Por Fernando Bueno

Fábio Paulinelli é um daqueles guerreiros da resistência do metal. Defende o heavy metal tradicional, compõe, grava discos, toca uma loja de discos, ou seja, faz o ciclo completo. Além de tudo também é um apaixonado pela cultura dos anos 80 e, principalmente o personagem Conan – algo que quem acompanha a carreira do Grey Wolf já deve ter percebido. Gentilmente ele aceitou a ceder essa entrevista e o resultado está apresentado a seguir.

Discografia Grey Wolf:
Grey Wolf (2014)
We Are Metalheads (2015)
Glorious Death (2016)
In The Beginning (2017) – Reunião de demos, faixas ao vivo e duas inéditas
The Last Journey Of An Old Viking (2019)


Olá Fábio! Obrigado por aceitar participar dessa entrevista. Para começar faça um breve histórico do Grey Wolf para os nossos leitores.

Eu que agradeço a oportunidade. Então, o Grey é um projeto que iniciei em 2012, quando comecei a gravar algumas demos, pra mim mesmo sem pretensões nem nada. Em 2014, quando já havia gravado seis demos, apareceu a oportunidade de gravar um full. Gravei e lancei de forma independente, o qual teve uma ótima recepção, muito além do que eu esperava e isso me deu ânimo pra continuar. Desde então venho me dedicando ao máximo para conseguir soltar pelo menos um trabalho a cada ano. Já são cinco trabalhos com o Grey, quatro álbuns e uma compilação de demos e um álbum com outro projeto paralelo chamado Brothers of Sword. Até agora tem dado certo e pretendo continuar nessa pegada.

Gostaria de dar os parabéns pelo resultado final de The Last Journey of An Old Viking. Ele talvez tenha o melhor som de todos os álbuns gravados. Quais foram os fatores que fizeram a diferença entre ele e os outros álbuns?

Eu considero esse meu trampo menos ruim (risos). Bem, eu acho que uma evolução de álbum para álbum é uma coisa natural. Não sei te dizer o que fez diferença nesse trabalho. O que posso dizer é que desde o Glorious Death, que foi o terceiro de estúdio, a produção deu um up pois o Arthur Migoto (ex-Hazy Hamlet, atual Coltan Skull) do Estúdio Heavytron assumiu a produção dos álbuns e isso fez uma grande diferença no resultado final. É uma parceria que vem dando certo, pois ele curte o trampo do Grey e eu gosto do que ele faz com as minhas músicas no que diz respeito à mixagem e masterização e no que depender de mim essa parceria continuará.

Também queria comentar sobre a arte gráfica e ela é superior à muitos discos de bandas grandes, mesmo em suas versões importadas. Sei das dificuldades de se lançar um disco aqui no Brasil, ainda mais no underground, mas o que te motivou a caprichar tanto?

Nesse último trabalho eu investi tudo o que eu tinha e o que eu não tinha (risos). Ficou puxado o orçamento e fiquei devendo uma grana. Mas resolvi acreditar no trabalho e arrisquei. Achei que no fim das contas valeria a pena pois seria algo com um diferencial a mais e o resultado final me agradou muito. Acabou que deu tudo certo, a aceitação foi ótima, o álbum recebeu excelentes críticas, então valeu todo o investimento. O que me motivou foi o fato de que o Grey Wolf hoje é a única coisa que faz algum sentido em minha vida. Então sempre me empenharei ao máximo para fazer o melhor possível, dentro das minhas limitações, claro.

Você aborda uma temática épica de fantasia e história. Por que você acha que essas histórias combinam tanto com o heavy metal?

Acho que essa é uma combinação perfeita, pois o heavy metal emana poder, é uma música poderosa em todos os sentidos.  Mas no caso do Grey não foi nada forçado. Foi uma coisa que aconteceu de forma bem natural, já que eu sempre gostei de coisas épicas, sejam filmes, livros, etc.. E eu leio Conan desde os meus 9 anos de idade. Então seria mais do que natural que eu trouxesse essa abordagem ao Grey Wolf.

A minha próxima pergunta seria exatamente sobre o Conan. São várias as músicas com títulos citando-o diretamente e outros que só para quem leu os livros relaciona diretamente (“The Elephant Tower” e “Crossing the Hyborian Seas”, por exemplo). Conte um pouco da sua história como fã da criação de Robert Howard e também com a clara referência ao conceito do Grey Wolf, personagem que está em todas as capas de seus discos e que você até mesmo escreveu sua história em encarte separado que integra o The Last Journey of An Old Viking.

Meu primeiro contato com Conan foi aos 9 anos de idade. Estava vendo TV já tarde da noite enquanto meu pai jogava baralho com os amigos. Fui trocando de canal e de repente me deparei com “Conan, o Bárbaro” sendo exibido na Globo. Aquilo me fascinou. Fiquei hipnotizado e vi o filme todo. Dias depois fui na feira com o véio comprar umas coisas e ao passar por uma banca de revistas me deparei com o nº 18 de A Espada Selvagem de Conan. Lógico que pedi meu pai para comprar. Ele me deu as revistas até os meus 15 anos. A partir daí ele disse “se vira”. Comecei a trabalhar dois anos depois e retomei a coleção e continuo até hoje. Sim, escrevi aquela história que seria para uma HQ a princípio, mas os custos são exorbitantes para uma HQ Independente, então resolvi lançar como um conto acoplado ao CD. É Conan chupado (risos), o que acabou sendo inevitável já que passei minha vida toda lendo histórias do Cimério.

As minhas lembranças dos dois filmes com o Arnold também são bem antigas e sou daqueles que ficou anos sonhando com mais filmes com ele. O que achou do filme com o Jason Momoa?

Esse filme foi uma grande decepção. Criei muita expectativa na época pois as imagens mostravam um Conan mais voltado ao estilo do que a Dark Horse estava fazendo na época e eram quadrinhos muito bons. Mas foi decepcionante. Pra mim a única coisa legal no filme são as cenas com o Conan jovem.

Em 2017 foi lançado The Beginning, uma reunião de demos, músicas ao vivo e EPs. Ele saiu como uma reunião de lançamentos antigos e outros além do que saiu nos álbuns. Considerando que no disco está descrito faixa a faixa e de qual material ela se refere, inclusive com suas capas, a minha pergunta é: esses lançamentos foram lançados de que forma? Há material físico daquilo tudo?

As seis demos foram lançadas de forma caseira, CD-R com capa impressa colorida no saquinho plástico. Coisa bem caseira mesmo. Como eu disse, na época eu gravava pra mim mesmo e não esperava que o Grey fosse pra frente. Depois que os álbuns foram saindo, muitas pessoas me pediam as demos. Houve uma grande demanda por este material. Por isso tive a ideia do The Beginning, para lançar de forma oficial este material e pra aproveitar também e registrar alguns raros momentos ao vivo em que o projeto esteve na ativa como banda, o que durou pouco, um ano mais ou menos. Escrevi também duas canções inéditas para esse lançamento, “The Beginning” e “Defenders of Steel”, como um atrativo a mais para quem fosse adquirir o material.

Desde o início dava para perceber que o Grey Wolf é um projeto seu. Outros músicos ainda apareciam nos encartes como o guitarrista Rudolf, mas no último disco nem mesmo ele apareceu. Como funciona essa dinâmica da banda, principalmente em relação aos shows ao vivo?

Então, como disse antes, foi banda por um breve período, mas voltei ao status de projeto pois não dei sorte em conseguir integrantes dispostos mesmo a levar para frente. E porque foi assim que começou, como um projeto de um homem só. Desde a demos houve diversas passagens de guitarristas, mas mais para a gravação do material. De um tempo pra cá resolvi tentar gravar eu mesmo as linhas de guitarra, pelo menos no que diz respeito às bases. Para solos eu conto já há algum tempo com meu brother Junior Bonora (Thunderlord, Forgotten Saga). Ele curte bastante participar dos meus trampos e eu sou grande admirador do seu trabalho como guitarrista.

E paras os shows ao vivo, como você faz? Aliás, como andavam os shows antes do começo desse nosso problema com o COVID-19? E qual o lugar mais longe que o Grey Wolf te levou para tocar?

Desde 2016 que o Grey voltou a ser um projeto de estúdio e não pretendo mais montar uma banda para apresentações ao vivo. O Grey ficou ativo como banda um ano e pouco de 2015 a 2016. O lugar mais longe que toquei com Grey foi na Bahia no Festival Ruídos do Sertão.

O som do baixo é bastante marcante, com uma timbragem um pouco mais “metálica”. Alguma referência à aquela gravação antiga que todo mundo ouviu do Maiden England? Também tive a impressão que você fez questão de fazer linhas muito trabalhadas no instrumento no último disco.

Iron Maiden é a minha maior influência no baixo. Então esse lance da timbragem faz sentido sim (risos). O baixo é e sempre será o carro chefe no Grey Wolf. É o meu instrumento de ofício, o único que toco razoavelmente. E o único que gosto de tocar. Detesto cantar e também não curto guitarra. Mas o baixo eu amo, apesar de não tocar merda nenhuma (risos). Então é mais do que natural que ele sobressaia nas músicas. Procuro dar ênfase e trabalhar as linhas o melhor possível, dentro das minhas limitações, é claro.

Aproveitando a citação ao Iron Maiden na pergunta anterior, quais são suas maiores inspirações e influências musicais?

Iron Maiden com relação ao baixo. Manowar e Running Wild no geral. Muitas pessoas dizem que o vocal lembra Grave Digger mas não foi propositalmente. Saiu assim natural.

Qual foi a receptividade mais legal que você já recebeu de todos esses trabalhos que você já lançou?

A coisa que mais me surpreendeu foi quando a Stormspell (USA) quis relançar os dois primeiros álbuns lá fora. Mas a receptividade do terceiro álbum Glorious Death de 2016 foi algo assim muito massa cara. Foi inacreditável. Lembro que o Arthur quando estava mixando o álbum me disse que esse álbum tinha um potencial enorme e se ofereceu para lançá-lo pela sua gravadora na época, a Arthorium Records. Eu não botei muita fé no que ele disse na época, mesmo porque eu costumo não gostar muito das coisas que eu componho (risos). Mas o fato é que ele estava certo, o disco foi muito bem sucedido e hoje se encontra esgotado, pelo menos comigo e com ele, e isso pra uma tiragem de mil cópias de uma parada do underground foi bem surpreendente pra mim.

Eu iria perguntar mesmo sobre a repercussão fora do Brasil. Ainda mais com esse surgimento grande de bandas e fãs do heavy metal mais tradicional, até criando uma geração que está sendo chamada de New Wave of Traditional Heavy Metal (NWOTHM).

Sim, o Heavy Metal Tradicional voltou com tudo. E ao meu ver,  é o que há de melhor dentro do metal. É a nata. E os fãs de heavy metal tradicional costumam ser os mais fiéis. Portanto o estilo nunca morrerá.

O estilo do Grey Wolf é calcado no heavy metal oitentista e o estilo é bastante definido. Como ouvinte você é daqueles que tratam os anos 80 como a época de ouro e o que foi feito depois inferior ou consegue gostar de todas as épocas do rock e metal?

Com certeza os nos 80 são insuperáveis. Tudo de melhor foi criado ali. E não só na música, mas em filmes, HQs, tudo. Os 80’s foram mágicos e eu acho que nunca haverá nada igual. De lá pra cá a gente só copia (risos). Tudo já foi criado, pelo menos em termos do tradicional.

Além de tocar, compor, ter uma banda, fazer shows, você ainda tem uma loja de discos. Isso é realmente uma forma de se viver de música, não é?

Sim, hoje eu vivo de metal, tenho minha página no face que se chama Taberna do Lobo na qual faço patches e camisetas por encomenda, além de vender também CDs de bandas. Mas vou te dizer, não é fácil, as vezes quase passo fome (risos). É aquele lance né: fazer o que gosta e não ter dinheiro ou ter dinheiro trabalhando com o que não gosta. A escolha pra mim foi fácil. Mas não é nada fácil sobreviver assim, isso é fato.

A Consultoria do Rock reúne leitores apaixonados por música e muitos deles são colecionadores. Você também mantém uma coleção de discos?

Sim claro, certeza. Não só de discos mas também de HQs, DVDs, jogos e livros. Pra te falar a verdade eu torço um pouco o nariz pra esses lances virtuais, streaming e esse tipo de coisa, mesmo sabendo que a tendência é essa. Mas vim de outra época e não vou me adequar essas modas nem a pau (risos). Já dizia o Stan Lee: por mais bonitos que sejam os seios de uma mulher numa revista masculina, eu preferiria tê-los nas mãos (risos). Algo assim (risos).

Pensando como colecionador, já teve vontade de lançar alguma coisa em LP, sejam os álbuns ou singles em compactos de 7”?

Tive a sorte de ter o Glorious Death relançado em LP pela Nômade Records. Foi a realização de um sonho. Eu tinha planos para um Single em compacto 7” mas tive que desistir, pois o custo é muito alto pra um lançamento independente. Mas acabou que essa ideia se tornou uma outra coisa bacana na qual já estou trabalhando mas que não posso revelar detalhes no momento. Mas mais pra frente anunciarei um lançamento diferente com relação ao Grey Wolf.

Opa. Vou fica de olho! Na sua coleção de discos você foca em alguma banda específica? Em algum estilo específico, época, etc?

Manowar e Running Wild são meu principal foco já que são minhas duas bandas preferidas. São as que mais possuo material. Acho que 80% do meu acervo foca no metal tradicional. Mas tem de tudo, desde Creedence até Immortal.

Além do Grey Wolf, indique alguma banda para os leitores da Consultoria do Rock.

Thunderlord, Livig Metal, Metaltex, Hazy Hamlet, Battalion, Cavaleiro Dragão, Cruzadas, Nosferatu, Black Chest, Dunnkell Reiter, Dark Witch, Lecher, Nightwolf, e muitas outras que não me lembro agora mas tem muita coisa boa no Brasil.

Fábio, muito obrigado pela oportunidade, pela gentileza e novamente parabéns pelo amor à música e ao metal. Esse é seu espaço para deixar suas considerações finais.

Eu que agradeço pela oportunidade de falar um pouco sobre o projeto, o qual como já disse, é a única coisa que da algum sentido à minha vida atualmente e ao qual me dedico a máximo e tento dar o meu melhor dentro das minhas limitações, é claro. Obrigado à todos os apoiadores. Stay Metal!!! /,,/

 

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