesbreaker With Eric Clapton, do Bakerloo, do Steamhammer…

    Responder
  2. Líbia

    O mais marcante para mim dessa lista é o Beck, Bogert & Appice… O vídeo ao vivo deles tocando “Superstition” é de arrepiar! Carmine Appice é de outro mundo. Daí conheci Vanilla Fudge… Que bandaça!

    Robin Trower eu conheci há poucos meses e simplesmente amei! Uma das melhores coisas que conheci recentemente.

    Responder
  3. Valmir Gallo

    Olá pessoal. Adoro esse estilo, certamente vai tem uma parte 2 não é?
    Segue minha humilde sugestão para a parte 2:

    Rory Gallagher – Irish Tour
    Free – Fire and Water
    Ten Years After – Cricklewood Green

    Abçs.

    Responder
      • Valmir Gallo

        Desculpe Fernando, não achei que o item “surpresa” fosse determinante para a escolha dos álbuns. rsrs.

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