Por Ronaldo Rodrigues

Muita coisa circulou pelos alto falantes da minha casa em 2019. Diferentemente de anos anteriores, não consegui acompanhar tantos os lançamentos mês-a-mês, deixando mais para o fim do ano a tarefa de ver o que estava acontecendo. Na média, ouvi vários discos bons, mas poucos que realmente chamaram muito minha atenção – ou seja, muitos discos de boa qualidade, mas poucos de qualidade surpreendente. Isso dificultou a elaboração da lista. Da 7ª posição até o final, há pelo menos outros 4 discos que poderiam perfeitamente estarem dentro da lista mas ficaram fora. E também precisei rechear a seção de menções honrosas. Assim como em anos anteriores, não dei muita atenção a novos lançamentos de medalhões e bandas consagradas e, segunda minha parca percepção, foram poucos casos assim. Mas a premissa foi dar atenção a grupos plenamente ativos nos anos mais recentes e novos nomes.


Motorpsycho – The Crucible

Terceira vez que um disco do Motorpsycho figura em minhas listas de melhores. A banda tem uma produção muito consistente – praticamente 1 álbum (de alto nível) por ano. Começo a me sentir como um fã isolado da banda aqui no Brasil, porque apesar de meus brados em favor da musicalidade do grupo pouca gente ainda dispensa atenção a seus novos discos. Apesar da primeira faixa (“Psychotzar”) ser uma emulação das lambidas progressivas do Black Sabbath, a segunda faixa é um épico progressivo de cortar o coração ao meio – ninguém faz melodias tão belas como esta banda atualmente. E ainda as envolve maravilhosamente bem em arranjos ricos e experimentações. A última faixa (são apenas 3 no disco), que leva o título do álbum, é uma explosão progressiva com uma seção instrumental de tirar o fôlego. Nada me impressionou mais do que isso em 2019. Resenhei o disco pouco tempo depois de seu lançamento – veja aqui.


Jordsjø – Nattfiolen

Os países escandinavos tem galgado várias posições nas minhas listas de melhores lançamentos desde que comecei a elaborar estas listas. Em todos eles percebo as seguintes qualidades – excelentes composições, instrumentação caprichada e sonoridade analógica. Eis a fórmula para qualquer disco que queira, voluntariamente ou involuntariamente, agradar meus ouvidos. O Jordsjø é basicamente um duo norueguês, do qual se encontra pouquíssima informação sobre sua biografia na internet. O disco lançado pela Karisma Records recebeu elogios pesados na PROG Magazine e, não a toa, chamou a atenção de toda a comunidade progressiva do mundo. O clima nos remete imediatamente para as paisagens gélidas do norte da Europa e tem muito do folk local e de seu ar misterioso. Contudo, a base do folk é trazida em um mecanismo muito dinâmico de arranjos e ricas variações. Um trabalho para ser degustado e ter sua beleza plenamente apreciada.


Heavy Feather – Débris & Rubble

Grupo sueco estreante, que veio ao mundo trazendo a pedrada mais rock n’ roll do ano. Há muitas semelhanças com os conterrâneos do Blues Pills, que sacudiram o mundo do rock uns anos atrás – uma banda pra lá de competente (o guitarrista é egresso do Siena Root) e uma vocalista maravilhosa a frente. Rock básico com a mão cheia de bons riffs e melodias cativantes. Aquela mesma coisa que há décadas faz alegria dos rockeiros de raiz ao redor do mundo. “Waited all my Life” e especialmente “Dreams” foram algumas das faixas que mais rolaram pelos alto falantes por aqui em 2019 (e continuarão rolando). Foi outro que mereceu resenha por aqui, na seção Sangue Novo – confira no link.


Michael Kiwanuka – Kiwanuka

Conheci este cantor inglês por indicação de colegas aqui do site e, a partir de então, passei a acompanhar seus passos. O disco é ousado e se situa em uma intersecção imaginária de Marvin Gaye, Richie Havens e Funkadelic. Trata-se de neo-soul da melhor qualidade envolto em uma vestimenta psicodélica. Os arranjos são insanos em boa parte do tempo e a instrumentação vai fundo na sonoridade do fim dos anos 60; em certos momentos a produção do álbum coloca um contraste fantástico entre a voz de Kiwanuka e a base instrumental – a primeira, está no futuro e a segunda, vem do passado (as vezes ocorre até o contrário). O disco tem uma saudável melancolia – algo para se ouvir e reouvir em diversas ocasiões.


Durand Jones & The Indications – American Love Call

Mais um representante do retro-soul na lista. Disco emocionante destes americanos, com belas canções que resgatam a vibe soft da música negra do início dos anos 70, seja no estilo de compor, de cantar e tocar. Pode parecer um ode a nostalgia para uns, mas eu particularmente não vejo nada demais trafegar em uma bela estrada cênica já desbravada (muito pelo contrário). Prefiro mil vezes ver músicos do quilate dos Indications fazendo música nova sem se importar em buscar originalidade do que certas “tentativas” de música que andei ouvindo ou, em última instância, se dedicarem a tocar cover.


Diagonal – Arc

Conheci estes britânicos em 2008, na época do lançamento de seu primeiro disco, um jazz-rock psicodélico primoroso. Em 2012 veio um novo álbum, que ficou abaixo do esperado e um longo hiato se seguiu. Foi uma boa surpresa ver um novo lançamento deles neste ano, mas a coisa começa mal, já que a faixa de abertura do álbum é um tremendo tropeço (parece algo de David Bowie ou Duran Duran). Não fosse por isso, o álbum poderia até ter alçado uma posição melhor nesta lista, já que a partir da faixa 2 a viagem começa pra valer (e ela guia o ouvinte até o fim do disco). As melodias vocais de “Stars Below” são galáticas e a instrumentação que a acompanha é surreal. A psicodelia vai surgindo lentamente em solos de teclado, dedilhados de violão e de instrumentos de sopro em todas as faixas. O ouvinte é envolvido em uma torrente de sons cerebrais belamente esculpidos.


Rival Sons – Feral Roots

Outro grupo que deu um gás no rock nos últimos anos e vem com outro bom lançamento. É revigorante ouvir riffs pesados como os de “Do Your Worst”, “Back in the Woods” ou “Too Bad”, especialmente quando cantados por pulmões valvulados como os do vocalista Jay Buchanan. As músicas mais suaves e também as com trechos acústicos são grande destaques, o que mostra que a banda sabe como jogar em todas as posições em matéria de rock. O disco tem muitas faixas, mas a maioria delas está entre 3 e 4 minutos, sintetizando bem as idéias nas músicas.


Pharlee – Pharlee

Mais um grupo dos EUA e estreante, que roubou posições de última hora em minha lista de melhores. Sim, é retro-rock, mas é difícil não ficar barbarizado com a eficácia dos riffs de “Ethereal Woman” ou “Darkest Hour”. A vocalista Macarena Rivera tem uma bela voz e evita muitos dos clichês das vozes femininas no rock pesado, contribuindo fortemente para o brilho deste trabalho; há de se destacar também a insanidade do baterista Zachary Oakley e a classe exibida pelo trabalho de guitarra e teclados do disco. Parece até que a banda não dispôs de uma infra-estrutura tão sofisticada para gravar, mas o ar rústico da gravação joga a favor dos riffs desempoeirados que aqui são praticados.


Big Big Train – Grand Tour

Outro que já figurou em minhas listas de melhores e faz jus a estar novamente por aqui. É gratificante ver grupos contemporâneos de rock em seu ápice criativo, lançando seguidos trabalhos de grande qualidade e é o caso desse grande agrupamento de músicos ingleses. Neste disco o Big Big Train deixa bastante evidente as influências do Genesis em seu som em um disco conceitual ambientado no Império Romano. Há todo o tipo de qualidade neste disco – uma interação muito coerente entre os instrumentos, solos instrumentais de enorme técnica, transições muito bem pensadas entre climas e ritmos e bons vocais. A suíte “Roman Stone” é um dos principais destaque do disco, mostrando todo o panorama de possibilidades que existe no rock progressivo.


Stew – People

Válvulas fritam intensamente na Suécia. Outra galera boa de rock que estreou chutando bundas com os dois pés. O disco foi resenhado por colegas do site na ocasião de seu lançamento e concordo com o que disseram – é um blues-rock muito bem feito por este trio. É um som pra curtir com um boa cerveja e chacoalhar a barriga. Riffs quentes, ótimas dobras de baixo e guitarra, bateria pesada e vocais rasgados. Muita gente tenta vencer na vida assim, mas poucos conseguem chegar lá.


Menções honrosas, bolas na trave e decepções

Menções honrosas: o disco de John Zorn inspirado na vida de São Francisco de Assis é uma de beleza ímpar e conta com o trabalho ao violão de 3 grandes guitarristas da atualidade – Julian Lage, Gyan Riley e Bill Frisell. Outro trabalho acústico muito bom é da dupla italiana The Pilgrim, chamado Walk into the Forest. E por último, um novo grupo do baterista Paul Marrone do Radio Moscow, chamado Birth lançou um EP na praça com uma pegada bastante progessiva. Com certeza vale apena acompanhar o que essa turma irá lançar nos próximos meses.

Bolas na trave/discos que quase entraram na lista: Lucy in Blue – Out (progressivo espacial da gelada Islândia), The Dues – Ghosts of the Past (hard rock com guitarra envenada vindo da Suíça) e O Terno – <atrás/além> (um disco quase que todo de balada e músicas lentas, mas com composições maravilhosas)

Decepções: O disco novo do Kadavar é propositalmente mal-gravado, querendo soar como uma gravação Z dos anos 80; os egressos do Black Bonzo (uma das bandas mais legais do início dos anos 2000) formaram anos atrás um banda chamada Gin Lady que lançou um novo disco bem ruim, do qual esperaria algo melhor; já não esperava muita coisa dos canadenses do Black Mountain, que são bons músicos e já fizeram coisa boa no passado, mas eles se superaram em lançar disco ruim com o novo álbum. Outra que tinha visto muito comentário e hype na mídia especializada é o novo álbum do grupo The Comet is Coming, louvado como uma banda inovadora no jazz, mas que pra mim soou como pura enganação.

7 comentários

  1. Denis

    “Outra que tinha visto muito comentário e hype na mídia especializada é o novo álbum do grupo The Comet is Coming, louvado como uma banda inovadora no jazz, mas que pra mim soou como pura enganação.”

    Falou o cara que colocou Rival Sons numa lista de melhores do ano hahahahaha ao menos o Comet não tem o cheiro de naftalina que 80% dos seletos aqui possuem.

    Aposto também que o consultor “musicólogo” em questão só gosta dos álbuns brandos do John Zorn!

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  2. André Kaminski

    Além do Stew que também ouvi no Test Drive, escutei o Big Big Train. Achei mediano esse disco, gostei mais do de 2016 Folklore.

    Dos outros discos, me interessei em conhecer o Heavy Feather e o Pharlee.

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  3. Daniel

    2 coincidentes com a minha lista e alguns que preciso ouvir. Também não curti o novo do Kadavar. Abraço!

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  4. Gugu de recife

    Achei esse kadavar insosso nesse ano de 2019. O álbum dessa banda não fica nem entre top 50 desse ano.

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    • Ronaldo

      Pois é! pra mim tb o Kadavar não ficou nem entre os 50…
      Obrigado pelos comentários, pessoal!

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  5. Mairon

    Eu não consegui fechar 10 que curti esse ano. E tb não foi o ano de medalhões. O único das antiga que lembro que curti foi o Madame X.

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