Por Ronaldo Rodrigues

O Motorpsycho é um grupo norueguês que completa 30 anos de carreira neste ano de 2019. Por ter uma origem distante dos territórios progressivos, o trio parece ser ignorado pelos fãs do estilo em seus últimos trabalhos, que representam uma guinada decisiva em sua obra. Com este texto vamos tentar chamar a atenção dos proggers para o trabalho de altíssimo nível que essa banda vem desenvolvendo.

O grupo orbita em torno do baixista Bent Saether e do guitarrista Hans Magnus Ryan. A eles se somam o baterista Tomas Järmyr, que ingressou na banda em 2017 e os três se dividem nos teclados. São 23 discos lançados e dezenas de EP que a banda já trouxe ao mundo. Em uma olhada rápida no Youtube é possível ver registros da banda tocando para grandes platéias em importantes festivais. Tomei conhecimento de sua obra por acaso, em 2012, com o álbum The Death Defying Unicorn, citado em algumas listas de críticos com um dos melhores álbuns daquele ano. Desde então, venho acompanhando seus lançamentos e os álbuns Here be Monsters, de 2016, e The Tower, de 2017, foram algumas das melhores coisas que ouvi recentemente. Especialmente pelo fato de que a banda foge do estereótipo sinfônico e se abre a uma abordagem mais múltipla da música progressiva, especialmente próximo do que alguns chamam de art-rock, algo que denomina genericamente o rock progressivo pré-1972. Outra coisa que chama atenção é que o Motorpsycho usa os teclados de forma bastante discreta, e nem de perto faz algo na linha do Rush ou dos trios de fusion instrumental. Sua música é pensada para vocais, muito melodiosa e farta em boas idéias, além de ser apresentada com uma sonoridade vintage prontamente apreciada pelos fãs mais exigentes do estilo.

The Crucible foi gravado no Monnow Valey Studio em agosto de 2018 e lançado em fevereiro de 2019, em CD e LP, trazendo apenas 3 longas faixas. A abertura, com a faixa “Psychotzar” atualiza os riffs do Black Sabbath com a mesma proximidade progressiva que a banda demonstrou em discos como Sabbath Bloody Sabbath (1973), com a presença precisa de mellotrons e muita dramaticidade, adicionando uma tensão claramente crimsoniana em sua seção final. Já a faixa “Lux Aeterna” é de uma beleza melódica impressionante – começa sutil e suave com violões e voz quase sussurada, ao qual vão se somando lindas intervenções de instrumentos de sopro (sax e flauta), até chegarem a um eficiente refrão cheio de mellotrons. Próximo dos 5 minutos da faixa eclode uma erupção psicodélica que deságua em uma melodia marcante e o início é resgatado para encerrar esta bela suíte.

Poderíamos discorrer longamente sobre faixa título, que encerra o álbum em seus majestosos 20:52 minutos de duração. É desde já uma das melhores faixas progressivas lançadas no ano de 2019. O início da suíte é trazido por uma poderosa linha de baixo distorcido, ao qual se une uma levada de bateria e um fraseado de guitarra embasbacante e veloz, remetendo a algo entre Premiata Forneria Marconi, Genesis ou a banda holandesa Finch. A sessão instrumental inicial, repleta de variações e ricas interações entre baixo e guitarra, se estende até quase 5 minutos, quando uma nova seção mais lenta abre espaço para os vocais, que vão marchando conjuntamente com mellotrons e instrumentos de sopro, em uma tensão crescente até um novo ataque psicodélico, com guitarra e bateria em frenesi por vários minutos. As seções subsequentes recuperam as idéias iniciais, que se fixam de forma muito eficaz nos ouvidos do expectador, até desembocarem em um final triunfante e denso.

The Crucible é um álbum que merece uma audição dedicada de todos aqueles que acompanham as novidades do rock e do progressivo.

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