Por Micael Machado

Fotos por Brenda Waltemann

Amanhã completa-se um ano que perdemos aquela que, com certeza, foi a maior voz do Metal Nacional, e uma das maiores em nível mundial. Ainda não é crível que Andre Matos tenha partido tão cedo para o Paraíso do rock. Eu guardo fixa na memória a última vez que o vi em um palco, na turnê solo de divulgação de Turn Of The Lights (2012), em um espetáculo que teve na íntegra o álbum Angels Cry, aquele que marcou a estreia da ex-banda do vocalista, o Angra, lá no hoje longínquo 1993 (claro que algumas matérias publicadas à época e um videozinho mal gravado registrado de forma amadora com boa parte do repertório da noite também ajudaram a relembrar vários detalhes desta apresentação). Os ingressos estavam esgotados há semanas, e eu tinha uma expectativa grande para mais uma apresentação deste ícone do metal nacional em Porto Alegre! Pouco menos de um ano antes, eu o tinha visto à frente do Viper no Teatro do Ciee, mesmo local ele fez a apresentação que está cravada em minha mente ainda hoje, passados sete anos.

Lembro que perdi grande parte da apresentação da banda de abertura, King of Bones, por causa da demora em conseguir um ônibus para ir ao local (foram mais de quarenta minutos de espera). O grupo me soou um meio termo entre Mountain e Metallica fase Black Album, e confesso que nunca mais tive notícias a respeito dela. Mas tive tempo de ver e ouvir “Perry Mason”, do Ozzy, e o guitarrista Rene Matela mandando ver no som mesmo com uma corda quebrada!

A banda King of Bones no palco do Teatro do Ciee

Quando os músicos da atração principal entraram no palco, ao som da introdução instrumental que era a mesma música executada durante o ritual de fertilidade pagão do qual o personagem de Tom Cruise participa no filme “De Olhos Bem Fechados” (e que, tempos depois, seria adotada como tema de abertura dos shows do Ghost), Andre não se juntou a eles em um primeiro momento, entrando em cena em cima da hora de cantar os primeiros versos de “Liberty”, primeira faixa de Turn Of The Lights, e que também abriu esta apresentação! Com o público na mão desde o início, Andre deu o seu “Boa Noite” a Porto Alegre e continuou com “I Will Return” (única do disco Mentalize a ser apresentada) e “Course of Life”, também do Turn Of The Lights, demonstrando sua conhecida e impressionante capacidade vocal e sua excelente performance de palco!

Após esta, sempre carismático, Andre se dirigiu ao público pela primeira vez, agradecendo a presença de todos e ao fato de os ingressos estarem esgotados já há um bom tempo, como citei. Lembro da indireta a quem disse que ‘não tem público para bandas nacionais no Brasil” e que “o público do Sul é uma merda” (sem citar nomes, sendo que todos ali sabiam – e talvez saibam ainda hoje – a quem ele se referia, a quem prefiro nem citar para não dar problemas), falou do show do Viper, da tragédia da boate Kiss, ocorrida pouco tempo antes, citando a vez em que quase colocou fogo em um teatro (ainda na época do Viper, como imortalizado no DVD 20 Years). Enfim, esbanjou o carisma e simpatia que sempre lhe foram marcantes com seus fãs, e que o auxiliaram a se tornar o grande ídolo que ainda é.

A apresentação continuou com “Rio”, que representou o álbum Time to Be Free, de 2007 (sua estreia solo) e chegou à já clássica “Fairy Tale” (de Ritual, disco de estreia do Shaman, outra ex-banda de Andre), que foi cantada em coro por todo os presentes, e que demorou a iniciar devido a um problema com a gravação do coral que serve de introdução à canção, gerando um divertido momento onde Andre disse “Galera, falhou o playback“, e pediu para o guitarrista Hugo Mariutti cantar essa parte, causando risos em boa parte do pessoal. Teve “Stop!”, também do disco que estava sendo promovido, e que abriu caminho para “Lisbon”, do Angra de Fireworks, e que simplesmente enlouqueceu o pessoal, com todos cantando sua letra a plenos pulmões!

Um curto solo de bateria por Rodrigo Silveira antecedeu “On Your Own” (ainda hoje minha favorita do Turn Of The Lights), fechando a primeira parte da apresentação com uma versão de quinze minutos para a clássica “Living For The Night” do Viper. Na parte mais lenta do início, ele entregou o microfone a um rapaz na primeira fila, pedindo para ele passar à pessoa ao seu lado logo depois, e assim o instrumento foi percorrendo a fileira da frente até parar nas mãos de uma menina (já lá pelos versos “I have no other life…”), que realmente cantou muito bem, merecendo palmas do próprio Andre. Como o próprio falou, “Living For The Night” nunca deveria sair do repertório, pois é um dos clássicos do metal nacional. Foi ali que ele apresentou a banda, com além dos citados Rodrigo e Hugo tendo o baixista Bruno Ladislau e o guitarrista André Hernandes, anunciado como “aquele que foi e sempre será um membro da primeira formação do Angra”.

Hugo Mariutti e Andre Matos

Depois de um breve intervalo, a intro “Unfinished Allegro” começou a tocar no PA, surpreendendo a muitos, e marcando o início de um momento memorável, com a execução na íntegra daquele que é, ao menos para mim, um dos melhores álbuns de heavy metal já lançados por uma banda brasileira, só ficando atrás de Chaos AD, do Sepultura, e Theatre of Fate, do Viper! A trinca inicial, com as clássicas “Carry on”, “Time” e “Angels Cry” foi simplesmente perfeita, e, se faltaram os memoráveis backing vocals das mesmas, a performance da banda compensou com sobras qualquer decepção, ficando o mais próximo possível dos arranjos originais, sem descaracterizar nenhuma das faixas ao longo desta segunda parte, em uma decisão bastante acertada por parte dos músicos.

A linda “Stand Away” deu uma baixada na adrenalina do pessoal, e foi seguida pelo baião mais pesado de todos os tempos, a também marcante “Never Understand”, que voltou a incendiar os presentes. Ao final desta, tivemos um solo de André Hernandes, onde o músico esbanjou talento e competência nas seis cordas de sua guitarra. Hernandes chamou Hugo ao palco e, quando pensei que teríamos um dos clássicos “duelos” de guitarra, Mariutti surpreendeu a todos executando os riffs iniciais de “Black Magic”, do Slayer, em uma clara homenagem a Jeff Hanneman, que faleceu no dia anterior do show. O público reagiu muito bem, e Hugo ainda executou mais algumas passagens da música, acompanhado por Hernandes, em um dos momentos mais marcantes para mim! Veio um barulho de ventania anunciando “Wuthering Heights”, onde Andre Matos deu um show de interpretação, em uma canção dificílima, mas que parecia fácil devido a seu enorme talento. A música teve acompanhamento de boa parte dos presentes em seu refrão final, com Andre apenas assistindo e deixando o público levar sozinho esta parte, para delírio do pessoal! A pesada “Streets of Tomorrow” foi precedida por outra homenagem a Hanneman, na forma dos riffs iniciais de “Dead Skin Mask”, também executados por Hugo, e as excelentes (porém nem tão lembradas) “Evil Warning” e “Lasting Child” encerraram a apresentação, com Andre agradecendo novamente aos presentes, e os músicos saindo rapidamente do palco, para voltarem um a um e cumprimentarem as pessoas presentes na primeira fileira, ao som de um instrumental com a melodia de “Fairy Tale”, e fazendo o tradicional cumprimento de despedida de todos os artistas em todos os shows, indo à frente do palco e reverenciando o público!

Visão geral do palco

Era o final de mais uma noite inesquecível para os fãs de metal de Porto Alegre, que puderam conferir de perto um dos maiores talentos do estilo já surgidos no país, sendo que, infelizmente, seria a última vez em que tive a chance de assisti-lo. Houve mais uma passagem de Andre Matos por Porto Alegre depois disso, ainda em carreira solo (e, se não estou enganado, apresentando o Holy Land na íntegra), e ainda por cima no templo sagrado do Opinião, mas eu não estava na cidade na época, e, como tinha certeza que um dia ele voltaria à capital gaúcha, nem esquentei muito a cabeça. Lamentavelmente, isso não ocorreu, e não pude ouvir Andre agraciar meus ouvidos com sua voz novamente ao vivo, mas ficou a emoção e a felicidade de ter vivenciado esse show fantástico de 2013, onde, mesmo com a tristeza de saber que nunca o verei mais, fica a alegria de poder ter estado com ele tão perto de mim não só cantando, mas cativando o público e conversando normalmente como um simples mortal, sendo que, certamente, Andre era bem mais do que isso!

“Angels crying / Can’t take no more

Angels dying / Capture their fall”

Set List:

Primeira parte:

1. Intro

2. Liberty

3. I Will Return

4. Course of Life

5. Rio

6. Fairy Tale

7. Stop!

8. Lisbon

9. Drum Solo

10. On Your Own

11. Living for the Night

Segunda parte – Angels Cry:

1. Unfinished Allegro

2. Carry on

3. Time

4. Angels Cry

5. Stand Away

6. Never Understand

7. Guitar Solo

8.Wuthering Heights

9. Streets of Tomorrow

10. Evil Warning

11. Lasting Child

3 comentários

  1. Mairon

    Um ano já!!! Como passa rápido … Triste saber que morreu tão jovem. Agora é aguardar o documentário que vão fazer, e ficar com as lembranças de um vocal carismático e gente fina pacas!!!

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  2. CLEIBSOM

    A morte do André é um dos fatos mais tristes da história do metal nacional! Eu eu ainda não engoli esta história de “infarto fulminante” para a sua passagem. O cara estava muito mal, tanto psicológica quanto fisicamente, e só não via quem fosse cego! Ele era muito reservado, hipocondríaco e tinha surtos pesados de melancolia e depressão e no momento de sua morte achava que sua carreira estava em uma encruzilhada e sem futuro. Mas, independente disto, sua obra está aí e vou agora ouvir o melhor disco gravado por ele: Theatre Of Faith…

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