Por Mairon Machado

Tragédias, guerras, relacionamentos, ídolos, vários são os artistas que decidiram, através de suas musicas, trazer aos fãs um fato que aconteceu na vida real. No Cinco Músicas Para Conhecer de hoje, pinçamos cinco clássicos do popular mundial que foram baseados em fatos reais.


“American Pie” – American Pie [1971] (Don McLean)

Épico de quase 9 minutos, “American Pie”, colocou Don McLean nas paradas internacionais graças a belíssima letra que conta sobre o “Dia Que A Música Morreu”. Esse dia é 3 de fevereiro de 1959, quando na noite fria em Clear Lake, Estados Unidos, Buddy Holly, Ritchie Valens e Jiles “The Big Bopper ” Richardson morreram em um trágico acidente de avião (imagem que ilustra a matéria). Don era um entregador de jornais que sonhava em ser músico, e quando recebeu os jornais que tinha que entregar no dia 4 de fevereiro, ficou consternado com o que lia em cada jornal entregue nas portas dos nova iorquinos. Desde a tristeza da noiva de Holly, grávida no dia do acidente, passando pelos fatos marcantes na vida de McLean por conta das canções dos três, a canção passa através de inúmeras metáforas alucinógenas que o cantor jamais prestou-se em explicar, mas que deixa claro como a morte dos três causou a perda na inocência do rock dos anos 50, e levou a inspirar toda uma nova geração de roqueiros na década de 60 (Dylan, Stones, Elvis, Beatles, Byrds, …). A tocante voz de McLean vai nos envolvendo em um rock ‘n’ roll sensacional, na base do piano, violão, guitarra, baixo e bateria, com um ritmo avassalador e um refrão atemporal, que fizeram da canção um grande clássico. Certamente o maior sucesso na carreira de McLean. Regravado por Madonna e tantos outros, e lançado no segundo álbum do americano e em diversos singles, a maioria com a faixa dividida nos dois lados da bolachinha, como a que ilustra a matéria.


“Smoke On The Water” – Machine Head [1972] (Deep Purple)

O dia 4 de dezembro de 1971 entrou para a história por conta de um incidente que acabou gerando um dos maiores clássicos da música em todos os tempos. Naquele dia, Frank Zappa e os Mothers of Invention apresentavam-se no teatro do Cassino Montreux, quando um fã dentro do teatro resolveu disparar um sinalizador, que atingiu o teto do local, e prontamente, incendiou tudo. O fogo acabou com o equipamento de Zappa e cia., bem como destruiu com o local. Os caras do Deep Purple estavam em Montreux para gravar Machine Head nos estúdios pertencentes ao complexo do qual o Cassino fazia parte, e tinham alugado o famoso Rolling Stones Mobile Studio. No fim da tarde do dia 4, eles descansavam em um hotel de frente ao lago Genebra, de onde puderam ver a fumaça do incêndio sobre as águas do lago. No dia seguinte, Roger Glover (baixo) acordou com o pensamento “Smoke on the Water”, e rapidamente, a música e a letra contando sobre o acontecido criaram forma. A história é narrada de forma direta, com os Mothers se apresentando e o estúpido atirando o sinalizador para colocar fogo em tudo. Claude Nobs, proprietário do cassino, aparece enoluquecido tentando salvar as pessoas (ele deu uma grande mão para o Purple terminar o álbum, tanto que é o único a ser agradecido pela banda na capa interna do disco). Graças a Nobs, a banda aluga o Grand Hotel de Montreux, e com o Rolling truck Stones, os ingleses puderam fazer suas músicas. Simples, direto, clássico, uma aula de como contar uma história em pouco mais de quatro minutos. Algumas imagens do incêndio aparecem na capa interna de Machine Head, onde “Smoke on the Water” foi lançada originalmente, assim como em diversos singles, coletâneas e álbuns ao vivo.


“Hurricane” – Desire [1976] (Bob Dylan)

Uma das mais célebres (e inúmeras) canções baseadas em fatos reais do bardo americano, “Hurricane” destaca-se principalmente pela impecável participação do violino de Scarlet Rivera, que serpenteia com maestria os quase 10 minutos de uma audição inesquecível. Dylan revisita seu passado como trovador elétrico, e narra de forma envolvente e marcante a polêmica prisão do boxeador Rubin “Hurricane” Carter, em 1966. Para quem não conhece a história, em 17 de junho de 1966 “Hurricane” foi preso injustamente, acusado por matar duas pessoas em um bar de Paterson, Nova Jersey. Dylan narra ferozmente todo o incidente, com detalhes de como se estivesse presenciando o mesmo. Assim, ele conta que o pretendente número um à coroa dos pesos-médios fica envolto em um circo de porcos. Rubin acaba julgado por um júri somente de brancos, e com provas falsas, foi condenado a prisão perpétua, ficando preso por mais de dezenove anos. A canção deu pano para manga, com Dylan fazendo shows para arrecadar fundos pró-liberação de Rubin, e inclusive gerando um filme (The Hurricane, 1999, tendo Denzel Washington no papel do boxeador). O bardo americano foi processado por Patty Valentine (uma das testemunhas do caso) por usar indevidamente seu nome, mas não desistiu de fazer justiça ao campeão até sua libertação, em novembro de 1985. Certamente, é para no mínimo refletir sobre o descaso racial que (ainda) impera nos Estados Unidos e no mundo. Registrada no fantástico Desire, em 1976, e em diversos singles que, assim como “American Pie”, contém a faixa dividida em ambos os lados da bolacha.


“Sunday Bloody Sunday” – War [1983] (U2)

Clássico da carreira dos irlandeses, “Sunday Bloody Sunday” narra o horror sentido por um leitor ao ver as notícias do chamado Bloody Sunday (Domingo Sangrento), na cidade de Derry durante o Conflito na Irlanda do Norte (em inglês, The Troubles). Esse conflito entre protestantes (maioria), em favor de preservar os laços com o Reino Unido, e os católicos (minoria), em favor da independência ou integração junto a República da Irlanda, acabou sendo feito a base de armas, e durou mais de 30 anos, a partir do final da década de 60 e encerrando-se em 10 de abril de 1998, com a assinatura do Acordo de Belfast. No dia 30 de janeiro de 1972, domingo, cerca de 10 mil manifestantes caminhavam em protesto pacificamente pelas ruas de Derry, quando soldados ingleses passaram a atirar contra o grupo. 13 pessoas (6 menores de idade) morreram durante o incidente, e um dos 26 feridos acabou falecendo semanas depois. Os detalhes daquele dia não são contados na letra da canção, apenas a visão pensativa do personagem central sobre o quanto a violência torna-se mais valorizada que a vida por motivos fúteis. O ritmo marcial da bateria de Larry Mullen Jr., o riff (sempre) inigualável de The Edge, o baixo estourando as caixas de som, a interpretação emocionada de Bono, e o violino de Steve Wickham tornam a faixa extremamente grudenta, e o refrão é preparado para fazer arenas tremerem. Paul McCartney (“Give Ireland Back To The Irish”, 1972) e John Lennon & Yoko Ono (“Sunday Bloody Sunday”, 1972), também narram os fatos acontecidos naquele dia, mas nenhum dos ex-Beatles conseguiu impactar tanto o mercado da música e os fãs para o lamentável evento como o U2. Está em War (1983), em diversos álbuns ao vivo e coletâneas, saiu como single (tendo vários lados B) e é uma das faixas essenciais nas apresentações do quarteto até hoje.


“Empire of Clouds” – The Book Of Souls [2016] (Iron Maiden)

A história de tragédia do Titanic não é exclusiva. O maior dirigível do mundo na época, o R101 Airship, sofreu um acidente no seu primeiro voo, em 5 de outubro de 1930, quando saiu de Cardington (Inglaterra) em direção a Karachi (Índia). Próximo a cidade de Beauvaise, França, o dirigível sofreu grandes turbulências durante uma forte tempestade, caiu aproximadamente 300 metros e explodiu logo após atingir o solo, matando 48 dos 54 tripulantes da aeronave. Uma das maiores tragédias na história da aviação, até por que assim como o navio Titanic, o “Titanic dos ares” era considerado inderrubável. A longa introdução surge como um “Overture” para o desenvolvimento, onde piano e orquestra fazem o papel central. Ao longo dos 18 minutos, somos levados pela história do dia do acidente, com os ricaços embarcando pomposos para a viagem até os fatídicos minutos da queda do R101, passando por detalhes da formação da tempestade, as probabilidades da aeronave cair (um milhão para um) e as 48 almas que foram morrer na França. Na parte instrumental, o Iron traz desde a sensação de levantar voo ao som de acordes triunfais até os minutos de tensão, com o S. O. S. do telégrafo no dirigível pedindo socorro e informações sobre a rota da tempestade. Uma canção com um aparato de construção progressiva muito além do que o Iron já havia apresentado, um pouco quanto repetitiva em alguns momentos, mas que não há uma definição específica para o estilo, já que é exclusiva em toda a vasta obra dos ingleses. Lançada em The Book of Souls e também em um belo EP Picture Disc, com uma entrevista de Dickinson (“Maiden Voyage”) no lado B contando detalhes da gravação, da história do dirigível, além de imagens do acidente que saíram no jornal Daily Mirror no dia seguinte ao acidente.

Imagens do acidente do R101

11 comentários

  1. Rilmar da Rocha Moreira

    Excelente texto, Mairon! Uma pequena correção: um dos cantores mortos no acidente aéreo envolvendo Buddy Holly, juntamente com The Big Bopper, foi RITCHIE VALENS e não Richie Havens.

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    • MAIRON MELO MACHADO

      Obrigado filmar, foi uma falha mesmo, acabei digitando certo, mas o corretor mudou … Será atualizado. Obrigado

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      • Mairon

        Até aqui o corretor interferiu … Rilmar, não filmar … Abraços

  2. Igor Maxwel

    Gostei da citação de “Hurricane” nessa lista. Deixo bem claro que não gosto muito do Bob Dylan, como eu disse várias vezes aqui, mas o Desire eu ouço do começo ao fim sem nenhum problema…

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      • Igor Maxwel

        Sim, patrão… Desire é realmente um clássico, para mim o melhor disco lançado pelo vencedor do Prêmio Nobel de Literatura (2016). Reconheço isso mesmo não sendo fã dele.

  3. Gabriel

    Uma outra canção que também retrata um fato é “The Killing of Georgie (Part I and II)” do Rod Stewart, que conta a história de um jovem gay que era amigo de um dos integrantes do Faces e que foi morto na rua por homofobia.

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